quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Bepe Damasco: Moraes ensina como tratar bolsonarismo - "organização criminosa miliciana e traidores da pátria"

A assertividade, contundência e objetividade das falas do ministro Alexandre de Moraes, do STF, quando se refere à extrema-direita nativa, sempre me chamaram a atenção positivamente.

Mas, nesta sexta-feira (1º), ele se superou na abertura dos trabalhos do tribunal, no segundo semestre. No lugar de meias palavras, vagas insinuações e linguagem empolada comuns às cerimônias das altas esferas de poder, tiros certeiros e necessários na bandidagem bolsonarista.

A imprensa comercial, que vive dourando a pílula da oposição fascista, como se ela fizesse parte do jogo democrático, devia aprender a lição de Moraes. Ao desferir petardos como "não somos da laia de vocês", se referindo aos bolsonaristas, o ministro ajuda a demarcar um campo definitivo entre os democratas e patriotas e os inimigos da nação.

O ministro aponta o caminho. Chega de contemporização em nome de uma falsa normalização das relações políticas no Brasil, a tal pacificação defendida por ingênuos, isentões e mal intencionados.

Aliás, essa conversa fiada da polarização entre os extremos só põe água no moinho do obscurantismo. No Brasil dos dias que correm, a refrega se dá entre o campo democrático e os que querem destruir a democracia.

A adjetivação de Moraes é perfeita, pois mira gente capaz de invadir e vandalizar as sedes dos Poderes da República, de atacar o prédio da Polícia Federal, colocar bomba em aeroporto e em frente ao STF, planejar o assassinato de autoridades, tentar um golpe de Estado e tramar contra os interesses do Brasil e do povo brasileiro no exterior.

No enfrentamento de pessoas e organizações políticas "dessa laia", o republicanismo é péssimo conselheiro. Cada vez que a GloboNews, por exemplo, noticia as barbaridades institucionais propostas e defendidas pela bancada do PL como se fossem as coisas mais naturais do mundo, a democracia anda algumas casas para trás.

Precisamos ter claro: é com criminosos milicianos e traidores da pátria que estamos lidando.

•        Moraes sabe que a organização criminosa miliciana é uma rede nacional ativa. Por Moisés Mendes

A organização criminosa miliciana, assim definida por Alexandre de Marques no discurso da volta do recesso no Supremo, é mais do que uma quadrilha de brasileiros agora articulados com gângsteres americanos.

A organização criminosa miliciana é vasta e tem capilaridade por todo o país. O grupo exposto pela cumplicidade com Trump nos ataques ao Brasil é a face mais manjada e exposta da quadrilha, agora com ambição internacional.

Mas a organização criminosa miliciana é um bando nacional com facções que envolvem também figuras do centrão e de um certo extremismo moderado. A organização criminosa miliciana, cujos líderes estão sob julgamento ou fugiram, tem franquias por todo o Brasil.

Trump apenas rearticulou alguns que estavam desorientados e fez com que virassem personagens internacionais. Líderes e membros da organização têm o controle de cidades. Dominam regiões e são ameaçadores, porque têm poder econômico que resulta em poder político.

Há células da organização criminosa miliciana em cidades pequenas e médias e dentro de estruturas de poder, em Câmaras, Assembleias, prefeituras, governos estaduais e, claro, no Congresso.

A organização criminosa miliciana é uma irmandade que pode sobreviver mesmo sem Bolsonaro. Está inserida em nossas normalidades. E seguirá adiante mesmo sem o controle de membros da família que pretendem sucedê-lo como chefão.

Alexandre de Moraes sabe que muitos dos líderes e quadros intermediários dessa organização são golpistas impunes. Não fugiram para os Estados Unidos e para a Europa porque mantêm o poder de disseminar terror em suas paróquias.

Moraes sabe, porque ainda tenta alcançá-los, que milionários financiadores do golpe, desde muito antes do 8 de janeiro, mantêm as mesmas estruturas que financiaram o gabinete do ódio. E sabe que a aposta desses chefes milicianos poderosos é mais do que a impunidade.

Células da organização criminosa miliciana preparam o retorno ao governo, por mais enganosa que seja essa ilusão. São agrupamentos municipais que agregaram à disseminação de violência e ódio, com insistência no negacionismo antivacina, o contágio da glória dos traidores de que fala Moraes.

Sentem-se gloriosos por sabotarem o próprio país. Não pertencem, ao contrário do que disse o ministro, ao submundo do crime. Vivem no mundo bem exposto da delinquência fascista, e todos em suas cidades sabem quem são eles.

Os integrantes da organização criminosa miliciana, em suas ramificações municipais e estaduais, sem mandatos em Brasília, têm nome, sobrenome e apelido. Têm a dinheirama das emendas em suas cidades. Têm ficha corrida e desfrutam de fama e fortuna.

Alexandre de Moraes sabe que Trump, os Bolsonaros e o entorno do comando que dá suporte à família são apenas o rosto agora internacional da organização. E sabe que as bases de sustentação da família miliciana continuam inteiras em suas raízes e ramificações orgânicas.

A organização criminosa agora liderada por um gângster mundial, que usa os Bolsonaros como manés, é uma estrutura ainda intocada. É uma rede que funciona desde a eleição de 2018, principalmente no sul do país.

Mesmo que tenham sido abalados pela sucessão de fracassos dos seus líderes nacionais, os milicianos interioranos estão organizados e vigorosos, talvez mais do que em 2022.

Seus chefões locais são celebridades mafiosas que rezam e até choram nas missas e cultos de domingo, ao lado de altas e baixas autoridades de todos os poderes.

•        Michelle cita a Bíblia, Flávio fala em 'ditadura': as reações da família Bolsonaro à prisão do ex-presidente

A prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes nesta segunda-feira (4/8), gerou reações de seus familiares, aliados e opositores.

O governo de Donald Trump também reagiu, condenando a decisão. Os Estados Unidos vêm criticando o STF pela condução de investigações e processos contra Bolsonaro — uma suposta "caça às bruxas" contra o ex-presidente motivou as tarifas de 50% sobre produtos brasileiros anunciada por Trump em 9 de julho.

Em nota desta segunda-feira, um órgão do Departamento de Estado dos EUA lembrou que Moraes já foi punido sob a Lei Magnitsky.

"O juiz Moraes, agora um violador de direitos humanos sancionado pelos EUA, continua a usar as instituições brasileiras para silenciar a oposição e ameaçar a democracia. Impor ainda mais restrições à capacidade de Jair Bolsonaro de se defender em público não é um serviço público. Deixem Bolsonaro falar!", declarou o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, parte do Departamento de Estado.

"Os Estados Unidos condenam a ordem de Moraes que impõe prisão domiciliar a Bolsonaro e responsabilizarão todos aqueles que auxiliarem e forem cúmplices da conduta sancionada."

Em sua decisão de mais cedo, Moraes afirmou que o ex-presidente descumpriu as medidas cautelares impostas em 17 de julho, quando o ministro determinou o uso de tornozeleira eletrônica pelo ex-presidente, além da proibição do uso de redes sociais diretamente ou por intermédio de terceiros.

Segundo o despacho desta segunda-feira, Bolsonaro "produziu material para publicação nas redes sociais de seus três filhos e de todos os seus seguidores e apoiadores políticos, com claro conteúdo de incentivo e instigação a ataques ao Supremo Tribunal Federal e apoio, ostensivo, à intervenção estrangeira no Poder Judiciário brasileiro."

Entre os episódios apontados por Moraes como descumprimento das medidas cautelares, estão a aparição remota de Bolsonaro em protestos a seu favor neste domingo (3/8).

No Rio de Janeiro (RJ), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ligou para o ex-presidente, colocando a chamada brevemente no viva-voz; em São Paulo (SP), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) exibiu Jair no celular durante a manifestação.

O cumprimento da prisão domiciliar por Bolsonaro tem tempo indeterminado e impõe também a proibição de Bolsonaro receber visitas.

A defesa do ex-presidente assegurou que Bolsonaro "não descumpriu qualquer medida" e afirmou que vai recorrer da decisão.

Segundo os advogados Celso Vilardi, Paulo Amador da Cunha Bueno e Daniel Tesser, uma decisão anterior de Moraes não impediu discursos em eventos públicos.

A defesa afirmou que a fala "Boa tarde, Copacabana. Boa tarde meu Brasil. Um abraço a todos. É pela nossa liberdade. Estamos juntos", proferida remotamente por Jair Bolsonaro no Rio, "não pode ser compreendida como descumprimento de medida cautelar, nem como ato criminoso".

Confira algumas reações à determinação de prisão domiciliar.

<><> Eduardo e Flávio Bolsonaro: 'Fim da democracia'

Filho do ex-presidente e deputado federal (PL-SP), Eduardo Bolsonaro fez postagens em inglês e português na rede social X protestando contra a prisão do pai.

O deputado, que está morando nos EUA e pressionando políticos americanos por sanções contra Alexandre de Moraes e o STF, afirmou que a prisão ocorreu "sem crime, sem evidências, sem julgamento".

"O Brasil não é mais uma democracia. O mundo precisa notar isso", escreveu o parlamentar.

Eduardo Bolsonaro destacou que a decisão de Moraes ocorreu no mesmo dia em que a organização Civilization Works publicou dossiê acusando o ministro do STF de criar uma força-tarefa para fazer postagens em mídias sociais justificando as prisões do 8 de janeiro.

Bolsonaro e Eduardo são investigados por tentativa de obstruir o processo no qual o ex-presidente é acusado de comandar um susposto golpe de Estado para se manter no poder.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse em entrevista à CNN Brasil que a prisão do pai demonstra que o Brasil estaria agora "oficialmente numa ditadura".

"Uma única pessoa sozinha decreta a prisão de um ex-presidente da República, uma pessoa honesta, uma pessoa correta", disse Flávio, afirmando que o processo contra o pai seria um "jogo de cartas marcadas".

"Era tudo o que o Alexandre Moraes queria, se vingar do presidente Bolsonaro."

O senador acusou Moraes de previamente "desequilibrar o processo eleitoral" quando foi presidente do TSE, durante as eleições de 2022 — "pesando mais a favor do nosso concorrente", disse Flávio.

<><> Michelle Bolsonaro: 'Deus mesmo é o juiz'

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) publicou somente um salmo bíblico para se manifestar sobre a prisão do marido.

"E os céus anunciarão a sua justiça; pois Deus mesmo é o juiz", escreveu ela.

No domingo (3/8), Michelle participou da manifestação dos apoiadores do marido em Belém (PA). Na ocasião, ela fez um discurso afirmando que direitos estão sendo violados.

"O meu marido está sofrendo censura prévia, o meu marido foi silenciado. Muitos foram silenciados antes. Nós temos vários cidadãos presos".

<><> Políticos de direita criticam motivação da prisão domiciliar

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), chamou a prisão domiciliar de "absurdo" e disse que Bolsonaro foi julgado e condenado "muito antes de tudo isso começar".

"Vale a pena acabar com a democracia sob pretexto de salvá-la? Será que não está claro que estamos avançando em cima de garantias individuais?", questionou em suas redes sociais o governador, que não esteve presente na manifestação de domingo porque havia sido submetido a uma cirurgia, segundo sua assessoria de imprensa.

"Hoje, cada um dos brasileiros de bem que acredita na liberdade, na democracia e na Justiça está sendo punido também."

Governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), classificou a prisão de Jair Bolsonaro como um "capítulo sombrio na história de perseguição política do STF".

Segundo Zema, Bolsonaro teria sido punido apenas por ter tido "sua voz ouvida nas redes". O governador prestou solidariedade ao ex-presidente e à sua família.

Deputado federal e líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ) escreveu em sua rede social que a prisão de Jair Bolsonaro demonstra que a democracia no Brasil teria acabado.

"Não há mais instituições, há tiranos com toga", disse Cavalcante, defendendo que o ex-presidente não teria cometido crime e nem teria tido direito à defesa.

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) fez algumas postagens nas suas redes sociais criticando a decretação de prisão domiciliar contra Jair Bolsonaro.

Ferreira é citado na decisão de Moraes, segundo quem o parlamentar teria usado o ex-presidente para impulsionar a hostilidade à Justiça ao mostrar Bolsonaro em chamada de vídeo durante manifestação bolsonarista em São Paulo (SP) : "(…) o parlamentar utilizou Jair Messias Bolsonaro para impulsionar as mensagens proferidas na manifestação na tentativa de coagir o Supremo Tribunal Federal e obstruir a Justiça e com amplo conhecimento das medidas cautelares impostas (...)."

Ferreira defendeu que apenas mostrou Bolsonaro assistindo a manifestação, e não falando.

"Olha só que ditadura confusa, né? Ele não pode falar, não pode dar entrevista, mas se uma outra pessoa filma ele e posta nas redes sociais, aquela pessoa é responsabilizada e ele [Jair Bolsonaro] também é responsabilizado. Como assim?", questionou o deputado mineiro.

O parlamentar, assim como Eduardo Bolsonaro, destacou que a decisão de Moraes ocorreu no mesmo dia da publicação do dossiê da organização Civilization Works.

Ferreira afirmou que a Lei Magnitsky, da qual Moraes foi alvo nos EUA, é "pouco" para o ministro do STF — que, segundo o parlamentar, deveria ir para a "cadeia".

<><> Governistas falam em cumprimento da justiça

Entre governistas, a prisão domiciliar de Bolsonaro foi celebrada como o cumprimento da Justiça.

Líder do PT na Câmara dos Deputados, o parlamentar Lindbergh Farias (RJ) afirmou que a prisão determinada pelo STF foi "proporcional à gravidade dos atos".

"A medida não se deu apenas por descumprir as cautelares já impostas, mas por reincidir de forma deliberada, debochar da autoridade judicial e seguir atuando contra o Estado Democrático de Direito", defendeu o petista na rede social X.

"Ele [Jair Bolsonaro] apareceu em chamada de vídeo durante ato público, com divulgação em redes sociais administradas por seus filhos, violando a proibição de uso direto ou indireto de redes. Além disso, segue promovendo sanções estrangeiras contra o Brasil e atentando contra a soberania nacional em articulação com atores políticos internacionais", enumerou Farias.

Membro do governo Lula, Marcelo Freixo (PSOL) defendeu em suas redes sociais que Bolsonaro foi penalizado com a prisão domiciliar porque "descumpriu mais uma vez uma decisão judicial".

"Bolsonaro tentou transformar tornozeleira e proibição de redes em espetáculo público. Houve descumprimento reiterado de decisão judicial. Desacato de decisão judicial não é discurso político, é crime. Ele pediu pra ser preso", argumentou Freixo, presidente da Embratur.

 

Fonte: Brasil 247/BBC News Brasil

 

Nenhum comentário: