Nicolás
Malinovsky: Na guerra, a vassalagem de Javier Milei
Quatro
semanas após o início da guerra contra o Irã pelos Estados Unidos e de Israel,
a “Operação Fúria Épica” – apresentada por Donald Trump como uma ação destinada
a “defender o povo americano, eliminando as ameaças iminentes representadas
pelo regime iraniano” (US Department of State, 2026)– começa a mostrar
resultados que estão longe dos objetivos declarados.
Longe
de estabilizar o cenário internacional, o conflito desencadeou uma crise
energética de alcance global. Nesse contexto, o diretor da Agência
Internacional de Energia, Fatih Birol, alertou que o mundo poderia enfrentar a
maior crise energética da história, superando o efeito combinado das duas
crises do petróleo da década de 1970 e as consequências da guerra entre a
Rússia e a Ucrânia iniciada em 2022 (The Guardian, 2026).
A
estimativa avaliação de Donald Trump, que previa um conflito de curta duração,
já não é um cenário possível. Mesmo no caso hipotético de uma resolução rápida,
as consequências para o sistema energético mundial se projetam no curto e médio
prazo. A destruição da infraestrutura energética em diferentes países do Golfo
Pérsico – o coração energético global – terá efeitos ainda inimagináveis.
O
ataque a South Pars – o maior campo de gás do mundo, compartilhado pelo Irã e
pelo Catar – marca um ponto de inflexão. O ministro de Estado para Assuntos
Energéticos e diretor executivo da QatarEnergy, Saad al-Kaabi, declarou que “os danos
sofridos pelas instalações de GNL levarão de três a cinco anos para serem
reparados”. Ele acrescenta que “os ataques com mísseis reduziram a capacidade
de exportação de GNL do Catar em 17% e causaram uma perda estimada de US$ 20
bilhões em receitas anuais”.
Nesse
sentido, é fundamental avaliar a relevância do Irã no sistema energético
global. O país possui a terceira maior reserva de petróleo do mundo, com
aproximadamente 209 bilhões de barris, e a segunda maior reserva de gás
natural, com cerca de 1.200 trilhão de pés cúbicos (EIA, 2024), e é o quarto maior
produtor de petróleo da OPEP (Bloomberg, 2026). A isso soma-se sua
localização estratégica às margens do Estreito de Ormuz, um dos principais nós
do comércio global.
Antes
do conflito, cerca de 20% do consumo mundial de derivados de petróleo e cerca
de 20% do comércio global de gás natural liquefeito (GNL) transitavam por esse
corredor, em grande parte provenientes do Catar (EIA, 2025). Além disso,
aproximadamente 84% do petróleo e 83% do GNL comercializados através do
Estreito de Ormuz foram destinados ao mercado asiático em 2024. China, Índia,
Japão e Coreia do Sul foram os principais destinos, o que indica que esses
mercados seriam provavelmente os mais afetados em caso de interrupções no
Estreito.
Nesse
contexto, os efeitos imediatos não demoraram a se manifestar. O preço do barril
de petróleo registrou fortes aumentos, atingindo picos de 120 dólares em 19 de
março e oscilando em torno de 100 dólares por volta de 26 de março (EIA, 2026), enquanto o gás
natural sofreu um salto significativo, chegando a dobrar de preço no momento
mais crítico do conflito e estabilizando-se posteriormente em níveis próximos a
18 dólares por MMBtu, aproximadamente 80% acima dos valores anteriores (Trading economics, 2026); por sua vez, esses
movimentos foram rapidamente transmitidos aos mercados internos, onde os
combustíveis nos Estados Unidos, por exemplo, registraram aumentos próximos a
24% (EIA, 2026), situação que
pressiona a economia interna do país diante das eleições de meio de mandato.
Embora
os Estados Unidos dependam de apenas 2% do petróleo que passa pelo Estreito em
seu consumo interno (IEA, 2024) graças à revolução
dos hidrocarbonetos não convencionais –que os posicionou como o principal
produtor de petróleo e principal exportador de GNL do mundo–, a volatilidade
dos preços transcende essas fronteiras. Por outro lado, a União Europeia
apresenta maior vulnerabilidade, especialmente após o corte no fornecimento de
gás russo devido ao conflito na Ucrânia, o que a obrigou a recorrer cada vez
mais à importação de GNL, em particular dos Estados Unidos. Essa situação levou
países como a Alemanha a adotar medidas de emergência diante do aumento diário
dos preços da energia.
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A Argentina no contexto de guerra
No
cenário descrito, em que o mercado energético global se encontra profundamente
abalado, a Argentina não fica alheia ao conflito. Longe de implementar medidas
de proteção diante desse novo contexto internacional, o governo tem adotado uma
estratégia de não intervenção no mercado energético e de apoio militar aos
Estados Unidos e a Israel.
A
secretária de Energia, María Tettamanti, afirmou que os efeitos do conflito constituem “um
fenômeno transitório” e que “o setor deverá se autorregular para ver como lida
com essa conjuntura; vamos manter nossa política [de não intervenção]”. Além
disso, ela afirmou que “o Estado tem que deixar que o setor privado gere. Não
tomaremos nenhuma medida do governo para intervir nos mercados, que devem
funcionar por si mesmos”.
A
orientação do modelo torna-se ainda mais evidente nas declarações do
presidente Javier Milei na Hungria, onde afirmou que a
Argentina está em condições de “garantir a segurança energética da Europa” e
que o país atravessa uma “febre do ouro em investimentos em energia”.
O
presidente reforçou essa linha ao salientar que “nós oferecemos [à Europa] algo
melhor. Um parceiro confiável com reservas enormes e um governo que honra seus
contratos”. Essa referência a “honrar contratos” está diretamente ligada às
reformas impulsionadas pela Lei de Bases, que reconfiguram o marco regulatório
do setor energético, reduzindo a capacidade de intervenção estatal e concedendo
maiores garantias ao capital petrolífero voltado para a exportação de
hidrocarbonetos. Em particular, a alteração do artigo 6º da Lei de
Hidrocarbonetos nº 17.319 limita as ferramentas do Estado para desacoplar os
preços internos dos internacionais em circunstâncias excepcionais, como as
decorrentes de um conflito bélico.
Nesses
termos, a energia é concebida pelo presidente apenas como uma commodity de
exportação e não como um insumo estratégico para a produção. Uma manifestação
disso é a queda de 8,9% na demanda de eletricidade no país em relação ao ano
anterior, sendo especialmente significativo que o consumo do setor industrial –
menos influenciado por fatores climáticos – tenha diminuído em 6,9% (CAMMESA, 2026), indicador que
evidencia a deterioração do tecido produtivo nacional e aprofunda o processo de
desindustrialização em curso.
Essa
situação tende a se agravar, na medida em que as flutuações do mercado
internacional não demoram a se refletir nos preços internos. Horacio Marín,
presidente da YPF, chegou a recomendar publicamente: “Vamos ser
honestos: se você precisa abastecer amanhã, abasteça hoje. Se você acha que os
preços vão subir, abasteça antes”. Embora tenha tentado posteriormente enviar
outra mensagem, indicando que a empresa não repassaria imediatamente os preços
internacionais enquanto o fenômeno fosse transitório, ele também deixou claro
que, diante de um cenário de preços sustentados em torno de US$ 90 ou US$ 100
por barril, esse repasse seria inevitável.
A única
verdade é a realidade. Os combustíveis na Argentina já registram aumentos de
até 20% como consequência da guerra (Ámbito Financiero, 2026). Além disso, se
observarmos o período compreendido entre dezembro de 2023 e março de 2026, os
aumentos acumulados atingem aproximadamente 500% na gasolina comum e 400% na
gasolina premium (Surtidores, 2026). Trata-se de uma
tendência que, se mantida, aumentará a dinâmica inflacionária que, longe de
desacelerar, tem apresentado novos aumentos nos últimos meses.
Em
suma, os combustíveis na era Milei estão subindo a um ritmo superior à inflação
divulgada pelo INDEC. Além disso, o imposto sobre os combustíveis aumentou
1.227% (ARCA, 2026), e não vimos o
presidente, como ele mesmo havia advertido, “cortar um braço” caso algum
imposto fosse aumentado.
Esse
quadro se dá, além disso, em um contexto em que a Argentina atingiu uma
produção próxima a 861.000 barris diários em dezembro de 2025, o que representa
um aumento de 15% em relação ao mesmo mês de 2024 (IAPG,2026). Esse crescimento
consolida a trajetória de expansão de Vaca Muerta e posiciona o país como um
ator cada vez mais relevante no mercado energético regional e global.
No
entanto, longe de se traduzir em uma estratégia de desenvolvimento nacional,
esse crescimento insere-se em um modelo de crescente estrangeirização do setor
e aprofundamento do padrão de acumulação extrativista. Essa tendência é
reforçada pela ampliação do Regime de Incentivo às Grandes Investimentos (RIGI)
(Caputo, 2026), que, em um
contexto de crise energética global, viabiliza a entrada de projetos de
exploração petrolífera –em particular do segmento upstream– concedendo
benefícios fiscais por 30 anos, o que nada de bom traz para o país.
Surge
uma pergunta inevitável. Como o presidente Javier Milei, a partir da escola
austríaca, explica o funcionamento do mercado petrolífero quando este deixa de
ser regido pela “mão invisível” e passa a ser regido pelas bombas do império
norte-americano?
Parafraseando
Yves Lacoste. A energia: uma arma para a guerra.
Agradeço
ao Eng. Francisco Carlos Rey por sua valiosa colaboração na avaliação da
demanda elétrica nacional.
Para
uma análise mais detalhada da importância do Estreito de Ormuz e das medidas de
liberação de reservas estratégicas, consulte os relatórios “Rotas energéticas e disputas
geopolíticas: o Estreito de Ormuz” e “As reservas estratégicas de petróleo
amenizam o impacto da guerra no Irã, mas não muito”, publicados pelo
Observatório de Política Externa e Integração Internacional do Brasil (OPEB).
¨
Milei definha diplomacia com Irã e Rússia em nova prova
de vassalagem a EUA e Israel
O
governo de Javier Milei continua
escalando suas medidas contra o Irã, a dias de viajar a Israel. O presidente
ultradireitista da Argentina foi convidado
pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu a fim de
cumprir, no próximo 21 de abril, o compromisso assumido em uma visita anterior
ao Estado sionista: transferir a embaixada argentina de
Tel Aviv para Jerusalém.
Enquanto
isso, o serviço de inteligência do governo abriu uma investigação sobre a
denúncia de um advogado acerca da existência de uma suposta rede de trolls
russos, cuja função seria desacreditar sua administração por meio de um sistema
de espionagem. O caso já provocou uma resposta da sede diplomática da Federação
Russa no território argentino, negando energicamente qualquer responsabilidade
nesses fatos.
Paralelamente,
o governo escala novas medidas contra o Irã, somadas à expulsão do encarregado
de negócios iraniano, Mohsen Soltani Tehrani, a quem Buenos Aires ordenou deixar a Argentina no último 2 de
abril. Antes de partir, Tehrani considerou que sua expulsão “também é um ato
de hostilidade contra o Irã” e sustentou que
isso já era esperado desde que o presidente chegou ao poder, em dezembro de
2023.
“O
cúmulo — sustentou o diplomata — é que, em junho do ano passado, na primeira
guerra contra o Irã por Israel, Milei apoiou essa
agressão militar e também disse que os iranianos e o povo iraniano são inimigos
da Argentina”, declarou o alto funcionário. Ele também citou que em entrevistas
anteriores havia afirmado: “Nosso povo não é inimigo da Argentina e houve dois
atentados (1992 e 1994) nos quais de nenhuma maneira o Irã participou do
planejamento ou apoio a esses atentados”. E acrescentou: “Negávamos
categoricamente desde o início que isso tenha sido algo apoiado pelo Irã.”
Vale
lembrar que, após o governo argentino ordenar que Tehrani deixasse a Argentina
em 48 horas, foi o chanceler israelense, Gideon Sa’ar, quem agradeceu
publicamente, afirmando em sua conta no X: “O regime terrorista iraniano é
letal tanto para seus próprios cidadãos quanto para seus vizinhos, e constitui
a principal ameaça para a ordem e a segurança mundial. Não é legítimo. Ponto.”
Em 3 de
abril, o embaixador dos Estados Unidos, Peter Lamelas,
também proferiu agradecimentos e apoiou o fato de Milei ter ordenado declarar a
Guarda Revolucionária do Irã como “organização terrorista”. Em suas redes
sociais, celebraram “a sintonia entre a Casa Rosada e a administração de Donald
Trump”, afirmando: “Obrigado, presidente Milei, por seu apoio. O presidente
Trump fará com que o povo iraniano seja livre e grande novamente!”.
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A suposta trama de desinformação russa
A
ofensiva contra o Irã não é o único conflito diplomático argentino. Como já
mencionado, a embaixada da Federação Russa criticou a investigação sobre um
suposto consórcio de jornalistas locais apontados como parte de uma suposta
campanha de desinformação financiada a partir de Moscou na imprensa local
argentina. O Estado argentino, segundo a declaração russa, conduz a apuração
“sem apresentar fatos nem provas que sustentem essas insinuações”.
Em uma
mensagem publicada nas redes sociais, os diplomatas russos afirmam que foram
“obrigados a prestar atenção à recente publicação de uma série de materiais
antirrussos em sites argentinos”, advertindo que “os ‘investigadores’
reavivaram uma história esquecida sobre uma suposta campanha de desinformação
russa, inflada artificialmente em junho de 2025.”
“Como
era de se esperar, assim como naquela ocasião, não se apresentam fatos nem
provas que sustentem essas insinuações”, acrescentaram, lamentando que
“posições ideológicas voltem a se impor ao bom senso, e que o desejo de
prejudicar as relações bilaterais prevaleça sobre a vontade de desenvolvê-las.”
Foi o
advogado Jorge Monastersky quem ontem solicitou à Justiça que investigasse “a
possível existência de estruturas estrangeiras de ingerência informativa no
país, supostamente associadas à Federação da Rússia e com potencial
impacto no debate público e no funcionamento institucional”, estrutura que
estaria sendo financiada por Moscou.
A isso
se referiu recentemente a Secretaria de Inteligência do Estado, citada por
Monastersky. O documento menciona as atividades de uma organização apelidada de
“A Companhia”, supostamente integrada por cidadãos russos, com recursos
internacionais e vínculos na Argentina. Enquanto russos são alvos dessa
investigação, o que de fato há na Argentina são milhares de trolls, usados pelo
oficialismo para intimidar e ameaçar o jornalismo, constituindo uma forma de
violação da liberdade de expressão.
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Diplomata do Irã deixa Argentina após expulsão ordenada por Milei
O
principal representante diplomático do Irã na Argentina deixou o país neste
sábado (04/04), após o vencimento do prazo de 48 horas dado pelo governo de
Javier Milei para sua saída. Mohsen Soltani Tehrani, encarregado de negócios
iraniano em Buenos Aires, havia sido declarado “persona non grata” pela
chancelaria argentina na quinta-feira (02/04).
A saída
foi confirmada pelo chanceler Pablo Quirno, que afirmou nas redes sociais que o
então encarregado de negócios interino da República Islâmica do Irã já havia
deixado o território argentino. A medida consolida a escalada diplomática
aberta nesta semana entre Buenos Aires e Teerã.
A
expulsão foi decidida depois de declarações do governo iraniano contra a Casa
Rosada, em reação à decisão de Milei de classificar a Guarda Revolucionária
Islâmica como organização terrorista. Em comunicado, a chancelaria argentina
disse que as manifestações continham acusações “falsas, ofensivas e
improcedentes” contra o país e suas autoridades.
O
governo argentino também afirmou que as declarações de Teerã configuravam
“inaceitável ingerência” em assuntos internos e uma distorção deliberada de
decisões que, segundo Buenos Aires, foram adotadas em conformidade com o
direito internacional.
Teerã
considerou a medida um erro grave, acusou o governo Milei de violar princípios
do direito internacional e rejeitou as reiteradas acusações argentinas
relacionadas ao atentado de 1994 contra a Associação Mutual Israelita Argentina
(Amia), em Buenos Aires, que deixou 85 mortos. O Irã nega participação no
episódio e sustenta que as acusações são infundadas e politicamente motivadas.
Escalada
se insere em alinhamento externo
A
expulsão de Tehrani se soma a uma sequência de gestos de Javier Milei em direção aos
Estados Unidos e
a Israel, num contexto de guerra aberta contra o Irã desde o fim de fevereiro.
Nas últimas semanas, o presidente argentino intensificou ataques verbais a
Teerã e reforçou sua associação política com Donald Trump
e Benjamin Netanyahu.
Em
março, o governo Milei chegou a admitir a possibilidade de enviar apoio militar
aos Estados Unidos caso houvesse um pedido formal da Casa Branca.
A
aproximação também se expressou na participação de Milei no lançamento do
chamado Escudo das Américas, iniciativa impulsionada por Trump e apresentada
como coalizão de segurança hemisférica.
Fonte: Outras
Palavras/Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

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