Bepe
Damasco: Moraes ensina como tratar bolsonarismo - "organização criminosa
miliciana e traidores da pátria"
A
assertividade, contundência e objetividade das falas do ministro Alexandre de
Moraes, do STF, quando se refere à extrema-direita nativa, sempre me chamaram a
atenção positivamente.
Mas,
nesta sexta-feira (1º), ele se superou na abertura dos trabalhos do tribunal,
no segundo semestre. No lugar de meias palavras, vagas insinuações e linguagem
empolada comuns às cerimônias das altas esferas de poder, tiros certeiros e
necessários na bandidagem bolsonarista.
A
imprensa comercial, que vive dourando a pílula da oposição fascista, como se
ela fizesse parte do jogo democrático, devia aprender a lição de Moraes. Ao
desferir petardos como "não somos da laia de vocês", se referindo aos
bolsonaristas, o ministro ajuda a demarcar um campo definitivo entre os
democratas e patriotas e os inimigos da nação.
O
ministro aponta o caminho. Chega de contemporização em nome de uma falsa
normalização das relações políticas no Brasil, a tal pacificação defendida por
ingênuos, isentões e mal intencionados.
Aliás,
essa conversa fiada da polarização entre os extremos só põe água no moinho do
obscurantismo. No Brasil dos dias que correm, a refrega se dá entre o campo
democrático e os que querem destruir a democracia.
A
adjetivação de Moraes é perfeita, pois mira gente capaz de invadir e vandalizar
as sedes dos Poderes da República, de atacar o prédio da Polícia Federal,
colocar bomba em aeroporto e em frente ao STF, planejar o assassinato de
autoridades, tentar um golpe de Estado e tramar contra os interesses do Brasil
e do povo brasileiro no exterior.
No
enfrentamento de pessoas e organizações políticas "dessa laia", o
republicanismo é péssimo conselheiro. Cada vez que a GloboNews, por exemplo,
noticia as barbaridades institucionais propostas e defendidas pela bancada do
PL como se fossem as coisas mais naturais do mundo, a democracia anda algumas
casas para trás.
Precisamos
ter claro: é com criminosos milicianos e traidores da pátria que estamos
lidando.
• Moraes sabe que a organização criminosa
miliciana é uma rede nacional ativa. Por Moisés Mendes
A
organização criminosa miliciana, assim definida por Alexandre de Marques no
discurso da volta do recesso no Supremo, é mais do que uma quadrilha de
brasileiros agora articulados com gângsteres americanos.
A
organização criminosa miliciana é vasta e tem capilaridade por todo o país. O
grupo exposto pela cumplicidade com Trump nos ataques ao Brasil é a face mais
manjada e exposta da quadrilha, agora com ambição internacional.
Mas a
organização criminosa miliciana é um bando nacional com facções que envolvem
também figuras do centrão e de um certo extremismo moderado. A organização
criminosa miliciana, cujos líderes estão sob julgamento ou fugiram, tem
franquias por todo o Brasil.
Trump
apenas rearticulou alguns que estavam desorientados e fez com que virassem
personagens internacionais. Líderes e membros da organização têm o controle de
cidades. Dominam regiões e são ameaçadores, porque têm poder econômico que
resulta em poder político.
Há
células da organização criminosa miliciana em cidades pequenas e médias e
dentro de estruturas de poder, em Câmaras, Assembleias, prefeituras, governos
estaduais e, claro, no Congresso.
A
organização criminosa miliciana é uma irmandade que pode sobreviver mesmo sem
Bolsonaro. Está inserida em nossas normalidades. E seguirá adiante mesmo sem o
controle de membros da família que pretendem sucedê-lo como chefão.
Alexandre
de Moraes sabe que muitos dos líderes e quadros intermediários dessa
organização são golpistas impunes. Não fugiram para os Estados Unidos e para a
Europa porque mantêm o poder de disseminar terror em suas paróquias.
Moraes
sabe, porque ainda tenta alcançá-los, que milionários financiadores do golpe,
desde muito antes do 8 de janeiro, mantêm as mesmas estruturas que financiaram
o gabinete do ódio. E sabe que a aposta desses chefes milicianos poderosos é
mais do que a impunidade.
Células
da organização criminosa miliciana preparam o retorno ao governo, por mais
enganosa que seja essa ilusão. São agrupamentos municipais que agregaram à
disseminação de violência e ódio, com insistência no negacionismo antivacina, o
contágio da glória dos traidores de que fala Moraes.
Sentem-se
gloriosos por sabotarem o próprio país. Não pertencem, ao contrário do que
disse o ministro, ao submundo do crime. Vivem no mundo bem exposto da
delinquência fascista, e todos em suas cidades sabem quem são eles.
Os
integrantes da organização criminosa miliciana, em suas ramificações municipais
e estaduais, sem mandatos em Brasília, têm nome, sobrenome e apelido. Têm a
dinheirama das emendas em suas cidades. Têm ficha corrida e desfrutam de fama e
fortuna.
Alexandre
de Moraes sabe que Trump, os Bolsonaros e o entorno do comando que dá suporte à
família são apenas o rosto agora internacional da organização. E sabe que as
bases de sustentação da família miliciana continuam inteiras em suas raízes e
ramificações orgânicas.
A
organização criminosa agora liderada por um gângster mundial, que usa os
Bolsonaros como manés, é uma estrutura ainda intocada. É uma rede que funciona
desde a eleição de 2018, principalmente no sul do país.
Mesmo
que tenham sido abalados pela sucessão de fracassos dos seus líderes nacionais,
os milicianos interioranos estão organizados e vigorosos, talvez mais do que em
2022.
Seus
chefões locais são celebridades mafiosas que rezam e até choram nas missas e
cultos de domingo, ao lado de altas e baixas autoridades de todos os poderes.
• Michelle cita a Bíblia, Flávio fala em
'ditadura': as reações da família Bolsonaro à prisão do ex-presidente
A
prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), determinada pelo
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes nesta
segunda-feira (4/8), gerou reações de seus familiares, aliados e opositores.
O
governo de Donald Trump também reagiu, condenando a decisão. Os Estados Unidos
vêm criticando o STF pela condução de investigações e processos contra
Bolsonaro — uma suposta "caça às bruxas" contra o ex-presidente
motivou as tarifas de 50% sobre produtos brasileiros anunciada por Trump em 9
de julho.
Em nota
desta segunda-feira, um órgão do Departamento de Estado dos EUA lembrou que
Moraes já foi punido sob a Lei Magnitsky.
"O
juiz Moraes, agora um violador de direitos humanos sancionado pelos EUA,
continua a usar as instituições brasileiras para silenciar a oposição e ameaçar
a democracia. Impor ainda mais restrições à capacidade de Jair Bolsonaro de se
defender em público não é um serviço público. Deixem Bolsonaro falar!",
declarou o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, parte do
Departamento de Estado.
"Os
Estados Unidos condenam a ordem de Moraes que impõe prisão domiciliar a
Bolsonaro e responsabilizarão todos aqueles que auxiliarem e forem cúmplices da
conduta sancionada."
Em sua
decisão de mais cedo, Moraes afirmou que o ex-presidente descumpriu as medidas
cautelares impostas em 17 de julho, quando o ministro determinou o uso de
tornozeleira eletrônica pelo ex-presidente, além da proibição do uso de redes
sociais diretamente ou por intermédio de terceiros.
Segundo
o despacho desta segunda-feira, Bolsonaro "produziu material para
publicação nas redes sociais de seus três filhos e de todos os seus seguidores
e apoiadores políticos, com claro conteúdo de incentivo e instigação a ataques
ao Supremo Tribunal Federal e apoio, ostensivo, à intervenção estrangeira no
Poder Judiciário brasileiro."
Entre
os episódios apontados por Moraes como descumprimento das medidas cautelares,
estão a aparição remota de Bolsonaro em protestos a seu favor neste domingo
(3/8).
No Rio
de Janeiro (RJ), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ligou para o ex-presidente,
colocando a chamada brevemente no viva-voz; em São Paulo (SP), o deputado
federal Nikolas Ferreira (PL-MG) exibiu Jair no celular durante a manifestação.
O
cumprimento da prisão domiciliar por Bolsonaro tem tempo indeterminado e impõe
também a proibição de Bolsonaro receber visitas.
A
defesa do ex-presidente assegurou que Bolsonaro "não descumpriu qualquer
medida" e afirmou que vai recorrer da decisão.
Segundo
os advogados Celso Vilardi, Paulo Amador da Cunha Bueno e Daniel Tesser, uma
decisão anterior de Moraes não impediu discursos em eventos públicos.
A
defesa afirmou que a fala "Boa tarde, Copacabana. Boa tarde meu Brasil. Um
abraço a todos. É pela nossa liberdade. Estamos juntos", proferida
remotamente por Jair Bolsonaro no Rio, "não pode ser compreendida como
descumprimento de medida cautelar, nem como ato criminoso".
Confira
algumas reações à determinação de prisão domiciliar.
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Eduardo e Flávio Bolsonaro: 'Fim da democracia'
Filho
do ex-presidente e deputado federal (PL-SP), Eduardo Bolsonaro fez postagens em
inglês e português na rede social X protestando contra a prisão do pai.
O
deputado, que está morando nos EUA e pressionando políticos americanos por
sanções contra Alexandre de Moraes e o STF, afirmou que a prisão ocorreu
"sem crime, sem evidências, sem julgamento".
"O
Brasil não é mais uma democracia. O mundo precisa notar isso", escreveu o
parlamentar.
Eduardo
Bolsonaro destacou que a decisão de Moraes ocorreu no mesmo dia em que a
organização Civilization Works publicou dossiê acusando o ministro do STF de
criar uma força-tarefa para fazer postagens em mídias sociais justificando as
prisões do 8 de janeiro.
Bolsonaro
e Eduardo são investigados por tentativa de obstruir o processo no qual o
ex-presidente é acusado de comandar um susposto golpe de Estado para se manter
no poder.
O
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse em entrevista à CNN Brasil que a prisão
do pai demonstra que o Brasil estaria agora "oficialmente numa
ditadura".
"Uma
única pessoa sozinha decreta a prisão de um ex-presidente da República, uma
pessoa honesta, uma pessoa correta", disse Flávio, afirmando que o
processo contra o pai seria um "jogo de cartas marcadas".
"Era
tudo o que o Alexandre Moraes queria, se vingar do presidente Bolsonaro."
O
senador acusou Moraes de previamente "desequilibrar o processo
eleitoral" quando foi presidente do TSE, durante as eleições de 2022 —
"pesando mais a favor do nosso concorrente", disse Flávio.
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Michelle Bolsonaro: 'Deus mesmo é o juiz'
A
ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) publicou somente um salmo bíblico para
se manifestar sobre a prisão do marido.
"E
os céus anunciarão a sua justiça; pois Deus mesmo é o juiz", escreveu ela.
No
domingo (3/8), Michelle participou da manifestação dos apoiadores do marido em
Belém (PA). Na ocasião, ela fez um discurso afirmando que direitos estão sendo
violados.
"O
meu marido está sofrendo censura prévia, o meu marido foi silenciado. Muitos
foram silenciados antes. Nós temos vários cidadãos presos".
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Políticos de direita criticam motivação da prisão domiciliar
O
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), chamou a prisão
domiciliar de "absurdo" e disse que Bolsonaro foi julgado e condenado
"muito antes de tudo isso começar".
"Vale
a pena acabar com a democracia sob pretexto de salvá-la? Será que não está
claro que estamos avançando em cima de garantias individuais?", questionou
em suas redes sociais o governador, que não esteve presente na manifestação de
domingo porque havia sido submetido a uma cirurgia, segundo sua assessoria de
imprensa.
"Hoje,
cada um dos brasileiros de bem que acredita na liberdade, na democracia e na
Justiça está sendo punido também."
Governador
de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), classificou a prisão de Jair Bolsonaro como
um "capítulo sombrio na história de perseguição política do STF".
Segundo
Zema, Bolsonaro teria sido punido apenas por ter tido "sua voz ouvida nas
redes". O governador prestou solidariedade ao ex-presidente e à sua
família.
Deputado
federal e líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ) escreveu em sua rede
social que a prisão de Jair Bolsonaro demonstra que a democracia no Brasil
teria acabado.
"Não
há mais instituições, há tiranos com toga", disse Cavalcante, defendendo
que o ex-presidente não teria cometido crime e nem teria tido direito à defesa.
O
deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) fez algumas postagens nas suas redes
sociais criticando a decretação de prisão domiciliar contra Jair Bolsonaro.
Ferreira
é citado na decisão de Moraes, segundo quem o parlamentar teria usado o
ex-presidente para impulsionar a hostilidade à Justiça ao mostrar Bolsonaro em
chamada de vídeo durante manifestação bolsonarista em São Paulo (SP) :
"(…) o parlamentar utilizou Jair Messias Bolsonaro para impulsionar as
mensagens proferidas na manifestação na tentativa de coagir o Supremo Tribunal
Federal e obstruir a Justiça e com amplo conhecimento das medidas cautelares
impostas (...)."
Ferreira
defendeu que apenas mostrou Bolsonaro assistindo a manifestação, e não falando.
"Olha
só que ditadura confusa, né? Ele não pode falar, não pode dar entrevista, mas
se uma outra pessoa filma ele e posta nas redes sociais, aquela pessoa é
responsabilizada e ele [Jair Bolsonaro] também é responsabilizado. Como
assim?", questionou o deputado mineiro.
O
parlamentar, assim como Eduardo Bolsonaro, destacou que a decisão de Moraes
ocorreu no mesmo dia da publicação do dossiê da organização Civilization Works.
Ferreira
afirmou que a Lei Magnitsky, da qual Moraes foi alvo nos EUA, é
"pouco" para o ministro do STF — que, segundo o parlamentar, deveria
ir para a "cadeia".
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Governistas falam em cumprimento da justiça
Entre
governistas, a prisão domiciliar de Bolsonaro foi celebrada como o cumprimento
da Justiça.
Líder
do PT na Câmara dos Deputados, o parlamentar Lindbergh Farias (RJ) afirmou que
a prisão determinada pelo STF foi "proporcional à gravidade dos
atos".
"A
medida não se deu apenas por descumprir as cautelares já impostas, mas por
reincidir de forma deliberada, debochar da autoridade judicial e seguir atuando
contra o Estado Democrático de Direito", defendeu o petista na rede social
X.
"Ele
[Jair Bolsonaro] apareceu em chamada de vídeo durante ato público, com
divulgação em redes sociais administradas por seus filhos, violando a proibição
de uso direto ou indireto de redes. Além disso, segue promovendo sanções
estrangeiras contra o Brasil e atentando contra a soberania nacional em
articulação com atores políticos internacionais", enumerou Farias.
Membro
do governo Lula, Marcelo Freixo (PSOL) defendeu em suas redes sociais que
Bolsonaro foi penalizado com a prisão domiciliar porque "descumpriu mais
uma vez uma decisão judicial".
"Bolsonaro
tentou transformar tornozeleira e proibição de redes em espetáculo público.
Houve descumprimento reiterado de decisão judicial. Desacato de decisão
judicial não é discurso político, é crime. Ele pediu pra ser preso",
argumentou Freixo, presidente da Embratur.
Fonte:
Brasil 247/BBC News Brasil

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