sexta-feira, 10 de abril de 2026

Miguel Borba de Sá: Decapitação - a estratégia política do fracasso

As recentes aventuras militares do imperialismo yankee no Irã e na Venezuela têm sido descritas como tentativas de decapitação das lideranças políticas de ambos os Estados.  A estratégia por detrás da metáfora guilhotinesca é bem simples: em se tratando de regimes autoritários, basta eliminar a cabeça do aparato de dominação que, ato contínuo, o povo oprimido rebelar-se-á contra as elites e instituições políticas restantes, destruindo-as e elegendo as novas lideranças que estarão à testa de um novo sistema de poder. 

O problema de tal estratégia é que, além de simples, ela é deveras simplista. Embora seja inegável que a eliminação de lideranças políticas sempre acarrete enorme custo para as organizações que delas se despedem (seria uma grande tolice negá-lo), também é verdade que a mera decapitação de tais “corpos políticos” não garante, por si só, que uma mudança radical no status quo vá acontecer. Uma acefalia temporária pode até deixar algumas organizações paraestatais baratinadas (como foi o caso do Hezbollah ou do Hamas, recentemente), mas até mesmo entes desta natureza conseguiram se reorganizar a fim de produzir novas lideranças e cadeias de comando em tempo razoável. A verdade é que se uma entidade política depende de uma única pessoa viva para sobreviver politicamente, então, no fundo, ela já estava morta por dentro.

Há quem diga que o Estado de Israel galgou importantes êxitos ao se valer desta estratégia. No entanto, também é possível argumentar que o objetivo sionista nunca foi, de fato, eliminar tais organizações, e sim mantê-las enfraquecidas porém vivas, para que as justificativas para o conflito, a colonização, os genocídios e as limpezas étnicas possam encontrar nelas alguma tentativa de justificação. Como é sabido, os israelenses assassinam e, ao mesmo tempo, também promovem, pactuam e até financiam temporariamente algumas das organizações da resistência palestina, como no notório caso da “cabeça” política do Hamas ficar alojada em Doha (Catar), a pedido de Tel Aviv e Washington.

Nas Relações Internacionais, pensadores de direita, porém qualificados, já enxergavam a pobreza intelectual das estratégias de decapitação política. O grande Hans Morgenthau, por exemplo, nos ensina a identificar (e rechaçar) o modo de pensamento “demonológico”, que insiste em atribuir as responsabilidades de uma dada situação política desagradável a um único indivíduo com características demoníacas, em vez de aceitar a complexidade das causas que realmente produziram tal situação. “Personificar problemas sociais”, diz ele, “constitui uma das características do modo de pensar primitivo”. Para o eminente professor, “[e]ssa tendência se mostra particularmente forte quando o problema parece não ser suscetível de uma compreensão racional e manipulação com êxito”. Sua análise merece atenção especialmente nos dias de hoje:

“Uma vez que tenhamos identificado determinadas pessoas, ou grupo de pessoas, como a fonte do mal, parece-nos ter entendido o nexo causal que nos conduz desses indivíduos ao problema social e essa compreensão ilusória nos sugere a solução aparente: eliminemos os indivíduos ‘responsáveis’ e o problema estará resolvido (…) Esse enfoque demonológico aplicado à política internacional reforça uma outra tendência patológica: a de recusar-se a tomar conhecimento de uma realidade ameaçadora e a reagir de modo efetivo a ela”.

O apaziguamento que tal modo de pensamento demonológico promete é óbvio: a ilusão de que a mera subtração deste ou daquele líder seria suficiente para nos salvar do inferno político em que nos metemos. Daí, por exemplo, o esforço em se falar mais de Hitlerismo do que sobre nazismo, ou fascismo, nas universidades estadunidenses. Segundo esta ótica, é preciso encontrar um vilão por detrás de qualquer infortúnio político, vedando o pensamento (e a ação) da difícil tarefa de enfrentar os problemas causados por algo que não pode ser decapitado fisicamente, tais quais as estruturas de poder impessoais e invisíveis, como as desigualdades geradas por um dado sistema econômico, por exemplo.

Morgenthau menciona explicitamente a política estadunidense para América Latina, ao criticar “a eliminação, efetiva ou tentada, de determinados estadistas” pelos Estados Unidos da América em nossa região. É desolador ver como suas análises continuam úteis para compreender o nosso cotidiano político em pleno século XXI. A mesma visão de mundo parece seguir vigente em Washington, mas não apenas lá. No Brasil, a tentação demonológica tem possuído tanto as direitas quanto as esquerdas em tempos recentes, cada lado sendo hegemonizado por estratégias de decapitação política de seus oponentes. E ambos parecem ter fracassado, embora as consequências políticas de cada fracasso sejam bem distintas.

Por um lado, os lavajatistas e bolsonaristas acreditavam que colocar Lula na prisão seria um golpe de morte para o líder petista, mas acabaram por gestar o renascimento político de Lula, que saiu da prisão com capital político redobrado, mesmo estando quase morto politicamente ao entrar. A prisão devolveu-lhe a chance de estar do lado certo da História novamente. Por outro lado, a atual esquerda “sem anistia” padece do mesmo mal demonológico ao imitar a estratégia (falida) das direitas, na vã tentativa de acreditar que Jair Bolsonaro foi um acidente histórico, um ponto fora da curva, que teria causado todos os males políticos vividos na última década. Colocá-lo na prisão ou desejar intensamente a sua morte passam a ser, assim, os desejos (nem tão íntimos assim) do progressismo brasileiro atual. Matar o demônio para acabar com o inferno.

Infelizmente, tal estratégia tampouco funcionou contra Bolsonaro – e nem poderia funcionar. Agora, de dentro da prisão, ele parece estar emanando um capital político maior do que se estivesse fora. Assim como no episódio da facada em 2018, a humanização de sua figura mediante a percepção de uma vítima perseguida, alguém que foi impedido pelo sistema de realizar a sua obra magnífica, só fez aumentar desde que o bolsonarismo foi “decapitado” pelo ministro Alexandre de Moraes. O que acontecerá com o julgamento de Bolsonaro caso o poderoso ministro caia em desgraça incontornável devido aos casos de corrupção que o cercam? Sairá renovado da prisão caso sua sentença seja anulada, a exemplo da de Lula? Ou receberá indulto de seu filho, logo no primeiro dia, eleito justamente por conta de seu sobrenome e com a ajuda desta “injusta prisão”?

O pior cenário, contudo, é da eventual morte de Bolsonaro, o que significaria hoje um problema não apenas eleitoral, mas de largo prazo e de magnitude inaudita na política brasileira: pela primeira vez, a direita radical poderá ver seu “mito” trapalhão se transformar de verdade num mito, graças à sanha vingativo-personalista, i.e., demonológica, que hoje impera entre seus adversários.

Sejamos sinceros e respondamos honestamente: alguém acredita, hoje, que o capital político de Jair Bolsonaro, que a força política do chamado bolsonarismo, ou que o poder ideológico das direitas em geral tenha realmente diminuído após o encarceramento de seu maior líder na Papudinha? Será que a estratégia de decapitação, importada dos imperialismos israelenses e yankee, tem realmente sido útil para a esquerda brazuka?

A História irá dizer. A nós compete avaliar friamente as opções do presente e fazer as escolhas adequadas para o futuro. E, ao que tudo indica, o modo demonológico de lidar com uma realidade desafiadora é uma das mais graves patologias políticas que precisamos, urgentemente, curar. Pois, como dizia Morgenthau, a “complexidade do conflito político exclui soluções tão simples”. Ele prossegue, taxativo e conclusivo: não será possível evitar novas catástrofes políticas pela mera “queima de bruxas”.

E nem pela queima de Bozos, nós poderíamos acrescentar.

•        O antissemitismo como arma para silenciar críticos de Israel. Por Sayid Marcos Tenório

O antissemitismo voltou ao centro do debate público no Brasil nas últimas semanas, impulsionado tanto pelo precário Projeto de Lei da deputada Tabata Amaral (PSB-SP), quanto pela controvérsia envolvendo o bar antifascista Partisan, na Lapa, no Rio de Janeiro, por uma placa em que dizia que cidadãos dos EUA e de Israel não eram bem-vindos.

No entanto, esse retorno não ocorre nos marcos históricos do combate ao racismo, mas sob um viés intencionalmente distorcido que transforma o antissemitismo em instrumento de perseguição política, instrumentalizada para silenciar críticos do “Estado de Israel” e restringir o debate sobre a Palestina.

Não se trata de um desvio pontual, mas de uma estratégia estruturada. A acusação de antissemitismo vem sendo utilizada para constranger, intimidar e punir jornalistas, acadêmicos, ativistas e movimentos que denunciam práticas como apartheid, ocupação militar e genocídio.

O mecanismo é recorrente e desloca-se o debate do campo político e jurídico para o terreno moral, onde a crítica é convertida em suspeita e o denunciante, em acusado num tribunal sem direito à defesa.

O antissemitismo é, de fato, uma forma real de racismo, historicamente enraizada na experiência europeia e responsável por perseguições que culminaram no genocídio nazista. Combatê-lo é imperativo.

O problema emerge quando esse conceito é instrumentalizado para proteger um Estado de críticas legítimas, convertendo-se em ferramenta de censura e perseguição.

O projeto apresentado por Tabata Amaral expressa essa inflexão. Ao propor a adoção da definição da IHRA (International Holocaust Remembrance Alliance),  amplamente contestada por especialistas e entidades de direitos humanos, abre-se caminho para confundir crítica ao “Estado de Israel” com preconceito contra judeus.

O efeito não é apenas conceitual, mas político. Trata-se da criação de um dispositivo que pode restringir a liberdade de expressão e criminalizar posicionamentos sob a aparência de combate ao racismo.

O caso do bar Partisan reforça esse quadro. O estabelecimento foi alvo de sanções após divulgar um cartaz informando que não atenderia cidadãos dos Estados Unidos e de Israel, em protesto legítimo contra políticas desses Estados contra palestinos.

A reação institucional buscou enquadrar o episódio como antissemitismo, ainda que se trate de uma manifestação política dirigida a Estados, não a identidades religiosas. A mensagem é clara: determinadas críticas a Israel não serão toleradas.

Essa perseguição evidencia o funcionamento de um padrão, de que a acusação não precisa ser comprovada para cumprir sua função. Basta ser lançada para produzir desgaste, isolamento e intimidação.

Esses episódios, longe de serem exceções, revelam um padrão de controle do debate público. Em vez de argumentação, produz-se acusação. Em vez de refutação, constrói-se constrangimento. O objetivo não é travar e vencer o debate, mas impedir que ele exista.

Do ponto de vista conceitual, a distorção é evidente. “Semitas” designa um conjunto de povos que inclui judeus, cristãos e muçulmanos, árabes e outros grupos do Oriente Médio. Ainda assim, no uso político contemporâneo, o termo “antissemitismo” foi reduzido a um instrumento seletivo, aplicado quase exclusivamente para blindar o “Estado de Israel” de críticas.

Essa redefinição cumpre a função precisa de impedir que o sionismo, enquanto projeto político supremacista, seja analisado criticamente. Ao confundir antissionismo com antissemitismo, constrói-se uma barreira discursiva que deslegitima qualquer crítica estrutural. No entanto, criticar um Estado ou uma ideologia política não equivale a discriminar um povo ou religião.

Essa distinção é reconhecida por numerosos judeus ao redor do mundo, inclusive israelenses, que denunciam o uso do judaísmo como justificativa para práticas de dominação. A crítica a Israel, nesse sentido, não é apenas legítima, é necessária.

Outro elemento central dessa estratégia é a instrumentalização da memória do Holocausto. A tragédia perpetrada pelo nazismo na Europa, que vitimou judeus, ciganos, pessoas com deficiência, comunistas, homossexuais e outros grupos considerados “indesejáveis” deveria servir como fundamento universal para a defesa dos direitos humanos.

No entanto, essa memória tem sido mobilizada como escudo ideológico para justificar políticas contemporâneas de opressão. Tal apropriação enfraquece a luta antirracista e banaliza um dos crimes mais graves da história.

O resultado é a construção de um ambiente em que a crítica política passa a ser tratada como suspeita. Movimentos, jornalistas, acadêmicos e ativistas tornam-se alvos, enquanto denúncias de violações de direitos humanos são deslocadas para o campo da controvérsia moral.

É necessário reafirmar, sem ambiguidade, que a crítica ao sionismo e às políticas criminosas do “Estado de Israel” são críticas políticas legítimas. Confundir essa dimensão com antissemitismo não é um erro, é uma escolha dirigida à proteção de um projeto supremacista de poder.

No fim, o que está em disputa é o direito de nomear a realidade.

E quando denunciar injustiças passa a ser tratado como crime, não estamos diante da defesa dos direitos humanos, mas da sua negação.

 

Fonte: Opera Mundi

 

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