Irmãos
– uma história do PCC
Nos
idos de 1993, no Vale do Paraíba, interior do estado de São Paulo, surgia uma
organização criminosa voltada à reivindicação de direitos humanos mínimos para
os encarcerados. Trinta e três anos depois, o Primeiro Comando da Capital se
tornou a maior facção do país, envolvida no tráfico internacional de drogas,
mercado que movimenta quantias bilionárias anualmente. Gabriel Feltran narra
essa história de maneira eloquente e com retórica voltada ao esclarecimento,
visando ao público amplo, e recobre, a partir dos seus mais de vinte anos de
pesquisas etnográficas sobre o grupo e afins, a história de fundação e vigência
do Comando. Desde a estrutura da organização, que pode surpreender pela
metáfora da maçonaria, passando pela pauta de um código de conduta e forma de
justiça periféricos, até a sensação de hegemonia que o grupo transmite nas
periferias paulistas e quiçá brasileiras, encontramos em Irmãos: uma história
do PCC a síntese de anos de pesquisas, acumulados coletivamente, sobre um dos
fenômenos sociais mais relevantes das últimas décadas.
De forma não linear, o autor aborda diferentes
aspectos da formação e consolidação da Família, alcunha como também é conhecido
o PCC. Devido ao espaço desta resenha, vou me concentrar em alguns destes,
especialmente sua estrutura organizacional, o código de conduta chamado
proceder e o mercado bilionário do tráfico internacional de drogas, cuja ponta
menor e mais letal é o assalto a carros na cidade de São Paulo.
A
maneira encontrada pelo grupo para se agrupar como organização, quando da sua
fundação na Casa de Detenção de Taubaté, em 1993, foi a forma tradicional
piramidal. Seu lema Paz, Justiça e Liberdade trazia os princípios básicos da
facção, que orientariam sua conduta em busca de direitos para os presos; a
força física seria utilizada quando necessário, seguindo o que depois fora
cristalizado em verso pelo rap do Racionais MC’s: “conseguir a paz de forma
violenta”. A propósito, há um quadro de referência constante no livro do
sociólogo que estabelece um diálogo com parte da música popular brasileira,
utilizada para ilustrar passagens da sua prosa. O grupo de rap Racionais MC’s é
um dos mais citados, não à toa, já que sua estética está impregnada do mesmo
processo social que engendrou o PCC, especialmente no que toca ao código de
conduta periférico chamado proceder. Suas músicas em Sobrevivendo no Inferno
(1997), por exemplo, a todo momento remetem a uma situação dialógica,
envolvendo um locutor e um ouvinte, e a mensagem enviada é normativa, visando a
um ajustamento de conduta a partir da lógica do proceder, que se pauta por leis
não escritas, valor da palavra, honra, lealdade. Portanto, quando ouvimos
“ninguém é mais que ninguém”, lembramos do segundo lema do PCC e do próprio
proceder, incorporado após guerra interna em que os antigos líderes são
assassinados, e prevalece a visão de mundo do grupo a que pertence Marcos
Camacho, o Marcola, figura mais conhecida da mídia em geral, erroneamente
chamado de líder máximo da organização: paz, justiça, liberdade e igualdade.
Mas
voltemos à primeira questão: por que maçonaria? Após comparar a arquitetura
organizacional do grupo com o Comando Vermelho, por exemplo, facção que é
ex-aliada, a partir de 2016 rival do PCC, é possível distinguir duas maneiras
de estruturação, vinculadas ao propósito do grupo e à sua forma de atuação: o
modelo empresarial e o modelo de comando militar. Ambas pressupõem a estrutura
piramidal, com alguém no comando e demais membros subordinados – uma hierarquia
estável e previsível. A lógica empresarial visa o lucro em primeiro lugar; o
comando militar foca no controle de territórios. O PCC também trabalha a partir
desses dois vieses, no entanto, não se estrutura desta forma: seu telos não é o
lucro, é a reivindicação de direitos humanos para os presos, e o dinheiro é
parte essencial para financiar ações nesse sentido. Também não visa
essencialmente o território, embora também trave guerras por eles; prefere,
entretanto, regular os mercados ilegais da cidade invés de controlá-los através
de poder bélico. Dito de outra forma, é mais vantajoso, na visão da facção, dar
a sensação de hegemonia nas periferias a partir da regulação do preço da droga
e da maneira como proceder em situações de conflito a guerrear por territórios
para implementar sua política.
Assim,
a partir de 2001, quando da guerra interna que culmina no assassinato de
Cesinha e leva à exclusão de Geleião, antigos líderes da facção, visto por
outros membros como autoritários, a palavra “igualdade” é incorporada ao lema e
ao estatuto, e a forma de organização da facção passa a ser horizontal,
dividida em grupos chamados “sintonias”, cada um com seu propósito, informação
compartimentada, tudo sob a égide do proceder. Essa é uma das razões pelas
quais é muito difícil o controle estatal sobre o Comando, já que o PCC segue o
preceito, nas palavras do cientista social, da “arte da chefia sem mando”, com
sintonias com total autonomia para seu propósito; é a tarefa/posição política
que está em destaque, não os sujeitos. Por não ser personalista, dificulta o
rastreio por parte das instituições de segurança. Do ponto de vista de pessoal,
os membros podem ser muito diferentes entre si, envolvendo classe, raça,
profissão, mas todos estão comprometidos com os deveres internos à facção, seja
por contribuição financeira ou por providenciar algo privado que seja de ajuda
à facção ou a algum membro dela em determinado assunto. Disto que depreende o
autor o entendimento da organização como sociedade secreta, daí a metáfora da
maçonaria.
O PCC
cresceu de maneira tão forte nos presídios e nas periferias porque conquistou
credibilidade entre as pessoas por suas políticas de gestão de conflitos, os
chamados debates. Trata-se de uma instância jurídica informal, e funciona como
um julgamento, com membros do PCC ouvindo e julgando desde problemas de relação
entre pessoas, algo menor, até brigas por pontos de tráfico. Há diversos
relatos no livro e em outros trabalhos sobre o tema, de pesquisadores como
Daniel Hirata ou Adalton Marques, que exemplificam tais momentos. Ao se pautar
pelo certo, o PCC proibiu mortes por vingança, extinguiu a extorsão e depois
baniu o crack de dentro dos presídios, ganhando notoriedade e confiança entre
os presos, mesmo os que não eram membros da facção. Esse modus operandi
responde a um processo social de décadas das periferias urbanas paulistas, e
que é institucionalizado pelo grupo a partir da virada dos anos 1990 e 2000
através dessa justiça periférica com estatuto de lei. Por trás dessa lógica
está o proceder, o código de conduta que, nas palavras de outro sociólogo,
Daniel Hirata, busca conferir condições dignas de vida entre as pessoas, cujo
cotidiano é de extrema violência. É neste ponto, embora o autor não aprofunde,
já que não é seu escopo, que a comparação com o Racionais se torna além de
profícua, necessária. Como dito, compartilham o processo social da periferia
urbana paulista durante o século XX, e portanto vivem cotidianamente sob a
égide do proceder; em “To ouvindo alguém me chamar”, por exemplo, o narrador
narra sua própria morte, acusado de traição. É possível imaginar que, de forma
elidida, esteja presente na narrativa cancional um processo de debate em que o
personagem foi considerado culpado por traição, valor primordial do proceder –
a caguetagem, conforme gíria periférica, se paga com morte.
Nem
tudo são flores, isto é certo, em um cotidiano “suicida”, para mais uma vez
citar o grupo de rap paulista. O próprio sociólogo aborda en passant que a
gestão de conflitos operada pelo PCC, que ajudou a pacificar as periferias
urbanas paulistas, fazendo despencar os números de homicídios, por exemplo, vem
recebendo críticas atualmente – no caso, 2018, ano da redação do texto – devido
a uma possível ineficácia ou displicência. Dito de outra forma, o PCC se
agigantou e portanto tem problemas mais importantes para se ocupar do que a
manutenção da paz nos territórios em que é hegemônico – diga-se de passagem,
não necessariamente é preciso que haja irmãos do Partido em determinada
periferia para que ela corra com o PCC. A facção tornou-se hegemônica, dentre outros
motivos, pela capacidade de pulverizar sua forma de agir, a partir da regulação
do preço dos mercados ilegais e buscando evitar conflitos armados com rivais.
Há,
naturalmente, que se duvidar do objetivo algo romântico de que o foco do grupo
são os direitos humanos para os presos, e que o crime é um meio de
viabilizá-lo; e há, por outro lado, que se perguntar por que a faixa etária de
jovem negro pobre, morador de periferia urbana segue sendo a mais letal nas
estatísticas de segurança pública do estado de São Paulo. Feltran arquiteta bem
a relação desse grupo social, responsável pela maioria dos roubos de carro em
São Paulo, mercado amplamente lucrativo, seja na esfera legal de leilões, por
exemplo, ou no ilegal, com a troca dos carros por pasta-base de cocaína na
fronteira com a Bolívia. Ao mesmo tempo em que o PCC trouxe estabilidade e
diminuição de mortes nas periferias urbanas paulistas, o grupo social citado
anteriormente segue liderando as estatísticas de mortes precoces no estado de
São Paulo – 59% dos mortos pela polícia em São Paulo estão envolvidos em roubo
ou furto a veículos, segundo dado da época trazido pelo autor –, isto porque
fazem parte de uma cadeia de negócios onde muito dinheiro circula, que é o
tráfico internacional de drogas. Feltran indica que, se bem sucedidos, esse
mercado fronteiriço pode girar em torno de R$ 44 bilhões anuais.
Contraditoriamente, a relação anteriormente estabelecida com o Racionais agora
inverte de sinal; o diálogo passa a se dar pela primazia do grupo social de
homem jovem negro pobre, de periferia urbana, que pode estar inserido em
mercados ilegais, no centro do debate de segurança pública em São Paulo. Para o
grupo de rap, este é o interlocutor principal de suas letras para a partir do
proceder buscar a sobrevivência; para o Comando, este é um elemento menor na
grande rede do tráfico internacional, cuja violência da repressão estatal
reverbera no lado mais fraco, lado que se associa ao PCC justamente por se fiar
a seus métodos de gestão de conflitos e diminuição de mortes.
Escrito
de forma muito didática, com muitos dados, exemplos empíricos e entrevistas,
Gabriel Feltran nos apresenta uma interpretação seminal sobre um fato social
relevante e desafiador do nosso tempo. Na década de 1990, quando finalmente o
neoliberalismo se consolida na América Latina, depois de sua eficácia como
perpetuador das desigualdades sociais na Europa ocidental e nos Estados Unidos,
no Brasil, em Taubaté, surge um grupo que irá se compactuar à lógica da
internacionalização dos mercados, mas em chave diversa.
*(Comentário
sobre o livro de Gabriel Feltran. Irmãos: uma história do PCC)
Fonte:
Por Rodrigo Mendes, em A Terra é Redonda

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