quarta-feira, 6 de agosto de 2025

O debate das escolas cívico-militares em Minas Gerais

O Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim), lançado em 2019 através do Decreto nº10.004, foi uma das principais apostas de Jair Bolsonaro para a área da educação, com apoio do Ministério da Defesa. A proposta previa a implementação de unidades escolares com gestão compartilhada entre civis e militares, com o objetivo de enfrentar, segundo o argumento do governo, problemas como a falta de disciplina nas escolas públicas e a presença de uma suposta doutrinação ideológica de esquerda em sala de aula.

Embora tenha sido a primeira iniciativa federal a institucionalizar e nacionalizar esse modelo após a redemocratização, o formato cívico-militar já existia em âmbito estadual desde 1994, quando o Amazonas lançou a primeira escola pública gerida em parceria com as forças de segurança. Posteriormente, experiências semelhantes surgiram em estados como Goiás e Distrito Federal. O Pecim, portanto, não inaugura o modelo, mas o amplia em escala nacional e o integra a uma estratégia de governo com forte viés político e ideológico.

Inspirado por sua formação militar e por um governo que ficou marcado pela participação de quadros das Forças Armadas em cargos de primeiro e segundo escalões, o ex-presidente havia se comprometido, ainda durante a campanha presidencial de 2018, a expandir esse modelo por todo o país com a promessa de melhoria do desempenho das unidades incluídas no programa.

Grosso modo, Bolsonaro apostou no componente ideológico para lançar bases para o programa e utilizou o discurso da eficiência para justificar a presença de militares nas escolas. À época, o governo procurou associar possíveis melhorias na qualidade do ensino à imposição de normas rígidas de comportamento e à valorização da hierarquia e da disciplina, sem qualquer suporte em estudos e evidências empíricas. Convém lembrar, apesar da falta de contexto dos dados apresentados, que a pontuação das escolas vinculadas ao Pecim cresceu na esteira de uma melhoria global nos índices das unidades escolares que não aderiram ao programa em todo o país.

A proposta encontrou eco, sobretudo, entre setores mais conservadores à direita, envolvidos em debates ideológicos e culturais, como no caso do chamado “kit gay”, nas discussões do Escola Sem Partido e do ensino domiciliar (homeschooling). Além disso, compôs o corolário de ideias da ultradireita brasileira que tentava desmontar a estrutura pedagógica dos ensinos fundamental e médio, e percebia as universidades públicas como inimigas e, por isso, alvo de cortes de gastos e precarização.

Sindicatos de trabalhadores da educação e estudantes observaram com preocupação a adesão das unidades de ensino ao Pecim. Afinal, sua implementação não foi debatida com especialistas e com a comunidade escolar, incluindo pais e responsáveis. Criado por decreto, o programa não foi apreciado no Legislativo Federal e tampouco obteve a devida atenção nos estados e municípios. 

Em 2020, o modelo cívico-militar foi introduzido em 54 unidades de ensino em diversos estados, com primeira unidade no Rio de Janeiro. Já em 2022, ele alcançou a marca de 202 escolas e uma rubrica próxima dos R$ 100 milhões. Aproximadamente 120 mil alunos respondiam a um contingente de 1.500 militares incumbidos de funções de gestão, assessoria e monitoria. Nesse período, diversos episódios de censura e violação da liberdade de cátedra, bem de assédio moral e sexual praticados por militares, foram relatados por professores e alunos que passaram a ter medo de frequentar as escolas.

O tema também veio à tona durante as eleições de 2022. Enquanto Bolsonaro destacou o modelo cívico-militar como uma de suas principais iniciativas no campo da educação, Lula sinalizou que não daria sequência ao Pecim. Isso ficou claro durante a transição de governo, conforme sinalizaram aliados. Em julho de 2023, o governo Lula descontinuou o Pecim após análise fundamentada pelo Ministério da Educação, dando início a um processo de reversão no modelo de gestão nas escolas onde o programa foi instalado. 

Segundo nota técnica do MEC, foram constatados problemas de diferentes ordens no modelo, entre eles:

I)       a incompatibilidade com as diretrizes educacionais do sistema brasileiro;

II)      o desvio de finalidade das Forças Armadas em sua atuação nas escolas, tendo em vista a incompatibilidade de suas expertises com o ambiente escolar;

III)     a baixa execução orçamentária, entre 2020 e 2022, bem como a ineficiência do programa;

IV)     e, por fim, a fragilidade da concepção de que o modelo de gestão de colégios militares seria o adequado para escolas públicas, tendo em vista que são distintas em termos legais, funcionais e de estrutura.1

O modelo foi criticado por acadêmicos e ativistas da educação e, aos poucos, demonstrou problemas e inconsistências que levaram ao seu encerramento. Em estudo recente, especialistas detectaram que o Pecim enfraqueceu a coordenação nacional das políticas educacionais brasileiras e reduziu o debate de temas importantes ligados à cidadania de pessoas negras, pardas, indígenas e quilombolas, além de questões de gênero, direitos sexuais e reprodutivos. 

É importante salientar, no entanto, que apesar das falhas e inconsistências identificadas pelo MEC, o programa foi revogado apenas no nível federal, de modo que aos estados e municípios ficou franqueada a possibilidade de colocar em prática modelos cívico-militares próprios no nível subnacional. Além disso, iniciativas de conteúdo similar ao Pecim e aos programas estaduais também foram propostas no âmbito da educação municipal em diversas capitais e cidades de todo o Brasil.

Pelo menos dez estados conduzem programas próprios desde a revogação do Pecim – em diferentes estágios de discussão e implementação. O caso mais avançado é o do Paraná, onde há o maior número de escolas aderentes e de recursos destinados ao modelo cívico-militar. Rondônia, por exemplo, encontra-se em fase de análise legislativa, enquanto São Paulo prevê a adaptação do modelo em cem escolas no segundo semestre deste ano. 

Do ponto de vista político, é notória a continuidade da pauta proposta por Bolsonaro, agora encabeçada por governos estaduais. Além disso, a maior parte dos governadores, em maior ou menor grau, tem vínculo com o espectro da direita. Chama a atenção ainda o fato de que pelo menos cinco estados listados possuem governadores com ambições eleitorais e que são considerados presidenciáveis nas eleições de 2026.

Tarcísio de Freitas (Republicanos/SP), Ronaldo Caiado (União Brasil/GO), Eduardo Leite (PSDB/RS), Ratinho Júnior (PSD) e Romeu Zema (Novo/MG) têm buscado diálogo com segmentos radicais e conservadores do eleitorado, especialmente em razão da inelegibilidade de Bolsonaro e da fragmentação de sua base de apoio. Nesse sentido, a instalação de escolas cívico-militares pode significar uma chance de intensificar o diálogo com esses grupos e também uma oportunidade de apresentar um programa educacional como vitrine em um campo político onde a disputa promete ser acirrada.

Neste texto, dedicamos atenção ao caso de Minas Gerais e aos desdobramentos da consulta de adesão conduzida pelo governo de Romeu Zema junto às 728 escolas pré-selecionadas para participar do programa. Os debates foram iniciados há menos de dois meses e há desconfiança e incerteza entre pais, alunos e professores sobre os rumos do modelo após frequentes mudanças nas diretrizes adotadas e nas datas de votação. O estado é um bom exemplo de como o processo de implementação dessas escolas tem se dado de forma intempestiva, sem diálogo com a sociedade e com a comunidade escolar. Contextualizamos essa discussão e analisamos a condução do processo na cidade de Juiz de Fora, onde 25 escolas atendem aos critérios de participação e devem realizar consulta pública em agosto.

<><> Minas Gerais e a condução da pauta pelo governo Zema

O modelo cívico-militar em Minas Gerais ganhou um novo capítulo imediatamente após a revogação do Pecim pelo governo Lula em 2023. À época, pelo menos dezessete escolas do estado haviam adotado o modelo cívico-militar federal, e apenas nove delas eram estaduais. Logo após a divulgação da nota técnica do MEC, o governador Romeu Zema (Novo) comunicou em suas redes sociais, mesmo sem prazos e diretrizes, que o programa teria continuidade em Minas Gerais.

Apesar disso, o programa cívico-militar foi efetivamente retomado apenas em 2024, com o anúncio da Política Educacional de Gestão Compartilhada das Escolas Cívico-Militares (Ecim), porém sem análise da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Mais recentemente, em 30 de junho, a Secretaria Estadual de Educação (SEE-MG) divulgou um memorando no qual ficaram estabelecidos o prazo de votação e os critérios de elegibilidade das escolas ao programa. Podem participar as unidades escolares que: (i) estão situadas em municípios com mais de 20 mil habitantes; (ii) que contam com mais de quinhentas matrículas de estudantes registradas; (iii) e com maior índice de vulnerabilidade socioeconômica. 

Ao todo, 728 unidades escolares são elegíveis a participar do Ecim, o que corresponde a 20% de toda rede de ensino estadual que atualmente conta com aproximadamente 3.400 unidades de ensino. Cabe às escolas, mediante adesão voluntária, decidir pela adoção ou não do modelo. A realização de assembleias para discutir e votar o ingresso no programa tem sido um ponto central de conflito. Isso porque o prazo inicial dado para essa análise se encerraria em 18 de julho. Na prática, professores, pais e alunos teriam apenas quinze dias para avaliar a possibilidade de uma mudança radical no tipo de gestão das escolas.

Nesse contexto, sindicatos, professores, alunos e pais intensificaram as pressões junto ao governo do estado na tentativa de debater mais amplamente o modelo e dilatar os prazos da consulta. Há o entendimento de que pontos importantes demandam mais atenção e debate com a comunidade escolar, entre eles: a) a ausência de formação pedagógica dos militares alocados nas escolas; b) as disparidades salariais entre professores e militares, apesar da diferença de formação; c) a inexistência de evidências sobre a redução da violência escolar e relatos de repressão a alunos; e d) as diferenças estruturais entre as escolas cívico-militares e os colégios militares mantidos pelas corporações.

A condução da SEE-MG e das regionais, nesse sentido, tem sido alvo de críticas por sua postura, considerada autoritária e orientada por interesses políticos na busca por adesões ao modelo cívico-militar. Um exemplo disso foi a mudança no método de votação: diferentemente do formato tradicional utilizado – no qual cada matrícula corresponde a um único voto, exercido pelo aluno maior de 14 anos ou por um responsável –, a consulta passou a permitir votos tanto do estudante como dos responsáveis legais. A mudança ampliou o colégio eleitoral e tem sido vista como uma manobra para facilitar a aprovação do modelo, já que muitos estudantes se opõem à proposta, enquanto parte dos pais tende a apoiá-la com base em argumentos em prol da disciplina e do combate à violência.

O modelo também foi tema de audiência pública na ALMG, em 10 de julho, com a presença do secretário estadual de Educação, Igor Alvarenga. Na ocasião, representantes da SEE-MG esclareceram que o projeto não prevê mudanças no currículo e que os alunos seriam dispensados de atividades ligadas às práticas cívicas e de formação militar mediante manifestação das famílias. Entretanto, membros do legislativo demonstraram preocupação com a possível inconstitucionalidade da política. Segundo a deputada Beatriz Cerqueira (PT-MG), haveria usurpação de competências da União por parte do estado, já que o modelo colide com a Lei Nacional de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). 

Também gerou incômodo entre sindicalistas o possível uso político do programa visando as eleições de 2026, de acordo com o representante do Sindicato Único dos Trabalhadores da Educação de Minas Gerais (Sind-UTE-MG), Luiz Fernando Oliveira. Segundo ele, as escolas selecionadas são as maiores em municípios populosos com grandes colégios eleitorais e, por isso, poderiam ser usadas como vitrines em 2026. Outros participantes também afirmaram que a possibilidade de identificação dos votantes pode expor os profissionais e gerar retaliações.

Diante das críticas e da resistência registrada em diversas unidades escolares, o governo de Minas decidiu em 14 de julho suspender temporariamente as assembleias de adesão ao modelo cívico-militar. A medida veio após uma sequência de votações desfavoráveis ao programa, o que evidenciou o desgaste da proposta junto à comunidade escolar. Embora a SEE-MG não tenha divulgado os números oficiais, apurações da imprensa indicam que cerca de 70% das escolas que realizaram consulta rejeitaram a adesão. 

A justificativa do governador para a suspensão foi o curto prazo e o impacto do período de férias na participação das famílias, mas o recuo também reflete a dificuldade do Executivo estadual em consolidar apoio ao projeto. Este cenário gerou instabilidade e colocou em xeque a permanência do secretário de Educação, Igor Alvarenga, que deixou o cargo no fim de julho.

Além da mobilização social e da rejeição expressiva nas assembleias, o governo ainda enfrenta questionamentos jurídicos e políticos. Uma ação civil pública foi ajuizada pelo Sind-UTE/MG, que acusa o Estado de atropelar o princípio da gestão democrática e de conduzir o processo de forma unilateral e sem transparência. Para o sindicato, a proposta representa um desvio de finalidade e de recursos, ao priorizar a contratação de militares em detrimento da valorização de profissionais da educação. O governo de Minas considera que o programa pode promover um ambiente mais “seguro, organizado e acolhedor, integrando valores cívicos e disciplinares ao projeto pedagógico”.

O aceno de Zema às corporações militares ocorre em um momento de reaproximação estratégica com o bolsonarismo após um histórico de embates com as forças de segurança em Minas Gerais. Nos primeiros anos de sua gestão, o governador enfrentou greves e forte pressão por reajustes salariais por parte de policiais militares e bombeiros, o que gerou impasses no Legislativo e desgastes com a base conservadora. Apesar dessa tensão, o governador tenta reconstruir pontes com essas categorias por meio de sinalizações políticas como a retomada do modelo cívico-militar nas escolas, que envolve o pagamento de salários aos membros da caserna, além dos proventos já recebidos, e acesso a recursos.

Mais recentemente, o governador intensificou seu alinhamento com a base bolsonarista ao adotar um discurso mais radical. Em entrevistas à imprensa, relativizou os crimes da ditadura militar ao afirmar que o regime é uma “questão de interpretação” e prometeu conceder indulto a Bolsonaro caso seja eleito presidente em 2026. A defesa pública da militarização escolar e o flerte com pautas autoritárias funcionam, assim, como instrumentos para consolidar apoio junto ao eleitorado de direita, especialmente em um cenário no qual sua principal liderança está desgastada e fora disputa eleitoral.

<><> Rechaço ao modelo e tensões em Juiz de Fora

Em Juiz de Fora, o processo de adesão ao modelo cívico-militar escancarou os impasses existentes entre o governo estadual e a comunidade escolar, com denúncias de ingerência, mobilização sindical e disputas político-ideológicas. A resistência local remonta a junho de 2022, quando a Escola Estadual Nyrce Villa Verde Coelho de Magalhães rejeitou, por ampla maioria (300 a 24), a proposta do Pecim. A então candidata a deputada federal Delegada Ione (Avante), hoje uma das principais lideranças da direita na cidade, esteve presente na votação e consolidou sua imagem ao lado das pautas de segurança pública.

Agora, sob nova gestão estadual, 25 escolas da Superintendência Regional de Ensino de Juiz de Fora foram pré-selecionadas para o programa – 24 no município e uma na cidade de Santos Dumont. A seleção das unidades gerou críticas: ao contrário do que previa a SEE-MG, foram incluídas escolas de bom desempenho, e não aquelas com maior vulnerabilidade social. O processo de consulta também foi marcado por mudanças bruscas e denúncias de interferência. Inicialmente, cada escola poderia definir sua data de assembleia. No entanto, após a rejeição da proposta na Escola Estadual Batista de Oliveira – com 88 votos contrários, 33 favoráveis e 2 brancos – a SEE-MG impôs datas únicas e alterou o calendário duas vezes em menos de uma semana.

As alterações foram vistas como uma tentativa de acelerar as votações e desmobilizar a resistência. O Sind-UTE denunciou que professores com carga horária em múltiplas escolas foram prejudicados e que sindicalistas foram impedidos de acompanhar a votação. Também houve relatos de presença de militares nas unidades antes mesmo da decisão da comunidade escolar. Nesse quadro, os colegiados de pelo menos duas delas, o Instituto Estadual de Educação (a segunda maior escola estadual de Minas Gerais, conhecida como Escola Normal) e a Escola Estadual Maria de Magalhães Pinto, divulgaram notas reafirmando seu posicionamento contrário.

No nível local, a pauta de militarização das escolas também foi notada na Câmara Municipal de Juiz de Fora. A vereadora Roberta Lopes (PL), vinculada ao deputado federal Nikolas Ferreira, apresentou projeto de lei que autoriza a introdução do modelo cívico-militar nas escolas da rede municipal. A proposta, ainda em tramitação, integra uma agenda ideológica que inclui o “dia do nascituro” e o combate à chamada “ideologia de gênero”.

A suspensão das assembleias pelo governo de Romeu Zema não apenas refletiu o impacto da mobilização local, mas também expôs como a sobreposição entre segurança pública e educação tem ganhado espaço no debate municipal. A tentativa de adoção do modelo cívico-militar evidencia como pautas típicas de alas punitivistas à direita – como disciplina, ordem e combate à violência – vêm sendo incorporadas às políticas educacionais, alinhadas ao discurso de Lei e Ordem.

Essa junção, que tende a colonizar a escola com a lógica da segurança, aparece também em outras frentes ligadas a esse tema, como a proposta de ampliação das responsabilidades e de armamento das Guardas Civis Municipais (GCMs). No contexto local, compreender essa convergência entre educação e segurança é essencial para interpretar o avanço de projetos que, embora apresentados como medidas de gestão e eficiência, refletem disputas ideológicas mais profundas sobre o papel da escola pública na formação cidadã. Afinal, vale perguntar que tipo de escola queremos e o que, de fato, deve ser aprimorado para que essa instituição cumpra seu papel social.

 

Fonte: Por Gustavo Paravizo e Lara Polisseni, para Le Monde

 

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