Segredo
da dieta saudável está na regularidade
Se você
se esforça para manter uma dieta saudável, mas vive escorregando e recorrendo a
alimentos ultraprocessados, saiba que pode estar minando qualquer efeito
positivo que os dias "comportados" podem ter na sua microbiota
intestinal.
Um
estudo da Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL), na Suíça, concluiu que
uma dieta baseada em frutas, vegetais e fibras só tem impacto positivo na saúde
quando seguida regularmente.
Ou
seja, alternar uma dieta saudável, com ampla gama de valores nutricionais, e o
consumo de fast food, alimentos açucarados ou ricos em sal, pode desequilibrar
a microbiota intestinal (microrganismos que povoam o intestino).
"Não
dá para cair de boca nos vegetais no seu 'dia saudável' e depois comer mal pelo
resta da semana ou mês", disse Marcel Salathé, chefe do laboratório
epidemiológico digital da EPFL, em comunicado divulgado pela instituição.
"O consumo irregular de alimentos saudáveis, na verdade, anula muitos dos
seus benefícios para a microbiota intestinal."
<><>
Segredo na consistência
Os
pesquisadores lembram que sempre houve o entendimento de que se alimentar bem
regularmente é importante, como sugerem diversas campanhas que incentivam as
pessoas a comer cinco frutas e vegetais por dia. Mas pontuam que isso, até
agora, "tem sido apenas um pressentimento".
Mas as
conclusões do estudo "enfatizam que tanto a qualidade quanto a
regularidade da ingestão alimentar podem ser cruciais para a manutenção de um
microbioma intestinal saudável". Por isso, eles defendem "uma
abordagem mais detalhada às recomendações nutricionais, que considere não
apenas o que comemos, mas também a consistência com que consumimos alimentos
benéficos".
<><>
Análise de dados com ajuda de inteligência artificial
Com a
ajuda da inteligência artificial , os pesquisadores analisaram os hábitos
alimentares de mil participantes, examinando fotos de alimentos e códigos de
barras de produtos.
A
partir da coleta e análise de dados em larga escala, eles concluíram que a
regularidade com que alimentos saudáveis são consumidos é tão importante
quanto, ou até mais, do que a quantidade. "Isso é um verdadeiro incentivo
para que estudos futuros analisem não apenas o que as pessoas comem, mas também
os padrões do que comem ao longo do tempo", observou Salathé.
Os
pesquisadores também descobriram que a dieta de uma pessoa pode ser prevista
com 85% de precisão pela análise de sua microbiota por meio das fezes, e que
essa previsão também funciona de forma inversa para determinar a composição dos
microrganismos intestinais. O estudo, publicado na revista Nature
Communications, foi conduzido pelo Laboratório Digital de Epidemiologia da EPFL
em colaboração com a Universidade da Califórnia, em San Diego (Estados Unidos).
<><>
No que consiste uma dieta saudável?
Fibras
alimentares, predominantemente encontradas em frutas, vegetais, grãos integrais
e leguminosas, promovem uma melhor saúde geral ao aumentar a presença de
bactérias benéficas no intestino.
Em
contraste, dietas com baixo teor de fibras e ricas em alimentos processados, a
exemplo da típica dieta ocidental, contribuem para uma microbiota menos diversa
e menos estável. O resultado é um maior risco de proliferação de bactérias
patogênicas e problemas de saúde associados, como obesidade, diabetes tipo 2 e
doença inflamatória intestinal.
• Desinformação prejudica aceitação de
dieta saudável
Uma
dieta saudável, não só para humanos, mas também para o planeta, incluiria um
cardápio variado e rico em nozes, legumes, grãos integrais, frutas e verduras e
com menos carne, lacticínios e açúcar. Essa é conclusão da Comissão EAT-Lancet,
um órgão científico independente que trabalha com a influente revista médica
britânica.
O grupo
apresentou nesta sexta-feira (03/10) uma atualização de seu relatório divulgado
em 2019 sobre dietas saudáveis que também são benéficas para o meio ambiente.
"Os sistemas alimentares geram cerca de 30% das emissões globais de gases
do efeito estufa", destaca Johan Rockström, copresidente da comissão e
diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático.
Rockström
ressalta que novas pesquisas realizadas em mais de 35 países mostram que
incluir alimentos saudáveis nas diretrizes alimentares, combater a perda e o
desperdício de alimentos, escolher produtos locais e adotar práticas agrícolas
sustentáveis podem reduzir o estresse ambiental e cortar essas emissões em mais
da metade, além de prevenir até 15 milhões de mortes prematuras por ano.
"Unir
as últimas descobertas científicas sobre saúde e clima mostra que o colocamos
no nosso prato pode salvar milhões de vidas, cortar bilhões de toneladas de
emissões, interromper a perda de biodiversidade e criar um sistema alimentar
mais justo", pontua.
Apesar
da ampla aceitação dessa "dieta da saúde planetária", essa mensagem
não foi recebida nas comunidades online dedicadas a promover dietas a base de
carne como naturais, essenciais e ecologicamente corretas. O relatório
original, publicado em 2019, enfrentou uma enxurrada de desinformação nas redes
sociais, com a propagação de conteúdo enganoso e tendencioso que desacreditava
as descobertas.
<><>
Campanha coordenada
A
plataforma de reportagem especializada no clima DeSmog publicou em abril um
documento que parecia atribuir a reação negativa à consultoria global de
relações públicas Red Flag, que representa a indústria da carne e de
laticínios. A DW contatou a Red Flag sobre a acusações, mas não obteve resposta
até a publicação da reportagem.
"A
comida é algo que conecta as pessoas. Todos têm uma conexão muito pessoal com a
comida. Se você apela para essa agenda do individualismo, pode realmente
provocar e motivar as pessoas", avalia Maddy Haughtin-Boakes, da Fundação
Mudando Mercados, uma ONG holandesa que apoia soluções que beneficiam a
sociedade e o meio ambiente.
Uma
investigação da Fundação Mudando Mercados revelou uma campanha coordenada para
desacreditar o relatório divulgado em 2019, que contou com a participação de
cientistas, médicos e influenciadores ligados à indústria da carne. Nessa ação,
o documento foi classificado como "perigoso, elitista e
anticientífico".
"Na
época, grande parte da reação negativa foi apresentada como orgânica. Hoje,
sabemos que ela não foi orgânica", acrescenta Haughtin-Boakes.
Para
essa ação coordenada contra o relatório, influenciadores marcavam e
compartilhavam conteúdos entre si, usando palavras e hashtags semelhantes ou
idênticos, para promover os supostos benefícios da carne para a saúde e para o
meio ambiente.
Haughtin-Boakes
avalia que, diante da instabilidade geopolítica e da alta dos preços nos
alimentos, a atualização do documento divulgada nesta sexta também deverá ser
alvo de ataques nas redes. Muitos dos que promoveram a campanha em 2019
continuam ativos, e alguns com um alcance ainda maior.
"A
promoção de dietas carnívoras se tornou popular agora", afirma
Haughtin-Boakes, destacando a influência da machosfera nesse cenário e do
movimento Maga nos EUA, de Donald Trump. "Globalmente, há esse boom de
proteínas e a ideia de que você precisa consumir grandes quantidades de carne e
proteína animal para sua saúde."
<><>
Redes sociais e IA
Segundo
Haughtin-Boakes, o enfraquecimento de unidades de verificação de fatos e das
salvaguardas contra informações enganosas nas plataformas de redes sociais,
como o X, Instagram e Facebook, no último ano ajudaram a espalhar a
desinformação. O surgimento de ferramentas de inteligência artificial (IA) que
impulsionaram a divulgação de notícias falsas e vídeos e imagens de deepfake
reforçaram esse cenário.
Em um
artigo do Grupo de Estudos Geopolíticos, baseado em Paris, o sociólogo Jose
Henrique Bortoluci e Emmanuel Guerin, diretor executivo para Políticas Globais
da Fundação Europeia do Clima, afirmaram que a relativa liberdade das redes
sociais fomentou um ambiente propício à desinformação climática.
"Indivíduos
oportunistas aproveitam esse ambiente para gerar ceticismo e espalhar
desinformação. Eles dominaram a arte de imitar 'especialistas' ou de
desacreditá-los, exemplificado pelo surgimento de pseudoespecialistas e grupos
de estudos voltados a desacreditar a ciência climática", escreveram em
julho.
À DW,
Bortoluci defendeu a regulamentação de redes sociais, assim como já ocorre com
os meios de comunicação e a publicidade. Ele pontou que as plataformas precisam
ser corresponsabilizadas para enfrentar esse problema.
<><>
Recuperando a narrativa
Rockström
acredita que a atualização do relatório, apresentada na sexta, está preparado
para enfrentar o novo ataque com sua avaliação científica global rigorosa.
"Não estamos ditando nenhum tipo específico de dieta única para
todos", acrescenta, rebatendo uma interpretação equivocada comum do
relatório de 2019.
Walter
C. Willett, professor de epidemiologia e nutrição na Escola de Saúde Pública da
Harvard T.H. Chan, em Boston, destacou que a dieta da saúde planetária é
semelhante a muitas dietas tradicionais ao redor do mundo.
Exemplos
desse plano alimentar saudável são exibidos no site do relatório em uma série
de imagens, segundo ele – uma aparente tentativa de se conectar com o público e
recuperar o que Bortoluci e Guerin chamaram de "narrativa emocional"
sequestrada pela desinformação.
"As
imagens mostram que não estamos falando de uma dieta de privação",
acrescenta Willett. "Estamos falando de algo que pode ser saboroso,
inspirador e saudável."
Fonte:
DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário