Por
que o whey protein é considerado um ultraprocessado e o que isso significa para
a sua saúde
Embora
seja muito popular nas dietas de quem quer ganhar massa muscular, o whey
protein está dentro de uma categoria de alimentos que é considerada a principal
vilã da alimentação saudável: os ultraprocessados.
⚠️Mas calma! Apesar de pertencer a essa
categoria, os nutricionistas ponderam que o whey possui benefícios
nutricionais, diferentemente de outros alimentos ultraprocessados, como
bolachas, refrigerantes e salgadinhos (entenda em detalhes abaixo).
➡️Segundo o Guia Alimentar para a População
Brasileira, produtos ultraprocessados são "formulações industriais à base
de ingredientes extraídos ou derivados de alimentos (óleos, gorduras, açúcar,
amido modificado) ou sintetizados em laboratório (corantes, aromatizantes,
realçadores de sabor, etc.)".
E o
whey se encaixa justamente nesse grupo, de acordo com a Classificação Nova (que
agrupa os alimentos de acordo com a natureza e o nível de processamento).
"Embora
sua origem seja o soro do leite (um alimento natural), o processo de isolamento
e concentração das proteínas do soro envolve diversas etapas industriais que
transformam drasticamente a matriz alimentar original", explica a
nutricionista e vice-presidente da Associação Brasileira de Nutrição Esportiva
(ABNE), Michele Trindade.
O
processo inclui filtração, secagem, adição de aditivos como emulsificantes para
melhorar a solubilidade, flavorizantes (sabores), adoçantes artificiais ou
naturais (como sucralose, estévia) e, por vezes, corantes para tornar o produto
mais atraente e agradável ao paladar.
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Whey protein x salgadinhos
De
acordo com os nutricionistas, ainda que os ultraprocessados sejam uma grande
categoria de alimentos que, em geral, não devem ser consumidos com frequência,
os níveis de processamento podem variar dentro dessa classificação.
Ao
comparar o whey protein com bolachas e salgadinhos, eles destacam que a
principal diferença está no propósito e impacto do consumo.
"Enquanto
o whey protein é utilizado com objetivos nutricionais específicos, os biscoitos
recheados, refrigerantes ou salgadinhos são ultraprocessados voltados ao
consumo recreativo", compara Lívia Horácio, nutricionista pela Unifesp.
De
maneira mais aprofundada, eles poderiam ser caracterizados da seguinte forma:
• 💪Whey protein:
É um
concentrado de proteína de alto valor biológico, com baixo teor de carboidratos
(especialmente açúcares) e gorduras. Seu propósito é fornecer uma fonte de
proteína pura e de fácil acesso.
Os
potenciais prejuízos vêm do seu status de ultraprocessado (pelo processamento
em si e pelos aditivos), não do seu valor nutricional de proteína.
• 🥤Biscoitos recheados,
refrigerantes e salgadinhos:
São
caracterizados por serem ricos em açúcares adicionados, gorduras saturadas e
trans, sódio e as chamadas calorias vazias, com baixo ou nenhum teor de fibras,
vitaminas e minerais.
Eles
são formulados para serem hiperpalatáveis e consumidos em grandes quantidades,
contribuindo diretamente para o aumento do risco de ganho de peso, diabetes
tipo 2 e deficiências nutricionais.
"Os
prejuízos à alimentação e ao corpo não são os mesmos. Enquanto o consumo
excessivo de boa parte dos ultraprocessados está diretamente associado a um
maior risco de doenças crônicas devido à sua composição nutricional
desequilibrada, o whey protein, quando usado apropriadamente, é uma boa fonte
de proteína", afirma Trindade.
Apesar
das diferenças, tanto de objetivo como dos impactos no organismo, há algumas
semelhanças no processamento desses produtos:
• Uso de aditivos: todos envolvem a adição
de aditivos como flavorizantes, adoçantes (no caso do whey e refrigerantes),
corantes, emulsificantes e estabilizantes para melhorar sabor, textura,
aparência e validade.
• Descaracterização da matriz alimentar
original: o produto final se distancia muito do alimento in natura que lhe deu
origem.
• Altamente palatáveis: projetados para
serem fáceis de consumir e agradáveis ao paladar, o que pode levar ao consumo
excessivo.
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Problemas no excesso do consumo
Mesmo
sendo um produto que pode ajudar no ganho de massa muscular e também a atingir
a quantidade diária de proteínas recomendada, o consumo frequente e excessivo
do suplemento pode trazer problemas.
Primeiro
é importante lembrar que o whey é indicado para quem não consegue atingir a
cota de proteínas necessária somente por meio da dieta.
🚨O excesso pode levar ao ganho de peso,
além de já ter sido associado ao aumento do risco de doenças cardiovasculares.
E,
considerando que o suplemento não deixa de ser um produto ultraprocessado,
também há riscos associados ao seu processamento.
👉Segundo as nutricionistas, os
principais pontos de atenção nesse sentido são:
• Exposição a aditivos alimentares
A
maioria dos wheys comerciais contém aditivos como adoçantes artificiais,
aromatizantes, corantes e emulsificantes. Embora a segurança desses aditivos
seja regulamentada, o consumo crônico e em grandes quantidades (especialmente
se o whey for consumido diariamente por muitos anos) ainda é um tópico de
pesquisa.
• Risco da troca de alimentos por
suplementos
A
praticidade do whey pode levar à substituição de fontes proteicas integrais e
naturais (carnes magras, ovos, leguminosas, laticínios) que, além da proteína,
oferecem uma gama completa de vitaminas, minerais, fibras e compostos
bioativos.
"A
substituição recorrente de refeições completas por shakes proteicos pode
comprometer a ingestão de fibras, fitoquímicos, vitaminas e minerais
naturalmente presentes nos alimentos in natura", alerta Isabela Gouveia,
nutricionista e mestre em Ciências de Alimentos pela USP.
• Menor saciedade comparado a alimentos
Embora
a proteína dê saciedade, a forma líquida ou em pó do whey pode ser menos
saciante do que a proteína consumida em uma refeição sólida. Isso pode acabar
levando ao consumo de mais calorias totais ao longo do dia se não houver um bom
planejamento.
Trindade
ainda pondera que é importante contextualizar que esses riscos são geralmente
menores do que os associados ao consumo frequente de outros ultraprocessados
ricos em açúcares, gorduras não saudáveis e sódio.
"O
principal alerta é para o padrão alimentar global. Um plano alimentar saudável
deve ser prioritariamente baseado em alimentos in natura ou minimamente
processados, e o whey, se usado, deve ser um complemento e não a base da
ingestão proteica", recomenda a nutricionista.
• 'Whey caseiro': mistura de proteína de
soja, cacau e leite em pó é realmente eficaz? Entenda
Proteína
de soja, cacau e leite em pó. Pode parecer o começo da lista de ingredientes de
mais uma receita de sobremesa fitness, mas, na verdade, a combinação é uma das
mais populares quando se busca por "whey caseiro" nas redes sociais.
A
mistura seria uma alternativa com um custo-benefício melhor do que o whey
industrializado – já que traria uma boa quantidade de proteínas por um preço
bem mais acessível.
⚠️Apesar de parecer uma opção proteica
interessante, os especialistas explicam que é um erro chamar a combinação de
"whey caseiro". Isso porque só se pode chamar de whey os produtos que
contêm a proteína do soro do leite – que são quase impossíveis de serem feitos
em casa.
"O
whey protein é um produto industrializado e muito difícil de ser reproduzido em
casa. O produto mais próximo que a gente pode obter é o soro do leite, atrás da
acidificação do leite", comenta a nutricionista Patrícia Campos Ferraz.
Michele
Trindade, nutricionista e vice-presidente da Associação Brasileira de Nutrição
Esportiva (ABNE), também explica que, na indústria, é realizado um processo de
separação das proteínas do soro de leite por meio de diversas filtrações.
Só
então o produto é desidratado e se torna o whey industrializado que é
comercializado.
Ferraz,
que é PhD em Bioquímica pelo Instituto de Biologia da Unicamp, ainda comenta
que o nome mais indicado no caso da combinação de proteína de soja, cacau e
leite em pó seria proteína em pó ou mistura proteica em pó.
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Mistura proteica em pó X whey protein
As
nutricionistas explicam que, na prática, nenhuma mistura caseira é capaz de
substituir o whey.
👉Além da necessidade de um longo
processo para a extração da proteína do leite, o que impossibilita a reprodução
caseira, as alternativas que usam proteína vegetal vão contar com ao menos três
diferenças fundamentais:
• Quantidade de aminoácidos
Patrícia
Ferraz explica que a principal diferença entre a proteína de soja e do soro do
leite é que a que é extraída do grão tem uma quantidade menor de um aminoácido
chamado leucina.
➡️A leucina é um aminoácido essencial que ajuda
na construção e recuperação da massa muscular, antes de ser fundamental na
síntese proteica.
"Mas,
levando em conta que na mistura há a adição do leite em pó, que é rico em
leucina, há uma correção nessa deficiência que a proteína de soja apresenta em
relação ao whey", compara a nutricionista.
Já
Trindade é mais enfática e pontua que, considerando a formação das proteínas,
nenhuma vai se assemelhar à proteína do leite.
"A
soja, assim como qualquer outro vegetal rico em proteína ou até a albumina,
presente na clara do ovo, não se assemelha na questão dos aminoácidos. É
praticamente impossível ter uma composição similar", comenta.
• Quantidade de proteína
Outro
ponto destacado pelas especialistas é que a quantidade de proteína no whey é
maior do que na mistura.
Isso
acontece justamente porque o whey é um produto industrializado, no qual a
proteína é isolada.
Michele
Trindade explica que estudos já mostram que, para ter uma quantidade de
proteína semelhante ao whey, seria necessário quase o dobro do extrato de soja.
"Será
que existe mesmo esse custo-benefício? Porque você pode pagar mais barato na
soja, mas vai ser preciso usar quase o dobro da quantidade para ter a mesma
porção de proteína", alerta a nutricionista.
Além
disso, ela pondera que a mistura caseira tende a ser muito mais calórica do que
o whey industrializado, já que a combinação de proteína de soja, cacau e leite
em pó é também é rica em carboidratos.
• Velocidade de absorção
Por
última, Ferraz também comenta que a proteína de soja é mais lentamente
absorvida pelo organismo do que a proteína do soro do leite.
"A
disponibilidade dos aminoácidos da proteína de soja para os músculos é mais
lenta do que o whey protein. A composição da proteína de soja faz com que seus
aminoácidos sejam mais utilizados a nível intestinal", explica a
nutricionista.
Trindade
ainda pondera que, apesar da diferença na digestibilidade entre os dois tipos
de proteína, quando se analisa a síntese proteica não há um impacto muito
relevante. Ela ressalta que o importante é consumir a quantidade recomendada de
proteínas em 24 horas.
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Suplemento universal?
Assim
como o whey protein, a mistura caseira teria como objetivo aumentar o consumo
de proteína – mas boa parte das pessoas consegue a cota diária necessária
apenas com uma alimentação balanceada.
Michele
Trindade comenta que, se há uma distribuição adequada de proteínas ao longo de
todas as refeições, com o consumo de ovos, derivados de leite, grãos e carnes,
dificilmente a pessoa vai precisar de um complemento proteico como o whey.
"O
que normalmente as pessoas que querem ganhar massa muscular erram é que não
fazem a ingestão de calorias totais de forma adequada. Ou seja, foca tanto na
proteína, que não presta atenção na quantidade de carboidrato consumido",
analisa a nutricionista.
👉De forma geral, os especialistas
indicam que o suplemento é recomendado para os seguintes casos:
• Atletas que precisam de uma quantidade
elevada de proteínas para a síntese proteica e ganho de massa muscular.
• Idosos com perda de massa muscular
própria do envelhecimento (sarcopenia).
• Adolescentes em fase de crescimento
intenso que precisam de maior quantidade de proteínas.
• Pacientes oncológicos em tratamento com
perda de massa muscular.
O whey
também pode ser uma boa opção para vegetarianos ou veganos que não conseguem
adequar a dieta para atingir a quantidade ideal de proteínas por dia.
🚨Mesmo com a indicação para o consumo
nessas situações, as nutricionistas alertam que todos os casos exigem uma
orientação adequada para o uso, com acompanhamento médico.
Fonte:
g1

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