DESAFIOS
PARA O FUTEBOL DE MULHERES NO BRASIL
No dia
13 de março de 2026, a partida entre Flamengo e Botafogo, válida pelo
Campeonato Brasileiro Feminino, começou com um atraso de 30 minutos porque a
equipe de arbitragem ainda não havia chegado ao estádio Nilton Santos, no Rio
de Janeiro. Em depoimento às emissoras de TV que cobriam a partida, as capitãs
dos times demonstraram revolta com o atraso considerado por elas como uma
demonstração de desrespeito ao futebol feminino. É difícil imaginarmos que um
clássico como Botafogo e Flamengo quando jogado por equipes masculinas, em
pleno século XXI, passasse por problema parecido. É verdade que houve época em
que a falta de organização era uma marca de algumas competições de futebol
locais e nacionais, no Brasil. Já assistimos a um campeonato nacional com 94
clubes participantes ou casos como quedas para a segunda divisão sacramentadas
em campo, mas invalidadas pelo jogo político de dirigentes e federações. Porém,
já há algum tempo, a principal competição do futebol masculino nacional tem se
mostrado pouco afeita a ocorrências que atrapalhem a correta realização de suas
partidas.
No caso
das mulheres, entretanto, os riscos de algo dar errado ainda são muitos, mesmo
em se tratando do mais importante campeonato de futebol feminino do país. O
caminho das mulheres enquanto atletas não foi fácil no futebol brasileiro. Em
1979, o decreto-lei de 1941 que proibiu o futebol feminino foi revogado, porém
para que essa prática esportiva se tornasse oficial ainda faltava a publicação
de uma deliberação do Conselho Nacional de Desporto (CND) que estabelecesse
regras para a modalidade no país. As mulheres podiam jogar, organizar equipes,
porém, ainda não havia uma lei que regulamentasse a categoria, muito menos uma
federação que a regesse. Em 1983, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF),
finalmente, reconheceu o futebol feminino. Nesse mesmo ano, começaram os
primeiros campeonatos oficiais, dentre os quais podemos destacar o campeonato
carioca que terminou tendo como campeão um dos clubes que fez história no
futebol de mulheres, o clube Radar.
O
campeonato carioca teve sua continuidade interrompida em 1988, sendo retomado
em 1986. Em 2001 essa competição foi novamente descontinuada, voltando somente
em 2005. Em nível internacional, as mulheres precisaram esperar 61 anos para
terem uma Copa do Mundo organizada pela Fifa, enquanto a masculina existe desde
1930. Especificamente em relação ao Campeonato Brasileiro Feminino, nos moldes
em que se apresenta hoje, sua criação data de 2013, ganhando uma segunda
divisão em 2017 e uma terceira em 2022.
As
competições profissionais do futebol de mulheres foram tardiamente inseridas no
calendário futebolístico nacional e são historicamente marcadas pela
inconstância e precariedade de investimentos de clubes e federações. A
importância de se falar sobre o Campeonato Brasileiro Feminino A1 reside na
relevância de se abordar as competições femininas considerando tratar-se de
eventos fundamentais à atuação profissional das mulheres no esporte mais
popular do país. Trata-se da possibilidade de relacionar o futebol com os
mundos do trabalho atravessados por questões variadas como raça, classe e
gênero.
<><>
Campeonato Brasileiro Feminino A1 2025: dados do Relatório do Observatório
Social do Futebol
A
partir de muitas reivindicações empreendidas pelas mulheres, é notável que o
novo Campeonato Brasileiro Feminino vem acompanhado de expectativas de que
melhorias sejam feitas em relação aos precedentes. Entretanto, o problema
acontecido no clássico Botafogo e Flamengo, mencionado no início deste texto,
provoca preocupações com o restante do Campeonato de 2026. Como estamos nas
rodadas iniciais da competição que se iniciou em fevereiro e tem término
previsto para outubro ainda há tempo de conhecer, reconhecer e evitar alguns
problemas ocorridos na edição anterior.
Para
explorar essa questão vale destacar alguns dados do recém-lançado relatório do
Observatório Social do Futebol, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
sobre o Campeonato Brasileiro Feminino A1 2025. A elaboração desse relatório
objetivou apresentar de modo sistematizado alguns dados referentes a aspectos
como a presença de público, os estádios utilizados, as transmissões televisivas
das partidas e divulgação de informações sobre venda de ingressos. Como
metodologia o Relatório usou como fonte principal documentos disponibilizados
no site da CBF como o boletim financeiro de cada partida, o relatório de jogo e
a súmula. Também foram buscadas informações nas redes sociais oficiais dos
clubes que disputaram o campeonato, assim como em portais de cobertura
esportiva. Neste texto, será dado enfoque à primeira fase do campeonato, por
ter sido a mais completa, pois dela participaram todas as dezesseis equipes que
inicialmente compuseram a competição.
Um dos
dados a ser destacado refere-se às frequentes alterações ocorridas no
Campeonato. As mudanças – envolvendo local, data e horário – foram solicitadas
por diferentes agentes, como clubes, emissoras responsáveis pelas transmissões
(SporTV e TV Brasil) e a CBF. Na primeira fase da competição, composta por 120
partidas, 62 passaram por algum tipo de alteração, seja de data, horário ou
local. A seguir, temos a tabela que reúne o total de solicitações feitas ou
aceitas pelos clubes tanto na condição de mandantes como de visitante.
TOTAL
DE ALTERAÇÕES
SPORT 17 vezes
INTERNACIONAL 14 vezes
REAL
BRASÍLIA 13 vezes
SÃO
PAULO 13 vezes
AMÉRICA-MG 12 vezes
BAHIA 12 vezes
FERROVIÁRIA 10 vezes
FLAMENGO 10 vezes
GRÊMIO 10 vezes
INSTITUTO
3B 9 vezes
PALMEIRAS 9 vezes
RED
BULL BRAGANTINO 9 vezes
CORINTHIANS 8 vezes
JUVENTUDE 6 vezes
CRUZEIRO 5 vezes
FLUMINENSE 5 vezes
Fonte: Campeonato Brasileiro
Feminino A1 – Relatório
Em
média, as alterações foram solicitadas com 12,9 dias de antecedência às datas
previstas para a realização dos jogos. Os extremos desse período podem ser
exemplificados pelo jogo Sport × América (MG) cujas mudanças foram pedidas com
39 dias de antecedência, enquanto, Sport × Fluminense sofreu alterações apenas
quatro dias antes de sua realização. Das oitenta solicitações de alteração
registradas na primeira fase, dezoito ocorreram com uma semana ou menos de
antecedência. Apesar de todas as mudanças terem sido realizadas em conformidade
com o regulamento da competição, isso não justifica sua recorrência. Esse
quadro demonstra problemas na organização do campeonato que podem gerar
impactos negativos no planejamento da preparação das atletas e repercutir na
baixa presença de público nas partidas. A falta de previsibilidade, também,
dificulta o planejamento dos torcedores, tornando mais complexa a criação de
uma rotina de acompanhamento dos jogos.
Outro
problema refere-se ao fato de alguns clubes terem mandado suas partidas em mais
de dois e, até mesmo, três estádios diferentes, alguns geograficamente
distantes daqueles aos quais suas torcidas estão habituadas a frequentar.
Alguns jogos foram realizados em acanhados estádios situados em centros de
treinamento, locais que costumam receber somente partidas de categorias de base
e amadoras. É possível relacionarmos esses dados com os fornecidos pela
pesquisa Consumo do Futebol Feminino, realizada em 2025 pelo portal Dibradoras
em parceria com a Máquina do Esporte: entre as 783 pessoas entrevistadas, 61%
apontaram a localização dos jogos como um fator que dificulta a presença nos
estádios.
O
relatório classificou os estádios como principal ou alternativo. O primeiro é
compreendido como aquele que é utilizado costumeiramente pelos clubes em seus
jogos oficiais e profissionais. Já o alternativo é aquele que não costuma ser
usado pelos clubes enquanto mandantes em suas partidas de futebol profissional.
Oito clubes nunca usaram seus estádios principais na primeira fase do
campeonato, sendo eles: Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio,
Internacional, Palmeiras e São Paulo. Dados mostram que, em 2025, alguns clubes
tiveram média de público aumentada quando jogaram em seu estádio principal
CLUBE MÉDIA DE PÚBLICO EM ESTÁDIOS ALTERNATIVOS MÉDIA DE PÚBLICO EM ESTÁDIO PRINCIPAL
América-MG 153 Estádio
Independência (294)
Ferroviária 117 Arena
Luminosa (385)
Red
Bull Bragantino 132 Cícero de Souza Marques (526)
Juventude 78 Estádio
Alfredo Jaconi (338)
Bahia 149 Arena
Fonte Nova (2.333)
Fonte:
Campeonato Brasileiro Feminino A1 – Relatório
Chama
atenção o caso do Bahia, que teve seu maior público no Campeonato na única vez
em que jogou na Arena Fonte Nova no campeonato. Esse jogo possibilitou que o
referido clube figurasse dentre os três com maior público na primeira e maior
fase da competição
É
preciso destacar a média de público do Corinthians que, embora não tenha jogado
na Neo Química Arena na primeira fase, mandou a maioria de seus jogos no Parque
São Jorge, estádio inaugurado em 1928 e que é de propriedade do clube paulista,
sendo localizados em sua sede social. Há uma relação, portanto, local,
histórica e afetiva entre o Parque São Jorge e a torcida corinthiana, o que é
um dos fatores que pode explicar o fato de o clube ocupar o topo da média de
público do campeonato.
Já
Flamengo e Fluminense, além de terem jogado longe de estádios com os quais
possuem algum tipo de vínculo, tiveram partidas realizadas com portões abertos.
No campeonato de 2025, aquele que é conhecido como o Clássico das Multidões
ocorreu distante do Maracanã, em uma sexta-feira, às 21h. Não houve venda de
ingressos e nem controle da presença de público, o que, portanto, inviabiliza
sabermos quantas pessoas assistiram à partida. Informações relativas à
frequência da torcida são valiosas, considerando-se a importância de se mapear
e compreender a dinâmica da participação do público nas competições. Para o
futebol feminino, esse tipo de dado pode ajudar na elaboração de ações que
visem fomentar a presença de torcedores nos jogos. Outro importante clássico
brasileiro foi realizado em situação não adequada. Grêmio e Internacional
ocorreram fora de Porto Alegre e, portanto, longe de seus campos habituais e em
dias da semana e horários pouco incentivadores à presença de público.
CLÁSSICO DIA, HORÁRIO E ESTÁDIO EM QUE O JOGO FOI
REALIZADO
Fluminense
× Flamengo 16/05/2025 (Sex); 21h
Moça
Bonita (RJ)
Grêmio
× Internacional 28/04/2025 (Seg), 20h
Estádio
do Vale (Novo Hamburgo – RS)
Fonte:
Campeonato Brasileiro Feminino A1 – Relatório
Em
relação a aspectos midiáticos, alguns clubes, em plena era das redes sociais,
até o final de 2025, sequer possuíam algum perfil exclusivo para seus times
femininos. A necessidade de maior divulgação, sobretudo, via redes sociais se
reforça ao considerarmos a já mencionada pesquisa Consumo do Futebol Feminino.
Nela 70,1% dos entrevistados responderam que costumam recorrer às redes sociais
em busca de informação sobre jogos do futebol feminino. Para 61% dos
entrevistados, a baixa divulgação constitui importante barreira para que se
possa assistir aos jogos pelas telas ou nas arquibancadas.
<><>
O que podemos esperar
Vale
frisar que se existem problemas, há possibilidades de soluções e avanços. Em
2026, o campeonato feminino já teve jogos realizados nos estádios principais de
Palmeiras e Corinthians, dois clubes pleiteantes ao título. O Palmeiras, em
2025, não havia mandado jogos no Allianz Parque nem mesmo nas fases decisivas
da competição e o Corinthians recorreu à Neo Química somente na final contra o
Cruzeiro. O clube do Parque São Jorge conquistou no ano passado seu oitavo
título, o que é um efeito derivado do bom tratamento dado ao futebol feminino.
E títulos despertam a vontade dos rivais de se tornarem competitivos e, desse
modo, investirem no departamento de futebol feminino. Esse fenômeno parece
notável com a ascensão de Palmeiras, Cruzeiro e São Paulo.
É
importante a produção de pesquisas e dados que possam embasar a ações voltadas
para a melhoria contínua das condições de trabalho das mulheres jogadoras de
futebol no Brasil. Os campeonatos esportivos são importantes para consolidação
de qualquer esporte como um lugar de trabalho para atletas e outras
especialidades. No Brasil, times femininos são desfeitos com uma impressionante
facilidade, como ocorreu com o Fortaleza que, no final do ano passado,
comunicou oficialmente que não daria continuidade ao projeto de futebol
feminino para 2026.
O
cenário do futebol feminino no Brasil melhorou em relação a épocas anteriores e
precisamos reconhecer esse fato para que possamos acreditar em seu futuro. A
persistência e o enfrentamento de obstáculos é marca da história das mulheres
no futebol. Cabe continuarmos a contribuir para o fortalecimento do compromisso
social e esportivo com o futebol feminino no Brasil, entendendo-o como um campo
de exercício profissional para as mulheres que há anos lutam por esse direito.
Fonte:
Por Leda Maria da Costa, no Le Monde

Nenhum comentário:
Postar um comentário