sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Por que o whey protein é considerado um ultraprocessado e o que isso significa para a sua saúde

Embora seja muito popular nas dietas de quem quer ganhar massa muscular, o whey protein está dentro de uma categoria de alimentos que é considerada a principal vilã da alimentação saudável: os ultraprocessados.

⚠️Mas calma! Apesar de pertencer a essa categoria, os nutricionistas ponderam que o whey possui benefícios nutricionais, diferentemente de outros alimentos ultraprocessados, como bolachas, refrigerantes e salgadinhos (entenda em detalhes abaixo).

➡️Segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira, produtos ultraprocessados são "formulações industriais à base de ingredientes extraídos ou derivados de alimentos (óleos, gorduras, açúcar, amido modificado) ou sintetizados em laboratório (corantes, aromatizantes, realçadores de sabor, etc.)".

E o whey se encaixa justamente nesse grupo, de acordo com a Classificação Nova (que agrupa os alimentos de acordo com a natureza e o nível de processamento).

"Embora sua origem seja o soro do leite (um alimento natural), o processo de isolamento e concentração das proteínas do soro envolve diversas etapas industriais que transformam drasticamente a matriz alimentar original", explica a nutricionista e vice-presidente da Associação Brasileira de Nutrição Esportiva (ABNE), Michele Trindade.

O processo inclui filtração, secagem, adição de aditivos como emulsificantes para melhorar a solubilidade, flavorizantes (sabores), adoçantes artificiais ou naturais (como sucralose, estévia) e, por vezes, corantes para tornar o produto mais atraente e agradável ao paladar.

<><> Whey protein x salgadinhos

De acordo com os nutricionistas, ainda que os ultraprocessados sejam uma grande categoria de alimentos que, em geral, não devem ser consumidos com frequência, os níveis de processamento podem variar dentro dessa classificação.

Ao comparar o whey protein com bolachas e salgadinhos, eles destacam que a principal diferença está no propósito e impacto do consumo.

"Enquanto o whey protein é utilizado com objetivos nutricionais específicos, os biscoitos recheados, refrigerantes ou salgadinhos são ultraprocessados voltados ao consumo recreativo", compara Lívia Horácio, nutricionista pela Unifesp.

De maneira mais aprofundada, eles poderiam ser caracterizados da seguinte forma:

•        💪Whey protein:

É um concentrado de proteína de alto valor biológico, com baixo teor de carboidratos (especialmente açúcares) e gorduras. Seu propósito é fornecer uma fonte de proteína pura e de fácil acesso.

Os potenciais prejuízos vêm do seu status de ultraprocessado (pelo processamento em si e pelos aditivos), não do seu valor nutricional de proteína.

•        🥤Biscoitos recheados, refrigerantes e salgadinhos:

São caracterizados por serem ricos em açúcares adicionados, gorduras saturadas e trans, sódio e as chamadas calorias vazias, com baixo ou nenhum teor de fibras, vitaminas e minerais.

Eles são formulados para serem hiperpalatáveis e consumidos em grandes quantidades, contribuindo diretamente para o aumento do risco de ganho de peso, diabetes tipo 2 e deficiências nutricionais.

"Os prejuízos à alimentação e ao corpo não são os mesmos. Enquanto o consumo excessivo de boa parte dos ultraprocessados está diretamente associado a um maior risco de doenças crônicas devido à sua composição nutricional desequilibrada, o whey protein, quando usado apropriadamente, é uma boa fonte de proteína", afirma Trindade.

Apesar das diferenças, tanto de objetivo como dos impactos no organismo, há algumas semelhanças no processamento desses produtos:

•        Uso de aditivos: todos envolvem a adição de aditivos como flavorizantes, adoçantes (no caso do whey e refrigerantes), corantes, emulsificantes e estabilizantes para melhorar sabor, textura, aparência e validade.

•        Descaracterização da matriz alimentar original: o produto final se distancia muito do alimento in natura que lhe deu origem.

•        Altamente palatáveis: projetados para serem fáceis de consumir e agradáveis ao paladar, o que pode levar ao consumo excessivo.

<><> Problemas no excesso do consumo

Mesmo sendo um produto que pode ajudar no ganho de massa muscular e também a atingir a quantidade diária de proteínas recomendada, o consumo frequente e excessivo do suplemento pode trazer problemas.

Primeiro é importante lembrar que o whey é indicado para quem não consegue atingir a cota de proteínas necessária somente por meio da dieta.

🚨O excesso pode levar ao ganho de peso, além de já ter sido associado ao aumento do risco de doenças cardiovasculares.

E, considerando que o suplemento não deixa de ser um produto ultraprocessado, também há riscos associados ao seu processamento.

👉Segundo as nutricionistas, os principais pontos de atenção nesse sentido são:

•        Exposição a aditivos alimentares

A maioria dos wheys comerciais contém aditivos como adoçantes artificiais, aromatizantes, corantes e emulsificantes. Embora a segurança desses aditivos seja regulamentada, o consumo crônico e em grandes quantidades (especialmente se o whey for consumido diariamente por muitos anos) ainda é um tópico de pesquisa.

•        Risco da troca de alimentos por suplementos

A praticidade do whey pode levar à substituição de fontes proteicas integrais e naturais (carnes magras, ovos, leguminosas, laticínios) que, além da proteína, oferecem uma gama completa de vitaminas, minerais, fibras e compostos bioativos.

"A substituição recorrente de refeições completas por shakes proteicos pode comprometer a ingestão de fibras, fitoquímicos, vitaminas e minerais naturalmente presentes nos alimentos in natura", alerta Isabela Gouveia, nutricionista e mestre em Ciências de Alimentos pela USP.

•        Menor saciedade comparado a alimentos

Embora a proteína dê saciedade, a forma líquida ou em pó do whey pode ser menos saciante do que a proteína consumida em uma refeição sólida. Isso pode acabar levando ao consumo de mais calorias totais ao longo do dia se não houver um bom planejamento.

Trindade ainda pondera que é importante contextualizar que esses riscos são geralmente menores do que os associados ao consumo frequente de outros ultraprocessados ricos em açúcares, gorduras não saudáveis e sódio.

"O principal alerta é para o padrão alimentar global. Um plano alimentar saudável deve ser prioritariamente baseado em alimentos in natura ou minimamente processados, e o whey, se usado, deve ser um complemento e não a base da ingestão proteica", recomenda a nutricionista.

•        'Whey caseiro': mistura de proteína de soja, cacau e leite em pó é realmente eficaz? Entenda

Proteína de soja, cacau e leite em pó. Pode parecer o começo da lista de ingredientes de mais uma receita de sobremesa fitness, mas, na verdade, a combinação é uma das mais populares quando se busca por "whey caseiro" nas redes sociais.

A mistura seria uma alternativa com um custo-benefício melhor do que o whey industrializado – já que traria uma boa quantidade de proteínas por um preço bem mais acessível.

⚠️Apesar de parecer uma opção proteica interessante, os especialistas explicam que é um erro chamar a combinação de "whey caseiro". Isso porque só se pode chamar de whey os produtos que contêm a proteína do soro do leite – que são quase impossíveis de serem feitos em casa.

"O whey protein é um produto industrializado e muito difícil de ser reproduzido em casa. O produto mais próximo que a gente pode obter é o soro do leite, atrás da acidificação do leite", comenta a nutricionista Patrícia Campos Ferraz.

Michele Trindade, nutricionista e vice-presidente da Associação Brasileira de Nutrição Esportiva (ABNE), também explica que, na indústria, é realizado um processo de separação das proteínas do soro de leite por meio de diversas filtrações.

Só então o produto é desidratado e se torna o whey industrializado que é comercializado.

Ferraz, que é PhD em Bioquímica pelo Instituto de Biologia da Unicamp, ainda comenta que o nome mais indicado no caso da combinação de proteína de soja, cacau e leite em pó seria proteína em pó ou mistura proteica em pó.

<><> Mistura proteica em pó X whey protein

As nutricionistas explicam que, na prática, nenhuma mistura caseira é capaz de substituir o whey.

👉Além da necessidade de um longo processo para a extração da proteína do leite, o que impossibilita a reprodução caseira, as alternativas que usam proteína vegetal vão contar com ao menos três diferenças fundamentais:

•        Quantidade de aminoácidos

Patrícia Ferraz explica que a principal diferença entre a proteína de soja e do soro do leite é que a que é extraída do grão tem uma quantidade menor de um aminoácido chamado leucina.

➡️A leucina é um aminoácido essencial que ajuda na construção e recuperação da massa muscular, antes de ser fundamental na síntese proteica.

"Mas, levando em conta que na mistura há a adição do leite em pó, que é rico em leucina, há uma correção nessa deficiência que a proteína de soja apresenta em relação ao whey", compara a nutricionista.

Já Trindade é mais enfática e pontua que, considerando a formação das proteínas, nenhuma vai se assemelhar à proteína do leite.

"A soja, assim como qualquer outro vegetal rico em proteína ou até a albumina, presente na clara do ovo, não se assemelha na questão dos aminoácidos. É praticamente impossível ter uma composição similar", comenta.

•        Quantidade de proteína

Outro ponto destacado pelas especialistas é que a quantidade de proteína no whey é maior do que na mistura.

Isso acontece justamente porque o whey é um produto industrializado, no qual a proteína é isolada.

Michele Trindade explica que estudos já mostram que, para ter uma quantidade de proteína semelhante ao whey, seria necessário quase o dobro do extrato de soja.

"Será que existe mesmo esse custo-benefício? Porque você pode pagar mais barato na soja, mas vai ser preciso usar quase o dobro da quantidade para ter a mesma porção de proteína", alerta a nutricionista.

Além disso, ela pondera que a mistura caseira tende a ser muito mais calórica do que o whey industrializado, já que a combinação de proteína de soja, cacau e leite em pó é também é rica em carboidratos.

•        Velocidade de absorção

Por última, Ferraz também comenta que a proteína de soja é mais lentamente absorvida pelo organismo do que a proteína do soro do leite.

"A disponibilidade dos aminoácidos da proteína de soja para os músculos é mais lenta do que o whey protein. A composição da proteína de soja faz com que seus aminoácidos sejam mais utilizados a nível intestinal", explica a nutricionista.

Trindade ainda pondera que, apesar da diferença na digestibilidade entre os dois tipos de proteína, quando se analisa a síntese proteica não há um impacto muito relevante. Ela ressalta que o importante é consumir a quantidade recomendada de proteínas em 24 horas.

<><> Suplemento universal?

Assim como o whey protein, a mistura caseira teria como objetivo aumentar o consumo de proteína – mas boa parte das pessoas consegue a cota diária necessária apenas com uma alimentação balanceada.

Michele Trindade comenta que, se há uma distribuição adequada de proteínas ao longo de todas as refeições, com o consumo de ovos, derivados de leite, grãos e carnes, dificilmente a pessoa vai precisar de um complemento proteico como o whey.

"O que normalmente as pessoas que querem ganhar massa muscular erram é que não fazem a ingestão de calorias totais de forma adequada. Ou seja, foca tanto na proteína, que não presta atenção na quantidade de carboidrato consumido", analisa a nutricionista.

👉De forma geral, os especialistas indicam que o suplemento é recomendado para os seguintes casos:

•        Atletas que precisam de uma quantidade elevada de proteínas para a síntese proteica e ganho de massa muscular.

•        Idosos com perda de massa muscular própria do envelhecimento (sarcopenia).

•        Adolescentes em fase de crescimento intenso que precisam de maior quantidade de proteínas.

•        Pacientes oncológicos em tratamento com perda de massa muscular.

O whey também pode ser uma boa opção para vegetarianos ou veganos que não conseguem adequar a dieta para atingir a quantidade ideal de proteínas por dia.

🚨Mesmo com a indicação para o consumo nessas situações, as nutricionistas alertam que todos os casos exigem uma orientação adequada para o uso, com acompanhamento médico.

 

Fonte: g1

 

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