quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Entre palavrões e bênçãos: a estratégia de Malafaia

O pastor Silas Malafaia voltou a atacar a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal em vídeo divulgado nesta segunda-feira (25). Chamou a PF de “Gestapo”, disparou ofensas contra o ministro Alexandre de Moraes e acusou delegados de vazarem conversas íntimas de Jair Bolsonaro, embora as mensagens só tenham vindo a público após decisão do STF que retirou o sigilo do inquérito. 

Para o professor da UEFS, Lucas Nascimento, autor do livro O veneno da língua: o desafio evangélico de falar a verdade sem ferir, a retórica do pastor não é mero destempero, mas parte de uma engrenagem com objetivo político claro.

“O Malafaia funciona como apologeta do bolsonarismo. Ele dá forma religiosa a um discurso político de intimidação. É o pastor que ameaça, grita e, ao mesmo tempo, pede bênção. Essa contradição é calculada”, explica, em entrevista à TVGGN Justiça.

<><> Entre xingamentos e bênçãos

Segundo o autor, Malafaia é o pastor que xinga e abençoa na mesma mensagem. “Ele se despede abençoando em nome de Deus, mesmo depois de soltar palavrões. Não é apenas pregador, é operador de bastidores, lobista e articulador político”.

Em seu livro, o professor resgata a metáfora bíblica da “língua venenosa”, tomada da carta de Tiago, irmão de Jesus, para analisar líderes religiosos que cruzam o limite ético da polêmica.

“O caso de Malafaia é singular: não apenas pela violência verbal, mas porque sua linguagem rompe com qualquer parâmetro de boa comunicação. Não se trata de debate, mas de ataque”.

<><> “Hipernormalização da mídia”

Essa mesma chave é compartilhada pelo jornalista e professor de Semiótica e Comunicação Visual, Wilson Ferreira, que enxerga na retórica do pastor um exemplo de “hipernormalização da mídia”.

“Esse tipo de linguagem de miliciano vai sendo naturalizado como se fosse mais um exagero retórico. Mas não é. É uma tática de corrosão da esfera pública”, afirma.

No entanto, Ferreira observa que, dessa vez, até a grande imprensa mostrou constrangimento diante da escalada verbal.

“A fala do Malafaia foi tão baixa que abriu brechas. A jornalista Andrea Sadi chegou a expressar nojo ao ouvir os áudios. Nem os colunistas, que eu chamo de ‘colonistas’, conseguiram hiper-normalizar. Foi preciso tapar o nariz”.

A retórica bélica de Malafaia, acrescenta, não remete ao Cristo do Novo Testamento, mas a um Cristo guerreiro, militante. “Eles falam de Jesus, mas glorificam Israel, mesmo sendo um Estado que nega o protagonismo de Jesus. É um evangelho da violência. A linguagem de Malafaia é a de ataque, contravenção, milicianismo”.

<><> Usina de crises e o bloqueio do debate público

No pano de fundo, explica Ferreira, está a própria lógica do bolsonarismo, a de operar como uma “usina de crises”. No governo desde 2018, a cada semana gerava um escândalo que pautava a mídia. Hoje, a engrenagem falha porque parte das consequências recai sobre a própria família, como no caso do tarifaço de Trump, enquanto Lula tenta recompor a ideia de soberania.

O risco maior, alertam os analistas, é o bloqueio do debate público. De um lado, Malafaia fala em guerra espiritual. Do outro, as instituições respondem com linguagem jurídica. “Não há diálogo possível, porque não há campo comum. É um verdadeiro debate de surdos. E é nesse ruído que ele prospera”, diz Ferreira.

•        Guru de Bolsonaro, Malafaia pede "perdão" por palavrões, alerta que vem mais e faz pedido: "me bota numa jaula"

Investigado com Jair e Eduardo Bolsonaro (PL) no inquérito sobre obstrução de Justiça e alvo de operação da Polícia Federal (PF) na última quarta-feira (20), o pastor Silas Malafaia pediu "perdão" pelos palavrões vazados na conversa com o ex-presidente, alertou que vem mais por ai nas conversas que estão no aparelho celular apreendido pelos investigadores e fez um pedido para provar que é "ungido por Deus", como declarou em culto.

Em áudios a Bolsonaro, revelados pela Polícia Federal (PF) após o levantamento de sigilo do processo, Malafaia destila um rosário de palavrões e chamada Eduardo de "babaca", "estúpido", "idiota" e diz que vai "arrebentar com ele".

Em vídeo divulgado neste sábado (23), o guru ataca religiosos que teriam ficado escandalizado com seu palavreado em meio a pedidos de perdão aos evangélicos, se comparando ao "apóstolo Paulo".

"Quem é ai que nunca falou uma palavra indevida ou um palavrão? Ou pensou? Só em pensar você está pecando, não precisa falar, não. Quem?", indaga antes de pedir perdão.

"Aqueles que ficaram escandalizados com minhas palavras, me perdoem. Porque eu tenho fraquezas", diz.

Malafaia, no entanto, alerta que vem mais palavrões ai ao falar do celular apreendido pela Polícia Federal, classificada nos termos da política nazista de Adolph Hitler pelo guru.

"Mas, quero dar um aviso: se essa Gestapo de Alexandre de Moraes vazar conversas privadas no meu telefone, de ter até palavrão. Então, me perdoem e orem por mim", emendou.

Prevendo o futuro após a busca e apreensão de seu celular, Malafaia faz um pedido para provar que é "livre em Cristo".

"Eu sei o que estou fazendo e não estou pedindo para ninguém fazer o que eu faço. Mas, orem pelo Brasil, interceda pela minha vida. Porque há muita maldade, perversidade, perseguição. Incrível", diz.

"E sabe o que eles querem? Me calar e me prender. Mas eu não tenho medo porque eu sou livre em Cristo. Me bota numa jaula que eu vou continuar livre", emenda, antes de concluir.

•        Mentiroso! Malafaia é derrotado na Justiça por mentir que PT tentou dar golpe em Michel Temer em 2017

Uma decisão terminativa da Justiça de São Paulo, publicada no início deste mês de agosto, colocou um ponto final no imbróglio do pastor Silas Malafaia para se livrar da completa retratação sobre uma mentira que contou, de cima de um carro de som e diante de milhares de manifestantes na avenida Paulista, no dia 25 de fevereiro de 2024, sobre o Partido dos Trabalhadores.

Na ocasião, o guru de Jair Bolsonaro (PL) afirmou que "em 2017, o PT invadiu o Congresso Nacional, fez um quebra-quebra. Sabe por que eles invadiram? Para derrubar o presidente (Michel) Temer. Não foram chamados de golpistas, mas de manifestantes".

Diante da evidente mentira, o Diretório Nacional do PT ingressou com ação judicial poucos dias depois, requerendo que o pastor desmentisse a fake news e se retratasse por meio de todas as suas redes sociais.

A justiça paulista demorou nove meses para, no dia 26 de novembro do ano passado, dar ganho de causa ao PT e imprimir a primeira derrota do pastor naquele processo.

"Julgo procedente a ação para condenar o réu (Silas Malafaia) a publicar em suas redes sociais, no prazo de 30 dias a contar do trânsito em julgado desta sentença, mensagem de retratação acerca da informação por ele veiculada em discurso no dia 25 de fevereiro de 2024, em que reportou, de forma equivocada, que o PT teria invadido o Congresso Nacional para derrubar o Presidente Michel Temer."

O guru bolsonarista demorou três meses para cumprir parcialmente a decisão judicial. No dia 25 de fevereiro deste ano, Malafaia veiculou um vídeo de 41 segundos em seu canal no YouTube em que afirma, enquanto balança a cabeça negativamente em sinal de desaprovação e descrença sobre o que ele mesmo está dizendo, que se retrata da mentira que contou.

Diz ele no vídeo: "Eu disse que foi o PT quem invadiu o Congresso, mas na verdade foi a esquerda toda".

Malafaia ainda configurou o arquivo de uma maneira a tornar impossível que o conteúdo seja incorporado a qualquer outra página de internet ou detectado por mecanismos de busca, assim como também impediu que comentários fossem postados pelos internautas abaixo de seu desmentido.

Na lista de postagens do pastor midiático, o título do arquivo é apenas "vídeo" e figura ao lado de outros cinco vídeos em defesa de Jair Bolsonaro, além de outros três de conteúdos ligados à religião.

Ocorre, porém, que Malafaia não cumpriu a sentença judicial como deveria. É que, enquanto a ordem judicial determinava que ele desmentisse a fake news por meio de todas as suas redes sociais, o bolsonarista o fez apenas em seu canal do YouTube, exatamente aquela em que ele possui o menor alcance e número.

Assim, o PT foi obrigado a entrar com novo recurso, demandando que Malafaia se desmentisse por meio também de suas contas nas plataformas X e Instagram.

Dois meses depois, em abril deste ano, o pastor sofreu sua segunda derrota judicial no referido processo, quando a Justiça paulista proferiu a decisão.

"Tem razão a parte autora (PT) quanto à necessidade de complementação da veiculação no que se refere às redes sociais X e Instagram, em face do que estritamente constou do comando judicial, que faz referência à divulgação a retratação nas redes sociais do requerido, e não apenas na plataforma YouTube".

Acontece, entretanto, que Malafaia de fato não estava disposto a fazer com que o desmentido sobre sua fake news tivesse o alcance que a mentira original alcançara.

Assim, no dia 9 de maio deste ano, o bolsonarista entrou com novo recurso na Justiça paulista, para que não fosse obrigado a se desmentir nas suas redes de maior alcance. O argumento e a forma utilizados pelo "religioso" foram no mínimo inusitados.

O argumento dos advogados de Malafaia foi o de que a sentença - que afirma com todas as letras que a retratação deveria ser divulgada em todas as suas redes sociais, no plural - não o obrigava a publicar o desmentido nas redes X e Instagram, jÁ que não citava nominalmente essas duas plataformas.

A forma se assemelha àquela em que o pastor costuma se manifestar em seus vídeos e pregações políticas: aos berros, ou, na linguagem escrita, em letras maiúsculas.

O caso foi parar na 36ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, para, desta vez, ser julgado por uma turma de desembargadores.

Eis então que, no início deste mês, uma decisão terminativa foi proferida pelo Poder Judiciário paulista, decretando a terceira e última derrota de Malafaia no referido processo contra o PT, obrigando o guru de Bolsonaro a se retratar integralmente e por meio de todas as suas redes da mentira que contou.

•        Abatido, Malafaia lamenta que aliados não o defendem publicamente

O pastor Silas Malafaia se tornou um dos principais assuntos da última semana após a divulgação do relatório da Polícia Federal que o investiga por obstrução de justiça.

No material tornado público, estão conversas entre Malafaia e o ex-presidente Jair Bolsonaro, nas quais chamou a atenção a maneira virulenta com a qual o pastor se dirige a Eduardo Bolsonaro, a quem xinga inúmeras vezes e até ameaça fazer vídeos para "arrbentá-lo".

Com a repercussão negativa dos vídeos e as críticas por ser um pastor que utiliza, de forma repetitiva, termos de baixo calão, Malafaia resolveu gravar um vídeo para se desculpar com os evangélicos que se sentiram ofendidos com sua linguagem.

Após elogiar a defesa que recebeu de uma liderança católica, Malafaia, com a voz embargada, critica as pessoas que o conhecem e não saíram em sua defesa:

"Pessoas que me conhecem, sabem do meu caráter, caladas, gente até amiga, calada, omissa, não diz nada nas redes sociais com medo de perder seguidor. Muito bem!", dispara Malafaia.

•        Haddad envia recado para Eduardo Bolsonaro: "Trump é temporário"

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, participou de um evento do Partido dos Trabalhadores (PT) neste sábado (23) e voltou a defender a soberania do Brasil diante dos ataques do presidente dos EUA, Donald Trump. Haddad enviou recados, sem citar diretamente, a Eduardo Bolsonaro e seus aliados, que atuam para que a Casa Branca imponha mais sanções ao Brasil.

Haddad também afirmou que o Brasil "não pode servir de quintal para ninguém" e que os atos hostis da Casa Branca contra o país são ações "para livrar a cara dos golpistas".

"Nós sempre mantivemos a nossa postura altiva, a nossa postura séria, soberana, no trato de assuntos comuns aos dois povos, que têm uma relação histórica de 200 anos. Não há razão para que isso mude, até porque o governo Trump é temporário, e o Brasil, e os Estados Unidos, são estados nacionais permanentes", afirmou o ministro da Fazenda.

Em outro momento, Haddad defendeu o trabalho do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que tomou à frente das negociações das tarifas impostas pelos EUA, as quais, segundo o ministro, são articuladas por pessoas da extrema direita brasileira.

"Essa atitude hostil nos surpreendeu pela ação de grupos de extrema-direita brasileiros que, de patrióticos, não têm absolutamente nada. Vimos pelas mensagens trocadas que o único objetivo é livrar a cara dos golpistas, e não tem nenhuma outra finalidade essa hostilidade que não seja reabilitar a extrema-direita no Brasil", declarou Haddad.

O ministro também fez uma análise do papel geopolítico do Brasil:

"Estamos com essa geopolítica. O Brasil não pode servir de quintal de ninguém... temos tamanho, densidade e importância para garantir nossa soberania. Não podemos escolher um parceiro só, temos que ser parceiros de todo mundo: União Europeia, Ásia, BRICS, Oriente Médio, Sudeste Asiático. Temos conversas profundas com a Índia, que é a maior população do mundo, e ainda temos uma relação comercial pequena com eles."

 

Fonte: Fórum

 

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