Conseguirá
a Dinamarca salvar as metas ambientais da UE?
As ruas
de Aarhus, a segunda maior cidade da Dinamarca, estão repletas de indícios de
que este é um país com consciência climática. Máquinas de reciclagem de
garrafas saúdam os pedestres em intervalos regulares; as ciclovias estão
repletas de ciclistas, faça chuva ou faça sol, muitas vezes com crianças ou
cargas a reboque. Na baía onde o estreito de Kattegat conecta os mares Báltico
e do Norte, turbinas ajudam a gerar mais energia eólica por pessoa do que quase
qualquer outro país do mundo.
Foi
aqui que o país nórdico escolheu iniciar sua gestão rotativa de seis meses,
iniciada mês passado, à frente do Conselho da União Europeia, órgão que
representa os 27 Estados-membros da UE.
Na
Dinamarca, uma palavra que saiu de moda nos círculos de formulação de políticas
europeias entrou nas prioridades declaradas do país: "verde".
"Há muito em jogo", disse o ministro do Clima e Energia, Lars
Aagaard, à DW, no início da presidência dinamarquesa da UE.
<><>
Maré virou contra as políticas verdes da UE
Já se
foram os dias em que as políticas climáticas dominavam a agenda da União
Europeia; quando os manifestantes nas greves pelo clima nas escolas, nos
protestos que ocorriam em cidades de todo o bloco, levaram os formuladores de
políticas a elaborarem o chamado Acordo Verde Europeu, chamado de "momento
homem na lua" da Europa pela Comissão Europeia em 2018.
Desde
então, as realidades de uma geopolítica radicalmente mutável têm impactado como
uma bola de demolição a consciência política europeia – desde a invasão da
Ucrânia pela Rússia, em 2022, e a consequente crise energética e inflacionária,
até as tarifas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e os crescentes
temores existenciais nas indústrias europeias, da indústria automobilística à
química.
Os
partidos verdes sofreram duras derrotas na maioria dos países nas eleições
europeias do ano passado, após o que muitos analistas chamaram de reação contra
as políticas ambientais.
<><>
Proteção climática enfrenta concorrência
As
grandes promessas da UE de reduzir as emissões já foram consagradas em lei,
permitindo que o bloco mantenha sua reivindicação de liderança climática no
cenário global – especialmente com a saída dos EUA do Acordo Climático de
Paris.
Mas,
pouco a pouco, elementos menos relevantes da legislação verde europeia estão
sendo criticados em debates sobre como aliviar a pressão sobre as empresas para
ajudar a UE a competir com países como China e EUA.
"Apoiamos
uma política climática impulsionada pela inovação, investimento e
responsabilidade; não por proibições radicais ou ideologia", disseram
líderes do maior grupo político no Parlamento da UE, o Partido Popular Europeu
(PPE), de centro-direita, em comunicado no final do mês passado. "Somos
ambiciosos, mas pragmáticos", escreveram.
Embora
esses líderes tenham elogiado uma série de planos de redução da burocracia
apresentados pelo Executivo da UE, os ativistas em defesa do clima rejeitaram
as medidas. Recentemente, Bruxelas também provocou a ira dos grupos
ambientalistas ao arquivar projetos de regras contra o greenwashing ou lavagem
verde – a estratégia de marketing adotada por algumas empresas para projetar
uma imagem como sendo melhor para o meio ambiente do que realmente são.
<><>
Energias renováveis para a defesa da Europa?
Para
manter viva a ação climática, a Dinamarca busca novas maneiras de estruturar
sua argumentação, apresentando a transição verde como um elemento-chave na
tentativa da Europa de impulsionar sua autonomia militar.
"A
mudança climática tem a ver com defesa. A autonomia estratégica da Europa está
ameaçada, em parte porque somos extremamente dependentes da importação de
combustíveis fósseis", disse o ministro Aagaard, se referindo à
dependência anterior do bloco em relação ao petróleo e gás russos e seus novos
planos de proibir gradualmente a compra dessas comodities.
"Levar
a Europa a uma posição em que possamos produzir mais da energia de que
precisamos, onde nos tornemos mais eficientes em termos energéticos, onde
criemos uma economia forte baseada em energia descarbonizada, para mim essa
também é a resposta", acrescentou.
O
governo dinamarquês, liderado pela centro-esquerda, colocou a segurança como
uma prioridade durante sua presidência da UE, sucedendo à Polônia, que ocupou o
cargo rotativo no primeiro semestre de 2025. O Ministério da Defesa dinamarquês
também foi mais longe do que a maioria dos países do bloco em sua tentativa
nacional de reforçar a autonomia militar, estendendo o recrutamento militar
obrigatório às mulheres.
<><>
O rearmamento e as emissões de carbono
Ainda
assim, pesquisadores reconhecem que a corrida da Europa para se rearmar impõe
seus próprios desafios à formulação de políticas climáticas.
Os
dados sobre emissões ligadas aos trabalhos militares tendem a ser
ultrassecretos. O pesquisador Jens Mortensen afirma que a busca por materiais
mais críticos, como metais de terras raras, pode "atrasar ou desacelerar a
transição verde".
"No
curto prazo, os gastos com defesa são priorizados e haverá uma preocupação com
o que isso fará com nossas emissões", disse Mortensen, cientista político
que leciona governança ambiental global na Universidade de Copenhague, à DW.
"Mas
agora provavelmente precisamos fazer isso. Esse é o sentimento no Norte europeu
precisamos. [por que] nos sentimos muito expostos."
<><>
Futuras batalhas sobre cortes de emissões
Nem
todos os Estados-membros da UE compartilham a avaliação dos dinamarqueses de
que a adoção de uma postura verde equipará a UE para se defender melhor e
competir internacionalmente.
O
desafio político que virá se tornou evidente na semana passada, quando a
Comissão Europeia propôs um novo passo juridicamente vinculativo no caminho da
UE para alcançar o nível zero nas emissões líquidas de gases de efeito estufa
até 2050.
Segundo
as propostas mais recentes, a UE deve reduzir as emissões de gases de efeito
estufa em 90% até 2040, em comparação com os níveis de 1990.
"À
medida que os cidadãos europeus sentem cada vez mais o impacto das mudanças
climáticas, eles esperam que a Europa aja", disse recentemente a
presidente da Comissão, Ursula von der Leyen.
No
entanto, Itália, República Tcheca e Polônia criticaram o projeto de lei, que
ainda precisa da aprovação dos Estados e legisladores da UE.
"Nosso
país ainda não está pronto para implementar planos tão ambiciosos", disse
a ministra do Meio Ambiente da Polônia, Paulina Hennig-Kloska, na semana
passada. "A meta de redução da UE deve ser realista e as contribuições de
cada país para alcançá-la devem ser variadas", disse ela.
Os
ambientalistas, por sua vez, ficaram decepcionados com o fato de o projeto de
lei permitir que os países incluam créditos de carbono obtidos por meio de
investimentos em projetos ambientais fora da Europa em sua contabilidade
climática.
"A
maioria das compensações internacionais não vale o papel em que estão escritas
e não fizeram nada para reduzir as emissões. Elas também são um desperdício de
dinheiro dos contribuintes", disse Michael Sicauld-Clyet, da ONG WWF na
semana passada.
Jens
Mortensen viu o acordo como um meio para atingir um fim. "Temos que ceder
em certas questões", disse ele. "É controverso, mas era necessário
convencer os céticos."
<><>
O poder limitado da Dinamarca
Convencer
os céticos será uma tarefa diária para Copenhague até o final de 2025.
Questionado se esperava que a República Tcheca e outros países aderissem às
metas de redução de emissões, Lars Aagaard disse apenas que "o tempo
dirá."
"Sei
que há preocupações de curto prazo em vários países europeus de que as
políticas de mudança climática possam ser um desafio para o desenvolvimento
econômico", acrescentou. "Mas também acho importante que todos nós
lembremos que cumprir nossas metas climáticas é parte do que deve tornar a
Europa competitiva a longo prazo."
O
pesquisador Mortesen afirma que a Dinamarca pode somente esperar manter os
países discutindo políticas climáticas, em vez de mudar a maré política, devido
aos limites de sua capacidade.
"Trata-se,
na verdade, de tentar reformular os desafios atuais e a confusão em que nos
encontramos, dizendo: 'Não se esqueçam da transição verde'. Temos consciência
de que ela deixou de ser uma das maiores prioridades."
Fonte:
DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário