Golpe
de 64: o esquecimento como obstáculo à cidadania
No dia
1º de abril de 1964, há 62 anos, as Forças Armadas brasileiras consumaram um
Golpe no Brasil, com o apoio de setores expressivos da burguesia nacional
(incluindo os donos da mídia), sob uma narrativa que buscou legitimar a ruptura
como um “mal necessário”. No entanto, como demonstram os estudos históricos,
tratou-se de uma ação articulada por elites políticas, econômicas e militares,
com apoio externo dos Estados Unidos, visando preservar privilégios e conter
reformas estruturais, dando origem à Ditadura Militar Brasileira, marcada por
censura, por perseguições, por torturas e por assassinatos. Mais de seis
décadas depois, o Brasil ainda convive com a fragilidade de sua memória
coletiva sobre esse passado autoritário, o que compromete o próprio sentido de
cidadania.
O
descaso com a memória histórica no Brasil não se manifesta apenas no
esquecimento simbólico de eventos como o Golpe de 1964, mas também na
negligência concreta com o patrimônio material do país. Em cidades como Ouro
Preto, reconhecida por seu valor histórico e artístico, não são raros os
monumentos e as construções históricas em estado de abandono ou de deterioração
— realidade que, inclusive, me marcou pessoalmente, já que desejava muito
conhecer aquela cidade e, quando finalmente consegui visitá-la em 2015,
deparei-me com um cenário decepcionante: prédios rachados e cheios de mofo,
matagal margeando as construções, entre outras demonstrações de omissão. Da
mesma forma, decisões, como a recente autorização do governo da Bahia para a
demolição de um prédio histórico em Salvador, visando a expansão do metrô,
revelam uma lógica que frequentemente subordina a memória e a identidade
históricas a interesses imediatos, sem o devido debate público, ou o
compromisso com alternativas que conciliem “progresso” e preservação, o que
reforça a percepção de que, neste país, a memória — seja ela material ou
imaterial — permanece vulnerável ao esquecimento e à negligência.
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Superficial ou distorcida
Essa
ausência de memória histórica no seio da população brasileira pode ser
atribuída a variados fatores, que, articulados entre si, contribuem para a
construção de uma relação frágil, e muitas vezes distorcida, com o passado.
Para além de um simples esquecimento ocasional, trata-se de um processo
contínuo que enfraquece a consciência histórica coletiva, dificulta a
compreensão crítica de eventos marcantes — como o Golpe de 1964 no Brasil — e,
principalmente, compromete a capacidade da sociedade de reconhecer as
permanências e rupturas que moldam o presente, tornando a memória não um
patrimônio compartilhado, mas um campo vulnerável ao apagamento e à
indiferença.
Tratando-se
especificamente do Golpe de 64, esse esquecimento se dá, em primeiro lugar,
devido à forma como ocorreu a transição do regime ditatorial para a democracia
burguesa. Diferentemente de outros países da América Latina (como a Argentina,
sobre a qual me referi em um texto publicado na Diálogos
do Sul Global há dois anos), o Brasil optou por uma transição
negociada, sem rupturas profundas. A aprovação da Lei da Anistia, em 1979, que
beneficiou tanto perseguidos políticos como também (e sobretudo) agentes do
Estado responsáveis por violações de direitos humanos, contribuiu para a
consolidação de um pacto de silêncio. Esse acordo implícito impediu que o país
enfrentasse, de maneira contundente, os crimes cometidos durante a ditadura,
dificultando a construção de uma memória coletiva crítica.
Outro
fator que, a meu ver, é central, é a deficiência no sistema educacional
brasileiro no que se refere ao ensino da história recente. Em muitas escolas, o
período da ditadura é abordado de forma superficial, quando não distorcida. A
ausência de um ensino consistente e crítico impede que novas gerações
compreendam a gravidade dos acontecimentos e reconheçam seus impactos no presente. Assim, o passado
vai sendo diluído, tornando-se um tema distante e pouco relevante para grande
parte da população. Essa lacuna educacional também dificulta o desenvolvimento
do pensamento crítico e da consciência política, essenciais para o exercício pleno
da cidadania. Sem referências históricas sólidas, as pessoas tornam-se mais
suscetíveis a interpretações equivocadas e a discursos revisionistas. Como
consequência, enfraquece-se a capacidade coletiva de valorizar a democracia e
evitar a repetição de práticas autoritárias.
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Passado como algo alheio
Uma das
principais consequências desse cenário é a formação de gerações com baixa
capacidade de análise crítica sobre processos históricos e políticos. Sem o
devido contato com fontes, debates e interpretações diversas, muitos estudantes
passam a encarar eventos como o Golpe de 1964 no Brasil de forma simplificada
ou até mesmo equivocada, tornando-se mais suscetíveis a narrativas distorcidas,
revisionistas ou ideologicamente orientadas. Isso enfraquece o conhecimento
histórico e, principalmente, a qualidade do debate público. Além disso, a
fragilidade no ensino da História contribui para a naturalização de práticas
autoritárias. Quando episódios marcados por censura, repressão e violência
de Estado não são devidamente compreendidos em sua profundidade, perde-se a
capacidade de reconhecer sinais semelhantes no presente. Dessa forma,
valores democráticos deixam de ser plenamente valorizados, e discursos que
relativizam violações de direitos humanos encontram terreno fértil para se
disseminar.
Outra
consequência relevante é o distanciamento entre a população e sua própria
identidade histórica. A ausência de uma formação sólida dificulta a construção
de um sentimento de pertencimento e de continuidade histórica, que faz o
passado ser percebido como algo alheio, desconectado da realidade atual.
Isso contribui, sobremaneira, para o desinteresse generalizado por temas
históricos e também para a desvalorização do patrimônio cultural e da memória coletiva. Nesse contexto,
referências fundamentais da formação social e política do País — como o próprio
Golpe de 1964 e suas consequências — deixam de ser compreendidas como processos
vivos, cujos efeitos ainda reverberam no presente, passando a ser vistas como
episódios distantes, quase irrelevantes.
Esse
afastamento enfraquece a noção de cidadania, pois, ao não se reconhecer como
parte de uma trajetória histórica coletiva, o indivíduo tende a se perceber
como desvinculado das responsabilidades e dos direitos construídos ao longo do
tempo. A história deixa de ser um instrumento de compreensão da realidade e de
intervenção social e política para tornar-se, apenas, um conjunto de datas e
fatos desconexos, sem significados práticos na vida cotidiana. Como
consequência, reduz-se a capacidade de participação crítica na vida pública,
pois as pessoas passam a ter mais dificuldades em interpretar acontecimentos
políticos, ou avaliar discursos e mesmo identificar continuidades entre passado
e presente — especialmente em relação a marcos como o Golpe de 1964 no Brasil, cujas implicações
ainda ecoam nas instituições e na cultura política do país.
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Visão individualista da vida em sociedade
Nesse
cenário, o exercício da cidadania tende a se tornar mais passivo e menos
consciente, porque abre espaço para a reprodução de discursos simplistas, para
soluções autoritárias e para promessas políticas descoladas da realidade
histórica. Sem uma base sólida de conhecimento, muitos indivíduos tornam-se
mais vulneráveis à desinformação e à manipulação, o que compromete a qualidade
do debate e fragiliza os mecanismos de controle social sobre o poder. Essa
fragilidade cognitiva dificulta a capacidade de análise crítica das informações
que circulam, especialmente em um contexto marcado pela velocidade das redes
digitais e pela abundância de conteúdos pouco verificados.
Como
consequência, opiniões passam a ser formadas com base em impressões
superficiais — ou, como vemos ultimamente em nosso país, em narrativas
emocionalmente apelativas —, em vez de argumentos fundamentados. Isso empobrece
o debate público, mas, sobretudo, reduz a participação cidadã a reações
imediatas, muitas vezes guiadas pelo medo, pela indignação ou pela
identificação ideológica acrítica. Nesse contexto, o espaço para o diálogo
racional e para a construção coletiva de soluções torna-se cada vez mais limitado,
uma vez que posições divergentes passam a ser encaradas não como oportunidades
de debate, mas como ameaças a serem combatidas. Isso intensifica a polarização
social e dificulta a convivência democrática, enfraquecendo valores como a
tolerância, o respeito e a escuta ativa.
Além
disso, a prevalência desses discursos favorece a disseminação de informações
imprecisas ou distorcidas, pois conteúdos que apelam às emoções tendem a se
espalhar com mais rapidez e alcance. Cria-se, com isso, um ambiente propício à
desinformação, no qual fatos são relativizados e opiniões ganham o mesmo peso
que evidências, comprometendo a qualidade das decisões individuais e coletivas.
Essa dinâmica contribui para a superficialização do engajamento político, pois,
em vez de uma participação consciente (baseada em reflexão e conhecimento),
observa-se uma atuação marcada pela impulsividade, pela volatilidade e, muitas
vezes, pela violência. Isso fragiliza o exercício pleno da cidadania, pois
reduz a capacidade da sociedade de debater de forma qualificada, de fiscalizar
o poder público, de atuar de maneira consistente na defesa de seus direitos e
interesses coletivos.
Outro
aspecto relevante é que a ausência de reflexão histórica e política consistente
enfraquece a noção de coletividade e de responsabilidade social. As pessoas
tendem a enxergar a política como algo distante ou irrelevante, e isso favorece
a apatia e o afastamento dos espaços de participação. Esse distanciamento
contribui para a construção de uma visão individualista da vida em sociedade,
na qual os interesses pessoais se sobrepõem às demandas coletivas. Com isso,
questões públicas — como educação, saúde, segurança e desigualdade — deixam de
ser compreendidas como responsabilidades compartilhadas e passam a ser vistas
como problemas alheios, que não exigem engajamento direto. Essa postura
enfraquece a solidariedade social e dificulta a mobilização em torno de causas
comuns.
Ademais,
a falta de envolvimento com a política reduz a diversidade de vozes nos espaços
de decisão e faz com que apenas grupos mais organizados ou detentores de maior
poder econômico consigam influenciar efetivamente as políticas públicas. Isso
aprofunda desigualdades e perpetua estruturas excludentes, uma vez que grande
parte da população deixa de participar ativamente da construção das decisões
que impactam sua própria realidade. Esse afastamento dos espaços de
participação também compromete a formação de uma cultura baseada no diálogo, no
respeito às diferenças e na busca por soluções coletivas. Sem essa vivência, a
cidadania torna-se limitada, e a democracia perde sua dimensão participativa,
tornando-se mais vulnerável à deslegitimação e ao enfraquecimento
institucional.
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Cuidar da memória é um dever histórico
A
desconexão com a história também enfraquece a valorização de direitos
conquistados ao longo de décadas. Liberdades civis, garantias constitucionais e
avanços democráticos passam a ser vistos como dados naturais, e não como
resultados de lutas históricas, o que reduz a disposição coletiva para
defendê-los diante de ameaças. Assim, além de o esquecimento empobrecer o
conhecimento histórico, também compromete a própria capacidade da sociedade
para preservar e aprofundar a democracia (ainda que burguesa). Por outro lado,
a atuação de setores políticos e midiáticos que relativizam
ou negam os crimes da ditadura contribui significativamente para esse
apagamento.
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Narrativas
revisionistas, que apresentam o regime ditatorial como um período de “ordem” e
de “progresso”,
ganham espaço no debate público, confundindo a opinião popular e enfraquecendo
o reconhecimento das violações cometidas. Nesse contexto, discursos de figuras
públicas como o último ex-presidente (felizmente hoje presidiário) reforçam
essa tendência, ao adotar posicionamentos que minimizam ou relativizam a
gravidade da ditadura militar, por vezes exaltando
aspectos do regime e seus agentes. Ao tratar o período autoritário de forma
simplificada ou positiva, tais narrativas enfraquecem o reconhecimento das
práticas de repressão, de censura e de violência institucional, além de
dificultarem o avanço de uma memória coletiva crítica e fundamentada.
Outro
fator que contribui para a diluição da memória histórica acerca da Ditadura é a
própria desigualdade social brasileira, que também desempenha um papel
importante nesse contexto. Para parcelas significativas do nosso povo
(sobretudo aquelas historicamente marginalizadas), a luta cotidiana pela
sobrevivência na maioria das vezes se sobrepõe à reflexão sobre o passado
histórico. A memória, nesse sentido, torna-se um privilégio, acessível
principalmente a grupos com maior acesso à educação e à informação. Porque
entre essas populações mais vulnerabilizadas, a ausência de políticas públicas
eficazes de educação e de valorização da memória contribui para o
distanciamento em relação a esse tipo de reflexão, perpetuando um ciclo de
invisibilização do passado. Embora iniciativas como comissões da verdade tenham
buscado investigar os crimes da ditadura, seus resultados ainda são pouco
difundidos e não alcançam amplamente a sociedade. A ausência de museus,
memoriais e espaços de reflexão acessíveis e valorizados contribui para o
distanciamento da população em relação a esse período histórico.
Também
é importante destacar o papel da cultura política brasileira — historicamente
marcada por conciliações e pela evitação de conflitos abertos. Essa tendência
favorece o esquecimento em detrimento do enfrentamento e permite que feridas
históricas permaneçam abertas, porém invisibilizadas. Nesse contexto, o racismo
estrutural se insere como um exemplo emblemático, pois, ao longo da história,
as violências e exclusões sofridas pela população
negra foram
frequentemente silenciadas ou naturalizadas, sem o devido reconhecimento ou
reparação. Essa lógica tem contribuído para a manutenção de desigualdades
profundas que a sociedade brasileira insiste em encobrir, revelando uma cultura
política que privilegia a acomodação em vez da transformação.
Diante
desse quadro, torna-se evidente que o esquecimento do golpe de 1964 (e de seus
desdobramentos) é resultado de múltiplos fatores estruturais, políticos e
culturais. Combater esse apagamento exige um esforço coletivo que envolva
educação de qualidade, políticas públicas de memória, valorização da pesquisa
histórica e compromisso com a verdade. Porque lembrar é uma condição
fundamental para não incorrer nos mesmos erros do passado. Uma sociedade que
não reconhece plenamente os erros de sua história corre o risco de repeti-los.
Por isso, cuidar da memória do golpe de 1964 e da ditadura que se seguiu é
um dever histórico, mas, sobretudo, um imperativo ético e político para o
Brasil contemporâneo.
Fonte:
Por Verbena Córdula, em Diálogos do Sul Global

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