sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Preocupado com o Alzheimer? Comece a caminhar, sugere novo estudo

Se você precisava de mais um motivo para dar seus passos diários, a ciência acaba de te dar um. Um novo estudo mostra que caminhar todos os dias pode reduzir o risco de declínio cognitivo — especialmente entre pessoas com predisposição genética para a doença de Alzheimer.

Quase 3.000 participantes, com idades entre 70 e 79 anos, relataram seus hábitos diários de caminhada ao longo de 10 anos, segundo uma pesquisa que será apresentada nesta terça-feira (29) na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer.

Aqueles que mantiveram ou aumentaram seus níveis de caminhada ao longo dos anos apresentaram melhorias mais significativas na velocidade de processamento e na função executiva do cérebro.

Os benefícios da caminhada foram especialmente visíveis entre os que têm predisposição genética para desenvolver Alzheimer, de acordo com o estudo preliminar, que ainda não foi revisado por pares nem publicado em revista científica.

“Sabemos que o comportamento sedentário tende a aumentar com a idade, enquanto a atividade física diminui”, afirmou a autora sênior do estudo, Dra. Cindy Barha, professora assistente de cinesiologia na Universidade de Calgary, em Alberta.

“Por isso, recomendamos reduzir o tempo sentado introduzindo pequenas caminhadas ao longo do dia, entre os períodos em que for necessário ficar sentado.”

<><> Como funciona a doença de Alzheimer?

A doença de Alzheimer é uma forma grave de demência, que se acredita ser causada pelo acúmulo de placas nocivas no cérebro. Essas placas interferem na comunicação entre os neurônios, o que eventualmente leva à morte dessas células nervosas, explicou Barha.

À medida que mais células nervosas morrem, pessoas com Alzheimer podem desenvolver perda progressiva de memória, confusão, mudanças de personalidade e declínio físico. Com o tempo, a doença pode ser fatal — e, até o momento, não há cura conhecida.Acredita-se que a genética tenha um papel importante no desenvolvimento da doença.

Em particular, genótipos chamados APOE afetam o metabolismo das placas e de outras gorduras no sangue. Uma variação específica, o APOE4, dificulta a eliminação dessas placas pelo cérebro e está associada a um risco maior de declínio cognitivo.

Cerca de 15% a 25% da população possui essa versão do gene APOE, e a única maneira de saber é por meio de um teste genético, segundo dados dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA.

<><> A conexão mente-corpo

Embora o novo estudo não tenha seguido um regime de caminhada padronizado, Barha recomenda caminhar várias vezes ao dia para interromper o comportamento sedentário e manter esse hábito de forma consistente ao longo dos anos, como forma de prevenir o declínio cognitivo.

“Precisamos de mais pesquisas para determinar quantos passos seriam realmente necessários, mas, de forma geral, mais é sempre melhor”, afirmou. “Os próximos passos incluem descobrir a quantidade mínima de caminhada ideal para diferentes grupos, como mulheres versus homens, ou pessoas com o gene APOE4 versus aquelas sem essa variante.”

Um estudo de 2022 descobriu que até mesmo pessoas que caminhavam cerca de 3.800 passos por dia — em qualquer ritmo — reduziram o risco de demência em 25%.

O que pode estar acontecendo entre o cérebro e o restante do corpo? Especialistas têm várias teorias.

Uma delas é que o exercício físico regular estimula o corpo a produzir uma proteína chamada fator neurotrófico derivado do cérebro, ou BDNF — comparada a um “fertilizante” para o cérebro, pois ajuda no crescimento de novas células e na formação de novas conexões neurais, explicou Barha.

“Acreditamos que proteínas liberadas pelos músculos viajam até o cérebro e, ao atravessarem ou agirem na barreira hematoencefálica, iniciam uma reação que, eventualmente, leva ao aumento dos níveis de BDNF dentro do cérebro”, disse ela.

Outra teoria é que o exercício físico ajuda a reduzir a neuroinflamação, um sintoma comum da doença de Alzheimer. O cérebro envia células imunológicas chamadas micróglias para atacar o acúmulo de placas, mas isso pode ter um efeito contrário, explicou a Dra. Christiane Wrann, professora associada de medicina no Centro de Pesquisa Cardiovascular do Massachusetts General Hospital e na Harvard Medical School.

A inflamação crônica pode fazer com que as micróglias comecem a atacar também células cerebrais saudáveis, danificando as conexões do cérebro.

“Quando você se exercita, na verdade fortalece o programa de expressão genética que as micróglias precisam para funcionar corretamente”, afirmou Wrann.

<><> Maior risco, maior benefício?

Os pesquisadores ficaram surpresos ao descobrir que a caminhada trouxe maiores benefícios justamente para as pessoas com o gene APOE4, em comparação com aquelas que não o possuem. Para entender melhor esse fenômeno, mais estudos serão necessários — mas Barha já tem uma hipótese.

“Antes do início do estudo, acreditamos que os portadores do gene APOE4 tinham mais espaço para evoluir cognitivamente, já que possivelmente já estavam apresentando algum grau de declínio cognitivo”, disse Barha.

“Eles também tinham mais margem para demonstrar melhorias.” É possível que o próprio estudo tenha motivado os participantes portadores do gene APOE4 a caminharem mais do que faziam antes, desacelerando assim o ritmo do declínio cognitivo.

“Esse é um exemplo claro de que nunca é tarde para começar a se exercitar”, afirmou Wrann. “Cada passo conta, e é muito melhor adotar uma rotina de exercícios que você realmente goste e consiga manter.”

•        A importância da avaliação precoce dos sinais iniciais do quadro

Dificuldades eventuais de memória são comuns no envelhecimento. No entanto, quando esquecimentos se tornam frequentes, progressivos e interferem nas atividades diárias, podem indicar o início de um processo neurodegenerativo.

Identificar precocemente os sinais do Alzheimer permite iniciar o acompanhamento clínico de forma oportuna e preservar a qualidade de vida do paciente.

<><> Déficits cognitivos iniciais: mais do que lapsos de memória

A doença de Alzheimer caracteriza-se, inicialmente, por alterações sutis na memória episódica, especialmente a capacidade de reter novas informações. Os sinais iniciais podem incluir:

•        esquecimento recorrente de eventos recentes;

•        repetição de perguntas ou histórias em curtos intervalos;

•        dificuldade em acompanhar conversas ou instruções sequenciais;

•        esquecimento recorrente de objetos ou compromissos.

Esses déficits tendem a ser mais evidentes em tarefas que exigem memória de curto prazo e atenção, afetando a autonomia do indivíduo de maneira progressiva.

<><> Alterações comportamentais e neuropsiquiátricas

Além do comprometimento cognitivo, o Alzheimer pode apresentar sintomas comportamentais e emocionais. Entre os mais frequentes:

•        apatia ou perda de iniciativa;

•        alterações de humor, como irritabilidade ou depressão;

•        comportamento desconfiado ou paranoide;

•        dificuldade em lidar com mudanças na rotina;

•        redução da capacidade de julgamento ou tomada de decisões.

Estes sinais são, muitas vezes, percebidos primeiro pelos familiares e cuidadores próximos.

<><> Avaliação neurológica: um passo essencial

O diagnóstico precoce do Alzheimer é clínico e deve ser realizado por um especialista, com base em:

•        entrevista detalhada com o paciente e familiares;

•        testes neuropsicológicos padronizados;

•        avaliação funcional das atividades de vida diária;

•        exames laboratoriais para exclusão de outras causas (como distúrbios tireoidianos ou carência de vitaminas);

•        neuroimagem (ressonância magnética ou tomografia), quando indicado.

A detecção precoce também permite diferenciar o Alzheimer de outras causas de demência, como demência vascular e demência por corpos de Lewy.

<><> Intervenção precoce: impacto no prognóstico

Embora a doença de Alzheimer não tenha cura, o diagnóstico em estágios iniciais oferece múltiplos benefícios:

•        introdução precoce de terapias medicamentosas e não medicamentosas;

•        planejamento familiar e suporte psicossocial estruturado;

•        redução de riscos de eventos adversos relacionados à perda de autonomia;

•        maior tempo de preservação da função cognitiva com intervenções multidisciplinares;

•        participação em pesquisas clínicas.

Ainda que sua causa seja desconhecida, alguns fatores de risco podem estar atrelados ao desenvolvimento da doença, como: idade, histórico familiar, fatores genéticos, doença cardiovascular, obesidade, diabetes e tabagismo.

<><> Conclusão

A identificação dos sinais precoces do Alzheimer é uma etapa fundamental no cuidado neurológico do idoso. Ao menor indício de alteração de memória, linguagem ou comportamento, recomenda-se procurar avaliação especializada. O acompanhamento contínuo, aliado a estratégias terapêuticas personalizadas, pode fazer grande diferença na trajetória da doença.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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