Trump
usa leis antigas e interpretações 'exóticas' para atacar rivais
O uso
da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes é o exemplo mais recente
de uma estratégia frequente no segundo mandato de Donald Trump: o resgate de
leis antigas dos Estados Unidos e o uso de interpretações “exóticas” para
atacar inimigos internos e externos.
Nesta
quarta-feira (30), o governo americano recorreu à Lei Magnitsky, que costuma
ser usada em casos que envolvem assassinatos e genocídios, para bloquear bens
de Moraes ou de empresas ligadas a ele nos EUA.
O
secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, alegou que o ministro brasileiro
realiza uma “caça às bruxas” contra cidadãos e empresas no Brasil e no
território norte-americano.
A
decisão é contestada por juristas ouvidos pelo g1. O problema, dizem eles, é
que Trump faz uma leitura equivocada da legislação americana e desrespeita a
soberania brasileira.
Abaixo,
entenda quatro situações em que o governo Trump usou essa mesma estratégia,
apostando em leis antigas ou interpretações incomuns para alcançar objetivos
políticos.
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1. Lei de Inimigos Estrangeiros
Para
deportar imigrantes ilegais, Trump invocou a Lei de Inimigos Estrangeiros,
criada no século 18.
O
governo americano usou essa legislação para expulsar dos EUA mais de 100
venezuelanos, acusados sem provas de fazer parte de uma organização criminosa.
Eles foram presos em El Salvador, país na América Latina que é presidido por
Nayib Bukele, um aliado de Trump.
“Essas
leis antigas que o governo americano está trazendo de volta não estão de acordo
com o sistema de direito internacional, que foi criado e desenvolvido, em
grande parte, pelos próprios americanos, com a justificativa de promover a
defesa de direitos humanos”, diz Flavio de Leão Bastos, professor de direito
constitucional da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
A Lei
de Inimigos Estrangeiros foi criada em 1798, ano em que quase teve início uma
guerra entre Estados Unidos e França. A legislação permitia que os americanos
expulsassem invasores de seu território em períodos de conflito.
A lei
não foi usada no século 18, mas ressurgiu na Guerra de 1812, entre EUA e Reino
Unido, e nas duas Grandes Guerras. No último caso, durante a década de 1940,
foi usada para aprisionar japoneses, alemães e italianos, sem julgamento,
porque essas pessoas tinham ascendência em países que eram rivais dos EUA.
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2. Seção 301
O
Escritório do Representante de Comércio dos EUA abriu no dia 15 de julho uma
investigação contra práticas comerciais brasileiras que seriam prejudiciais a
empresas americanas. A apuração está sendo conduzida com base na Seção 301 da
Lei de Comércio de 1974.
Entre
os alvos do governo americano no Brasil, estão o PIX, o desmatamento e até o
comércio na Rua 25 de Março, em São Paulo.
Advogado
e ex-secretário de Comércio Exterior, Welber Barral afirma que essa lei não
costuma ser usada de forma tão ampla.
“A
abordagem sobre o Brasil é bem incomum, porque considera várias práticas, em
âmbitos diversos, e parece ter motivação política.”
Além
disso, Barral afirma que a Seção 301 voltou à tona no governo Trump depois de
décadas em que os EUA preferiram negociações mais amistosas, com mediação da
Organização Mundial do Comércio (OMC).
“Os
Estados Unidos usaram muito a Seção 301 nos anos 1970 e 1980, principalmente no
governo Reagan. Depois, passaram a apostar na OMC. Mais recentemente, houve um
grande aumento no uso dessa lei com o Trump”, diz.
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3. Lei da Insurreição
No dia
10 de junho, Trump afirmou que poderia usar a Lei da Insurreição, de 1807, para
combater protestos de rua em Los Angeles. O dispositivo permite o uso de forças
militares para o policiamento em caso de insurreição, um ato de rebelião contra
o governo.
Trump
não chegou a acionar a lei, mas enviou cerca de 700 fuzileiros navais para
proteger funcionários e propriedades federais.
A Lei
da Insurreição foi invocada pela última vez pelo presidente George H.W. Bush em
1992, quando o governador da Califórnia solicitou ajuda militar para reprimir
os protestos em Los Angeles após o julgamento de policiais que espancaram o
motorista negro Rodney King.
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4. Lei Magnitsky
A lei
foi assinada em 2012, pelo então presidente Barack Obama, como uma homenagem ao
advogado russo Sergei Magnitsky, que morreu na prisão após denunciar um esquema
de desvio de dinheiro por membros do governo russo.
Inicialmente,
serviu para punir autoridades relacionadas ao assassinato. Mas, em 2016, a lei
foi expandida e passou a ser usada em casos de corrupção e violações graves de
direitos humanos, com alcance global.
Com
essa legislação, o governo americano pode congelar bens de pessoas e empresas,
como no caso de Moraes, além de impedir a entrada nos Estados Unidos.
“Essa
lei pode ser usada em casos de assassinatos, torturas e graves violações de
direitos humanos, e precisa ter embasamento em investigações por instituições e
ONGs sérias. A situação do Moraes não se enquadra porque foge do escopo da lei
e não tem embasamento”, afirma Carlos Portugal Gouvêia, professor de Direito
Comercial da USP.
Um caso
famoso em que a lei foi usada é o que envolve a morte do jornalista Jamal
Khashoggi. Crítico do governo da Arábia Saudita, ele teve o corpo desmembrado
no consulado do país em Istambul, na Turquia. Dezoito pessoas envolvidas no
assassinato foram punidas pelos EUA com base na legislação.
Outro
alvo da lei foi Min Aung Hlaing, comandante das forças armadas de Mianmar e
acusado de liderar o genocídio do grupo ruainga no país asiático.
• Bolsonaro é o boi de piranha de Trump.
Por Orlando Calheiros
Manuel
Pio Corrêa é um daqueles personagens que você nunca ouviu falar nas aulas de
História, mas que certamente estaria no topo da lista dos “brasileiros
controversos” que merecem um documentário investigativo.
Oficialmente?
Um diplomata de terno bem passado, que atingiu o topo de sua carreira durante a
Ditadura Militar. Frequentador assíduo das altas cúpulas da política latina de
seu tempo. Extraoficialmente? O arquiteto de uma rede de espionagem
internacional – o Ciex – parcialmente responsável por transformar
“desaparecidos políticos” em uma categoria demográfica na América Latina.
Não
bastasse a vida dupla, havia ainda uma terceira dimensão, pois existem fortes
indícios de que o embaixador era um agente da CIA. Inclusive, é isso que afirma
categoricamente o ex-espião Phillip Agee, em seu livro de memórias – diga-se de
passagem, uma leitura pouco recomendada para quem esteja se dirigindo aos EUA.
Segundo
o ex-agente da CIA, Pio Corrêa não apenas era “patrocinado” pela agência de
inteligência dos EUA, como agia segundo seus interesses para espalhar a
“democracia americana” (leia-se: golpes militares) pelo Cone Sul.
E antes
que você pense que se trata de mais uma teoria da conspiração, saiba que o
possível “patrocínio” de Pio Corrêa seria apenas uma entre inúmeras
interferências norte-americanas na política brasileira da época.
Importante
lembrar, por exemplo, que antes mesmo do golpe de 64, os EUA já financiavam
políticos, institutos e campanhas no Brasil, tudo em nome da “luta
anticomunista” – que, convenhamos, era mais sobre proteger seus interesses
econômicos do que salvar o mundo do fantasma vermelho.
Como se
não bastasse, os Estados Unidos também atuavam ativamente para sabotar o país,
empobrecendo-o. Nos anos pré-golpe, os EUA não apenas cortaram investimentos
diretos no Brasil como usaram sua influência para congelar empréstimos no FMI e
fechar as portas do Banco Mundial para o governo de João Goulart.
E para
a surpresa de absolutamente ninguém, mal os militares assumiram o poder em
1964, em questão de poucas semanas uma chuva de dólares começou a irrigar a
economia brasileira. Num passe de mágica, linhas de crédito internacional se
abriram para o país.
Sabe
aquele famoso “milagre Econômico” que o seu tio hidrofóbico adora citar no
almoço de domingo para celebrar a Ditadura Militar? Nada mais que uma maquiagem
contábil com esses bilhões de dólares que os EUA fizeram chover no Brasil.
A essa
altura, você provavelmente está pensando: “mas isso não é novidade, os EUA são
conhecidos por ‘exportarem democracia’ mundo afora”. E sim, você tem razão. Mas
o caso brasileiro tem um tempero especial: nossa relevância geopolítica.
Ao
contrário do que nosso “narcisismo às avessas” – como diria Nelson Rodrigues –
nos faz acreditar, o Brasil é uma potência mundial, especialmente no Cone Sul.
Importante lembrar que não apenas somos a maior economia da América Latina,
como detemos um poder de influência direta sobre as nações vizinhas, para não
falarmos de imensas reservas estratégicas de petróleo e minerais.
Não à
toa, os EUA temiam que o Brasil virasse uma “China das Américas” ainda nos anos
1960. E isso não sou eu quem está dizendo: esse temor está registrado numa
comunicação secreta do embaixador americano à época do golpe. Junto com o temor
de que se o Brasil caísse nas mãos do comunismo, os outros países
latino-americanos seguiriam a tendência e se tornariam as as próximas peças do
dominó, transformando-se em novas Cubas.
E por
isso dominá-lo, melhor, nos dominar, era praticamente o item número um na lista
de afazeres imperialistas dos EUA na América Latina.
Era e
ainda é. Pois trago essa discussão histórica para dizer algo que deveria ser
óbvio: as tarifas impostas por Trump ao
Brasil seguem a mesma lógica imperial da Guerra Fria, apenas com uma roupagem
do século 21.
Nem vou
perder meu tempo explicando o quão economicamente absurda é essa medida,
considerando que o Brasil opera em déficit comercial com os EUA há pelo menos
vinte anos. Tampouco vale a pena gastar muitas palavras com a defesa
performática de Bolsonaro.
Bastaria
dizer o seguinte: Bolsonaro é o boi de piranha de Trump. E nem estamos falando
de um nelore da vida.
A
verdadeira motivação por trás dessa movimentação americana tem dois pilares
bastante claros: o lobby das big techs e o fortalecimento dos BRICs. Sobre o
primeiro, recomendo a leitura da reportagem de Lais Martins e Tatiana Dias, que
revela como uma advogada notoriamente associada a essas empresas foi a autora
do documento que iniciou a investigação comercial contra o Brasil.
Digo
isso apenas para lembrar que essas mesmas empresas estão entre as principais
financiadoras da campanha de Trump.
Surpresa?
Absolutamente nenhuma.
Não é
preciso ser um gênio da geopolítica para entender o jogo: essas empresas estão
retaliando o Brasil pela decisão recente do STF que a responsabiliza pelos
conteúdos publicados em suas plataformas. É o primeiro passo para a
regulamentação das redes sociais no país, algo que faz os executivos do Vale do
Silício terem pesadelos à noite.
Especialmente
se levarmos em conta que não estamos falando de um mercado qualquer, que o
Brasil é o terceiro maior consumidor de redes sociais do mundo, perdendo apenas
para Índia e Indonésia.
E isso
segundo métricas conservadoras, pois em algumas figuramos no topo do ranking
mundial. Agora, leitor, leitora, imagine o impacto que a regulação das redes no
Brasil terá no no lucros dessas empresas, melhor, o impacto doloroso.
Especialmente
se essa “moda regulatória” se espalhar pelos países vizinhos.
Quanto
ao segundo motivo: o anúncio do tarifaço ocorre poucos dias após a reunião dos
BRICs no Rio de Janeiro. E Trump, com todo o seu refino de um elefante, já
vinha atacando o bloco sistematicamente, especialmente depois do fiasco
monumental de sua guerra comercial contra a China – aquela que foi vendida como
“fácil de vencer”.
Inclusive
ameaçando publicamente os países que se alinhassem com a política do bloco.
Vale lembrar também que o Brasil não apenas está alinhado com os BRICs – e por
consequência com a China –, como somos um dos seus fundadores. O “B” da sigla é
de “Brasil”.
E isso
coloca um alvo duplo em nossas costas, ainda mais por existirmos no território
que os EUA, explicitamente, consideram como seu quintal particular, como disse
o atual secretário de defesa, Pete Hegseth.
É nesse
contexto que o tarifaço ganha seu sentido amplo – e Bolsonaro se torna ainda
mais insignificante nesse jogo. A medida visa simultaneamente agradar as big
techs (fiadoras do governo Trump) e impedir o avanço dos BRICs na região que os
EUA consideram seu quintal particular.
Como
nos anos 1960, dominar o Brasil se torna uma prioridade nessa estratégia. E
mais uma vez a tática se repete, do patrocínio de políticos vassalos para fazer
pressão interna à sabotagem financeira do país.
Contudo,
os anos 1960 passaram, os vassalos estão passando vergonha e o Brasil não
depende mais dos EUA como outrora.
Fonte:
g1/The Intercept

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