sexta-feira, 10 de abril de 2026


 

Nicolás Malinovsky: Na guerra, a vassalagem de Javier Milei

Quatro semanas após o início da guerra contra o Irã pelos Estados Unidos e de Israel, a “Operação Fúria Épica” – apresentada por Donald Trump como uma ação destinada a “defender o povo americano, eliminando as ameaças iminentes representadas pelo regime iraniano” (US Department of State, 2026)– começa a mostrar resultados que estão longe dos objetivos declarados.

Longe de estabilizar o cenário internacional, o conflito desencadeou uma crise energética de alcance global. Nesse contexto, o diretor da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, alertou que o mundo poderia enfrentar a maior crise energética da história, superando o efeito combinado das duas crises do petróleo da década de 1970 e as consequências da guerra entre a Rússia e a Ucrânia iniciada em 2022 (The Guardian, 2026).

A estimativa avaliação de Donald Trump, que previa um conflito de curta duração, já não é um cenário possível. Mesmo no caso hipotético de uma resolução rápida, as consequências para o sistema energético mundial se projetam no curto e médio prazo. A destruição da infraestrutura energética em diferentes países do Golfo Pérsico – o coração energético global – terá efeitos ainda inimagináveis.

O ataque a South Pars – o maior campo de gás do mundo, compartilhado pelo Irã e pelo Catar – marca um ponto de inflexão. O ministro de Estado para Assuntos Energéticos e diretor executivo da QatarEnergy, Saad al-Kaabi, declarou que “os danos sofridos pelas instalações de GNL levarão de três a cinco anos para serem reparados”. Ele acrescenta que “os ataques com mísseis reduziram a capacidade de exportação de GNL do Catar em 17% e causaram uma perda estimada de US$ 20 bilhões em receitas anuais”.

Nesse sentido, é fundamental avaliar a relevância do Irã no sistema energético global. O país possui a terceira maior reserva de petróleo do mundo, com aproximadamente 209 bilhões de barris, e a segunda maior reserva de gás natural, com cerca de 1.200 trilhão de pés cúbicos (EIA, 2024), e é o quarto maior produtor de petróleo da OPEP (Bloomberg, 2026). A isso soma-se sua localização estratégica às margens do Estreito de Ormuz, um dos principais nós do comércio global.

Antes do conflito, cerca de 20% do consumo mundial de derivados de petróleo e cerca de 20% do comércio global de gás natural liquefeito (GNL) transitavam por esse corredor, em grande parte provenientes do Catar (EIA, 2025). Além disso, aproximadamente 84% do petróleo e 83% do GNL comercializados através do Estreito de Ormuz foram destinados ao mercado asiático em 2024. China, Índia, Japão e Coreia do Sul foram os principais destinos, o que indica que esses mercados seriam provavelmente os mais afetados em caso de interrupções no Estreito.

Nesse contexto, os efeitos imediatos não demoraram a se manifestar. O preço do barril de petróleo registrou fortes aumentos, atingindo picos de 120 dólares em 19 de março e oscilando em torno de 100 dólares por volta de 26 de março (EIA, 2026), enquanto o gás natural sofreu um salto significativo, chegando a dobrar de preço no momento mais crítico do conflito e estabilizando-se posteriormente em níveis próximos a 18 dólares por MMBtu, aproximadamente 80% acima dos valores anteriores (Trading economics, 2026); por sua vez, esses movimentos foram rapidamente transmitidos aos mercados internos, onde os combustíveis nos Estados Unidos, por exemplo, registraram aumentos próximos a 24% (EIA, 2026), situação que pressiona a economia interna do país diante das eleições de meio de mandato.

Embora os Estados Unidos dependam de apenas 2% do petróleo que passa pelo Estreito em seu consumo interno (IEA, 2024) graças à revolução dos hidrocarbonetos não convencionais –que os posicionou como o principal produtor de petróleo e principal exportador de GNL do mundo–, a volatilidade dos preços transcende essas fronteiras. Por outro lado, a União Europeia apresenta maior vulnerabilidade, especialmente após o corte no fornecimento de gás russo devido ao conflito na Ucrânia, o que a obrigou a recorrer cada vez mais à importação de GNL, em particular dos Estados Unidos. Essa situação levou países como a Alemanha a adotar medidas de emergência diante do aumento diário dos preços da energia.

<><> A Argentina no contexto de guerra

No cenário descrito, em que o mercado energético global se encontra profundamente abalado, a Argentina não fica alheia ao conflito. Longe de implementar medidas de proteção diante desse novo contexto internacional, o governo tem adotado uma estratégia de não intervenção no mercado energético e de apoio militar aos Estados Unidos e a Israel.

A secretária de Energia, María Tettamanti, afirmou que os efeitos do conflito constituem “um fenômeno transitório” e que “o setor deverá se autorregular para ver como lida com essa conjuntura; vamos manter nossa política [de não intervenção]”. Além disso, ela afirmou que “o Estado tem que deixar que o setor privado gere. Não tomaremos nenhuma medida do governo para intervir nos mercados, que devem funcionar por si mesmos”.

A orientação do modelo torna-se ainda mais evidente nas declarações do presidente Javier Milei na Hungria, onde afirmou que a Argentina está em condições de “garantir a segurança energética da Europa” e que o país atravessa uma “febre do ouro em investimentos em energia”.

O presidente reforçou essa linha ao salientar que “nós oferecemos [à Europa] algo melhor. Um parceiro confiável com reservas enormes e um governo que honra seus contratos”. Essa referência a “honrar contratos” está diretamente ligada às reformas impulsionadas pela Lei de Bases, que reconfiguram o marco regulatório do setor energético, reduzindo a capacidade de intervenção estatal e concedendo maiores garantias ao capital petrolífero voltado para a exportação de hidrocarbonetos. Em particular, a alteração do artigo 6º da Lei de Hidrocarbonetos nº 17.319 limita as ferramentas do Estado para desacoplar os preços internos dos internacionais em circunstâncias excepcionais, como as decorrentes de um conflito bélico.

Nesses termos, a energia é concebida pelo presidente apenas como uma commodity de exportação e não como um insumo estratégico para a produção. Uma manifestação disso é a queda de 8,9% na demanda de eletricidade no país em relação ao ano anterior, sendo especialmente significativo que o consumo do setor industrial – menos influenciado por fatores climáticos – tenha diminuído em 6,9% (CAMMESA, 2026), indicador que evidencia a deterioração do tecido produtivo nacional e aprofunda o processo de desindustrialização em curso.

Essa situação tende a se agravar, na medida em que as flutuações do mercado internacional não demoram a se refletir nos preços internos. Horacio Marín, presidente da YPF, chegou a recomendar publicamente: “Vamos ser honestos: se você precisa abastecer amanhã, abasteça hoje. Se você acha que os preços vão subir, abasteça antes”. Embora tenha tentado posteriormente enviar outra mensagem, indicando que a empresa não repassaria imediatamente os preços internacionais enquanto o fenômeno fosse transitório, ele também deixou claro que, diante de um cenário de preços sustentados em torno de US$ 90 ou US$ 100 por barril, esse repasse seria inevitável.

A única verdade é a realidade. Os combustíveis na Argentina já registram aumentos de até 20% como consequência da guerra (Ámbito Financiero, 2026). Além disso, se observarmos o período compreendido entre dezembro de 2023 e março de 2026, os aumentos acumulados atingem aproximadamente 500% na gasolina comum e 400% na gasolina premium (Surtidores, 2026). Trata-se de uma tendência que, se mantida, aumentará a dinâmica inflacionária que, longe de desacelerar, tem apresentado novos aumentos nos últimos meses.

Em suma, os combustíveis na era Milei estão subindo a um ritmo superior à inflação divulgada pelo INDEC. Além disso, o imposto sobre os combustíveis aumentou 1.227% (ARCA, 2026), e não vimos o presidente, como ele mesmo havia advertido, “cortar um braço” caso algum imposto fosse aumentado.

Esse quadro se dá, além disso, em um contexto em que a Argentina atingiu uma produção próxima a 861.000 barris diários em dezembro de 2025, o que representa um aumento de 15% em relação ao mesmo mês de 2024 (IAPG,2026). Esse crescimento consolida a trajetória de expansão de Vaca Muerta e posiciona o país como um ator cada vez mais relevante no mercado energético regional e global.

No entanto, longe de se traduzir em uma estratégia de desenvolvimento nacional, esse crescimento insere-se em um modelo de crescente estrangeirização do setor e aprofundamento do padrão de acumulação extrativista. Essa tendência é reforçada pela ampliação do Regime de Incentivo às Grandes Investimentos (RIGI) (Caputo, 2026), que, em um contexto de crise energética global, viabiliza a entrada de projetos de exploração petrolífera –em particular do segmento upstream– concedendo benefícios fiscais por 30 anos, o que nada de bom traz para o país.

Surge uma pergunta inevitável. Como o presidente Javier Milei, a partir da escola austríaca, explica o funcionamento do mercado petrolífero quando este deixa de ser regido pela “mão invisível” e passa a ser regido pelas bombas do império norte-americano?

Parafraseando Yves Lacoste. A energia: uma arma para a guerra.

Agradeço ao Eng. Francisco Carlos Rey por sua valiosa colaboração na avaliação da demanda elétrica nacional.

Para uma análise mais detalhada da importância do Estreito de Ormuz e das medidas de liberação de reservas estratégicas, consulte os relatórios “Rotas energéticas e disputas geopolíticas: o Estreito de Ormuz” e “As reservas estratégicas de petróleo amenizam o impacto da guerra no Irã, mas não muito”, publicados pelo Observatório de Política Externa e Integração Internacional do Brasil (OPEB).

¨      Milei definha diplomacia com Irã e Rússia em nova prova de vassalagem a EUA e Israel

O governo de Javier Milei continua escalando suas medidas contra o Irã, a dias de viajar a Israel. O presidente ultradireitista da Argentina foi convidado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu a fim de cumprir, no próximo 21 de abril, o compromisso assumido em uma visita anterior ao Estado sionista: transferir a embaixada argentina de Tel Aviv para Jerusalém.

Enquanto isso, o serviço de inteligência do governo abriu uma investigação sobre a denúncia de um advogado acerca da existência de uma suposta rede de trolls russos, cuja função seria desacreditar sua administração por meio de um sistema de espionagem. O caso já provocou uma resposta da sede diplomática da Federação Russa no território argentino, negando energicamente qualquer responsabilidade nesses fatos.

Paralelamente, o governo escala novas medidas contra o Irã, somadas à expulsão do encarregado de negócios iraniano, Mohsen Soltani Tehrani, a quem Buenos Aires ordenou deixar a Argentina no último 2 de abril. Antes de partir, Tehrani considerou que sua expulsão “também é um ato de hostilidade contra o Irã” e sustentou que isso já era esperado desde que o presidente chegou ao poder, em dezembro de 2023.

“O cúmulo — sustentou o diplomata — é que, em junho do ano passado, na primeira guerra contra o Irã por Israel, Milei apoiou essa agressão militar e também disse que os iranianos e o povo iraniano são inimigos da Argentina”, declarou o alto funcionário. Ele também citou que em entrevistas anteriores havia afirmado: “Nosso povo não é inimigo da Argentina e houve dois atentados (1992 e 1994) nos quais de nenhuma maneira o Irã participou do planejamento ou apoio a esses atentados”. E acrescentou: “Negávamos categoricamente desde o início que isso tenha sido algo apoiado pelo Irã.”

Vale lembrar que, após o governo argentino ordenar que Tehrani deixasse a Argentina em 48 horas, foi o chanceler israelense, Gideon Sa’ar, quem agradeceu publicamente, afirmando em sua conta no X: “O regime terrorista iraniano é letal tanto para seus próprios cidadãos quanto para seus vizinhos, e constitui a principal ameaça para a ordem e a segurança mundial. Não é legítimo. Ponto.”

Em 3 de abril, o embaixador dos Estados Unidos, Peter Lamelas, também proferiu agradecimentos e apoiou o fato de Milei ter ordenado declarar a Guarda Revolucionária do Irã como “organização terrorista”. Em suas redes sociais, celebraram “a sintonia entre a Casa Rosada e a administração de Donald Trump”, afirmando: “Obrigado, presidente Milei, por seu apoio. O presidente Trump fará com que o povo iraniano seja livre e grande novamente!”.

<><> A suposta trama de desinformação russa

A ofensiva contra o Irã não é o único conflito diplomático argentino. Como já mencionado, a embaixada da Federação Russa criticou a investigação sobre um suposto consórcio de jornalistas locais apontados como parte de uma suposta campanha de desinformação financiada a partir de Moscou na imprensa local argentina. O Estado argentino, segundo a declaração russa, conduz a apuração “sem apresentar fatos nem provas que sustentem essas insinuações”.

Em uma mensagem publicada nas redes sociais, os diplomatas russos afirmam que foram “obrigados a prestar atenção à recente publicação de uma série de materiais antirrussos em sites argentinos”, advertindo que “os ‘investigadores’ reavivaram uma história esquecida sobre uma suposta campanha de desinformação russa, inflada artificialmente em junho de 2025.”

“Como era de se esperar, assim como naquela ocasião, não se apresentam fatos nem provas que sustentem essas insinuações”, acrescentaram, lamentando que “posições ideológicas voltem a se impor ao bom senso, e que o desejo de prejudicar as relações bilaterais prevaleça sobre a vontade de desenvolvê-las.”

Foi o advogado Jorge Monastersky quem ontem solicitou à Justiça que investigasse “a possível existência de estruturas estrangeiras de ingerência informativa no país, supostamente associadas à Federação da Rússia e com potencial impacto no debate público e no funcionamento institucional”, estrutura que estaria sendo financiada por Moscou.

A isso se referiu recentemente a Secretaria de Inteligência do Estado, citada por Monastersky. O documento menciona as atividades de uma organização apelidada de “A Companhia”, supostamente integrada por cidadãos russos, com recursos internacionais e vínculos na Argentina. Enquanto russos são alvos dessa investigação, o que de fato há na Argentina são milhares de trolls, usados pelo oficialismo para intimidar e ameaçar o jornalismo, constituindo uma forma de violação da liberdade de expressão.

<><> Diplomata do Irã deixa Argentina após expulsão ordenada por Milei

O principal representante diplomático do Irã na Argentina deixou o país neste sábado (04/04), após o vencimento do prazo de 48 horas dado pelo governo de Javier Milei para sua saída. Mohsen Soltani Tehrani, encarregado de negócios iraniano em Buenos Aires, havia sido declarado “persona non grata” pela chancelaria argentina na quinta-feira (02/04).

A saída foi confirmada pelo chanceler Pablo Quirno, que afirmou nas redes sociais que o então encarregado de negócios interino da República Islâmica do Irã já havia deixado o território argentino. A medida consolida a escalada diplomática aberta nesta semana entre Buenos Aires e Teerã.

A expulsão foi decidida depois de declarações do governo iraniano contra a Casa Rosada, em reação à decisão de Milei de classificar a Guarda Revolucionária Islâmica como organização terrorista. Em comunicado, a chancelaria argentina disse que as manifestações continham acusações “falsas, ofensivas e improcedentes” contra o país e suas autoridades.

O governo argentino também afirmou que as declarações de Teerã configuravam “inaceitável ingerência” em assuntos internos e uma distorção deliberada de decisões que, segundo Buenos Aires, foram adotadas em conformidade com o direito internacional.

Teerã considerou a medida um erro grave, acusou o governo Milei de violar princípios do direito internacional e rejeitou as reiteradas acusações argentinas relacionadas ao atentado de 1994 contra a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em Buenos Aires, que deixou 85 mortos. O Irã nega participação no episódio e sustenta que as acusações são infundadas e politicamente motivadas.

Escalada se insere em alinhamento externo

A expulsão de Tehrani se soma a uma sequência de gestos de Javier Milei em direção aos Estados Unidos e a Israel, num contexto de guerra aberta contra o Irã desde o fim de fevereiro. Nas últimas semanas, o presidente argentino intensificou ataques verbais a Teerã e reforçou sua associação política com Donald Trump e Benjamin Netanyahu.

Em março, o governo Milei chegou a admitir a possibilidade de enviar apoio militar aos Estados Unidos caso houvesse um pedido formal da Casa Branca.

A aproximação também se expressou na participação de Milei no lançamento do chamado Escudo das Américas, iniciativa impulsionada por Trump e apresentada como coalizão de segurança hemisférica.

 

Fonte: Outras Palavras/Diálogos do Sul Global/Opera Mundi


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