quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Hamas condiciona ajuda para reféns a corredores humanitários

Hamas condicionou o envio de ajuda para reféns israelenses ao estabelecimento de corredores humanitários para a passagem de alimentos e outros suprimentos em toda a Faixa de Gaza. Um porta-voz do grupo afirmou que a Cruz Vermelha terá permissão para entregar alimentos e medicamentos aos reféns desde que Israel autorize o envio de ajuda humanitária sustentada e abrangente à Faixa de Gaza e que Israel pare todos os ataques aéreos enquanto a ajuda estiver sendo distribuída.

Nos últimos dias, a divulgação de imagens que mostram reféns em extrema desnutrição gerou comoção em Israel, levando o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, a apelar ao apoio do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).

As Brigadas Al-Qassam – braço militar do Hamas, organização considerada como terrorista por União Europeia, AlemanhaEstados Unidos e outros – disseram não ter privado "intencionalmente" os reféns de comida, mas que eles não receberiam privilégios diante da fome e do cerco a Gaza por Israel.

Uma gravação de quase cinco minutos mostra Evyatar David, de 24 anos, em um túnel estreito, sendo forçado a cavar o que é descrito como sua "própria cova". No vídeo, ele relata os dias em que recebeu apenas feijão, lentilhas ou, às vezes, nada para comer.

O CICV disse em nota que estava "chocado com os vídeos perturbadores" e reiterou seu pedido para ter acesso aos reféns, a fim de fornecer alimentos e tratamento médico.

Em nota, o escritório do primeiro-ministro israelense disse que Netanyahu havia conversado com parentes de dois reféns que apareciam nas gravações. Ele "disse às famílias que os esforços para retornar todos os nossos reféns estão em andamento", segundo o comunicado.

De 251 reféns inicialmente capturados, 49 permanecem no cativeiro do Hamas – dos quais 27 estão mortos, diz Israel.

<><> Pressão internacional

No fim de semana, milhares de pessoas protestaram em Tel Aviv para pressionar o governo israelense a obter a liberação dos reféns mantidos em cativeiro desde 7 de outubro de 2023. As famílias expressam frustração com o governo de Israel, afirmando não ver avanço claro nas negociações.

Os vídeos divulgados pelo Hamas fazem explícita menção à demanda por um cessar-fogoe por alívio à crise humanitária em Gaza, imersa num cenário de fome generalizada

Uma sessão emergencial sobre a situação dos reféns é esperada para esta terça-feira no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). A chefe de diplomacia da União Europeia (UE), Kaja Kallas, disse que as imagens "expõem a barbaridade do Hamas" e que "o Hamas deve se desarmar e pôr fim ao seu domínio em Gaza". 

Já um grupo de 550 ex-oficiais de segurança israelenses – incluindo antigos chefes dos serviços de espionagem, militares, policiais e diplomatas – apelaram ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para pressionar Netanyahu a acabar com a guerra em Gaza. 

Uma carta conjunta afirma que o Hamas já não representa uma ameaça estratégica para Israel. O país "tem tudo o que precisa para gerir as suas capacidades terroristas residuais", diz o texto, enquanto "os reféns não podem esperar".

Esta guerra "deixou de ser uma guerra justa e leva o Estado de Israel a perder a sua identidade", afirmou em vídeo Ami Ayalon, antigo diretor do Shin Bet, o serviço de segurança interna israelense.

<><> Mortes por fome em Gaza

Israel bloqueou em grande parte a entrada de ajuda humanitária a Gaza, e diversas organizações relatam que o território vive uma crescente crise alimentar. A população palestina arrisca suas vidas na tentativa de obter suprimentos distribuídos por canais controlados. 

No domingo, autoridades em Gaza disseram ter registrado cinco óbitos de adultos relacionadas à fome e desnutrição. No total, pelo menos 180 pessoas em Gaza já morreram pelos mesmos motivos desde o início da guerra, incluindo 93 menores de idade. 

A maioria das mortes aconteceu nas últimas semanas, com o agravamento da crise humanitária no território.  

Outras 14 pessoas morreram enquanto esperavam para coletar alimentos em dois pontos diferentes. À AFP, uma testemunha disse que soldados abriram fogo contra a população civil em um deles. 

O ataque do Hamas contra Israel em outubro de 2023 resultou na morte de 1.219 pessoas, a maioria civis, com base em números oficiais. A campanha de Israel em Gaza matou pelo menos 60.430 pessoas, também em sua maioria civis, de acordo com dados do Ministério da Saúde do território controlado pelo Hamas, considerados críveis pela ONU.

¨      A reação de líderes mundiais e da Cruz Vermelha às imagens de reféns definhando em Gaza

Líderes ocidentais condenaram vídeos que mostram reféns israelenses em Gaza, definhando, enquanto a Cruz Vermelha pediu acesso a todos aqueles que ainda estão em cativeiro.

O Secretário de Relações Exteriores britânico, David Lammy, disse que "imagens de reféns exibidas para fins de propaganda são repugnantes" e que os reféns deveriam ser libertos "incondicionalmente".

Os apelos ocorrem após a Jihad Islâmica Palestina divulgar um vídeo de Rom Braslavski na quinta-feira (31/7) no qual ele aparece magro e chorando e o Hamas divulgar imagens de Evyatar David definhado no sábado.

Líderes israelenses acusaram o Hamas de privar seus reféns de alimentos.

Braslavski, de 21 anos, e David, de 24, foram feitos reféns no festival de música em 7 de outubro de 2023, durante o ataque liderado pelo Hamas ao sul de Israel.

Eles estão entre os 49 reféns, dos 251 originalmente capturados, que, segundo Israel, ainda estão detidos em Gaza. Isso inclui 27 reféns que possivelmente estão mortos.

Após a divulgação dos vídeos, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, conversou com as duas famílias de reféns, expressando "profundo choque" e dizendo que os esforços para devolver todos os reféns "continuarão constantes e implacavelmente".

Neste domingo (3/8), Netanyahu conversou com o chefe da Cruz Vermelha na região, solicitando seu envolvimento imediato no fornecimento de alimentos e assistência médica aos reféns.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) declarou estar "consternado" com os vídeos, que fornecem "evidências contundentes das condições de risco de vida no qual os reféns estão sendo mantidos".

A instituição reiterou seu apelo para que seja concedido acesso aos reféns para avaliar suas condições, fornecer suporte médico e facilitar o contato com suas famílias.

O braço armado do Hamas, as Brigadas Al-Qassam, afirmou que responderia positivamente a qualquer solicitação da Cruz Vermelha para entregar alimentos e medicamentos aos prisioneiros. No entanto, colocou como condição a abertura de corredores humanitários para Gaza de forma regular e permanente, e a interrupção dos ataques aéreos durante o período de recebimento da ajuda.

A Cruz Vermelha tem enfrentado duras críticas em Israel por seu papel na guerra, com alegações de que não prestou socorro aos reféns mantidos em Gaza.

No início deste ano, em meio à indignação com as cenas caóticas de libertação de reféns como parte de um acordo entre Israel e o Hamas, a organização explicou os limites de seu papel, afirmando que depende da boa vontade das partes envolvidas para operar em zonas de conflito.

Também houve críticas de palestinos, já que o grupo não tem permissão para visitar prisioneiros palestinos detidos em prisões israelenses desde 7 de outubro de 2023.

No fim de semana em Tel Aviv, multidões de manifestantes e famílias de reféns se reuniram novamente, pedindo ao governo israelense que garantisse a libertação dos reféns.

As famílias de David e Braslavski disseram em uma manifestação no sábado que "todos precisam sair do inferno, agora".

Em um vídeo, Braslavski é visto chorando enquanto diz que ficou sem comida e água e comeu apenas três "migalhas de falafel" naquele dia. Ele diz que não consegue ficar de pé ou andar e que "está à beira da morte".

A família de Braslavski, em um comunicado implorou aos líderes israelenses e americanos que trouxessem seu filho para casa.

"Ele simplesmente foi esquecido lá", disseram.

No segundo vídeo, David disse: "Não como há dias... Mal tenho água para beber" e é visto cavando o que ele diz ser sua própria cova.

Sua família disse que ele estava sendo "deliberada e cinicamente deixado passar fome nos túneis do Hamas em Gaza — um esqueleto vivo, enterrado vivo".

O chanceler alemão, Friedrich Merz, disse estar "consternado" com as imagens, acrescentando que a libertação de todos os reféns era um pré-requisito obrigatório para um cessar-fogo entre Israel e o Hamas.

O presidente francês, Emmanuel Macron, que afirmou que o Hamas personifica "crueldade abjeta", disse que a França continua trabalhando incansavelmente para a libertação dos reféns, para o restabelecimento do cessar-fogo e para permitir a entrada de ajuda humanitária em Gaza.

Ele afirmou que esse esforço deve ser acompanhado de uma solução política, uma solução de dois Estados "com Israel e Palestina vivendo lado a lado em paz". A França anunciou recentemente sua intenção de reconhecer um Estado palestino, juntamente com o Canadá e o Reino Unido, sob certas condições. Israel condenou veementemente as medidas.

As imagens de reféns definhados estão sendo divulgadas enquanto agências apoiadas pela ONU afirmam que "o pior cenário de fome está se desenrolando atualmente" em Gaza, com mortes por desnutrição relatadas diariamente.

O Ministério da Saúde, administrado pelo Hamas, afirmou no domingo que 175 pessoas, incluindo 93 crianças, morreram de desnutrição desde o início da guerra.

A ONU, agências humanitárias e alguns aliados de Israel atribuem a crise da fome às restrições israelenses à entrada e entrega de ajuda humanitária. Israel nega e culpa o Hamas.

Apesar das evidências contundentes, as autoridades israelenses e parte da imprensa do país rejeitam veementemente a existência de fome em Gaza e afirmam que a crise é uma mentira fabricada pelo Hamas e disseminada pela mídia internacional.

Algumas fotos de crianças emaciadas foram exibidas por manifestantes israelenses que pedem um acordo com o Hamas, mas muitos em Israel parecem desconhecer a extensão da emergência no país.

À medida que a guerra continua, Israel enfrenta um crescente isolamento internacional, enquanto a destruição generalizada em Gaza e o sofrimento dos palestinos geram indignação.

Pesquisas em todo o mundo sugerem que a opinião pública está cada vez mais negativa em relação a Israel, pressionando os líderes a agirem.

¨      Ministro de Israel gera crise após orar em templo muçulmano

O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir, realizou neste domingo (03/08) uma oração pública na Esplanada das Mesquitas. O local é um dos sítios religosos mais sensíveis de Jerusalém Oriental e está no centro do conflito entre israelenses e palestinos.

Na ocasião, o político nacionalista de ultradireita Ben Gvir ainda sugeriu que Gaza seja integralmente ocupada por Israel. 

Tomado como uma provocação pelo mundo muçulmano, o movimento violou um acordo histórico que proíbe orações judaicas no local e desencadeou condenações de diversos países da região.

Com o governo de Benjamin Netanyahu enfrentando críticas globais devido às condições de fome no território palestino, a visita de Ben Gvir ao local, chamado de Monte do Templo pelos judeus, ameaçou prejudicar os esforços para obter um cessar-fogo.

<><> Acordo proíbe oração judaica

O complexo ao redor da mesquita de Al-Aqsa é o terceiro local mais sagrado do Islã, chamado pelos muçulmanos de Haram al-Sharif, e também o mais sagrado do judaísmo. Ele foi construído em Jerusalém Oriental sobre as ruínas de dois templos judaicos. Israel ocupou a área em 1967, em uma ação não reconhecida por parte da comunidade internacional.

Desde então, Israel celebrou um acordo com a Jordânia, que é guardiã do local, em que permite a visita de não-muçulmanos ao complexo, mas proíbe judeus de realizarem orações ou rituais religiosos. O entendimento foi formalizado em um acordo de paz entre os dois países em 1994.

Nos últimos anos, porém, o pacto conhecido como "status quo" foi violado por visitantes judeus nacionalistas, incluindo membros do parlamento israelense.

Haram al-Sharif também foi palco de repetidos choques entre policiais israelenses e palestinos

A visita de Ben Gvir no domingo, no entanto, marcou a primeira vez que uma oração foi recitada publicamente por um ministro do governo de Israel, segundo a mídia israelense. O próprio ministro afirmou que orou no local.

A data escolhida por Ben Gvir para sua ação foi simbólica. No calendário hebraico, o domingo marcou a Tisha B'Av, um dia de jejum em memória da destruição dos dois templos judaicos que antes existiam no local. Ele esteve no complexo ao lado de colonos israelenses. 

<><> Países condenam "provocação"

A ação de Ben Gvir, descrita pelo jornal israelense liberal Haaretz como uma "provocação", recebeu condenação da Autoridade Palestina, que chamou o ato de uma "escalada perigosa". Jordânia, Turquia e Arábia Saudita também criticaram o movimento.

"Condenamos veementemente a invasão realizada na Mesquita de Al-Aqsa por certos ministros israelenses, sob a proteção da polícia israelense e acompanhados por grupos de colonos israelenses", disse o ministério das Relações Exteriores da Turquia em comunicado.

"A segurança da Mesquita de Al-Aqsa e a preservação da identidade sagrada de Jerusalém não são apenas prioridades regionais, mas também uma responsabilidade primordial em nome da consciência coletiva da humanidade", afirmou.

Em 2023, Ben Gvir também disparou uma crise ao visitar a Esplanada das Mesquitas, sem ter feito orações públicas na ocasião.

<><> Ben Gvir pede conquista de Gaza

"Assim como demonstramos que é possível exercer nossa soberania no Monte do Templo, também é possível 'conquistar toda a Faixa de Gaza' e 'promover a emigração voluntária'", disse Ben Gvir em um vídeo gravado no local.

Ben Gvir afirmou ainda que Israel deveria responder aos "vídeos horríveis" de dois reféns israelenses divulgados por grupos militantes palestinos nesta semana, onde um deles é visto desnutrido e cavando a própria cova.

Após a visita, Benjamin Netanyahu afirmou que "a política de Israel de manter o status quo no Monte do Templo não mudou e permanecerá inalterada".

 

Fonte: DW Brasil/BBC News Mundo

 

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