Entre
palavrões e bênçãos: a estratégia de Malafaia
O
pastor Silas Malafaia voltou a atacar a Polícia Federal e o Supremo Tribunal
Federal em vídeo divulgado nesta segunda-feira (25). Chamou a PF de “Gestapo”,
disparou ofensas contra o ministro Alexandre de Moraes e acusou delegados de
vazarem conversas íntimas de Jair Bolsonaro, embora as mensagens só tenham
vindo a público após decisão do STF que retirou o sigilo do inquérito.
Para o
professor da UEFS, Lucas Nascimento, autor do livro O veneno da língua: o
desafio evangélico de falar a verdade sem ferir, a retórica do pastor não é
mero destempero, mas parte de uma engrenagem com objetivo político claro.
“O
Malafaia funciona como apologeta do bolsonarismo. Ele dá forma religiosa a um
discurso político de intimidação. É o pastor que ameaça, grita e, ao mesmo
tempo, pede bênção. Essa contradição é calculada”, explica, em entrevista à
TVGGN Justiça.
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Entre xingamentos e bênçãos
Segundo
o autor, Malafaia é o pastor que xinga e abençoa na mesma mensagem. “Ele se
despede abençoando em nome de Deus, mesmo depois de soltar palavrões. Não é
apenas pregador, é operador de bastidores, lobista e articulador político”.
Em seu
livro, o professor resgata a metáfora bíblica da “língua venenosa”, tomada da
carta de Tiago, irmão de Jesus, para analisar líderes religiosos que cruzam o
limite ético da polêmica.
“O caso
de Malafaia é singular: não apenas pela violência verbal, mas porque sua
linguagem rompe com qualquer parâmetro de boa comunicação. Não se trata de
debate, mas de ataque”.
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“Hipernormalização da mídia”
Essa
mesma chave é compartilhada pelo jornalista e professor de Semiótica e
Comunicação Visual, Wilson Ferreira, que enxerga na retórica do pastor um
exemplo de “hipernormalização da mídia”.
“Esse
tipo de linguagem de miliciano vai sendo naturalizado como se fosse mais um
exagero retórico. Mas não é. É uma tática de corrosão da esfera pública”,
afirma.
No
entanto, Ferreira observa que, dessa vez, até a grande imprensa mostrou
constrangimento diante da escalada verbal.
“A fala
do Malafaia foi tão baixa que abriu brechas. A jornalista Andrea Sadi chegou a
expressar nojo ao ouvir os áudios. Nem os colunistas, que eu chamo de
‘colonistas’, conseguiram hiper-normalizar. Foi preciso tapar o nariz”.
A
retórica bélica de Malafaia, acrescenta, não remete ao Cristo do Novo
Testamento, mas a um Cristo guerreiro, militante. “Eles falam de Jesus, mas
glorificam Israel, mesmo sendo um Estado que nega o protagonismo de Jesus. É um
evangelho da violência. A linguagem de Malafaia é a de ataque, contravenção,
milicianismo”.
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Usina de crises e o bloqueio do debate público
No pano
de fundo, explica Ferreira, está a própria lógica do bolsonarismo, a de operar
como uma “usina de crises”. No governo desde 2018, a cada semana gerava um
escândalo que pautava a mídia. Hoje, a engrenagem falha porque parte das
consequências recai sobre a própria família, como no caso do tarifaço de Trump,
enquanto Lula tenta recompor a ideia de soberania.
O risco
maior, alertam os analistas, é o bloqueio do debate público. De um lado,
Malafaia fala em guerra espiritual. Do outro, as instituições respondem com
linguagem jurídica. “Não há diálogo possível, porque não há campo comum. É um
verdadeiro debate de surdos. E é nesse ruído que ele prospera”, diz Ferreira.
• Guru de Bolsonaro, Malafaia pede
"perdão" por palavrões, alerta que vem mais e faz pedido: "me
bota numa jaula"
Investigado
com Jair e Eduardo Bolsonaro (PL) no inquérito sobre obstrução de Justiça e
alvo de operação da Polícia Federal (PF) na última quarta-feira (20), o pastor
Silas Malafaia pediu "perdão" pelos palavrões vazados na conversa com
o ex-presidente, alertou que vem mais por ai nas conversas que estão no
aparelho celular apreendido pelos investigadores e fez um pedido para provar
que é "ungido por Deus", como declarou em culto.
Em
áudios a Bolsonaro, revelados pela Polícia Federal (PF) após o levantamento de
sigilo do processo, Malafaia destila um rosário de palavrões e chamada Eduardo
de "babaca", "estúpido", "idiota" e diz que vai
"arrebentar com ele".
Em
vídeo divulgado neste sábado (23), o guru ataca religiosos que teriam ficado
escandalizado com seu palavreado em meio a pedidos de perdão aos evangélicos,
se comparando ao "apóstolo Paulo".
"Quem
é ai que nunca falou uma palavra indevida ou um palavrão? Ou pensou? Só em
pensar você está pecando, não precisa falar, não. Quem?", indaga antes de
pedir perdão.
"Aqueles
que ficaram escandalizados com minhas palavras, me perdoem. Porque eu tenho
fraquezas", diz.
Malafaia,
no entanto, alerta que vem mais palavrões ai ao falar do celular apreendido
pela Polícia Federal, classificada nos termos da política nazista de Adolph
Hitler pelo guru.
"Mas,
quero dar um aviso: se essa Gestapo de Alexandre de Moraes vazar conversas
privadas no meu telefone, de ter até palavrão. Então, me perdoem e orem por
mim", emendou.
Prevendo
o futuro após a busca e apreensão de seu celular, Malafaia faz um pedido para
provar que é "livre em Cristo".
"Eu
sei o que estou fazendo e não estou pedindo para ninguém fazer o que eu faço.
Mas, orem pelo Brasil, interceda pela minha vida. Porque há muita maldade,
perversidade, perseguição. Incrível", diz.
"E
sabe o que eles querem? Me calar e me prender. Mas eu não tenho medo porque eu
sou livre em Cristo. Me bota numa jaula que eu vou continuar livre",
emenda, antes de concluir.
• Mentiroso! Malafaia é derrotado na
Justiça por mentir que PT tentou dar golpe em Michel Temer em 2017
Uma
decisão terminativa da Justiça de São Paulo, publicada no início deste mês de
agosto, colocou um ponto final no imbróglio do pastor Silas Malafaia para se
livrar da completa retratação sobre uma mentira que contou, de cima de um carro
de som e diante de milhares de manifestantes na avenida Paulista, no dia 25 de
fevereiro de 2024, sobre o Partido dos Trabalhadores.
Na
ocasião, o guru de Jair Bolsonaro (PL) afirmou que "em 2017, o PT invadiu
o Congresso Nacional, fez um quebra-quebra. Sabe por que eles invadiram? Para
derrubar o presidente (Michel) Temer. Não foram chamados de golpistas, mas de
manifestantes".
Diante
da evidente mentira, o Diretório Nacional do PT ingressou com ação judicial
poucos dias depois, requerendo que o pastor desmentisse a fake news e se
retratasse por meio de todas as suas redes sociais.
A
justiça paulista demorou nove meses para, no dia 26 de novembro do ano passado,
dar ganho de causa ao PT e imprimir a primeira derrota do pastor naquele
processo.
"Julgo
procedente a ação para condenar o réu (Silas Malafaia) a publicar em suas redes
sociais, no prazo de 30 dias a contar do trânsito em julgado desta sentença,
mensagem de retratação acerca da informação por ele veiculada em discurso no
dia 25 de fevereiro de 2024, em que reportou, de forma equivocada, que o PT
teria invadido o Congresso Nacional para derrubar o Presidente Michel
Temer."
O guru
bolsonarista demorou três meses para cumprir parcialmente a decisão judicial.
No dia 25 de fevereiro deste ano, Malafaia veiculou um vídeo de 41 segundos em
seu canal no YouTube em que afirma, enquanto balança a cabeça negativamente em
sinal de desaprovação e descrença sobre o que ele mesmo está dizendo, que se
retrata da mentira que contou.
Diz ele
no vídeo: "Eu disse que foi o PT quem invadiu o Congresso, mas na verdade
foi a esquerda toda".
Malafaia
ainda configurou o arquivo de uma maneira a tornar impossível que o conteúdo
seja incorporado a qualquer outra página de internet ou detectado por
mecanismos de busca, assim como também impediu que comentários fossem postados
pelos internautas abaixo de seu desmentido.
Na
lista de postagens do pastor midiático, o título do arquivo é apenas
"vídeo" e figura ao lado de outros cinco vídeos em defesa de Jair
Bolsonaro, além de outros três de conteúdos ligados à religião.
Ocorre,
porém, que Malafaia não cumpriu a sentença judicial como deveria. É que,
enquanto a ordem judicial determinava que ele desmentisse a fake news por meio
de todas as suas redes sociais, o bolsonarista o fez apenas em seu canal do
YouTube, exatamente aquela em que ele possui o menor alcance e número.
Assim,
o PT foi obrigado a entrar com novo recurso, demandando que Malafaia se
desmentisse por meio também de suas contas nas plataformas X e Instagram.
Dois
meses depois, em abril deste ano, o pastor sofreu sua segunda derrota judicial
no referido processo, quando a Justiça paulista proferiu a decisão.
"Tem
razão a parte autora (PT) quanto à necessidade de complementação da veiculação
no que se refere às redes sociais X e Instagram, em face do que estritamente
constou do comando judicial, que faz referência à divulgação a retratação nas
redes sociais do requerido, e não apenas na plataforma YouTube".
Acontece,
entretanto, que Malafaia de fato não estava disposto a fazer com que o
desmentido sobre sua fake news tivesse o alcance que a mentira original
alcançara.
Assim,
no dia 9 de maio deste ano, o bolsonarista entrou com novo recurso na Justiça
paulista, para que não fosse obrigado a se desmentir nas suas redes de maior
alcance. O argumento e a forma utilizados pelo "religioso" foram no
mínimo inusitados.
O
argumento dos advogados de Malafaia foi o de que a sentença - que afirma com
todas as letras que a retratação deveria ser divulgada em todas as suas redes
sociais, no plural - não o obrigava a publicar o desmentido nas redes X e
Instagram, jÁ que não citava nominalmente essas duas plataformas.
A forma
se assemelha àquela em que o pastor costuma se manifestar em seus vídeos e
pregações políticas: aos berros, ou, na linguagem escrita, em letras
maiúsculas.
O caso
foi parar na 36ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo,
para, desta vez, ser julgado por uma turma de desembargadores.
Eis
então que, no início deste mês, uma decisão terminativa foi proferida pelo
Poder Judiciário paulista, decretando a terceira e última derrota de Malafaia
no referido processo contra o PT, obrigando o guru de Bolsonaro a se retratar
integralmente e por meio de todas as suas redes da mentira que contou.
• Abatido, Malafaia lamenta que aliados
não o defendem publicamente
O
pastor Silas Malafaia se tornou um dos principais assuntos da última semana
após a divulgação do relatório da Polícia Federal que o investiga por obstrução
de justiça.
No
material tornado público, estão conversas entre Malafaia e o ex-presidente Jair
Bolsonaro, nas quais chamou a atenção a maneira virulenta com a qual o pastor
se dirige a Eduardo Bolsonaro, a quem xinga inúmeras vezes e até ameaça fazer
vídeos para "arrbentá-lo".
Com a
repercussão negativa dos vídeos e as críticas por ser um pastor que utiliza, de
forma repetitiva, termos de baixo calão, Malafaia resolveu gravar um vídeo para
se desculpar com os evangélicos que se sentiram ofendidos com sua linguagem.
Após
elogiar a defesa que recebeu de uma liderança católica, Malafaia, com a voz
embargada, critica as pessoas que o conhecem e não saíram em sua defesa:
"Pessoas
que me conhecem, sabem do meu caráter, caladas, gente até amiga, calada,
omissa, não diz nada nas redes sociais com medo de perder seguidor. Muito
bem!", dispara Malafaia.
• Haddad envia recado para Eduardo
Bolsonaro: "Trump é temporário"
O
ministro da Fazenda, Fernando Haddad, participou de um evento do Partido dos
Trabalhadores (PT) neste sábado (23) e voltou a defender a soberania do Brasil
diante dos ataques do presidente dos EUA, Donald Trump. Haddad enviou recados,
sem citar diretamente, a Eduardo Bolsonaro e seus aliados, que atuam para que a
Casa Branca imponha mais sanções ao Brasil.
Haddad
também afirmou que o Brasil "não pode servir de quintal para ninguém"
e que os atos hostis da Casa Branca contra o país são ações "para livrar a
cara dos golpistas".
"Nós
sempre mantivemos a nossa postura altiva, a nossa postura séria, soberana, no
trato de assuntos comuns aos dois povos, que têm uma relação histórica de 200
anos. Não há razão para que isso mude, até porque o governo Trump é temporário,
e o Brasil, e os Estados Unidos, são estados nacionais permanentes",
afirmou o ministro da Fazenda.
Em
outro momento, Haddad defendeu o trabalho do vice-presidente Geraldo Alckmin
(PSB), que tomou à frente das negociações das tarifas impostas pelos EUA, as
quais, segundo o ministro, são articuladas por pessoas da extrema direita
brasileira.
"Essa
atitude hostil nos surpreendeu pela ação de grupos de extrema-direita
brasileiros que, de patrióticos, não têm absolutamente nada. Vimos pelas
mensagens trocadas que o único objetivo é livrar a cara dos golpistas, e não
tem nenhuma outra finalidade essa hostilidade que não seja reabilitar a
extrema-direita no Brasil", declarou Haddad.
O
ministro também fez uma análise do papel geopolítico do Brasil:
"Estamos
com essa geopolítica. O Brasil não pode servir de quintal de ninguém... temos
tamanho, densidade e importância para garantir nossa soberania. Não podemos
escolher um parceiro só, temos que ser parceiros de todo mundo: União Europeia,
Ásia, BRICS, Oriente Médio, Sudeste Asiático. Temos conversas profundas com a
Índia, que é a maior população do mundo, e ainda temos uma relação comercial
pequena com eles."
Fonte:
Fórum

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