Miguel
Borba de Sá: Decapitação - a estratégia política do fracasso
As
recentes aventuras militares do imperialismo yankee no Irã e na Venezuela têm
sido descritas como tentativas de decapitação das lideranças políticas de ambos
os Estados. A estratégia por detrás da
metáfora guilhotinesca é bem simples: em se tratando de regimes autoritários,
basta eliminar a cabeça do aparato de dominação que, ato contínuo, o povo
oprimido rebelar-se-á contra as elites e instituições políticas restantes,
destruindo-as e elegendo as novas lideranças que estarão à testa de um novo
sistema de poder.
O
problema de tal estratégia é que, além de simples, ela é deveras simplista.
Embora seja inegável que a eliminação de lideranças políticas sempre acarrete
enorme custo para as organizações que delas se despedem (seria uma grande
tolice negá-lo), também é verdade que a mera decapitação de tais “corpos
políticos” não garante, por si só, que uma mudança radical no status quo vá
acontecer. Uma acefalia temporária pode até deixar algumas organizações
paraestatais baratinadas (como foi o caso do Hezbollah ou do Hamas,
recentemente), mas até mesmo entes desta natureza conseguiram se reorganizar a
fim de produzir novas lideranças e cadeias de comando em tempo razoável. A
verdade é que se uma entidade política depende de uma única pessoa viva para
sobreviver politicamente, então, no fundo, ela já estava morta por dentro.
Há quem
diga que o Estado de Israel galgou importantes êxitos ao se valer desta
estratégia. No entanto, também é possível argumentar que o objetivo sionista
nunca foi, de fato, eliminar tais organizações, e sim mantê-las enfraquecidas
porém vivas, para que as justificativas para o conflito, a colonização, os
genocídios e as limpezas étnicas possam encontrar nelas alguma tentativa de
justificação. Como é sabido, os israelenses assassinam e, ao mesmo tempo,
também promovem, pactuam e até financiam temporariamente algumas das
organizações da resistência palestina, como no notório caso da “cabeça”
política do Hamas ficar alojada em Doha (Catar), a pedido de Tel Aviv e
Washington.
Nas
Relações Internacionais, pensadores de direita, porém qualificados, já
enxergavam a pobreza intelectual das estratégias de decapitação política. O
grande Hans Morgenthau, por exemplo, nos ensina a identificar (e rechaçar) o
modo de pensamento “demonológico”, que insiste em atribuir as responsabilidades
de uma dada situação política desagradável a um único indivíduo com
características demoníacas, em vez de aceitar a complexidade das causas que
realmente produziram tal situação. “Personificar problemas sociais”, diz ele,
“constitui uma das características do modo de pensar primitivo”. Para o
eminente professor, “[e]ssa tendência se mostra particularmente forte quando o
problema parece não ser suscetível de uma compreensão racional e manipulação
com êxito”. Sua análise merece atenção especialmente nos dias de hoje:
“Uma
vez que tenhamos identificado determinadas pessoas, ou grupo de pessoas, como a
fonte do mal, parece-nos ter entendido o nexo causal que nos conduz desses
indivíduos ao problema social e essa compreensão ilusória nos sugere a solução
aparente: eliminemos os indivíduos ‘responsáveis’ e o problema estará resolvido
(…) Esse enfoque demonológico aplicado à política internacional reforça uma
outra tendência patológica: a de recusar-se a tomar conhecimento de uma
realidade ameaçadora e a reagir de modo efetivo a ela”.
O
apaziguamento que tal modo de pensamento demonológico promete é óbvio: a ilusão
de que a mera subtração deste ou daquele líder seria suficiente para nos salvar
do inferno político em que nos metemos. Daí, por exemplo, o esforço em se falar
mais de Hitlerismo do que sobre nazismo, ou fascismo, nas universidades
estadunidenses. Segundo esta ótica, é preciso encontrar um vilão por detrás de
qualquer infortúnio político, vedando o pensamento (e a ação) da difícil tarefa
de enfrentar os problemas causados por algo que não pode ser decapitado
fisicamente, tais quais as estruturas de poder impessoais e invisíveis, como as
desigualdades geradas por um dado sistema econômico, por exemplo.
Morgenthau
menciona explicitamente a política estadunidense para América Latina, ao
criticar “a eliminação, efetiva ou tentada, de determinados estadistas” pelos
Estados Unidos da América em nossa região. É desolador ver como suas análises
continuam úteis para compreender o nosso cotidiano político em pleno século
XXI. A mesma visão de mundo parece seguir vigente em Washington, mas não apenas
lá. No Brasil, a tentação demonológica tem possuído tanto as direitas quanto as
esquerdas em tempos recentes, cada lado sendo hegemonizado por estratégias de
decapitação política de seus oponentes. E ambos parecem ter fracassado, embora
as consequências políticas de cada fracasso sejam bem distintas.
Por um
lado, os lavajatistas e bolsonaristas acreditavam que colocar Lula na prisão
seria um golpe de morte para o líder petista, mas acabaram por gestar o
renascimento político de Lula, que saiu da prisão com capital político
redobrado, mesmo estando quase morto politicamente ao entrar. A prisão
devolveu-lhe a chance de estar do lado certo da História novamente. Por outro
lado, a atual esquerda “sem anistia” padece do mesmo mal demonológico ao imitar
a estratégia (falida) das direitas, na vã tentativa de acreditar que Jair
Bolsonaro foi um acidente histórico, um ponto fora da curva, que teria causado
todos os males políticos vividos na última década. Colocá-lo na prisão ou
desejar intensamente a sua morte passam a ser, assim, os desejos (nem tão
íntimos assim) do progressismo brasileiro atual. Matar o demônio para acabar
com o inferno.
Infelizmente,
tal estratégia tampouco funcionou contra Bolsonaro – e nem poderia funcionar.
Agora, de dentro da prisão, ele parece estar emanando um capital político maior
do que se estivesse fora. Assim como no episódio da facada em 2018, a
humanização de sua figura mediante a percepção de uma vítima perseguida, alguém
que foi impedido pelo sistema de realizar a sua obra magnífica, só fez aumentar
desde que o bolsonarismo foi “decapitado” pelo ministro Alexandre de Moraes. O
que acontecerá com o julgamento de Bolsonaro caso o poderoso ministro caia em
desgraça incontornável devido aos casos de corrupção que o cercam? Sairá
renovado da prisão caso sua sentença seja anulada, a exemplo da de Lula? Ou
receberá indulto de seu filho, logo no primeiro dia, eleito justamente por
conta de seu sobrenome e com a ajuda desta “injusta prisão”?
O pior
cenário, contudo, é da eventual morte de Bolsonaro, o que significaria hoje um
problema não apenas eleitoral, mas de largo prazo e de magnitude inaudita na
política brasileira: pela primeira vez, a direita radical poderá ver seu “mito”
trapalhão se transformar de verdade num mito, graças à sanha
vingativo-personalista, i.e., demonológica, que hoje impera entre seus
adversários.
Sejamos
sinceros e respondamos honestamente: alguém acredita, hoje, que o capital
político de Jair Bolsonaro, que a força política do chamado bolsonarismo, ou
que o poder ideológico das direitas em geral tenha realmente diminuído após o
encarceramento de seu maior líder na Papudinha? Será que a estratégia de
decapitação, importada dos imperialismos israelenses e yankee, tem realmente
sido útil para a esquerda brazuka?
A
História irá dizer. A nós compete avaliar friamente as opções do presente e
fazer as escolhas adequadas para o futuro. E, ao que tudo indica, o modo
demonológico de lidar com uma realidade desafiadora é uma das mais graves
patologias políticas que precisamos, urgentemente, curar. Pois, como dizia
Morgenthau, a “complexidade do conflito político exclui soluções tão simples”.
Ele prossegue, taxativo e conclusivo: não será possível evitar novas
catástrofes políticas pela mera “queima de bruxas”.
E nem
pela queima de Bozos, nós poderíamos acrescentar.
• O antissemitismo como arma para
silenciar críticos de Israel. Por Sayid Marcos Tenório
O
antissemitismo voltou ao centro do debate público no Brasil nas últimas
semanas, impulsionado tanto pelo precário Projeto de Lei da deputada Tabata
Amaral (PSB-SP), quanto pela controvérsia envolvendo o bar antifascista
Partisan, na Lapa, no Rio de Janeiro, por uma placa em que dizia que cidadãos
dos EUA e de Israel não eram bem-vindos.
No
entanto, esse retorno não ocorre nos marcos históricos do combate ao racismo,
mas sob um viés intencionalmente distorcido que transforma o antissemitismo em
instrumento de perseguição política, instrumentalizada para silenciar críticos
do “Estado de Israel” e restringir o debate sobre a Palestina.
Não se
trata de um desvio pontual, mas de uma estratégia estruturada. A acusação de
antissemitismo vem sendo utilizada para constranger, intimidar e punir
jornalistas, acadêmicos, ativistas e movimentos que denunciam práticas como
apartheid, ocupação militar e genocídio.
O
mecanismo é recorrente e desloca-se o debate do campo político e jurídico para
o terreno moral, onde a crítica é convertida em suspeita e o denunciante, em
acusado num tribunal sem direito à defesa.
O
antissemitismo é, de fato, uma forma real de racismo, historicamente enraizada
na experiência europeia e responsável por perseguições que culminaram no
genocídio nazista. Combatê-lo é imperativo.
O
problema emerge quando esse conceito é instrumentalizado para proteger um
Estado de críticas legítimas, convertendo-se em ferramenta de censura e
perseguição.
O
projeto apresentado por Tabata Amaral expressa essa inflexão. Ao propor a
adoção da definição da IHRA (International Holocaust Remembrance
Alliance), amplamente contestada por
especialistas e entidades de direitos humanos, abre-se caminho para confundir
crítica ao “Estado de Israel” com preconceito contra judeus.
O
efeito não é apenas conceitual, mas político. Trata-se da criação de um
dispositivo que pode restringir a liberdade de expressão e criminalizar
posicionamentos sob a aparência de combate ao racismo.
O caso
do bar Partisan reforça esse quadro. O estabelecimento foi alvo de sanções após
divulgar um cartaz informando que não atenderia cidadãos dos Estados Unidos e
de Israel, em protesto legítimo contra políticas desses Estados contra
palestinos.
A
reação institucional buscou enquadrar o episódio como antissemitismo, ainda que
se trate de uma manifestação política dirigida a Estados, não a identidades
religiosas. A mensagem é clara: determinadas críticas a Israel não serão
toleradas.
Essa
perseguição evidencia o funcionamento de um padrão, de que a acusação não
precisa ser comprovada para cumprir sua função. Basta ser lançada para produzir
desgaste, isolamento e intimidação.
Esses
episódios, longe de serem exceções, revelam um padrão de controle do debate
público. Em vez de argumentação, produz-se acusação. Em vez de refutação,
constrói-se constrangimento. O objetivo não é travar e vencer o debate, mas
impedir que ele exista.
Do
ponto de vista conceitual, a distorção é evidente. “Semitas” designa um
conjunto de povos que inclui judeus, cristãos e muçulmanos, árabes e outros
grupos do Oriente Médio. Ainda assim, no uso político contemporâneo, o termo
“antissemitismo” foi reduzido a um instrumento seletivo, aplicado quase
exclusivamente para blindar o “Estado de Israel” de críticas.
Essa
redefinição cumpre a função precisa de impedir que o sionismo, enquanto projeto
político supremacista, seja analisado criticamente. Ao confundir antissionismo
com antissemitismo, constrói-se uma barreira discursiva que deslegitima
qualquer crítica estrutural. No entanto, criticar um Estado ou uma ideologia
política não equivale a discriminar um povo ou religião.
Essa
distinção é reconhecida por numerosos judeus ao redor do mundo, inclusive
israelenses, que denunciam o uso do judaísmo como justificativa para práticas
de dominação. A crítica a Israel, nesse sentido, não é apenas legítima, é
necessária.
Outro
elemento central dessa estratégia é a instrumentalização da memória do
Holocausto. A tragédia perpetrada pelo nazismo na Europa, que vitimou judeus,
ciganos, pessoas com deficiência, comunistas, homossexuais e outros grupos
considerados “indesejáveis” deveria servir como fundamento universal para a
defesa dos direitos humanos.
No
entanto, essa memória tem sido mobilizada como escudo ideológico para
justificar políticas contemporâneas de opressão. Tal apropriação enfraquece a
luta antirracista e banaliza um dos crimes mais graves da história.
O
resultado é a construção de um ambiente em que a crítica política passa a ser
tratada como suspeita. Movimentos, jornalistas, acadêmicos e ativistas
tornam-se alvos, enquanto denúncias de violações de direitos humanos são
deslocadas para o campo da controvérsia moral.
É
necessário reafirmar, sem ambiguidade, que a crítica ao sionismo e às políticas
criminosas do “Estado de Israel” são críticas políticas legítimas. Confundir
essa dimensão com antissemitismo não é um erro, é uma escolha dirigida à
proteção de um projeto supremacista de poder.
No fim,
o que está em disputa é o direito de nomear a realidade.
E
quando denunciar injustiças passa a ser tratado como crime, não estamos diante
da defesa dos direitos humanos, mas da sua negação.
Fonte:
Opera Mundi

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