quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Jorge Folena: O papel das big techs na trama golpista

A sessão de abertura do segundo semestre do ano judiciário de 2025, realizada no primeiro dia de agosto, transformou-se, na verdade, em um ato de desagravo em favor do ministro Alexandre de Moraes, indevidamente perseguido pelo presidente dos Estados Unidos da América do Norte. Na ocasião, o que mais me chamou a atenção foi a parte da manifestação do ministro Gilmar Mendes, na qual ele, na qualidade de decano da Corte, explicitou com clareza o papel das big techs ao longo da trama golpista que culminou nos atos violentos de 8 de janeiro de 2023.

O ministro descreveu que a convocação das pessoas para participarem das ações violentas contra a democracia, inclusive com atos impulsionados por patrocinadores golpistas, se deu por meio das redes sociais. Assim, além de terem tido prévio conhecimento das ações criminosas que iriam se desenrolar, sem nada terem feito para evitar e sem denunciar às autoridades competentes, essas empresas de mídia ganharam muito dinheiro e lucraram com a desordem institucional e a grave ameaça ao Estado Democrático de Direito.

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Desse modo, estão bem longe de serem consideradas inocentes, mas não sofreram, até agora, qualquer responsabilização por sua participação na conduta criminosa que está sendo apurada e enfrentada no país, cujos principais acusados são os fascistas, liderados pelo ex-presidente.

A manifestação do ministro me fez recordar as movimentações ocorridas no Brasil, a partir de julho de 2013, quando verdadeiros levantes foram orquestrados e convocados pelas redes sociais, para desestabilizar o governo da presidenta Dilma Rousseff e o processo de desenvolvimento nacional em curso no país naquela oportunidade, que tinha na Petrobras e na engenharia nacional as molas propulsoras do dinamismo econômico.

A partir dali, sabemos o que aconteceu no Brasil: o impeachment da presidenta Dilma (indiretamente reconhecido pelo ministro Barroso como “questionável”, no seu pronunciamento de desagravo); a criminalização do Partido dos Trabalhadores, a partir da propagação do discurso falso moralista da Lava Jato; a entrega dos campos de petróleo ao capital internacional e o consequente desmonte da Petrobras para favorecer os interesses de acionistas estrangeiros; culminando na prisão ilegal do presidente Lula e na ascensão do fascismo, que levou um traidor da pátria à presidência da República.

Todos esses acontecimentos tinham por objetivo a repressão das lideranças nacionalistas e o enfraquecimento da soberania nacional, para favorecer os interesses do imperialismo, que tem nas big techs sua principal arma na guerra híbrida lançada contra o Brasil e outros países colonizados no passado e que ainda são detentores de muitas riquezas naturais, os quais, desde a primeira década do século XXI, estão se reunindo no Brics em busca de uma aliança de cooperação e desenvolvimento em favor de seus povos.

Vale lembrar também os levantes que culminaram nas famigeradas “primaveras árabes”, no final dos anos 2000; as guerras promovidas contra o Iraque, Líbia e Síria; as tentativas de golpe na Turquia e na Rússia; e os golpes efetivados no Paraguai, na Bolívia, no Brasil, na Ucrânia e em Hong Kong (na China); além das repressões judiciais, decorrentes da operação Lava Jato, levadas a cabo no Peru, no Equador e no Brasil, para impedir o avanço da engenharia brasileira, representada principalmente pela empresa Odebrecht, que estava se destacando na implementação de importantes projetos nacionais e internacionais.

Fica explícito, então, o papel dos denominados “formadores de opinião”, empregados como efetivos instrumentos na guerra que visa enfraquecer a soberania das nações que tentam se libertar da exploração e do domínio colonialista, cuja finalidade é retirar daqueles países o controle sobre a exploração de suas próprias riquezas, que deixam de ser empregadas para o desenvolvimento de seus cidadãos.

Por isso, mais do que nunca, o Brasil se defronta com a necessidade de estabelecer o controle efetivo das redes sociais, que se apresentam nos dias atuais como verdadeiras “terras de ninguém”, onde se tenta disseminar e naturalizar os piores crimes e comportamentos, como destacado pelo ministro Gilmar Mendes.

Penso, inclusive, que o país deveria mobilizar a capacidade científica e tecnológica de nossas universidades e centros de pesquisa para promover a criação de uma rede própria, genuinamente brasileira e sob o controle do Estado, a fim de proteger não apenas a segurança nacional, mas também o gigantesco conjunto de dados dos cidadãos e das instituições do país, tendo em vista os riscos à soberania e à democracia representados pelas big techs.

•        "Backfire" das big techs. Por Wilton Gomes

Nessa disputa Trump vs. Lula, somente os desavisados ou aqueles que pretendem distorcer a realidade propositalmente, desvirtuando informações e deturpando os fatos nesse novo mundo de pseudoespecialistas e “influencers”, acreditam cegamente – ou fazem acreditar – que este embate se dá em razão do julgamento do ex-presidente da República, Jair Bolsonaro.

O julgamento de Bolsonaro é apenas um pano de fundo para encobrir o real objetivo do governo estadunidense, qual seja: a proteção dos interesses financeiros e políticos das “big techs”. Basta rememorar a recente posse do presidente Trump, em que, pela primeira vez, como o mundo pôde assistir, os CEOs dessas gigantes da tecnologia tiveram lugar cativo e de destaque. Não se trata, portanto, de um embate político entre bolsonaristas e o Judiciário brasileiro. Longe disso.

Estrategicamente, o governo Trump vem apostando nas “big techs” em detrimento de outros setores da economia, inclusive gigantescos para os norte-americanos, por dois grandes motivos escancaradamente expostos, quais sejam: o financeiro e o eleitoral, no qual um fala tão alto quanto o outro, sem gradação explícita de importância.

Diferentemente de outras áreas da economia americana, essas gigantes da tecnologia são líderes mundiais, com ampla margem de folga comparada a empresas de tecnologia de outros países, e representam significativa fonte de desenvolvimento financeiro-econômico para o país. Esse setor, extremamente competitivo, é visto como fator indispensável para a manutenção da liderança econômica mundial nas próximas décadas, hoje fortemente ameaçada pela China.

Logo após a vitória eleitoral de Trump, intensificou-se a aproximação das big techs com os republicanos. Se, por um lado, o governo afrouxou a regulamentação do setor, reduzindo os processos antitruste e aumentando a liberdade para fusões e aquisições, incrementando os contratos governamentais e os incentivos estatais para o setor, por outro, concedeu às gigantes da tecnologia a tão cobiçada moderação de seu conteúdo, resultando em posturas muito menos rígidas no combate à desinformação e ao discurso de ódio.

É assim, portanto, que as “big techs” se tornaram um importante braço político e eleitoreiro dos republicanos. A ausência ou o controle ineficiente das plataformas digitais, com o pretexto de atendimento ao princípio da liberdade de expressão, é um terreno fértil para a desinformação vertiginosamente propagada e para a disseminação do discurso de ódio calcado em preconceitos e discriminações. Nesse cenário, os republicanos e a extrema direita mundial, melhor do que ninguém, trabalham com a desinformação e a secessão social.

No Brasil, particularmente, o processo é justamente o inverso. No entanto, se a restrição e intensificação do controle das “big techs” não ocorrem propriamente pela legislação federal, tampouco pela atuação do Congresso Nacional, elas se dão perante o Poder Judiciário.

O Supremo Tribunal Federal vem impondo sucessivas derrotas aos interesses das “big techs”, e a mais acachapante delas, sem sombra de dúvidas, é a recente decisão, em meados deste ano, que julgou parcialmente inconstitucional o art. 19 do Marco Civil da Internet. Os ministros do STF endureceram as responsabilidades das gigantes de tecnologia, obrigando-as à retirada de conteúdo ofensivo mesmo sem decisão judicial, fazendo com que estas tenham um aumento substancial de custos operacionais e riscos de punições, como multas pelo não cumprimento das novas regras. O Supremo, portanto, passa a responsabilizá-las pelo conteúdo inserido ou postado em suas plataformas, algo impensável quando comparado à situação de pouca ou quase nenhuma regulamentação norte-americana.

É dentro desse contexto, portanto, que advém a aplicação da “Lei Global Magnitsky” em face do ministro Alexandre de Moraes, um dos mais duros julgadores a favor da responsabilização das plataformas de tecnologia por seus respectivos conteúdos, chegando inclusive a bloquear a rede “X” no território nacional por desrespeito a decisões judiciais.

Entre as sanções impostas nesta semana ao ministro Alexandre de Moraes, com base nessa lei, ocorrerão: i) o bloqueio de bens, contas bancárias e investimentos existentes nos Estados Unidos, se houver; ii) o cancelamento de cartões de crédito das grandes bandeiras que operam nos Estados Unidos; iii) a suspensão de contas em redes sociais que tenham sede nos Estados Unidos.

A princípio, circula a notícia de que o ministro não possui contas bancárias, investimentos ou patrimônio nos Estados Unidos. No que concerne ao cancelamento dos cartões de crédito das bandeiras que operam nos Estados Unidos, será uma celeuma para o jurídico das instituições financeiras no Brasil, pois, pelo Código de Proteção e Defesa do Consumidor, a bandeira do cartão de crédito não poderá utilizar como justificativa a “Lei Global Magnitsky”.

Não há que se falar, neste caso, em aplicação de legislação estrangeira, pois esta sequer teria qualquer convergência com os princípios mais basilares do nosso ordenamento jurídico, bem como com os da Constituição Federal.

Sobre esse tema, a jurisprudência pátria é pacífica em determinar a nulidade do cancelamento unilateral de forma abrupta, inexistindo pendência financeira, gerando inclusive direito a danos morais ao consumidor, no caso, o ministro Alexandre de Moraes.

Situação pior ainda é a das “big techs”, que, se por um lado conseguiram “capturar” o Estado norte-americano, personificado neste momento em Trump e suas idiossincrasias, fazendo com que aquele governo, em detrimento do interesse público do país, atue sempre a favor delas, neste particular episódio, ao sancionar de forma radical um ministro brasileiro cujas decisões, muito embora passíveis de críticas, estão inseridas no nosso sistema constitucional e, portanto, são formalmente legais, as obriga agora, pela Lei Global Magnitsky, a cancelarem ou suspenderem as contas do ministro Alexandre de Moraes sob pena de sanções dos EUA.

Assim sendo, uma vez mais, seja pelo Código de Proteção e Defesa do Consumidor, seja pelo Marco Civil da Internet, a suspensão das contas do ministro Alexandre de Moraes, imotivada e injustificada, é ilegal, podendo gerar danos morais, multas diárias e até mesmo a suspensão das plataformas por descumprimento da ordem judicial — situação similar à que ocorreu com a plataforma X. Backfire! Pelo visto, o tiro das big techs pode sair pela culatra.

¨      Vieira cita 'conluio' contra democracia brasileira e diz que soberania 'não é moeda de troca'

O ministro das Relações Exteriores brasileiro, Mauro Vieira, afirmou nesta segunda-feira (4) que há um conluio que tem como alvo a democracia brasileira, mas que "nossa soberania não é moeda de troca".

"Tenho enorme orgulho e sentido de responsabilidade na atual tarefa de liderar o Itamaraty na defesa da soberania brasileira de ataques orquestrados por brasileiros em conluio com forças estrangeiras. Nesse ultrajante conluio, que tem como alvo a nossa democracia, os fatos e a realidade brasileira não importam para os que se erigem em veículo antipatriótico de intervenções estrangeiras", disse o chanceler.

A citação do ministro é feita no contexto da ofensiva norte-americana contra o governo do Brasil, que teve as exportações sobretaxadas em 50%. No ato da aplicação das tarifas, Donald Trump, presidente dos EUA, emitiu uma carta ao governo brasileiro alegando que a medida era uma resposta à "injustiça" do processo judicial enfrentado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Vieira ressaltou também que o Brasil, recentemente, foi vítima de uma tentativa de golpe militar, cujos "responsáveis estão hoje no banco dos réus, em processos transparentes, transmitidos pela TV em tempo real, com direito a ampla defesa e respeito ao devido processo legal".

Diante das tensões nas relações entre Brasil e EUA e dos efeitos disso na política doméstica, Vieira enfatizou ter orgulho de defender o Brasil e que "nossa soberania não é moeda de troca diante de exigências inaceitáveis". Para o chanceler, a solução para o imbróglio vivido é a negociação através do diálogo.

Vieira discursou durante uma sessão solene em celebração dos 80 anos de fundação do Instituto Rio Branco (IRBr). Ele aproveitou a ocasião para salientar a importância do multilateralismo.

¨      Ofensivas de Trump apenas vulgarizam o que as big tech já fazem desde sempre

É 2012 e pesquisadores do Facebook realizam experimento de manipulação psicológica com algoritmos e chocam-se ao perceberem que esqueceram que a plataforma foi criada para ranquear estudantes de forma misógina. É 2015: pesquisadoras identificam que recursos do Facebook ocultaram mobilizações do Black Lives Matter. É 2017: massacres em Myanmar levam à fuga de centenas de milhares – Anistia Internacional aponta papel da promoção algorítmica do ódio. É 2018, o escândalo da Cambridge Analytica reforça o poderio das big tech em influenciar eleições. É 2021, funcionários da Google e Amazon protestam contra o Projeto Nimbus, que oferece IA e infraestrutura digital ao apartheid israelense. É 2025: ferramenta Grok exalta Hitler no X, antigo Twitter. Caso relembra o célebre Tay Bot da Microsoft, que fez o mesmo no Twitter em 2016. 

É janeiro de 2025: Mark Zuckerberg (Meta), Sam Altman (OpenIA), Elon Musk (X), Sundar Pichai (Google), Jeff Bezos (Amazon) e Peter Thiel (Palantir) participam da posse de Donald Trump, costuram novos contratos e abandonam compromissos de fachada – nunca realmente cumpridos – ligados à sustentabilidade, diversidade e transparência. No Brasil, a Advocacia Geral da União realiza audiência pública em reação à repentina mudança de termos de uso das plataformas. As empresas não enviam representantes. 

Junho de 2025. Brasil lança, com pouca escuta da sociedade civil, versão atualizada “Plano Brasileiro de Inteligência Artificial” que inclui diversas menções positivas a empresas como OpenIA e, apesar de incluir menções à “redução da dependência externa”, as ações e investimentos são eclipsados pela enormidade de gastos que o país tem com as big tech. Só em 2024, foram R$ 10 bilhões gastos em ferramentas, softwares e serviços de nuvem que, ainda, vulnerabilizam dados de brasileiros. Pouco antes, o ministro da Fazenda se reuniu com representantes da Amazon e da Nvidia para levar um plano de incentivos fiscais para construção de data centers no Brasil. Brasileiros ainda não conhecem as condições do plano

Chegamos a agosto de 2025 e a vulgaridade das ofensivas de Trump tem parceiros e beneficiários muito evidentes. Em declaração cheia de desinformação, a Casa Branca afirmou que a motivação para taxar desproporcionalmente o Brasil inclui as supostas ações do país para “tiranicamente e arbitrariamente coagir empresas dos EUA a censurar discurso político, desplataformizar usuários, entregar dados sensíveis ou mudar suas políticas de moderação”. 

O Brasil sofre de síndrome de Estocolmo com as big tech – o triste fenômeno psicológico quando vítimas de sequestro ou abuso desenvolvem sentimentos positivos e de dependência com seus agressores. As evidências do papel das big tech e capital financeiro sedento por usar tecnologias digitais e IA para aprofundar explorações parecem ser ignoradas por políticas públicas, ao mesmo tempo que a sociedade civil organizada não consegue espaço para participar – ou ao menos ter acesso a informações que deveriam ser transparentes. 

As más decisões do Estado brasileiro sobre as big tech não acontecem num vácuo. Tais empresas são muito mais sofisticadas para incidir politicamente que a expressão mais agressiva do trumpismo deixa transparecer. Parte expressiva do Congresso Nacional brasileiro tem sido capturada pela influência dessas corporações, que contam com acesso privilegiado aos espaços decisórios e conseguem pautar a agenda legislativa em favor de seus interesses.  

O abuso de poder econômico de grupos como Meta, Alphabet e Microsoft se manifesta não só na pressão sobre parlamentares, mas também na influência exercida sobre outros atores no campo da governança das tecnologias digitais. O investimento das big tech em think tanks, grupos de pesquisa em universidades privadas, conferências de privacidade de dados e outros espaços de debate sobre tecnologia criam um ambiente de promoção da ignorância e esquecimento sobre o histórico e o presente antidemocrático das big tech e o que representam. 

Nesse contexto, o avanço da regulamentação das plataformas de redes sociais no Brasil, muitas vezes alardeado como censura prévia, aparece atravessado pelo lobby e pressão do setor privado, escancarando como seu poder se infiltra nas instituições e corrói a capacidade de defesa de um processo democrático efetivo. 

Os impactos negativos da ofensiva de Trump a tantos setores brasileiros diferentes e os decorrentes benefícios de apoio ao governo federal na opinião pública, assim como a fragilização da confiança nos Estados Unidos, abrem uma janela de oportunidade ímpar. Agentes públicos, sociedade civil e pesquisadores acadêmicos, assim como o empresariado nacional responsável, podem tomar melhores decisões que reconheçam que o problema vai muito além de Trump – e que precisamos de um imaginário tecnológico de futuro que inclua soberania digital de forma significativa. 

 

Fonte: Brasil 247/Sputnik Brasil/Le Monde

 

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