sexta-feira, 10 de abril de 2026

Golpe de 64: o esquecimento como obstáculo à cidadania

No dia 1º de abril de 1964, há 62 anos, as Forças Armadas brasileiras consumaram um Golpe no Brasil, com o apoio de setores expressivos da burguesia nacional (incluindo os donos da mídia), sob uma narrativa que buscou legitimar a ruptura como um “mal necessário”. No entanto, como demonstram os estudos históricos, tratou-se de uma ação articulada por elites políticas, econômicas e militares, com apoio externo dos Estados Unidos, visando preservar privilégios e conter reformas estruturais, dando origem à Ditadura Militar Brasileira, marcada por censura, por perseguições, por torturas e por assassinatos. Mais de seis décadas depois, o Brasil ainda convive com a fragilidade de sua memória coletiva sobre esse passado autoritário, o que compromete o próprio sentido de cidadania.

O descaso com a memória histórica no Brasil não se manifesta apenas no esquecimento simbólico de eventos como o Golpe de 1964, mas também na negligência concreta com o patrimônio material do país. Em cidades como Ouro Preto, reconhecida por seu valor histórico e artístico, não são raros os monumentos e as construções históricas em estado de abandono ou de deterioração — realidade que, inclusive, me marcou pessoalmente, já que desejava muito conhecer aquela cidade e, quando finalmente consegui visitá-la em 2015, deparei-me com um cenário decepcionante: prédios rachados e cheios de mofo, matagal margeando as construções, entre outras demonstrações de omissão. Da mesma forma, decisões, como a recente autorização do governo da Bahia para a demolição de um prédio histórico em Salvador, visando a expansão do metrô, revelam uma lógica que frequentemente subordina a memória e a identidade históricas a interesses imediatos, sem o devido debate público, ou o compromisso com alternativas que conciliem “progresso” e preservação, o que reforça a percepção de que, neste país, a memória — seja ela material ou imaterial — permanece vulnerável ao esquecimento e à negligência.

<><> Superficial ou distorcida

Essa ausência de memória histórica no seio da população brasileira pode ser atribuída a variados fatores, que, articulados entre si, contribuem para a construção de uma relação frágil, e muitas vezes distorcida, com o passado. Para além de um simples esquecimento ocasional, trata-se de um processo contínuo que enfraquece a consciência histórica coletiva, dificulta a compreensão crítica de eventos marcantes — como o Golpe de 1964 no Brasil — e, principalmente, compromete a capacidade da sociedade de reconhecer as permanências e rupturas que moldam o presente, tornando a memória não um patrimônio compartilhado, mas um campo vulnerável ao apagamento e à indiferença.

Tratando-se especificamente do Golpe de 64, esse esquecimento se dá, em primeiro lugar, devido à forma como ocorreu a transição do regime ditatorial para a democracia burguesa. Diferentemente de outros países da América Latina (como a Argentina, sobre a qual me referi em um texto publicado na Diálogos do Sul Global há dois anos), o Brasil optou por uma transição negociada, sem rupturas profundas. A aprovação da Lei da Anistia, em 1979, que beneficiou tanto perseguidos políticos como também (e sobretudo) agentes do Estado responsáveis por violações de direitos humanos, contribuiu para a consolidação de um pacto de silêncio. Esse acordo implícito impediu que o país enfrentasse, de maneira contundente, os crimes cometidos durante a ditadura, dificultando a construção de uma memória coletiva crítica.

Outro fator que, a meu ver, é central, é a deficiência no sistema educacional brasileiro no que se refere ao ensino da história recente. Em muitas escolas, o período da ditadura é abordado de forma superficial, quando não distorcida. A ausência de um ensino consistente e crítico impede que novas gerações compreendam a gravidade dos acontecimentos e reconheçam seus impactos no presente. Assim, o passado vai sendo diluído, tornando-se um tema distante e pouco relevante para grande parte da população. Essa lacuna educacional também dificulta o desenvolvimento do pensamento crítico e da consciência política, essenciais para o exercício pleno da cidadania. Sem referências históricas sólidas, as pessoas tornam-se mais suscetíveis a interpretações equivocadas e a discursos revisionistas. Como consequência, enfraquece-se a capacidade coletiva de valorizar a democracia e evitar a repetição de práticas autoritárias.

<><> Passado como algo alheio

Uma das principais consequências desse cenário é a formação de gerações com baixa capacidade de análise crítica sobre processos históricos e políticos. Sem o devido contato com fontes, debates e interpretações diversas, muitos estudantes passam a encarar eventos como o Golpe de 1964 no Brasil de forma simplificada ou até mesmo equivocada, tornando-se mais suscetíveis a narrativas distorcidas, revisionistas ou ideologicamente orientadas. Isso enfraquece o conhecimento histórico e, principalmente, a qualidade do debate público. Além disso, a fragilidade no ensino da História contribui para a naturalização de práticas autoritárias. Quando episódios marcados por censura, repressão e violência de Estado não são devidamente compreendidos em sua profundidade, perde-se a capacidade de reconhecer sinais semelhantes no presente. Dessa forma, valores democráticos deixam de ser plenamente valorizados, e discursos que relativizam violações de direitos humanos encontram terreno fértil para se disseminar.

Outra consequência relevante é o distanciamento entre a população e sua própria identidade histórica. A ausência de uma formação sólida dificulta a construção de um sentimento de pertencimento e de continuidade histórica, que faz o passado ser  percebido como algo alheio, desconectado da realidade atual. Isso contribui, sobremaneira, para o desinteresse generalizado por temas históricos e também para a desvalorização do patrimônio cultural e da memória coletiva. Nesse contexto, referências fundamentais da formação social e política do País — como o próprio Golpe de 1964 e suas consequências — deixam de ser compreendidas como processos vivos, cujos efeitos ainda reverberam no presente, passando a ser vistas como episódios distantes, quase irrelevantes.

Esse afastamento enfraquece a noção de cidadania, pois, ao não se reconhecer como parte de uma trajetória histórica coletiva, o indivíduo tende a se perceber como desvinculado das responsabilidades e dos direitos construídos ao longo do tempo. A história deixa de ser um instrumento de compreensão da realidade e de intervenção social e política para tornar-se, apenas, um conjunto de datas e fatos desconexos, sem significados práticos na vida cotidiana. Como consequência, reduz-se a capacidade de participação crítica na vida pública, pois as pessoas passam a ter mais dificuldades em interpretar acontecimentos políticos, ou avaliar discursos e mesmo identificar continuidades entre passado e presente — especialmente em relação a marcos como o Golpe de 1964 no Brasil, cujas implicações ainda ecoam nas instituições e na cultura política do país. 

<><> Visão individualista da vida em sociedade

Nesse cenário, o exercício da cidadania tende a se tornar mais passivo e menos consciente, porque abre espaço para a reprodução de discursos simplistas, para soluções autoritárias e para promessas políticas descoladas da realidade histórica. Sem uma base sólida de conhecimento, muitos indivíduos tornam-se mais vulneráveis à desinformação e à manipulação, o que compromete a qualidade do debate e fragiliza os mecanismos de controle social sobre o poder. Essa fragilidade cognitiva dificulta a capacidade de análise crítica das informações que circulam, especialmente em um contexto marcado pela velocidade das redes digitais e pela abundância de conteúdos pouco verificados.

Como consequência, opiniões passam a ser formadas com base em impressões superficiais — ou, como vemos ultimamente em nosso país, em narrativas emocionalmente apelativas —, em vez de argumentos fundamentados. Isso empobrece o debate público, mas, sobretudo, reduz a participação cidadã a reações imediatas, muitas vezes guiadas pelo medo, pela indignação ou pela identificação ideológica acrítica. Nesse contexto, o espaço para o diálogo racional e para a construção coletiva de soluções torna-se cada vez mais limitado, uma vez que posições divergentes passam a ser encaradas não como oportunidades de debate, mas como ameaças a serem combatidas. Isso intensifica a polarização social e dificulta a convivência democrática, enfraquecendo valores como a tolerância, o respeito e a escuta ativa.

Além disso, a prevalência desses discursos favorece a disseminação de informações imprecisas ou distorcidas, pois conteúdos que apelam às emoções tendem a se espalhar com mais rapidez e alcance. Cria-se, com isso, um ambiente propício à desinformação, no qual fatos são relativizados e opiniões ganham o mesmo peso que evidências, comprometendo a qualidade das decisões individuais e coletivas. Essa dinâmica contribui para a superficialização do engajamento político, pois, em vez de uma participação consciente (baseada em reflexão e conhecimento), observa-se uma atuação marcada pela impulsividade, pela volatilidade e, muitas vezes, pela violência. Isso fragiliza o exercício pleno da cidadania, pois reduz a capacidade da sociedade de debater de forma qualificada, de fiscalizar o poder público, de atuar de maneira consistente na defesa de seus direitos e interesses coletivos.

Outro aspecto relevante é que a ausência de reflexão histórica e política consistente enfraquece a noção de coletividade e de responsabilidade social. As pessoas tendem a enxergar a política como algo distante ou irrelevante, e isso favorece a apatia e o afastamento dos espaços de participação. Esse distanciamento contribui para a construção de uma visão individualista da vida em sociedade, na qual os interesses pessoais se sobrepõem às demandas coletivas. Com isso, questões públicas — como educação, saúde, segurança e desigualdade — deixam de ser compreendidas como responsabilidades compartilhadas e passam a ser vistas como problemas alheios, que não exigem engajamento direto. Essa postura enfraquece a solidariedade social e dificulta a mobilização em torno de causas comuns.

Ademais, a falta de envolvimento com a política reduz a diversidade de vozes nos espaços de decisão e faz com que apenas grupos mais organizados ou detentores de maior poder econômico consigam influenciar efetivamente as políticas públicas. Isso aprofunda desigualdades e perpetua estruturas excludentes, uma vez que grande parte da população deixa de participar ativamente da construção das decisões que impactam sua própria realidade. Esse afastamento dos espaços de participação também compromete a formação de uma cultura baseada no diálogo, no respeito às diferenças e na busca por soluções coletivas. Sem essa vivência, a cidadania torna-se limitada, e a democracia perde sua dimensão participativa, tornando-se mais vulnerável à deslegitimação e ao enfraquecimento institucional.

<><> Cuidar da memória é um dever histórico

A desconexão com a história também enfraquece a valorização de direitos conquistados ao longo de décadas. Liberdades civis, garantias constitucionais e avanços democráticos passam a ser vistos como dados naturais, e não como resultados de lutas históricas, o que reduz a disposição coletiva para defendê-los diante de ameaças. Assim, além de o esquecimento empobrecer o conhecimento histórico, também compromete a própria capacidade da sociedade para preservar e aprofundar a democracia (ainda que burguesa). Por outro lado, a atuação de setores políticos e midiáticos que relativizam ou negam os crimes da ditadura contribui significativamente para esse apagamento. 

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Narrativas revisionistas, que apresentam o regime ditatorial como um período de “ordem” e de “progresso”, ganham espaço no debate público, confundindo a opinião popular e enfraquecendo o reconhecimento das violações cometidas. Nesse contexto, discursos de figuras públicas como o último ex-presidente (felizmente hoje presidiário) reforçam essa tendência, ao adotar posicionamentos que minimizam ou relativizam a gravidade da ditadura militar, por vezes exaltando aspectos do regime e seus agentes. Ao tratar o período autoritário de forma simplificada ou positiva, tais narrativas enfraquecem o reconhecimento das práticas de repressão, de censura e de violência institucional, além de dificultarem o avanço de uma memória coletiva crítica e fundamentada. 

Outro fator que contribui para a diluição da memória histórica acerca da Ditadura é a própria desigualdade social brasileira, que também desempenha um papel importante nesse contexto. Para parcelas significativas do nosso povo (sobretudo aquelas historicamente marginalizadas), a luta cotidiana pela sobrevivência na maioria das vezes se sobrepõe à reflexão sobre o passado histórico. A memória, nesse sentido, torna-se um privilégio, acessível principalmente a grupos com maior acesso à educação e à informação. Porque entre essas populações mais vulnerabilizadas, a ausência de políticas públicas eficazes de educação e de valorização da memória contribui para o distanciamento em relação a esse tipo de reflexão, perpetuando um ciclo de invisibilização do passado. Embora iniciativas como comissões da verdade tenham buscado investigar os crimes da ditadura, seus resultados ainda são pouco difundidos e não alcançam amplamente a sociedade. A ausência de museus, memoriais e espaços de reflexão acessíveis e valorizados contribui para o distanciamento da população em relação a esse período histórico.

Também é importante destacar o papel da cultura política brasileira — historicamente marcada por conciliações e pela evitação de conflitos abertos. Essa tendência favorece o esquecimento em detrimento do enfrentamento e permite que feridas históricas permaneçam abertas, porém invisibilizadas. Nesse contexto, o racismo estrutural se insere como um exemplo emblemático, pois, ao longo da história, as violências e exclusões sofridas pela população negra foram frequentemente silenciadas ou naturalizadas, sem o devido reconhecimento ou reparação. Essa lógica tem contribuído para a manutenção de desigualdades profundas que a sociedade brasileira insiste em encobrir, revelando uma cultura política que privilegia a acomodação em vez da transformação.

Diante desse quadro, torna-se evidente que o esquecimento do golpe de 1964 (e de seus desdobramentos) é resultado de múltiplos fatores estruturais, políticos e culturais. Combater esse apagamento exige um esforço coletivo que envolva educação de qualidade, políticas públicas de memória, valorização da pesquisa histórica e compromisso com a verdade. Porque lembrar é uma condição fundamental para não incorrer nos mesmos erros do passado. Uma sociedade que não reconhece plenamente os erros de sua história corre o risco de repeti-los. Por isso, cuidar da memória do golpe de 1964 e da ditadura que se seguiu é um dever histórico, mas, sobretudo, um imperativo ético e político para o Brasil contemporâneo.

 

Fonte: Por Verbena Córdula, em Diálogos do Sul Global

 

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