sexta-feira, 10 de abril de 2026

DESAFIOS PARA O FUTEBOL DE MULHERES NO BRASIL

No dia 13 de março de 2026, a partida entre Flamengo e Botafogo, válida pelo Campeonato Brasileiro Feminino, começou com um atraso de 30 minutos porque a equipe de arbitragem ainda não havia chegado ao estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro. Em depoimento às emissoras de TV que cobriam a partida, as capitãs dos times demonstraram revolta com o atraso considerado por elas como uma demonstração de desrespeito ao futebol feminino. É difícil imaginarmos que um clássico como Botafogo e Flamengo quando jogado por equipes masculinas, em pleno século XXI, passasse por problema parecido. É verdade que houve época em que a falta de organização era uma marca de algumas competições de futebol locais e nacionais, no Brasil. Já assistimos a um campeonato nacional com 94 clubes participantes ou casos como quedas para a segunda divisão sacramentadas em campo, mas invalidadas pelo jogo político de dirigentes e federações. Porém, já há algum tempo, a principal competição do futebol masculino nacional tem se mostrado pouco afeita a ocorrências que atrapalhem a correta realização de suas partidas.

No caso das mulheres, entretanto, os riscos de algo dar errado ainda são muitos, mesmo em se tratando do mais importante campeonato de futebol feminino do país. O caminho das mulheres enquanto atletas não foi fácil no futebol brasileiro. Em 1979, o decreto-lei de 1941 que proibiu o futebol feminino foi revogado, porém para que essa prática esportiva se tornasse oficial ainda faltava a publicação de uma deliberação do Conselho Nacional de Desporto (CND) que estabelecesse regras para a modalidade no país. As mulheres podiam jogar, organizar equipes, porém, ainda não havia uma lei que regulamentasse a categoria, muito menos uma federação que a regesse. Em 1983, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), finalmente, reconheceu o futebol feminino. Nesse mesmo ano, começaram os primeiros campeonatos oficiais, dentre os quais podemos destacar o campeonato carioca que terminou tendo como campeão um dos clubes que fez história no futebol de mulheres, o clube Radar.

O campeonato carioca teve sua continuidade interrompida em 1988, sendo retomado em 1986. Em 2001 essa competição foi novamente descontinuada, voltando somente em 2005. Em nível internacional, as mulheres precisaram esperar 61 anos para terem uma Copa do Mundo organizada pela Fifa, enquanto a masculina existe desde 1930. Especificamente em relação ao Campeonato Brasileiro Feminino, nos moldes em que se apresenta hoje, sua criação data de 2013, ganhando uma segunda divisão em 2017 e uma terceira em 2022.

As competições profissionais do futebol de mulheres foram tardiamente inseridas no calendário futebolístico nacional e são historicamente marcadas pela inconstância e precariedade de investimentos de clubes e federações. A importância de se falar sobre o Campeonato Brasileiro Feminino A1 reside na relevância de se abordar as competições femininas considerando tratar-se de eventos fundamentais à atuação profissional das mulheres no esporte mais popular do país. Trata-se da possibilidade de relacionar o futebol com os mundos do trabalho atravessados por questões variadas como raça, classe e gênero.

<><> Campeonato Brasileiro Feminino A1 2025: dados do Relatório do Observatório Social do Futebol

A partir de muitas reivindicações empreendidas pelas mulheres, é notável que o novo Campeonato Brasileiro Feminino vem acompanhado de expectativas de que melhorias sejam feitas em relação aos precedentes. Entretanto, o problema acontecido no clássico Botafogo e Flamengo, mencionado no início deste texto, provoca preocupações com o restante do Campeonato de 2026. Como estamos nas rodadas iniciais da competição que se iniciou em fevereiro e tem término previsto para outubro ainda há tempo de conhecer, reconhecer e evitar alguns problemas ocorridos na edição anterior.

Para explorar essa questão vale destacar alguns dados do recém-lançado relatório do Observatório Social do Futebol, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, sobre o Campeonato Brasileiro Feminino A1 2025. A elaboração desse relatório objetivou apresentar de modo sistematizado alguns dados referentes a aspectos como a presença de público, os estádios utilizados, as transmissões televisivas das partidas e divulgação de informações sobre venda de ingressos. Como metodologia o Relatório usou como fonte principal documentos disponibilizados no site da CBF como o boletim financeiro de cada partida, o relatório de jogo e a súmula. Também foram buscadas informações nas redes sociais oficiais dos clubes que disputaram o campeonato, assim como em portais de cobertura esportiva. Neste texto, será dado enfoque à primeira fase do campeonato, por ter sido a mais completa, pois dela participaram todas as dezesseis equipes que inicialmente compuseram a competição.

Um dos dados a ser destacado refere-se às frequentes alterações ocorridas no Campeonato. As mudanças – envolvendo local, data e horário – foram solicitadas por diferentes agentes, como clubes, emissoras responsáveis pelas transmissões (SporTV e TV Brasil) e a CBF. Na primeira fase da competição, composta por 120 partidas, 62 passaram por algum tipo de alteração, seja de data, horário ou local. A seguir, temos a tabela que reúne o total de solicitações feitas ou aceitas pelos clubes tanto na condição de mandantes como de visitante.

TOTAL DE ALTERAÇÕES

SPORT 17 vezes

INTERNACIONAL      14 vezes

REAL BRASÍLIA        13 vezes

SÃO PAULO   13 vezes

AMÉRICA-MG 12 vezes

BAHIA 12 vezes

FERROVIÁRIA 10 vezes

FLAMENGO    10 vezes

GRÊMIO        10 vezes

INSTITUTO 3B         9 vezes

PALMEIRAS   9 vezes

RED BULL BRAGANTINO     9 vezes

CORINTHIANS         8 vezes

JUVENTUDE   6 vezes

CRUZEIRO     5 vezes

FLUMINENSE 5 vezes

                  Fonte: Campeonato Brasileiro Feminino A1 – Relatório

Em média, as alterações foram solicitadas com 12,9 dias de antecedência às datas previstas para a realização dos jogos. Os extremos desse período podem ser exemplificados pelo jogo Sport × América (MG) cujas mudanças foram pedidas com 39 dias de antecedência, enquanto, Sport × Fluminense sofreu alterações apenas quatro dias antes de sua realização. Das oitenta solicitações de alteração registradas na primeira fase, dezoito ocorreram com uma semana ou menos de antecedência. Apesar de todas as mudanças terem sido realizadas em conformidade com o regulamento da competição, isso não justifica sua recorrência. Esse quadro demonstra problemas na organização do campeonato que podem gerar impactos negativos no planejamento da preparação das atletas e repercutir na baixa presença de público nas partidas. A falta de previsibilidade, também, dificulta o planejamento dos torcedores, tornando mais complexa a criação de uma rotina de acompanhamento dos jogos.

Outro problema refere-se ao fato de alguns clubes terem mandado suas partidas em mais de dois e, até mesmo, três estádios diferentes, alguns geograficamente distantes daqueles aos quais suas torcidas estão habituadas a frequentar. Alguns jogos foram realizados em acanhados estádios situados em centros de treinamento, locais que costumam receber somente partidas de categorias de base e amadoras. É possível relacionarmos esses dados com os fornecidos pela pesquisa Consumo do Futebol Feminino, realizada em 2025 pelo portal Dibradoras em parceria com a Máquina do Esporte: entre as 783 pessoas entrevistadas, 61% apontaram a localização dos jogos como um fator que dificulta a presença nos estádios.

O relatório classificou os estádios como principal ou alternativo. O primeiro é compreendido como aquele que é utilizado costumeiramente pelos clubes em seus jogos oficiais e profissionais. Já o alternativo é aquele que não costuma ser usado pelos clubes enquanto mandantes em suas partidas de futebol profissional. Oito clubes nunca usaram seus estádios principais na primeira fase do campeonato, sendo eles: Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras e São Paulo. Dados mostram que, em 2025, alguns clubes tiveram média de público aumentada quando jogaram em seu estádio principal

CLUBE MÉDIA DE PÚBLICO EM ESTÁDIOS ALTERNATIVOS       MÉDIA DE PÚBLICO EM ESTÁDIO PRINCIPAL

América-MG  153    Estádio Independência (294)

Ferroviária     117    Arena Luminosa (385)

Red Bull Bragantino 132    Cícero de Souza Marques (526)

Juventude     78      Estádio Alfredo Jaconi (338)

Bahia  149    Arena Fonte Nova (2.333)

Fonte: Campeonato Brasileiro Feminino A1 – Relatório

Chama atenção o caso do Bahia, que teve seu maior público no Campeonato na única vez em que jogou na Arena Fonte Nova no campeonato. Esse jogo possibilitou que o referido clube figurasse dentre os três com maior público na primeira e maior fase da competição

É preciso destacar a média de público do Corinthians que, embora não tenha jogado na Neo Química Arena na primeira fase, mandou a maioria de seus jogos no Parque São Jorge, estádio inaugurado em 1928 e que é de propriedade do clube paulista, sendo localizados em sua sede social. Há uma relação, portanto, local, histórica e afetiva entre o Parque São Jorge e a torcida corinthiana, o que é um dos fatores que pode explicar o fato de o clube ocupar o topo da média de público do campeonato.

Já Flamengo e Fluminense, além de terem jogado longe de estádios com os quais possuem algum tipo de vínculo, tiveram partidas realizadas com portões abertos. No campeonato de 2025, aquele que é conhecido como o Clássico das Multidões ocorreu distante do Maracanã, em uma sexta-feira, às 21h. Não houve venda de ingressos e nem controle da presença de público, o que, portanto, inviabiliza sabermos quantas pessoas assistiram à partida. Informações relativas à frequência da torcida são valiosas, considerando-se a importância de se mapear e compreender a dinâmica da participação do público nas competições. Para o futebol feminino, esse tipo de dado pode ajudar na elaboração de ações que visem fomentar a presença de torcedores nos jogos. Outro importante clássico brasileiro foi realizado em situação não adequada. Grêmio e Internacional ocorreram fora de Porto Alegre e, portanto, longe de seus campos habituais e em dias da semana e horários pouco incentivadores à presença de público.

CLÁSSICO     DIA, HORÁRIO E ESTÁDIO EM QUE O JOGO FOI REALIZADO

Fluminense × Flamengo     16/05/2025 (Sex); 21h

Moça Bonita (RJ)

Grêmio × Internacional      28/04/2025 (Seg), 20h

Estádio do Vale (Novo Hamburgo – RS)

Fonte: Campeonato Brasileiro Feminino A1 – Relatório

Em relação a aspectos midiáticos, alguns clubes, em plena era das redes sociais, até o final de 2025, sequer possuíam algum perfil exclusivo para seus times femininos. A necessidade de maior divulgação, sobretudo, via redes sociais se reforça ao considerarmos a já mencionada pesquisa Consumo do Futebol Feminino. Nela 70,1% dos entrevistados responderam que costumam recorrer às redes sociais em busca de informação sobre jogos do futebol feminino. Para 61% dos entrevistados, a baixa divulgação constitui importante barreira para que se possa assistir aos jogos pelas telas ou nas arquibancadas.

<><> O que podemos esperar

Vale frisar que se existem problemas, há possibilidades de soluções e avanços. Em 2026, o campeonato feminino já teve jogos realizados nos estádios principais de Palmeiras e Corinthians, dois clubes pleiteantes ao título. O Palmeiras, em 2025, não havia mandado jogos no Allianz Parque nem mesmo nas fases decisivas da competição e o Corinthians recorreu à Neo Química somente na final contra o Cruzeiro. O clube do Parque São Jorge conquistou no ano passado seu oitavo título, o que é um efeito derivado do bom tratamento dado ao futebol feminino. E títulos despertam a vontade dos rivais de se tornarem competitivos e, desse modo, investirem no departamento de futebol feminino. Esse fenômeno parece notável com a ascensão de Palmeiras, Cruzeiro e São Paulo.

É importante a produção de pesquisas e dados que possam embasar a ações voltadas para a melhoria contínua das condições de trabalho das mulheres jogadoras de futebol no Brasil. Os campeonatos esportivos são importantes para consolidação de qualquer esporte como um lugar de trabalho para atletas e outras especialidades. No Brasil, times femininos são desfeitos com uma impressionante facilidade, como ocorreu com o Fortaleza que, no final do ano passado, comunicou oficialmente que não daria continuidade ao projeto de futebol feminino para 2026.

O cenário do futebol feminino no Brasil melhorou em relação a épocas anteriores e precisamos reconhecer esse fato para que possamos acreditar em seu futuro. A persistência e o enfrentamento de obstáculos é marca da história das mulheres no futebol. Cabe continuarmos a contribuir para o fortalecimento do compromisso social e esportivo com o futebol feminino no Brasil, entendendo-o como um campo de exercício profissional para as mulheres que há anos lutam por esse direito.

 

Fonte: Por Leda Maria da Costa, no Le Monde 

 

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