José
Alcimar: O fascismo estrutural das elites
O termo
“racismo estrutural” se tornou corrente no Brasil depois da publicação do
importante livro de Sílvio Almeida, em 2019. Todavia, a interpretação do
racismo como ideia norteadora das visões de mundo que contribuem para
estruturar as relações e as instituições brasileiras, lhe é bem anterior.
Autores como Clóvis Moura (1925-2003), Florestan Fernandes (1920-1995) e
Octavio Ianni (1926-2004) conceberam o racismo como parte do processo mais
amplo em que a escravização de pessoas negras trazidas da África por pessoas
brancas de origem europeia produziu consigo uma realidade em que a formação da
sociedade burguesa foi atravessada pela racialização das relações de produção
capitalistas. Disso redundou que as camadas e classes sociais dominantes, nas
colônias e nas metrópoles, racializaram as relações de produção escravocratas
e, depois, transpuseram a racialização para as instituições burguesas,
tornando-a um conteúdo central das relações de produção capitalistas no antigo
Novo Mundo. Nesse processo, portanto, o racismo estruturou a formação da
sociedade e do Estado nacional, no Brasil e fora dele.
Se o
racismo é estrutural, cabe saber a que interesses corresponde sua instauração e
manutenção. É necessário refletir sobre o racismo estrutural como um corolário
do fascismo estrutural das elites dominantes. Sim, o que é estrutural nas
elites brasileiras, em particular, e mundiais é o fascismo. Não se trata apenas
de autoritarismo, mas dele combinado a todo tipo de preconceito. Essas elites,
dentre as quais as intelectuais, se identificam sempre com uma ideia de
civilização fundada no “darwinismo social”. Um darwinismo manco, pois a
adaptação é substituída pela exploração e dominação, qualidades que conferem à
“cadeia alimentar” dos humanoides um tom de perversão completamente ausente do
reino dos demais animais.
Esse
fascismo estrutural das elites está liquidando com toda ilusão em torno da
democracia burguesa. Todavia, não o faz com vistas a superar as relações de que
provêm as ilusões. Quando muito, o esforço é no sentido de preservá-las; e com
cada vez maior frequência a pretensão é de substituí-las pela dominação e
exploração desavergonhada. Entramos na fase, a mais desinibida e predatória, do
capitalismo de guerra, com barbárie social e colapso ambiental, consequências
inseparáveis do seu padrão de produção e consumo.
Isso
tem implicações éticas e políticas de várias ordens. Boa parte da História tem
implicado o esforço de compreendermos a unidade na diversidade como
característica da vida. Desde o pensamento filosófico, da biologia às ciências
sociais, vemos o sapiens sapiens e suas formas específicas de satisfazer,
material e espiritualmente, suas necessidades. Somos todos gente e nos fazemos
gente de modos diferentes. Mas hoje a diferença é pensada pela assimetria, ao
arrepio do princípio da igualdade e da dignidade, em que o ser diferente é
classificado a partir de um paradigma estabelecido como superior. A diferença é
tida não só por indício, mas como característica de deficiência. O que não é
casa é quintal, visto como espaço comum e inferior em que a autoproclamada
superioridade homogênea borra todas as diferenças.
As
elites dominantes na sociedade capitalista, hoje, não admitem sequer a unidade
da espécie, não aceitam a própria noção de humanidade. E pior, para elas a
principal característica dos humanos, isto é, elas mesmas, é a força e a
disposição de usá-la contra os que julgam serem inferiores. Essas elites
dominantes fundam em bases absolutamente ideológicas, dogmáticas, uma nova
“ciência”, um conjunto de métodos e critérios de avaliação da realidade que se
encaixe no “darwinismo-manco”. O objetivo não é entender, compreender, explicar
a partir de dúvidas, mas disciplinar e eliminar as “impurezas”. O ódio e o
terror se tornam, respectivamente, o afeto e a conduta por excelência dessas
elites. Isso é visível em todos os espaços de socialização pelos quais transitamos,
inclusive as universidades – em que o ódio e o terror aparecem travestidos no
mérito, na retórica da qualidade, na lógica da produtividade e dos sistemas de
ranqueamento. Nelas, o ódio ao pensamento surge como culto à produção do
“conhecimento” e êxtase com a quantificação das performances.
Mas
isso também aparece de modo ainda mais expressivo na incapacidade coletiva –
que independe de sindicatos, movimentos e organizações – de expressar repulsa e
condenação a tragédias como a de Gaza. Falamos em Gaza, mas para falar dos
grupos indígenas do Brasil e das muitas revoltas populares. Canudos é um
exemplo paradigmático a indicar que Gaza sempre foi aqui. Por que, afinal, para
além de um punhado de professores (nem sempre “pesquisadores”), são tão poucos
os que se manifestam crítica e abertamente contra a brutalidade das elites
dominantes?
As
pesquisas, por força de assepsia epistemológica ou arianismo heurístico, se
desenvolvem, mas nunca se envolvem.
O
massacre de Canudos, a despeito da inexistência de rádio à época, foi nossa
primeira guerra, do Estado brasileiro contra o seu povo, a ter transmissão em
tempo real, haja vista a utilização da comunicação telegráfica. Por esse
inovador dispositivo midiático Euclides da Cunha transmitia seus relatos para o
jornal O Estado de S. Paulo. Mas o que seguia do emissor ao receptor não
chegava ao conhecimento do povo e ficava já restrito ao universo ainda mais
restrito dos letrados, num Brasil em que o analfabetismo como programa
aprisionava mais de 80% da população. Mesmo no século XXI, inclusive no
autorreferenciado mundo acadêmico, é ainda pouco conhecido o livro Os sertões,
obra máxima sobre Canudos escrita por Euclides da Cunha. Além do mais, a
religião, força que igualmente pode ser mobilizada tanto para libertar quanto
para escravizar, é um tema pouco trabalhado no mundo intelectual, mesmo no
campo da esquerda. Seria possível compreender Canudos por fora da complexa
relação entre sociedade e religião, sobretudo a religiosidade popular?
Canudos,
no final do século XIX, foi nossa Gaza silenciada. À época Canudos já reunia,
depois de Salvador, a maior concentração populacional da Bahia. Uma revolta
popular e religiosa liderada por Antônio Conselheiro. Em Canudos as balas se
converteram na primeira presença organizada e ostensiva da novíssima República
brasileira. António Conselheiro foi o nosso Thomas Münzer, caracterizado como
teólogo da revolução por Ernst Bloch. Entre 25 e 30 mil pessoas foram dizimadas
em Canudos no confronto desigual entre Exército, Polícia Militar de diversos
estados brasileiros, inclusive do Amazonas, e o povo organizado por Antônio
Conselheiro. É brasileiro o Exército que
mais matou brasileiras e brasileiros, sobretudo crianças, mulheres e população
civil pobre. O arraial de Belo Monte, também conhecido como Canudos, foi
arrasado de forma cruel, covarde, o que levou Euclides da Cunha, com sua
formação positivista e castrense, a rever sua defesa da República, que havia
sido proclamada sem povo e contra o povo. Em Canudos ontem e em Gaza hoje a
fome continua a ser utilizada como a mais criminosa arma de guerra. Gaza é o
horror que entra em nossas casas diariamente, embora sob o cuidadoso filtro da
mídia-lixo, corporativa e sionista.
É que a
autocracia burguesa paga ou promete pagar pelo silêncio, senão pelos ganhos
presentes, pela promessa de ganhos futuros; como a democracia burguesa promete
igualdade e liberdade, mas jamais as entregou.
Se a
verdade não pode ser dita, pois no regime das elites dominantes é tutelada pela
censura e autocensura, a própria ciência se nutre de complacência, cumplicidade
e hipocrisia. Essas não são qualidades estimuladas nos indivíduos, apenas. Elas
são as condutas norteadoras do “sucesso”, condutas ensinadas e estimuladas
desde muito cedo. Tanto a reprodução das próprias elites quanto do Povo depende
desse adestramento à brutalidade estrutural e estruturante. As elites fascistas
estão destruindo a humanidade e a maioria dos humanos estamos assistindo a
tudo, como se se tratasse de um reality show. A destruição como
entretenimento!! Poderia haver maior glória para os sacerdotes da “destruição
criadora”?!
• Coronéis de milícias. Por Aracy P. S.
Balbani
A tese
de doutorado defendida por Orlando Zaccone D’Elia Filho na Universidade Federal
Fluminense em 2013, muito bem escrita e que originou um livro com o mesmo
título, é sempre uma rica fonte de inspiração. Nela encontramos críticas
consistentes do autor para tentar compreender a violência – tanto a do crime
organizado quanto a de parte das forças policiais brasileiras –, e para buscar
soluções civilizadas para a questão da segurança pública.
Destacamos
algumas visões importantes do assunto, apresentadas nessa obra de Orlando
Zaccone: “contribuir com um olhar crítico que revele a opção política, inserida
na cultura punitiva do nosso país, que nos afasta da pena de morte e nos
aproxima da morte sem pena”.
“A
militarização da segurança pública, ao produzir a pacificação de territórios
segregados, passa a constituir uma ‘legalidade autoritária’, que se processa
como permanência histórica, a ensejar decisões de incremento da letalidade
estatal, no marco de uma cultura punitiva de extermínio daqueles que se opõem
ao modelo jurídico-institucional.” “A sociedade brasileira se moderniza sem
abrir mão do arsenal de maldades do absolutismo e da escravidão”.
Na
sociedade cruel em que cidadãos bem-nascidos agridem mulheres ou matam
trabalhadores e depois vão malhar em academias de ginástica, e PMs atiram, por
engano, e pelas costas, na cabeça de jovens negros inocentes que estavam no
caminho entre a casa e o trabalho, fica a sugestão para ler essa tese.
O livro
correspondente deveria ser reeditado com grande número de exemplares, para que
o debate sobre segurança no Brasil seja qualificado, e não se limite às águas
rasas e turvas do clichê troglodita “bandido bom é bandido morto”.
Até o
documento trôpego sobre violação de direitos humanos no Brasil publicado há
poucos dias pelo (des)governo de Donald Trump mencionou o massacre perpetrado
na Operação Escudo na Baixada Santista em 2023 pela polícia do Governador
Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e de seu Secretário de Segurança
Guilherme Derrite (PP-SP).
A
situação de Tarcísio de Freitas e Guilherme Derrite se complicou. Governador,
Secretário e seus familiares terão os vistos para entrar nos EUA cancelados por
ordem de Donald Trump?
Na
sequência, quando estourou o escândalo bilionário de sonegação investigado pelo
Ministério Público paulista, o governador prometeu usar a “mão pesada” contra
fraudes na Receita Estadual.
Se essa
investigação de Tarcísio de Freitas começar por proprietários de imóveis em
condomínios de luxo em Porto Feliz – dizem que alguns seriam vizinhos do
próprio governador – e nos municípios adjacentes, vai se chamar Heavy Hand ou
Operação Bandeirantes, rememorando a famigerada Oban da ditadura militar?
Try
your hand. Melhor dizendo: responda quem puder.
No dia
16/07, Hugo Motta, Presidente da Câmara dos Deputados, determinou a instalação
de uma comissão especial para analisar a Proposta de Emenda à Constituição
(PEC) 18/25, apresentada pelo Governo Federal para constitucionalizar o Sistema
Único de Segurança Pública (SUSP).
Desmoralizado,
não só por não mandar esvaziar a Mesa Diretora ocupada por duas dezenas de
parlamentares baderneiros antes de ir se sentar na cadeira da Presidência – o
que quase lhe custou o vexame de dividir o assento com um arruaceiro –, mas
também ao ser denunciado por empregar o caseiro da própria fazenda como
assessor de gabinete na Câmara, Hugo Motta vai ter de encontrar uma brecha na
agenda para fazer a pauta da PEC 18/25 avançar antes que o crime organizado e a
violência policial dizimem o eleitorado indefeso.
Do
contrário, pode sobrar pouca gente maior de 16 anos viva e disposta a sair de
casa para eleger governadores, deputados e senadores em 2026. Pois é. Eleitor
bom é eleitor vivo e seguro, senhor presidente Hugo Motta.
Uma
jovem deputada estadual, cujo nome sequer merece ser lembrado, encabeça a
“Frente Parlamentar de Apoio às Mulheres Virtuosas” na Assembleia Legislativa
do Estado de São Paulo. A dita parlamentar apresenta-se como “defensora do
armamentismo e da mulher”. Um perfil desse, convenhamos, é uma dose cavalar da
filosofia profunda de Mario Quintana direto na veia. Foi o poeta gaúcho que
disse: “Quem nunca se contradiz deve estar mentindo”.
Diante
da notícia “Mulher esfaqueada pelo ex carregava medida protetiva no momento do
crime; foto mostra documento manchado de sangue”, questionamos a parlamentar
por escrito em 31/03/2024. Afinal, essa e muitas outras ocorrências registradas
no Estado de São Paulo evidenciam que as políticas de segurança pública ainda
deixam a desejar na proteção efetiva das mulheres contra a violência, mesmo das
que já estão sob medida protetiva judicial.
Já que
o custo elevado da contratação de segurança privada armada – legalizada,
evidentemente – torna essa opção inviável para as mulheres virtuosas pobres e
da classe média, residentes e contribuintes no Estado de São Paulo, o que a
Frente Parlamentar coordenada por Sua Excelência propõe para remediar, no
curtíssimo prazo, a carência na nossa proteção contra a violência?
Quase
17 meses depois, a deputada ainda não respondeu a nossa pergunta. Porém, outras
centenas de mulheres foram agredidas, estupradas ou assassinadas no Estado.
Notícias
recentes apontam que crimes cibernéticos superam furtos e roubos e já vitimaram
mais de 24 milhões de brasileiros. Na Itália, criminosos invadiram sistemas de
informática de hotéis e roubaram as imagens e informações de passaportes e
outros documentos de milhares de turistas. Os dados das vítimas foram vendidos
na darkweb.
Roubo
de dados pessoais, fotos, vídeos ou textos. Inserção de mensagens ofensivas,
pornográficas ou ameaçadoras em aplicativos de mensagens. Fraudes bancárias.
Clonagem de celulares. O leque de ilicitudes cometidas via computador ou
smartphone é amplo.
Tão
covardes e perigosos quanto os demais meliantes, os bandidos que se escondem
atrás de telas e seus mandantes também podem se apresentar como defensores de
Deus, da família, da pátria e da liberdade. Não passam de hipócritas.
Vai
saber se usam crachá, farda ou distintivo policial, andam em carro oficial e
cometem os crimes virtuais usando um acesso livre a estruturas da administração
pública. Atualmente, a terceirização de serviços públicos para intermediários
privados escancara avenidas virtuais até os dados sensíveis da população.
Não
basta nacionalizar os programas e aplicativos de uso governamental para
restringir o acesso das big techs estrangeiras aos dados dos cidadãos
brasileiros e dos nossos setores estratégicos e de defesa.
Assim
como se exigem bons antecedentes para ingressar mediante concurso público e
permanecer na Polícia Federal, é preciso estabelecer os mesmos critérios de
admissão e monitorar continuamente a atuação dos servidores públicos, civis e
militares, que usam ou controlam sistemas de informática nos Três Poderes em
todo o país.
Não se
trata apenas de dados, de sistemas de defesa nacional ou de dinheiro. Estamos
falando de vidas humanas.
Maquiavel
já dizia que o desejo dos grandes é oprimir e comandar. Em vários escalões da
República, latifúndios e grandes empresas, muita gente se regozija em usar o
poder político ou econômico até se lambuzar. Esse comportamento narcisista e
sádico, típico de coronéis escravocratas, é replicado, inclusive, em
fabriquetas familiares, botecos de esquina e biroscas de praia.
Quando
os fins parecem justificar os meios, não há limites. Vale tudo: trair a/o
cônjuge; chantagear; aplicar rasteira em parentes ou sócios; assediar
funcionários; falir empresas; intimidar opositores; subornar agentes públicos;
fraudar balanços contábeis; forjar provas contra adversários; espionar e
sabotar concorrentes, etc.
Quanta
coisa perversa cabe nesse et cetera. Até empurrar a esposa ranzinza, o cunhado
chato e os descendentes gamers mimadinhos para disputarem cargos eletivos
quando o político profissional destacado da família está inelegível, após ser
condenado por corrupção. É a mutreta clássica da formação de família.
Muitos
desses poderosos se dizem pessoas de grande fé, mas, no fundo, professam mesmo
é a crença no ditado “Entre Deus e o dinheiro, o segundo vem primeiro”. Não
raro, cultuam o Ato Institucional no. 5, o macabro AI-5 da ditadura militar, no
mesmo altar de Mamon.
No
teatro do poder, eles têm lugar garantido no camarote VIP dos grandes…
hipócritas deslumbrados.
Cientistas
políticos e juristas alertam que o crime organizado já ocupa um espaço perigoso
na vida política brasileira. A mobilização social ativa, altiva e organizada
junto às instituições é fundamental para reverter isso. Governantes e
parlamentares cujos vínculos com milícias e outras facções criminosas forem
provados precisam ser julgados com direito à ampla defesa e condenados.
Resistir
aos espetáculos grotescos da extrema direita brasileira sem perder o bom humor
é condição sine qua non para mantermos nossa saúde física e mental. Que venham
os memes espirituosos, as paródias e as manchetes do Sensacionalista como
antídotos para as patacoadas dos nossos extremistas caricatos e ignorantes.
Alegria!
De olho
em 2026 no país e no mundo que queremos para nós e as gerações que nos
sucederão, apliquemos sempre nossa militância inteligente, incansável e muita
coragem.
À
vitória!
Fonte:
A Terra é Redonda

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