quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Por dentro da mina controlada por rebeldes que garante o funcionamento de seu celular

Rebeldes do M23, no leste da República Democrática do Congo, autorizaram a BBC a visitar um enorme local de mineração sob seu controle. A mina é fundamental para a produção mundial de telefones celulares.

Ao longo da sua vasta extensão, não havia nenhuma pessoa ociosa. Milhares de mineiros se espalhavam por aquele cenário repleto de fossos e túneis.

Alguns deles cavavam fundo na terra com pás. Outros erguiam sobre os ombros sacos da rocha extraída contendo coltan.

Eles os levavam para pontos de coleta, onde outros funcionários lavavam e filtravam o material com pás e com as mãos. Dele, será extraído o tântalo, empregado para a produção de muitos aparelhos eletrônicos.

"Normalmente, temos mais de 10 mil pessoas trabalhando aqui, todos os dias", contou Patrice Musafiri à BBC. Ele supervisiona a mina de Rubaya desde que os rebeldes assumiram o controle do local, em abril do ano passado.

O terreno é acidentado. Nossa equipe precisou da ajuda de bastões e da orientação de Musafiri para não cair ao caminhar pelo local.

Mas, para a maior parte daqueles homens, esta é a única forma de vida que eles conhecem. Pode ser difícil e perigoso, mas a atividade permite que eles sustentem uma vida modesta.

"Quando estamos no fundo das minas, as temperaturas são muito altas", conta o mineiro Peter Osiasi.

"Escavar o minério também é muito difícil... e pode ainda haver gases nocivos. Às vezes, eles bombeiam ar frio para podermos continuar trabalhando ali dentro."

Mas o jovem ressalta que é agradecido. Desde que começou a trabalhar na mineração, cinco anos atrás, ele conseguiu economizar dinheiro para o dote. Hoje, ele é casado e tem filhos.

"Minha vida, de fato, mudou", prossegue ele. "A mineração realmente me ajudou."

A faixa de terra nua dourada onde fica a mina se espalha pelos exuberantes morros Masisi, na província congolesa de Kivu do Norte. O local fica a cerca de 60 km a noroeste da cidade de Goma, na fronteira com Ruanda.

A mina é responsável por 15% da extração mundial de coltan e detém metade dos depósitos existentes no país. Por isso, não surpreende que a região tenha chamado a atenção de investidores globais.

Ao longo dos anos, a mina de Rubaya forneceu imensas riquezas aos diversos grupos armados que a controlaram em diferentes momentos, incluindo o exército do país.

A mina fica a cerca de 10 km de distância da cidade de Rubaya.

Chegamos ao local dias depois que Ruanda e a República Democrática do Congo assinaram um cessar-fogo em Washington, nos Estados Unidos. O acordo faz parte do processo de paz que pretende pôr fim a três décadas de instabilidade na região.

As origens da insegurança no leste da República Democrática do Congo são notoriamente complicadas.

Existe uma dimensão étnica, com muitos grupos rebeldes operando na região. Um deles é uma milícia da etnia hutu, ligada ao genocídio ruandês de 1994. Ruanda acredita que a milícia conte com apoio congolês.

Os dois lados se comprometeram em Washington, no dia 27 de junho, a desarmar e desembaraçar seus supostos aliados, embora neguem sua existência.

O M23 não participou do acordo. Liderado principalmente pela etnia tutsi, o grupo controla grandes partes do leste da República Democrática do Congo.

Desde janeiro, o M23 controla as cidades de Goma e Bukavu, além de dois aeroportos.

Ruanda é acusada (incluindo pelas Nações Unidas) de apoiar o M23. Mas as autoridades do país negam o envio ao grupo de ajuda militar ou financeira.

O envolvimento dos Estados Unidos no processo parece estar condicionado ao acesso aos recursos minerais congoleses, mas nada foi especificado até o momento.

"Estamos conseguindo muitos direitos minerais [da República Democrática] do Congo para os Estados Unidos", declarou o presidente americano, Donald Trump, antes da assinatura do acordo.

Tivemos autorização de acesso à mina por cerca de 45 minutos. Nossa breve visita não mostrou sinais de mudanças na cadeia de comando no futuro próximo.

O supervisor foi indicado pelo M23. Ele explicou avidamente como o panorama em Rubaya foi reorganizado no último ano e como o grupo rebelde trouxe segurança para os mineiros, que hoje trabalham sem medo na mina. Não são permitidas pessoas armadas no local, segundo ele.

"Já solucionamos muitas questões", conta Musafiri.

"Atualmente, temos um departamento de mineração que regulamenta e acompanha questões de segurança, além de resolver disputas internas nas minas. Se um túnel apresentar risco, as pessoas são orientadas a sair para evitar acidentes."

"Pessoas de diferentes grupos vêm até aqui trabalhar diariamente, além de outros para comprar o minério", detalha ele. "Agora, temos um enorme mercado em Goma, onde eles podem revender o que compram aqui."

Em dezembro, um relatório preparado por especialistas da ONU detalhou como o M23 ganha centenas de milhares de dólares todos os meses cobrando imposto sobre o coltan. Grande parte deste valor seguiu diretamente para Ruanda.

O M23 e o governo ruandês negam as acusações.

Rodeados por seus colegas vestindo calças jeans, suéteres e calçando botas, para poderem trabalhar no local, Osiasi confirma que as condições de trabalho, agora, são melhores.

"Os negócios vão muito bem por aqui porque, pelo menos, temos alguma paz aparente, mas o salário é muito baixo", ele conta. "Recebemos muito pouco dinheiro."

O segundo mandato de Trump coincidiu com a tomada de grande parte das províncias congolesas de Kivu do Norte e do Sul pelo M23 e com a humilhante retirada do exército congolês.

O analista político Akramm Tumsifu afirma que a República Democrática do Congo decidiu usar suas ricas reservas minerais como moeda de troca para conseguir auxílio dos Estados Unidos. O país passou meses buscando apoio militar.

Ele declarou à BBC que, com o processo de paz preliminar em andamento, a grande esperança das autoridades congolesas é que as empresas americanas possam estar em posição para fazer "investimentos massivos" no seu setor de mineração, atualmente dominado por companhias chinesas.

Empresas americanas já estariam buscando lucrar com a oportunidade de investir no setor de mineração de Rubaya.

O supervisor da mina declarou à BBC que os investimentos seriam bem-vindos, mas só seriam permitidas iniciativas destinadas a impulsionar a economia local, com a criação de empregos, escolas e hospitais.

"Qualquer investidor estrangeiro pode vir aqui, desde que traga desenvolvimento para o nosso povo e aumente a remuneração diária dos mineiros", afirma Patrice Musafiri.

Apesar dos colossais recursos naturais do país, a maior parte das comunidades mineradoras conta com pouca infraestrutura. Não há nem mesmo estradas acessíveis até as minas, onde as riquezas são extraídas da terra.

Tumsifu acredita que a presença de investidores americanos também poderá servir de "alerta contra os combates ou contra o recrudescimento de outros grupos armados".

Mas ainda não está claro como, nem com quem os eventuais investidores fariam negócios, já que o M23 ainda detém firmemente o controle no leste do país.

Um esforço de mediação paralelo, liderado pelo Catar, envolve conversações diretas entre os grupos armados e o governo congolês. Este processo pode trazer mais clareza à situação nos próximos meses.

O M23 faz parte de uma coalizão maior, a Aliança do Rio Congo. O grupo declarou que o acordo apoiado por Washington não abordou as causas do longo conflito em andamento.

Os rebeldes afirmam terem tomado as armas para proteger os direitos da minoria tutsi na República Democrática do Congo.

Enquanto os grupos beligerantes tentam estabelecer seus caminhos preferidos para a paz, os moradores do leste da RD Congo (incluindo os mineiros de Rubaya) esperam que os combates cheguem ao fim. O banho de sangue fez com que centenas de milhares de pessoas abandonassem suas casas.

"Meu apelo a outros jovens e aos nossos líderes é que eles mantenham a paz na nossa região", declarou Osiasi, preparando-se para um novo turno de escavações.

"Também apelo aos donos das minas que aumentem a nossa remuneração, que é muito baixa."

¨      'Guardiões do espaço': a unidade militar dos EUA capaz de rastrear mísseis lançados em qualquer ponto do globo

Foi um grito agudo e curto: "Lançamento Iêmen!"

E os homens e mulheres de uniforme, sentados em frente aos seus computadores, responderam em uníssono: "Entendido, lançamento Iêmen."

Na Força Espacial dos Estados Unidos, eles são chamados de guardiões, não de soldados.

Olhando para suas telas em uma base nos subúrbios de Denver, no Estado americano do Colorado, eles conseguem rastrear mísseis em qualquer parte do mundo — e os acompanham do local de lançamento até o seu provável ponto de impacto.

Somos os primeiros jornalistas internacionais autorizados a entrar na sala de operações de alerta e rastreamento de mísseis da Força Espacial americana, na base Buckley da Força Espacial, um centro nervoso onde os guardiões ficam em alerta 24 horas por dia, sete dias por semana.

Eles são rodeados por enormes monitores, que fornecem mapas e dados enviados por uma constelação de satélites militares no espaço. Os guardiões são os primeiros a detectar a assinatura de calor infravermelho que marca o lançamento de um míssil.

Momentos depois, surge outro grito: "Lançamento Irã", seguido pelo coro de: "Entendido, lançamento Irã."

Este é apenas um treino. Mas, no mês passado, a ação foi real.

Em resposta aos ataques dos Estados Unidos e de Israel, o Irã disparou uma salva de mísseis em direção à base militar americana de al-Udeid, no Catar.

A coronel Ann Hughes descreve o clima naquele dia como "pesado".

Ao contrário da maioria dos lançamentos, eles haviam sido alertados sobre aquele míssil específico com antecedência. Eles conseguiram rastrear os mísseis iranianos e encaminharam a informação para as baterias de defesa aérea em terra.

"Acabamos salvando toda a instalação e as pessoas que estavam ali", ela conta, expressando seu alívio.

Hughes afirma que a equipe tem ficado excepcionalmente ocupada nos últimos anos, com o desenrolar das guerras no Oriente Médio e na Europa.

Pergunto a ela se eles vêm fornecendo alertas para a Ucrânia. "Nós fornecemos alertas táticos e estratégicos sobre mísseis para todas as forças americanas e aliadas", responde Hughes.

Os Estados Unidos não confirmam abertamente, mas parece provável que eles também possam ter fornecido alertas a Kiev sobre ataques russos iminentes.

A base Buckley da Força Espacial será parte fundamental dos planos do presidente americano Donald Trump para a criação de um escudo de defesa contra mísseis dos Estados Unidos, conhecido como o Domo de Ouro.

O governo americano reservou 175 bilhões de dólares (cerca de R$ 971 bilhões) para o ambicioso programa, inspirado no Domo de Ferro, o sistema de defesa aérea de Israel. Mas muitos acreditam que o custo será muito maior.

As bases do programa já estão instaladas em Buckley. O cenário é dominado por inúmeros radomes, que são coberturas arredondadas que servem para proteger potentes antenas parabólicas no seu interior. Eles parecem bolas de golfe gigantes no horizonte.

Estas antenas de satélite já detectaram ondas de rádio frequência de uma supernova a 11 mil anos-luz de distância.

O chefe do Comando de Operações Espaciais dos Estados Unidos, general David Miller, afirma que o desenvolvimento do Domo de Ouro, ainda nos seus estágios iniciais, é o reconhecimento das crescentes ameaças ao território americano. Ele menciona especificamente a China e a Rússia.

Os dois países desenvolveram mísseis hipersônicos, que podem viajar a mais de cinco vezes a velocidade do som. Eles já testaram Sistemas de Bombardeio Orbital Fracionado, que são mais difíceis de rastrear.

"A velocidade e a física associadas à sua interceptação exige que consideremos interceptores espaciais", afirma Miller. Ele prefere falar em "recursos" para defender os interesses dos Estados Unidos, não em armas no espaço.

A criação da Força Espacial dos Estados Unidos, cinco anos atrás, é uma prova de que o espaço, agora, é um local de combate bélico.

O presidente Donald Trump criou a Força Espacial no seu primeiro mandato (2017-2021). Ele descreveu o espaço como "o mais novo domínio de combate bélico do mundo".

A China e a Rússia já testaram mísseis antissatélites, além de formas de interferir nas suas comunicações.

A Rússia já "demonstrou capacidade de potencialmente colocar uma carga nuclear" no espaço, segundo Miller. Para ele, o espaço já é uma área "altamente disputada" e "também precisamos estar preparados para o conflito no espaço".

A coronel Phoenix Hauser supervisiona a unidade de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento das Forças Espaciais, conhecida como Delta 7. Seu trabalho é descobrir o que está acontecendo no espaço.

Na sua base, perto de Colorado Spring, equipes monitoram telas que mostram milhares de pequenos pontos ao redor do planeta. Existem hoje cerca de 12 mil satélites no espaço e este número pode crescer até 60 mil no final da década.

Hauser afirma que seu foco principal é a China. "É a ameaça em progressão", segundo ela.

A China já detém cerca de mil satélites em órbita, a metade para uso militar. Hauser afirma que, na próxima década, o país asiático terá dezenas de milhares de satélites na órbita baixa da Terra.

O espaço está cada vez mais disputado e congestionado.

"Já estamos disputando espaço", ela conta. "Observamos atividades inseguras e não profissionais dos nossos adversários."

Elas incluem satélites equipados com aparelhos de interferência eletrônica, lasers e até redes e braços agressivos, que poderão ser utilizados para retirar outro satélite do seu curso.

Alguns sugeriram que já existem "lutas corporais" ocorrendo no espaço.

"Não sei se já chegamos ao ponto de 'luta corporal', como em Top Gun", segundo Hauser. "Mas certamente precisamos nos preparar para isso."

A Força Espacial dos Estados Unidos está se preparando para a possibilidade de um conflito no espaço.

Hauser afirma que, um ano atrás, eles "não conseguiam falar em ter capacidades espaciais ofensivas".

Mas, agora, segundo ela, o foco é em "gerar opções para o presidente, a fim de podermos ganhar e manter a superioridade espacial por meio do controle ofensivo e defensivo do espaço".

Para Miller, a única forma de evitar conflitos é "por meio da força e precisamos ter nossos próprios recursos para defender nosso patrimônio". Ele não oferece detalhes sobre o que isso exatamente significa.

Mas os recentes ataques norte-americanos ao programa nuclear iraniano — a Operação Martelo da Meia-Noite — podem dar uma ideia do que a Força Espacial dos Estados Unidos já é capaz de fazer.

Os ataques com bombardeiros B-2 também destacam por que a manutenção da dominância no espaço ainda é fundamental para as Forças Armadas americanas.

"Você precisa entender o quanto as Forças Armadas dos Estados Unidos consideram as vantagens que o espaço nos oferece", afirma Miller. Elas incluem a capacidade de navegar e se comunicar além do horizonte, realizando ataques precisos com o uso de GPS.

A BBC recebeu os primeiros detalhes sobre como os guardiões da Força Espacial dos Estados Unidos se envolveram na operação.

"Uma das nossas ações foi impulsionar nossa capacidade de guerra eletromagnética, para garantir o domínio em toda a operação", explica Miller. O espectro eletromagnético inclui as ondas de rádio, micro-ondas, infravermelho e a luz visível.

"Nós sabíamos que o ambiente sofreria interferências", ele conta.

A Força Espacial dos Estados Unidos garantiu que essas interferências não tivessem sucesso, de forma que os bombardeiros B-2 americanos pudessem atingir o seu alvo e soltar com precisão suas bombas Massive Ordnance Penetrator, teleguiadas por GPS.

Os especialistas em guerra eletrônica da unidade Delta 3 da Força Espacial americana já estavam operando em terra na região.

Seu comandante, o coronel Angelo Fernandez, mostra as fileiras de antenas parabólicas e os contêineres de comando que podem voar para qualquer parte do mundo.

As antenas, segundo ele, podem ser usadas para interceptar e derrubar as comunicações das forças inimigas, "transmitindo ruídos mais altos".

"Eles conseguem proteger o patrimônio americano e, ao mesmo tempo, abrir um corredor de voo", explica ele.

Os guardiões da unidade Delta 7 da Força Espacial dos Estados Unidos supervisionaram a missão antes, durante e depois do seu término.

Phoenix Hauser conta que eles conseguiram monitorar o espectro eletromagnético "para entender se o Irã sabia o que estava acontecendo, se eles têm algum alerta tático de que podem estar ocorrendo ataques".

Eles ajudaram a preservar o elemento surpresa e permitiram que a tripulação aérea completasse sua missão sem ser detectada.

A Força Espacial dos Estados Unidos pode ser o setor militar mais jovem do país, mas é fundamental para o poderio militar americano. O general Miller afirma que as Forças Armadas dos Estados Unidos "dependem da superioridade no espaço".

Ele deseja garantir que isso seja mantido. E traz um alerta para eventuais adversários.

"Quando as Forças Armadas americanas se concentram em algo, Deus os ajude!"

 

Fonte: BBC News

 

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