sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Como aliados dos EUA estão rompendo com Trump para forçar uma mudança em Gaza

O Canadá se uniu à França e ao Reino Unido e anunciou seus planos de reconhecimento do Estado palestino. Enquanto isso, os Estados Unidos seguem firmemente defendendo Israel.

Mas será que o presidente americano, Donald Trump, tem um plano de longo prazo para o futuro da Faixa de Gaza?

De todo o histórico recente de declarações sobre o Oriente Médio, talvez esteja menos presente na memória coletiva um pronunciamento feito em Tóquio, no Japão, durante uma reunião do G7 (o grupo dos países mais poderosos do mundo), em novembro de 2023.

O então secretário de Estado americano Antony Blinken descreveu uma série de princípios para o "dia seguinte", após o término da guerra em Gaza.

Ele viajou para o Japão depois de visitar Tel Aviv, em Israel, onde se encontrou com os líderes do Estado judaico. A reunião ocorreu um mês após os ataques do Hamas no dia 7 de outubro daquele ano, já durante a ofensiva israelense que se seguiu.

Blinken relacionou quais eram as condições dos Estados Unidos para os objetivos militares de Israel e para o conflito como um todo:

  • Não deslocar os palestinos à força;
  • Israel não deve reocupar a Faixa de Gaza após o fim da guerra;
  • Não tentar bloquear, nem sitiar Gaza;
  • O futuro governo do território deve ser liderado pelos palestinos e envolver a Autoridade Nacional Palestina reconhecida internacionalmente;
  • Não há lugar para o Hamas.

Estes princípios pretendiam atrair o apoio dos aliados dos Estados Unidos na Europa e em parte do mundo árabe, mesmo com a possível objeção de Israel a vários deles.

Poucos provavelmente se lembram de Blinken declarando seus Princípios de Tóquio — muito menos os membros do governo Trump, que os descartou imediatamente.

Mas estas ideias ainda contam com o apoio de vários aliados americanos. E eles viajaram nesta semana para as Nações Unidas, em Nova York (EUA), atendendo à convocação de uma conferência liderada pela França e pela Arábia Saudita, para reativar o debate sobre uma solução de dois Estados.

A conferência chegou às manchetes da imprensa, depois que a França (seguida pelo Reino Unido) se comprometeu a reconhecer um Estado palestino até o final do ano, sob certas condições. E, na quarta-feira (30/7) à tarde, o Canadá anunciou a mesma decisão.

Mas o governo Trump boicotou a reunião, que considera anti-Israel.

"Os Estados Unidos não participarão deste insulto, mas continuarão a liderar esforços no mundo real para pôr fim aos combates e oferecer a paz permanente", declarou a porta-voz do Departamento de Estado americano, Tammy Bruce. Ela ridicularizou a conferência, chamando-a de "manobra publicitária".

Com isso, foi aberto um fosso entre os Estados Unidos e seus tradicionais aliados sobre o futuro do conflito entre israelenses e palestinos.

Isso levanta uma questão: o governo Trump tem uma visão de longo prazo sobre o futuro governo de Gaza e a paz permanente na região? Está ficando cada vez mais claro que a resposta é "não", pelo menos dele próprio.

No início de julho, perguntei a Bruce qual seria a visão do governo sobre o futuro governo da Faixa de Gaza, além da exigência de que o Hamas não pode existir.

Ela respondeu que "os países, nossos parceiros na região" estão trabalhando para implementar "novas ideias" solicitadas pelo presidente.

Questionei novamente para saber o que isso envolveria. Bruce respondeu: "Não vou contar especificamente hoje."

<><> Sem a 'Riviera', mas com planos incertos

Em fevereiro, o presidente Trump declarou que os Estados Unidos assumiriam a Faixa de Gaza para construir a "Riviera do Oriente Médio".

O plano envolvia o deslocamento forçado dos palestinos que moram no território. Posteriormente, os Estados Unidos e Israel tentaram explicar que se tratava de uma emigração "voluntária".

A ideia era claramente inviável e violaria a legislação internacional. Mas parecia ser o plano de Trump para o pós-guerra.

Provavelmente, este plano envolveria a ocupação militar do território por Israel, para possibilitar sua execução. Não ficou claro como seriam derrotadas eventuais insurgências remanescentes do Hamas ou de outros grupos armados.

Desde então, o plano foi lenta e silenciosamente abandonado, pelo menos na sua forma completa.

Questionado na terça-feira (29/7) sobre seu plano de remover os palestinos, Trump o descreveu como "um conceito que realmente foi bem recebido por muitas pessoas, mas também houve quem não gostasse".

Esta provavelmente foi uma referência à rejeição dos países árabes, como a Arábia Saudita e outros Estados do Golfo, visitados por Trump em maio para um suntuoso tour comercial em palácios dourados.

O governo americano prefere comentar questões imediatas, como a libertação dos reféns e um cessar-fogo na região.

Quando Trump foi novamente questionado para que olhasse além deste processo, durante uma visita recente à Casa Branca do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ele imediatamente cedeu a palavra para que o líder israelense respondesse.

Sua atitude se soma às evidências crescentes de que a estratégia do governo Trump sobre a Faixa de Gaza é cada vez mais similar à do seu aliado israelense.

Netanyahu rejeita qualquer envolvimento da Autoridade Nacional Palestina no futuro governo de Gaza. As forças israelenses, atualmente, controlam cerca de dois terços do território.

O grupo de extrema direita da sua coalizão de governo exige a ocupação militar permanente, a expulsão dos palestinos e a construção de assentamentos judeus na Faixa de Gaza.

Israel e os Estados Unidos tentaram controlar o fornecimento de alimentos para os palestinos, dentro de zonas militarizadas. Paralelamente, Israel também fornece armas para os milicianos palestinos adversários do Hamas.

O organismo internacional que monitora a ocorrência de fome — a Classificação Integrada de Fases da Segurança Alimentar (CIF) — declarou que existem cada vez mais evidências de fome generalizada, desnutrição e doenças na Faixa de Gaza.

Israel culpa o Hamas e a ONU pela crise, mas afirma que está oferecendo mais ajuda à população local.

Muitos países europeus assistiram horrorizados.

"Observamos as cenas mais horríveis", segundo me disse na quarta-feira (30/7) o secretário do Exterior britânico, David Lammy. "A comunidade global está profundamente indignada por ver crianças serem alvejadas e mortas enquanto procuram ajuda."

A fome parece ser um ponto de inflexão para os países europeus — um ímpeto moral para orientar sua diplomacia divergente.

As pressões domésticas pelo reconhecimento de um Estado palestino sob certas condições também cresceram no Reino Unido e na França.

Sem um plano abrangente, com apoio internacional, para o futuro governo da Faixa de Gaza, a perspectiva é de um caos cada vez maior no território.

Blinken tinha consciência deste risco desde o início da guerra.

Por isso, ele viajou pelos países árabes, tentando conseguir a assinatura deles para um plano futuro que envolvesse parte da Autoridade Palestina e o fornecimento de forças de segurança pelos países árabes.

Ele também interveio em pelo menos três ocasiões, forçando Israel a permitir a entrada de mais ajuda em Gaza. Por duas vezes, ele ameaçou restringir o envio de armas americanas para conseguir seu objetivo.

O governo Trump não manteve esta pressão e acelerou o envio de armas para Israel desde sua posse, em janeiro.

Os Estados Unidos ficaram em uma espécie de vácuo estratégico, em relação aos planos de longo prazo para a Faixa de Gaza. E os europeus, em conjunto com os países árabes do Golfo Pérsico, passaram esta semana tentando preencher este vácuo.

Para eles, sem ajuda efetiva, governança e um plano de paz de longo prazo, o impacto no território só irá aumentar.

Nesta semana, eles clamaram por uma intervenção urgente com ajuda humanitária, declararam seu apoio à Autoridade Nacional Palestina e reiniciaram o trabalho rumo a uma solução de dois Estados, mesmo sem a participação americana.

Sua iniciativa questiona anos de convenções de que as principais potências ocidentais somente reconheceriam um Estado palestino depois de negociações entre os palestinos e Israel.

E sua declaração conjunta traz consigo um ponto importante: a Arábia Saudita, um dos líderes do mundo árabe e muçulmano, se uniu à condenação do Hamas e à convocação do seu desarmamento,.

Agora, eles esperam que suas ações, com o apoio dos países árabes, pressionem Trump novamente rumo a um processo diplomático mais estabelecido.

Sua conferência na ONU (que irá ocorrer novamente em setembro) enfrenta todos estes obstáculos. E a cadeira da superpotência está vazia.

¨      Por que a mídia de repente mudou de opinião sobre Gaza, após 22 meses de cumplicidade

Após 22 meses de cumplicidade e silêncio, os principais veículos de notícias ocidentais parecem ter tido uma epifania sobre o genocídio transmitido ao vivo na Faixa de Gaza. No entanto, dado que essa mudança coincidiu com uma guinada retórica semelhante por parte das lideranças ocidentais, ela não foi recebida como esperavam — e nem deveria ser.

Você talvez tenha notado uma guinada de quase 180 graus na forma como os meios de comunicação ocidentais vêm relatando as ações de Israel na Faixa de Gaza. Há poucos meses, BBC, Sky News, CNN, AP e até comentaristas populares como Piers Morgan enquadravam o genocídio como uma guerra defensiva de Israel contra o Hamas. [N.E.: o mesmo ocorreu na imprensa brasileira, uma vez que ela não passa de uma sucursal dos veículos hegemônicos ocidentais.]

Agora, essa mesma máquina midiática está confrontando autoridades israelenses, desafiando a propaganda sionista e, em muitos casos, denunciando as políticas de Tel Aviv pelo que realmente são — em sintonia com o que dizem organizações de direitos humanos e relatórios da ONU.

Na quinta-feira, BBC, AP, AFP e Reuters chegaram a divulgar uma declaração conjunta expressando preocupação com seus colegas jornalistas na Faixa de Gaza, afirmando que “eles [os jornalistas palestinos] agora enfrentam as mesmas circunstâncias desesperadoras das pessoas que cobrem”.

Embora alguns estejam elogiando esses veículos e personalidades midiáticas por “finalmente” se posicionarem, muitos enxergaram o que realmente está acontecendo. Diante disso, é importante explicar por que tudo isso é meramente performático e, francamente, profundamente insultante.

Para começar, essa mudança repentina tem sido justificada em toda a mídia ocidental com base no bloqueio total imposto por Israel à Faixa de Gaza nos últimos três meses e em declarações recentes de altos funcionários, particularmente do Ministro das Finanças Bezalel Smotrich.

Para avaliar se isso realmente foi a gota d’água que causou um “despertar”, é preciso verificar se de fato houve uma mudança tão dramática na situação em Gaza.

Quanto às declarações de membros proeminentes do governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, é flagrantemente falso que tenha havido qualquer mudança significativa na retórica nos últimos meses. Basta retornar à denúncia da África do Sul apresentada à Corte Internacional de Justiça (CIJ), no final de dezembro de 2023, para ver uma lista completa de declarações genocidas.

Durante as audiências do caso de genocídio na CIJ, em janeiro de 2024, um dos argumentos mais convincentes apresentados pela equipe jurídica sul-africana foi o fato de que todos — do primeiro-ministro, presidente e ministro da Defesa israelenses a figuras midiáticas — fizeram declarações genocidas, que foram interpretadas pelos soldados no terreno como ordens para cometer genocídio.

Em 9 de outubro de 2023, o então ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, afirmou que seu exército estava combatendo “animais humanos” e que “ordenei um cerco completo à Faixa de Gaza. Não haverá eletricidade, nem comida, nem combustível. Tudo está fechado”.

Isso nos leva ao próximo grande motivo alegado para essa suposta epifania coletiva da mídia corporativa: a política israelense de inanição. Sim, Israel impôs um cerco completo a Gaza por mais de 80 dias. No entanto, durante esse período — que começou depois que Israel decidiu romper unilateralmente o cessar-fogo — a mudança na cobertura midiática ainda não havia ocorrido.

O número de pessoas morrendo de fome na Faixa de Gaza indiscutivelmente atingiu níveis nunca antes vistos. No entanto, é importante notar que esse não é exatamente o período em que o maior número de mortes diárias ocorreu.

Também não é verdade que a política de fome seja algo novo. Alguns talvez tentem argumentar que desta vez se trata de uma abordagem mais claramente deliberada.

Mas isso ignora o fato de que, em abril de 2024, a principal organização de direitos humanos de Israel, a B’Tselem, publicou um relatório intitulado “Fabricação da Fome”, no qual acusa Israel de implementar deliberadamente políticas destinadas a causar fome — algo que, de fato, começou a se concretizar antes que Israel fosse finalmente forçado a permitir a entrada de alguma ajuda em Gaza.

Então chegamos às declarações pedindo que Israel permita ajuda humanitária e às manifestações de preocupação com jornalistas.

Vamos analisar essas declarações de preocupação, como as emitidas por BBC, AP, AFP e Reuters. Reflitamos sobre a ideia de que os jornalistas em Gaza “agora enfrentam as mesmas circunstâncias desesperadoras que aqueles que cobrem”.

Isso teria sido verdade se tivesse sido publicado há 22 meses. Só “agora” eles estão sofrendo como os demais habitantes de Gaza? Não. Eles vêm sofrendo exatamente como o restante da população desde o início do genocídio.

Esses jornalistas não precisam de “declarações de preocupação”; eles merecem um pedido de desculpas da BBC, Reuters, AP e AFP pelas reportagens atrozes que publicaram ao longo do genocídio, muitas das quais serviram para branquear e justificar as ações de Israel.

Pelo menos 217 jornalistas palestinos foram assassinados por Israel desde 7 de outubro de 2023, tornando essa guerra em Gaza a mais letal para jornalistas na história da humanidade. Isso representa mais jornalistas mortos durante a cobertura do genocídio do que morreram na Segunda Guerra Mundial e na Guerra do Vietnã combinadas.

Se combinarmos a mudança de postura desses meios com a mudança retórica de seus respectivos governos — ou, ao menos, dos principais partidos políticos a eles alinhados —, começa a fazer sentido o que está realmente acontecendo.

Hillary Clinton foi uma das defensoras da farsa sobre uma “campanha sistemática de estupros em massa promovida pelo Hamas”, usada para justificar a contínua matança de civis em nome de combater o grupo, mesmo sem nenhuma prova concreta para sustentar essa alegação. Agora, ela pede que ajuda humanitária entre em Gaza.

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, também fez declarações pedindo o fim do sofrimento em Gaza e exortando Israel a permitir o fluxo livre de ajuda ao território sitiado. No entanto, ao mesmo tempo, continua vendendo componentes de armas ao exército israelense e persegue ativistas em seu país por se oporem ao papel da indústria armamentista no genocídio.

Basta dizer: isso não é autêntico; é puro teatro. Por quê? Por algumas razões. Primeiro, porque a escala da fome imposta a Gaza começou a pegar mal para os aliados de Israel. Ao contrário dos bombardeios, não há desculpa possível para impedir que alimentos cheguem à população civil.

Além disso, os governos e a mídia ocidentais estão apenas encenando um espetáculo, pois perceberam que o genocídio está em seus estágios finais. Os governos emitem declarações vazias, sem ações concretas, enquanto os veículos de imprensa tentam salvar sua imagem já arruinada.

O mundo inteiro assistiu a todos esses veículos — antes considerados referência no jornalismo — mentirem descaradamente e agirem como taquígrafos do ministério das Relações Exteriores de Israel. Agora, para manter alguma relevância no debate, precisam fingir que estão responsabilizando Israel.

Isso também abre caminho para que comecem a moldar os limites do que será considerado discurso “aceitável” sobre o tema — depois que claramente perderam o controle sobre a narrativa. Da direita à esquerda, passando pelos não alinhados politicamente, todos os grandes influenciadores e jornalistas independentes nas redes sociais estão agora comparando Israel aos nazistas e chamando o que está acontecendo em Gaza de genocídio.

Essas comparações, há apenas um ano, eram vistas como inaceitáveis. Agora, é comum ouvir pessoas comparando Benjamin Netanyahu a Adolf Hitler.

Caiu a máscara da liderança ocidental e de sua engrenagem midiática corporativa. Eles não podem fingir agora que não foram cúmplices do genocídio em Gaza.

No mínimo, todos deveriam pedir desculpas — não ao público ocidental que enganaram, mas aos palestinos que conseguiram sobreviver a esse holocausto.

 

Fonte: BBC News Brasil/Opera Mundi

 

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