O
que aprendi ao participar de 'cafés da morte' em Londres
Pessoas
passam despreocupadas, com roupas de banho e toucas de pano, a caminho de uma
sauna, enquanto ouço um homem contar como foi despedir-se de um companheiro de
longa data, que sofria de uma doença incurável.
Em
outro dia, um grupo reunido numa funerária, ao lado de uma sala cheia de
caixões coloridos e do próprio necrotério que guarda os corpos das pessoas que
acabaram de morrer, fala sobre o legado que deixamos quando nossa vida chega ao
fim.
Num
centro comunitário, em outra parte da cidade, uma senhora se preocupa sobre
quem vai limpar o corpo dela imediatamente após a morte, enquanto dois jovens
refletem sobre religiosidade e os desejos não atendidos daqueles que partiram.
Essas
foram algumas das cenas que testemunhei entre o final de junho e o início de
julho, quando decidi participar de alguns "cafés da morte"
organizados em diversas localidades de Londres, no Reino Unido.
Eu
nunca tinha ouvido falar sobre esse tipo de evento até recentemente, quando li
um artigo sobre o tema publicado no jornal britânico The Guardian.
Conhecidos
em inglês como death cafes, esses espaços de discussão sobre a finitude da vida
começaram a ganhar forma a partir de 2011, pela iniciativa de Jon Underwood e
Sue Barsky Reid.
Inspirados
pelo trabalho do sociólogo suíço Bernard Crettaz, que discute a finitude da
vida em alguns escritos, eles foram pioneiros ao organizar o primeiro evento do
tipo no bairro de Hackney, no leste de Londres.
Desde
então, esses cafés se espalharam pela capital do Reino Unido e pelo mundo, com
o objetivo de, nas palavras dos fundadores, "aumentar a conscientização
sobre a morte como uma maneira de ajudar as pessoas a tirar o máximo de suas
vidas finitas".
Em
alguns lugares, eles acontecem de forma regular, uma vez ao mês ou todas as
semanas.
Embora
a dinâmica seja bem variada, essas ocasiões partem de algumas premissas
básicas.
Primeiro,
elas são organizadas de forma voluntária e não cobram valores dos
participantes.
Segundo,
elas não pretendem prestar o serviço de grupos de suporte emocional e
psicológico a pessoas enlutadas, que acabaram de perder alguém querido. Os
organizadores sempre reforçam a importância desses indivíduos buscarem ajuda
específica para essas situações.
Terceiro,
embora o tema seja a morte, não há uma agenda específica a ser seguida. Todos
os interessados devem ter a mente aberta para perspectivas, ideias e visões de
mundo diferentes das suas.
Quarto,
e não menos importante: as conversas são acompanhadas por uma boa xícara de
café ou chá (já que estamos no Reino Unido) e, por que não, uma fatia de bolo.
E,
embora em todos os cafés eu tenha me apresentado como jornalista de saúde e
ciência, decidi adotar uma quinta e última regra para escrever essa reportagem:
em respeito à confidencialidade dos demais participantes, que não estavam ali
para dar entrevistas, não vou identificá-los, nem entrar em detalhes
específicos das histórias que eles contaram.
A
ideia, como você vai conferir ao longo do texto, é apresentar observações e
aprendizados que tive nos instigantes cafés da morte que pude participar.
• A morte é poética — e cheia de
burocracias
Os
primeiros pontos que me impressionaram ao conversar com pessoas de todos os
cantos do mundo foram as diferentes formas de enxergar a morte e o que ela pode
representar.
Para
alguns, há um medo imediato com as questões práticas desse marco da vida (ou do
fim dela).
Muitos
diziam-se preocupados com a papelada, o preço do funeral ou do enterro, as
senhas das contas bancárias, do e-mail e das redes sociais.
Outros
refletiram sobre qual seria o destino dos objetos de afeto e memória, como
fotografias ou diários.
Uma das
pessoas contou que deseja contratar alguém para limpar seu corpo logo após o
óbito — experiências anteriores revelaram que, nesse momento, o organismo pode
liberar uma série de fluidos que chocam o observador daquela partida.
Mas uma
outra parcela dos participantes se mostrou mais interessada nas questões
metafóricas e filosóficas relacionadas ao fim.
O que
há depois da morte? Para onde vamos? Temos alma?
Também
chamou a minha atenção a preocupação das pessoas com o legado e as marcas que
elas deixam pelo mundo.
Um
indivíduo, que lida com uma perda particularmente dolorosa, passou a se dedicar
a apoiar projetos solidários que unem diferentes comunidades, etnias e
religiões. Em nome do parente que partiu.
Outro,
cuja mãe faleceu recentemente e não tem parceiros ou filhos, refletiu sobre a
falta de vínculos verdadeiros — e sobre quem realmente sentiria falta dele no
momento em que ele não estiver mais aqui.
Mas há
também aqueles que são estoicos, quase cínicos, ao lembrarem que, num universo
de 13,8 bilhões de anos, as poucas décadas da vida de um indivíduo representam
apenas uma gota de um vasto oceano.
• A morte tem múltiplas faces
Também
achei muito curioso observar como os ritos ligados à morte são tão variados ao
redor do mundo.
Logo de
cara, me surpreendi com o fato de que no Reino Unido as pessoas podem demorar
dias, semanas ou até um mês para serem enterradas.
A data
é definida apenas depois que todas as burocracias são resolvidas. Na cerimônia
de despedida, família e amigos se reúnem para prestar as últimas homenagens,
inclusive com a leitura de cartas e depoimentos.
Não
tinha ideia de que, em algumas partes do Sudeste Asiático, as pessoas podem
construir tumbas em qualquer lugar, sem a necessidade de concentrar jazigos e
ossários em cemitérios.
Em
outros lugares da Ásia, os corpos são enrolados em panos e enterrados bem
próximos, ou até em cima, de seus entes queridos que também já se foram.
Conheci
detalhes sobre cerimônias taoístas feitas em Cingapura — e sobre como a
profissão de oradores ou mestres de cerimônias para funerais de animais de
estimação está em alta na Austrália.
Há
ainda uma sutileza na forma como a morte integra a vida (e vice-versa). Pessoas
que seguem religiões como o hinduísmo e o budismo destacaram como o morrer faz
parte das cerimônias e até do dia a dia delas.
• A experiência de morte nunca se repete —
e não é possível medir a dor de alguém
Durante
os cafés, o contato com tantas histórias tristes, de tragédias pessoais e
perdas irreparáveis, irremediavelmente desembocava numa discussão infrutífera e
igualmente instigante.
O que
será melhor: morrer de forma súbita e inesperada ou perecer depois de longos
meses ou anos de declínio?
Sempre
apareciam argumentos válidos para os dois cenários.
Aqueles
que precisaram cuidar de um amigo ou familiar por períodos prolongados
defendiam que uma partida rápida gera menos desgaste e sofrimento para quem vê
o apagar físico e mental de alguém amado, dia após dia.
Já o
grupo que viu um ente querido morrer sem qualquer aviso prévio sente falta
justamente dessa previsibilidade, da oportunidade de se despedir e dizer
aquelas últimas coisas que são tão importantes.
Obviamente
nenhum dos cenários tem algo de agradável — e a única conclusão que cheguei a
partir das observações nos cafés é que a experiência de morte dificilmente se
repete.
Ela é
diferente para todas as pessoas porque envolve uma série de variáveis, como a
relação que você tinha com aquele que se foi, seu modo de lidar com as perdas,
vivências anteriores, suporte social…
Entender
isso é fundamental não apenas para respeitar a dor alheia, mas também para
observar a si mesmo e entender a sua própria relação com a morte.
Em
todas as ocasiões, as pessoas me perguntavam o que eu fazia ali e qual era meu
interesse em acompanhar esses cafés.
Respondi
que, como jornalista que escreve sobre saúde e ciência, minha motivação
principal sempre foi trazer informações e orientações validadas cientificamente
para que as pessoas possam viver mais e melhor.
No
entanto, por mais que os avanços da Medicina tenham permitido esticar cada vez
mais a corda da expectativa de vida, há um limite óbvio para isso: a morte.
Refletir
sobre essa dualidade e as nossas limitações diante da única certeza que temos é
algo que sempre me deu um certo fascínio.
E isso
ficou ainda mais escancarado nos últimos anos, durante a pandemia de covid-19,
na qual trabalhei de forma diária e exclusiva por quase três anos.
Acompanhar
de perto o número de casos e mortes subir — especialmente num momento em que já
tínhamos vacinas à disposição — representava uma fonte contínua de aflição e um
lembrete diário sobre a finitude de nossas existências.
• Precisamos falar mais sobre a morte
Em
linhas gerais, a experiência nos cafés da morte me mostrou como somos terríveis
em falar sobre o fim da vida.
Existe
uma espécie de trava cultural que faz as palavras simplesmente sumirem na hora
que esse assunto surge.
Em
algumas culturas, inclusive no Brasil, debater sobre a morte chega a ser até
desencorajado, em razão de superstições e ideias falsas de que o simples fato
de usar essa palavra traz má sorte ou atrai coisas ruins.
De
certa maneira, isso também é influenciado pela forma como lidamos com essas
perdas nos dias de hoje: o morrer meio que "desapareceu" de nossas
vistas.
Na
maioria das vezes, esse processo acontece nos ambientes assépticos dos
hospitais, bem longe de casa e da família, em ambulatórios ou unidades de
terapia intensiva (UTI).
Nos
últimos anos, um movimento contrário, liderado por especialistas em cuidados
paliativos, tenta reverter esse cenário e tirar os tabus que rondam o fim da
vida.
Há
também uma tentativa de conscientizar as pessoas sobre questões práticas e
burocráticas, como estabelecer diretivas antecipadas de vontade — como você
quer ser tratado nos momentos finais da vida e logo depois de morrer — e
organizar questões financeiras ou de herança.
Antes
de participar de qualquer café da morte, tinha uma expectativa de que esses
eventos seriam emocionalmente muito pesados, marcados por choros, soluços e
lamentações.
Mas,
para a minha própria surpresa, nas três ocasiões em que me engajei em
atividades do tipo, a sensação que tive ao final dos eventos era de uma
estranha leveza.
Fiquei
curioso para saber se isso era uma experiência individual ou coletiva.
Para
entender isso, conversei com a professora Marysia De Carlo, que dá aulas na
Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto e já organizou mais de 30 cafés da
morte no interior paulista.
"As
pessoas acham que o café da morte vai ser um lugar para chorar, mas essa não é
a realidade. É um ambiente que a gente ri", concorda ela.
"Sempre
que termino um café da morte, fico cansada por todo o envolvimento emocional,
mas também sinto uma leveza", complementa a especialista, organizadora do
livro Reabilitação Paliativa (Grupo Editorial Summus).
Na
minha própria experiência, é como se, ao falar sobre a morte no meio de
estranhos, a gente tirasse um peso oculto sobre nossos ombros e — sem medo de
ser piegas — passasse a valorizar mais os detalhes da vida.
Em mais
de uma ocasião, evoquei minhas raízes brasileiras para traduzir aos meus
colegas de café uma estrofe de Gilberto Gil: "Não tenho medo da morte, mas
sim medo de morrer."
Talvez
os cafés da morte sirvam justamente para isso: nos lembrar que o morrer e a
morte são parte integral da vida e existem caminhos para falar sobre isso.
Longe de medos, afastado de tabus.
Fonte:
BBC News Brasil

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