sexta-feira, 1 de agosto de 2025

A Amazônia como epicentro para a justiça climática e a justiça social

Em novembro deste ano, com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, a COP 30, em Belém do Pará, no coração da Amazônia, o Brasil se torna o epicentro de um debate sobre o futuro do planeta. Não se trata apenas de discutir o clima, mas de decidir que tipo de humanidade queremos ser e em quais termos isso ocorrerá. Como ensina uma profecia andina, “o futuro não é um lugar para onde estamos indo, mas um lugar que estamos criando”. A COP 30 na Amazônia é nossa chance de criar um futuro em que a justiça climática e a justiça social sejam finalmente a mesma coisa.

Tal escolha não passa somente pelos laboratórios de inovação das grandes corporações. Está nas cozinhas solidárias que fornecem alimentos saudáveis para as populações vulnerabilizadas, nas roças que regeneram solos sem veneno, nos conhecimentos milenares dos pajés, nas guardiãs das águas com a pesca artesanal e nas mãos das quebradeiras de babaçu. São saberes que enxergam a Terra não como propriedade, mas como mãe, nossa Gaia, onde todos os elementos da natureza estão interconectados. Frente ao contexto da aprovação do PL da devastação e do avanço da exploração do petróleo, se o Brasil falhar em traduzir essa sabedoria e suas práticas na COP 30, a conferência será lembrada não como a “COP da Amazônia”, mas como a COP na qual a floresta foi vendida em blocos.

A realização da justiça climática passa por reconhecermos que os povos tradicionais são detentores das soluções que o planeta precisa. Suas cozinhas, suas roças agroflorestais, seus sistemas de manejo sustentável são tecnologias sociais testadas pelo tempo. Não se trata de reconhecer essas práticas e saberes enquanto medidas paliativas, mas sim de elevá-las enquanto elemento central da transição ecológica que garantirá à humanidade a continuidade de sua existência. O futuro não está na escolha entre tradição e modernidade, mas na síntese criativa entre esses dois elementos.

As universidades brasileiras têm um papel crucial nesse processo, principalmente no estímulo a formação de profissionais multiculturais. Algumas, como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), possuem programas de formação intercultural que integram conhecimentos tradicionais com acadêmicos. É preciso formar uma nova geração de profissionais, capazes de traduzir entre esses dois mundos apenas aparentemente apartados. A inclusão pela COP 30 de instituições públicas de pesquisa que mantenham vivo o diálogo entre saberes que se ocupam da promoção da justiça climática, formando um centro internacional de conhecimentos tradicionais e mudanças climáticas sediado na Amazônia, seria um bom passo para o desenvolvimento de políticas públicas ambientais e sociais e de ponte entre os povos da floresta e os tomadores de decisão globais.

A escolha da cidade sede do evento não é casual: é simbólica e estratégica. Simbólica porque o bioma amazônico encarna a contradição entre preservação e destruição que define os modos de produzir e de desenvolver das sociedades em nossa era. Estratégica porque a preservação da Amazônia é vital para frear o colapso climático global. Em suas últimas edições, as COPs foram realizadas em países profundamente ligados à indústria dos combustíveis fósseis, denominados por alguns ambientalistas como Petro-Estados. Essa poderá ser a COP da virada.

No entanto, no Brasil, é preciso enfrentar as contradições internas de um país que se apresenta como líder global para o meio ambiente de um lado, mas que ao mesmo tempo aprovou o “PL da Devastação”, mostrando o abismo entre a retórica climática e a prática política engajada na defesa da produção que devasta para o lucro e que, basicamente, com esse PL quer se autoregulamentar. O agronegócio brasileiro, apesar de principal vetor de desmatamento e emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) no país, pouco é responsabilizado pelos danos ambientais e humanos que provoca e é praticamente ignorado nos documentos oficiais da COP 30. Como exemplo, em contexto global, o estudo da Cátedra Josué de Castro, mostra que o sistema agroalimentar corresponde a um terço das emissões de Gases de Efeito Estufa.

Durante a votação do “PL da Devastação”, na madrugada do dia 17 de julho, a deputada federal Célia Xakriabá, relatou em suas redes sociais a forma como, durante a votação do “PL da Devastação”, ela foi alvo de racismo por parlamentares ruralistas e de extrema direita. A ocorrência de racismo contra uma deputada indígena, em um espaço de poder institucional, evidencia o desafio de abrir espaço e somar essas vozes à COP 30.

Os povos indígenas que ocupam as linhas de frente contra o garimpo ilegal, as mulheres quilombolas que preservam sementes crioulas, as/os pescadoras/es artesanais que defendem os rios, são lideranças do clima que devem nos guiar na construção desse futuro-presente. A COP 30 só terá sucesso se colocar essas vozes no centro de suas decisões. As terras indígenas e quilombolas são as áreas mais preservadas do país, barreiras eficazes contra o desmatamento. No entanto, continuam sendo alvo de violências e invasões. Os povos da floresta, reconhecidos nos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) como os melhores guardiões das florestas, seguem ameaçados por esse sistema alimentar que abriga, em sua lógica produtiva historicamente organizada, as redes de grileiros, madeireiros e garimpeiros.

Tais redes criminosas sustentam uma produção predatória e expressam o nó de um sistema que se finca na existência do racismo ambiental enquanto fio condutor de nossas contradições sociais, herança em linha direta de um país construído sobre a base do sistema escravista e do latifúndio, e que até hoje repete a mesma lógica de violência e exclusão. Já as comunidades tradicionais, protetoras da floresta há gerações, são as que sofrem primeiro e mais intensamente os impactos da crise climática agravados pelo racismo ambiental. Crianças indígenas morrem de doenças respiratórias por queimadas, quilombolas perdem suas roças para secas prolongadas, ribeirinhos veem os peixes desaparecerem com a contaminação dos rios por metais e agrotóxicos.

Nas periferias urbanas da Amazônia e do Brasil, o racismo ambiental se manifesta na falta de saneamento, na poluição do ar e na insegurança alimentar. Bairros pobres são construídos em áreas de risco, sujeitos a enchentes e deslizamentos que são sistematicamente tratados enquanto acidentes inevitáveis. Na Amazônia, os efeitos da crise climática alteraram também o seu cotidiano. Comunidades ribeirinhas relatam a pesquisadores que os rios não sobem e descem mais nos mesmos ciclos de antes. Com a seca dos rios, as ações de saúde se tornam inviáveis para populações ribeirinhas e indígenas, levando ao aumento da mortalidade infantil por doenças diarreicas em razão da escassez de água potável nessas regiões vulnerabilizadas.

A ciência viva de povos que leram nos rios, nas folhas e no canto dos pássaros os segredos do equilíbrio ecológico é saber ancestral que deve ser configurado como a espinha dorsal de qualquer política pública que pretenda enfrentar a crise climática sem repetir os erros que nos trouxeram até aqui. Se o modelo ocidental de desenvolvimento fragmenta e especializa, o conhecimento ancestral integra e sintetiza. Essa diferença fundamental pode ser a chave para resolver crises que parecem insolúveis. A visão cosmogônica e holística, hoje validada pela ciência do clima, precisa se tornar a base das discussões na COP 30. A sabedoria dos povos tradicionais da Amazônia e do mundo sempre soube que tudo está conectado: as árvores com os rios, os animais com as estrelas, os seres humanos com toda a teia da vida.

Em meio ao cenário global desafiador, marcado pelo o avanço de governos de extrema direita que criam um ambiente hostil aos avanços climáticos, e cenários demarcados pela ocorrência de guerras, pelo genocídio do povo palestino, queimadas, desmatamento e o consequente agravamento das emissões de GEE, a importância da COP 30 na Amazônia ganha relevo pela liderança que o país tem, com a oportunidade de exercer uma mudança dos paradigmas de desenvolvimento que não nos servem mais enquanto humanidade. É preciso pautar o fato de que outra economia é possível, com a redução do emprego de combustíveis fósseis, baseada na valorização dos conhecimentos e saberes dos povos da floresta e do conhecimento ancestral dos povos tradicionais do planeta.

O impacto da realização da COP 30 no Brasil poderá ser avaliado por sua capacidade de ouvir essas vozes e transformar seus saberes em política global, combatendo o racismo ambiental e promovendo a justiça climática e, portanto, social. Se daqui a cinco anos o planeta estiver seguro e os territórios indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outros estiverem preservados, com mais recursos que garantam sistemas alimentares saudáveis e se os jovens tradicionais estiverem liderando projetos inovadores, então poderemos dizer que a COP 30 cumpriu seu papel.

Como nos ensinam os povos tradicionais, não há planeta B, mas há um caminho a seguir: mais justo, mais solidário, mais vivo. A COP 30 é nossa chance de pisar nele juntos. O futuro não está escrito, ele será o que fizermos dele.

A realização da COP 30, para ser exitosa, deve estar imbuída da compreensão profunda de que a justiça climática não se faz apenas com números e metas, mas com reparação histórica, respeito aos direitos dos povos tradicionais e construção de um novo pacto social e ecológico. A COP 30 pode e deve ser o marco desse recomeço. O esgotamento dos recursos da Amazônia nos lembra que o tempo para adiar escolhas chegou ao fim. O mundo está assistindo. E, como dizem os povos originários, “Nada sobre nós, sem nós”, a Terra não pertence a nós, nós pertencemos à Terra.

Axé! Que a sabedoria da floresta nos guie.

¨      Governo Federal destrói o dobro dos alvos previstos e impõe prejuízo milionário ao garimpo na Terra Indígena Kayapó

A primeira etapa da Operação de Desintrusão da Terra Indígena Kayapó (OD-TIKAY), no Pará, encerra-se com resultados expressivos no combate ao garimpo ilegal, proteção dos povos indígenas e preservação ambiental. Com atuação integrada de mais de 20 órgãos federais, entre eles a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a operação superou o número de alvos inicialmente previstos e consolidou-se como uma das maiores ações já realizadas pelo Estado brasileiro contra atividades ilegais na Amazônia.

Desde o início das ações, em maio deste ano, foram identificados e inutilizados 1.384 alvos de garimpo ilegal, o dobro da meta inicial (650). As ações causaram prejuízo estimado de R$ 97,3 milhões às atividades criminosas, com a destruição de estruturas e apreensão de combustível, equipamentos e ouro.

“A operação reafirma o compromisso do Governo Federal com a proteção dos povos indígenas, o enfrentamento ao crime organizado e a defesa da Amazônia”, afirma o coordenador-geral da operação, Nilton Tubino. “E neste momento, após três meses de sua primeira fase, ela se consolida como uma das maiores ações integradas do Estado brasileiro contra o garimpo ilegal na Amazônia”, acrescenta.

<><> Principais resultados da primeira etapa:

• Estruturas de garimpo e maquinários clandestinos inutilizados: 967 barracos, 117 acampamentos, 406 motores, 25 escavadeiras hidráulicas;

• 686 ações de campo: terrestres, aéreas e fluviais;

• Queda de 96% dos alertas de garimpo desde o início da operação;

• 95% de redução nos alertas de desmatamento;

• R$ 164,5 mil em multas aplicadas;

• 22,8 mil litros de óleo diesel inutilizados;

• 63 gramas de ouro apreendidas;

• 257 kg de cocaína e 238 kg de pasta-base apreendidos nas rodovias federais da região;

• 4 caminhões carregando 217 m³ de madeira ilegal apreendidos.

Além disso, os rios da região, como o Rio Fresco, já mostram sinais de recuperação ambiental, com melhoria na qualidade da água após a remoção de dragas.

<><> Permanência e plano de sustentabilidade

A Força Nacional e a Funai permanecerão na área para impedir o retorno de invasores. Paralelamente, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) apresentará às comunidades locais o plano de sustentabilidade para o território no pós-desintrusão.

Segundo Marcos Kaingang, secretário nacional de Direitos Territoriais Indígenas do MPI, a operação “demonstra a importância e a necessidade de o Estado brasileiro proteger as terras indígenas e os povos que nelas habitam, garantindo o usufruto exclusivo e o bem-estar social e cultural das comunidades que pertencem a esse território, conforme prevê a Constituição Federal”, afirmou.

<><> Decisão judicial

A operação atende à determinação do Supremo Tribunal Federal na ADPF 709, que exige a retirada de invasores de terras indígenas para proteger os povos originários e conter o avanço do garimpo ilegal. Segundo o STF, a permanência de não indígenas representa grave ameaça à vida, à saúde e à integridade dos territórios.

Esta é a oitava operação conduzida pelo governo, dentro do cronograma proposto para desintrusões, incluindo ações ainda em curso na Terra Indígena Yanomami.

<><> Sobre a Terra Indígena Kayapó

Homologada em 1991, a TI Kayapó ocupa 3,28 milhões de hectares nos municípios de São Félix do Xingu, Ourilândia do Norte, Cumaru do Norte e Bannach, no Pará. Abriga 6.365 indígenas dos povos Mebengôkre (Gorotire, Kôkraimôrô e Kuben Kran Krên) e Índios Isolados do Rio Fresco, distribuídos em 67 aldeias.

A OD-TIKAY é coordenada pela Casa Civil da Presidência da República e envolve os ministérios da Defesa; Justiça e Segurança Pública; Povos Indígenas; Trabalho e Emprego; AGU; SECOM-PR; além de órgãos e autarquias federais como ABIN, PF, PRF, Funai, Ibama, Força Nacional, ANAC, ANTT, ANP e Censipam.

 

Fonte: Por Hermano Castro, no Le Monde Diplomatique Brasil/Funai

 

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