‘Não
há herdeiros políticos para candidatura de Bolsonaro’, afirma cientista
político
A
divulgação recente de trocas de mensagens entre o ex-presidente Jair Bolsonaro
e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) pela Polícia Federal (PF)
escancarou que a relação da família com o atual governador de São Paulo,
Tarcísio de Freitas, está fragilizada.
Os
conteúdos, que tiveram grande repercussão no meio político, também agravam a
crise na extrema direita e evidenciam a inviabilidade, cada vez maior, de um
herdeiro político da candidatura de Bolsonaro.
Para o
cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de
Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), ficou clara a antipatia do filho
de Jair Bolsonaro por Tarcísio.
“Tarcísio
fica para cima e para baixo, de um lado para o outro, sem se localizar muito
bem. Mas ficou muito claro com os áudios e com os textos que o Tarcísio não é
uma figura bem vista pelo Eduardo Bolsonaro. Eu acho que isso cria um atrito.
Claro que o Tarcísio vai tentar minimizar essa situação, porque o que o
Tarcísio está atrás, na verdade – e nesse ponto o Eduardo Bolsonaro está certo
– é dos votos do seu pai, do Jair Bolsonaro”, afirmou em entrevista ao Conexão
BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Na
visão de Ramirez, Eduardo percebe a “moderação” de Tarcísio em relação ao
Estado Democrático de Direito, especialmente quando há outros políticos
articulando diálogos com os Estados Unidos.
“Por
isso mesmo o Eduardo Bolsonaro visa descartá-lo. Tarcísio pode não ser um pleno
paladino em defesa da democracia, mas pelo menos tem uma visão mais pragmática,
que quer se sustentar durante um bom tempo dentro da esfera política. Por isso,
não faz os mesmos ataques, não são os mesmos latidos que Eduardo Bolsonaro
acaba fazendo. Então isso cria esse distanciamento”, avalia.
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Trono vazio
O
distanciamento, para o cientista político, pode se estender a políticos como
Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (União Brasil), governadores de Minas Gerais
e Goiás, respectivamente. Assim, o trono político do ex-presidente ficaria
vazio, pela falta de candidatos aptos.
“Não há
herdeiros políticos para a candidatura de Bolsonaro, a não ser os filhos. Mas
hoje fica mais difícil uma candidatura deles, porque Eduardo Bolsonaro é um
pária, é alguém que atua contra o Brasil, então a imagem dele fica manchada
para a maioria dos eleitores. O outro filho, Carlos Bolsonaro, ele mais late do
que fala, não tem muitas habilidades comunicativas. O Flávio Bolsonaro é uma
figura mais tímida, sem carisma. E Jair Renan é uma piada, convenhamos”, disse.
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Tarifaço
Ao
comentar a última pesquisa de opinião na qual a aprovação do governo teve
crescimento, Ramirez afirmou que o bolsonarismo perdeu o debate na opinião
pública com o tarifaço.
“Eles
estragam a própria imagem diante da opinião pública, fortalecem a imagem do
Lula com a questão do tarifaço e vão se complicando cada vez mais. À medida que
há um prejuízo à economia brasileira, vários setores, antes extremamente
bolsonaristas, como o agronegócio e exportadores para os Estados Unidos, hoje
não olham mais com positividade o que a família Bolsonaro tem feito. Então, a
gente pode dizer que os bolsonaristas fazem gols contra, e isso favorece o
Lula, que tem melhorado muito a sua comunicação nas redes sociais também”,
pontua.
• Tarcísio fala como candidato, resgata
lema de Juscelino e diz que 'Brasil precisa fazer 40 anos em 4'
Apesar
de negar interesse em concorrer à Presidência da República em 2026, o
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), fala como
candidato e, nesta segunda-feira (25), voltou a defender uma agenda nacional de
desenvolvimento econômico durante o Seminário Brasil Hoje, promovido pelo grupo
Esfera Brasil, em São Paulo. A declaração foi destacada pelo portal Exame.
“[O
Brasil] precisa fazer 40 anos em 4”, afirmou Tarcísio, resgatando o lema do
ex-presidente Juscelino Kubitschek, "50 anos de progresso em 5 anos de
governo".
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Prioridade fiscal e enxugamento da máquina pública
Um dos
pontos centrais do discurso foi a questão fiscal. Tarcísio defendeu uma revisão
profunda no orçamento público e a diminuição da rigidez orçamentária. “Depende
da questão fiscal o que deixaremos de legado: prosperidade ou dívida?”,
questionou.
Segundo
o governador, é fundamental que o Executivo federal dê o exemplo ao adotar
medidas de austeridade. Ele citou a necessidade de reduzir ministérios como
gesto simbólico de eficiência. “No Exército, temos um ditado que a palavra
conduz e o exemplo arrasta. Quando falamos do fiscal e de diminuição do tamanho
do Estado, a presidência da República tem de dar o exemplo”, disse.
Ele
também destacou a importância de discutir a desindexação da economia, que, em
sua avaliação, gera desequilíbrios nas contas públicas. Além disso, defendeu
uma revisão dos benefícios tributários e classificou como essencial a adoção de
uma “reforma orçamentária”.
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Tecnologia e segurança pública como pilares
Outro
eixo citado pelo governador foi a necessidade de modernização tecnológica na
administração pública. Ele defendeu a incorporação de ferramentas como
inteligência artificial, blockchain e internet das coisas para tornar o Estado
mais eficiente.
A
segurança pública também foi apontada como prioridade. “Precisamos aumentar o
custo do crime e diminuir a mobilidade do crime”, afirmou Tarcísio, reforçando
a necessidade de políticas mais rigorosas contra a criminalidade.
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Geopolítica e críticas ao governo Lula
Na
análise geopolítica, Tarcísio avaliou que o Brasil perdeu capacidade de
articulação independente no cenário internacional. Ele lembrou que o país foi
alvo de tarifas de 50% impostas pelo governo dos Estados Unidos, em iniciativa
liderada pessoalmente pelo atual presidente Donald Trump.
Segundo
o governador, essa postura custou trilhões em investimentos que poderiam ter
sido destinados ao Brasil e comprometeu a entrada do país na Organização para a
Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). “Falta visão de futuro, falta
liderança. Tirar proveito [dessa situação] pensando só em eleição é condenar o
país ao atraso”, declarou em crítica indireta ao presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT).
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Apoio político e sucessão em São Paulo
O
painel em que Tarcísio participou contou com a presença do prefeito da capital
paulista, Ricardo Nunes (MDB), e do senador Ciro Nogueira (PP). Durante o
evento, Nunes demonstrou apoio ao governador. “Vou trabalhar por você 24 horas
por dia”, declarou, em referência à possibilidade de uma candidatura de
Tarcísio à presidência da República em 2026.
• Costa Neto diz que “Bolsonaro está
virando o Che Guevara”
A
capacidade cognitiva e a veia dos estudos nunca foram o ponto forte da extrema
direita, e isso ninguém pode negar. Só que desta vez, o presidente do PL,
Valdemar Costa Neto, parece ter ido longe de mais no absurdo. Numa entrevista a
uma repórter da GloboNews, o “dono” do partido que um dia já foi do centrão
resolveu sair com a pérola de que “Bolsonaro está virando o Che Guevara. Não
precisa reler, é isso mesmo.
“A
força da transferência de voto de Bolsonaro... O eleitor é fiel e essas coisas
estão fazendo com que ele vire um Che Guevara... Porque o Che Guevara tinha um
carisma muito como o do Bolsonaro, e ele é lembrado até hoje... Tanto que o
Fidel Castro enquanto não pôs ele pra fora de Cuba, não sossegou... Daqui a 30
ou 40 anos, do jeito que estão fazendo com o Bolsonaro, você vai ver meninos e
gente com a camisa do Bolsonaro”, disse Costa Neto.
A
analogia é tão descabida e sem sentido que até pode parecer desnecessário citar
pontos óbvios que diferenciam completamente esses dois homens, mas vamos lá. O
argentino Ernesto “Che” Guevera é um ícone da esquerda mundial e foi em vida um
revolucionário que pegou em armas e participou de inúmeras guerrilhas pelo
mundo, tendo morrido em 1967 nas mãos do inimigo na Bolívia, ao tentar derrubar
a ditadura de extrema direita de René Barrientos Ortuño, que até criminoso
nazista nomeou para o governo.
Do
outro lado, temos Jair Bolsonaro, uma figura ultrarreacionária que por mais de
três décadas representou na política brasileira a mais absoluta nulidade. Um
deputado de baixo clero risível que só aparecia na imprensa por falar
escatologias e monstruosidades, até que em 2018 soube operar “com habilidade” o
novo fenômeno comunicacional das redes sociais, aproveitando-se da situação
conturbadíssima que o país vivia, para se eleger presidente, amparado e
celebrado por gente tão vil quanto ele. Agora, como um covarde, implora para
não ser condenado pela tentativa de golpe que empreendeu.
• Como Ciro Gomes se move em direção a
2026
Quatro
vezes candidato à Presidência da República, duas vezes ministro e ex-governador
do Ceará, Ciro Gomes (PDT) teve parte de sua trajetória atrelada ao potencial
para suceder o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como liderança da
centro-esquerda.
Enquanto
o petista tem pela frente uma dura disputa pelo quarto mandato no Palácio do
Planalto, o ex-aliado está de malas prontas para trocar de partido e embarcar
no campo ideológico oposto, com duas possibilidades à vista. Neste texto, a
IstoÉ situa os caminhos colocados para Ciro até as eleições de 2026.
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Entre partidos
Qualquer
rota depende da definição de seu futuro partidário. Ciro está de malas prontas
para deixar o PDT, um movimento conhecido nos 43 anos e mais de 10 partidos de
sua trajetória. No geral, as mudanças são provocadas por colisões de ideias e
projetos.
Na
sigla de Leonel Brizola (morto em 2004), o ex-ministro concorreu duas vezes a
presidente (em 2018 e 2022) e, na última disputa, depois de receber 3,04% dos
votos e ficar em quarto lugar no primeiro turno, não subiu ao palanque do
presidente Lula e defendeu que a legenda não formalizasse apoio ao petista na
votação definitiva, quando ele derrotou Jair Bolsonaro (PL).
Desde o
início do mandato de Lula, o PDT chefia o Ministério da Previdência (Carlos
Lupi até maio de 2025, Wolney Queiroz desde então) e é base governista no
Congresso. Ciro, por outro lado, é uma voz crítica aos rumos da gestão.
A nível
estadual, o descaminho é mais claro. O ex-governador do Ceará rompeu com seu
irmão, o senador Cid Gomes (PSB-CE), que rumou ao atual partido e ouviu de Ciro
que é “cumplice de tragédia”, referindo-se à aliança com o governador Elmano de
Freitas (PT).
Em
2022, PDT e PT encerraram uma aliança de 16 anos quando o grupo cirista lançou
o ex-prefeito de Fortaleza e aliado do então presidenciável, Roberto Cláudio
(PDT), ao Palácio da Abolição, para não dividir palanque com Lula. Elmano foi
eleito ainda em primeiro turno e atraiu, além de Cid, outros pedetistas à
gestão.
“A
princípio, nós pensamos em ficar no PDT para evitar que ele fosse entregue ao
PT, mas essa é uma decisão que foi tomada. O povo nos colocou na oposição ao
eleger um projeto [de Elmano] que entregou o Ceará às facções criminosas e à
redução da conomia. O estado está retrocedendo, e nós somos contra isso”,
afirmou à IstoÉ o deputado Claudio Pinho, lider da bancada pedetista na Alece
(Assembleia Legislativa do Ceará), prestes a desembarcar da sigla junto do
aliado.
A
disposição em aglutinar a oposição cearense se consolidou a partir das eleições
para a prefeitura de Fortaleza, em 2024, quando o grupo se reuniu em torno de
André Fernandes (PL) para o segundo turno contra Evandro Leitão (PT), que
acabou eleito por uma margem inferior a 10 mil votos.
Na
rodada final da disputa, Roberto Cláudio, o ex-deputado Capitão Wagner (União
Brasil) e outras lideranças distantes de André o apoiaram, em um consenso de
que a eleição de Evandro representaria uma vitória de Elmano, Camilo e Lula na
capital, única governada pelo PT desde então. Mesmo sem subir no palanque, Ciro
fez acenos ao candidato bolsonarista.
Depois
da campanha, o ex-presidenciável ficou mais perto da oposição estadual e
antecipou, de forma surpreendente, apoio ao pai de André, Alcides Fernandes
(PL), como candidato ao Senado em 2026. “[Com esse gesto] Ciro mostrou que as
convergências devem estar acima das divergências. A mesa da oposição no Ceará é
redonda, os partidos abriram a mente e perceberam que só terão êxito em 2026 se
saírem juntos“, disse à IstoÉ o deputado estadual Felipe Mota (União
Brasil-CE).
Em
julho, Ciro foi convidado a se filiar ao União Brasil pelo presidente da sigla,
Antonio Rueda. Na última semana, participou do anúncio da federação União
Progressista, que também inclui o PP, em Brasília, onde discursou em defesa de
um projeto que una “centro-esquerda e centro-direita” para “tirar o Brasil
desse desastre” e jantou com lideranças da oposição a Lula.
O
ex-ministro também tem na mesa uma proposta para retornar ao PSDB, onde esteve
de 1990 a 1997 — quando governou o Ceará e foi ministro da Fazenda –,
apresentada por Tasso Jereissati, seu antecessor no Palácio da Abolição e
principal padrinho na política. Presidente estadual da legenda e prefeito de
Massapê, Ozires Pontes dá a filiação como certa, mas ela já esteve mais próxima
antes da aproximação do União Brasil.
“Há uma
dívida de gratidão de Ciro com Tasso, que poderia explicar essa escolha”, disse
Felipe Mota. “Mas para ter esse espaço no campo da centro-direita, estrutura
partidária e recursos que viabilizem uma candidatura, o melhor caminho é da
federação União Progressista“, concluiu, lembrando que, ao se unirem, União
Brasil e PP passam a ter 109 deputados federais, o que resulta nas maiores
fatia de fundo eleitoral e propaganda eleitoral. O PSDB, por sua vez, enfrenta
um período de incerteza, perda de lideranças e risco de perder acesso ao
financiamento público após o pleito de 2026.
A
definição passa, também, pela própria equação de forças da oposição cearense.
Principal cirista do bloco, Roberto Cláudio tem definida a ida ao União Brasil.
“Pensando em composição de chapa, com o ex-prefeito no União, é natural que
Ciro vá para outro partido. Ainda há tempo para essa definição”, disse Claudio
Pinho.
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O retorno ao ninho
Da
ruptura com o PDT à entrada no bloco da centro-direita, Ciro reiterava seu
apoio ao ex-prefeito de Fortaleza para enfrentar Elmano. Neste fim de agosto,
justamente na festa de aniversário do aliado, pegou o microfone para dizer que
estará “100% à disposição do povo do Ceará, para qualquer que seja a tarefa“,
sinalizando disposição para o pleito estadual.
Fonte:
Brasil de Fato/Brasil 247/Fórum

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