quarta-feira, 27 de agosto de 2025

‘Não há herdeiros políticos para candidatura de Bolsonaro’, afirma cientista político

A divulgação recente de trocas de mensagens entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) pela Polícia Federal (PF) escancarou que a relação da família com o atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, está fragilizada.

Os conteúdos, que tiveram grande repercussão no meio político, também agravam a crise na extrema direita e evidenciam a inviabilidade, cada vez maior, de um herdeiro político da candidatura de Bolsonaro.

Para o cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), ficou clara a antipatia do filho de Jair Bolsonaro por Tarcísio.

“Tarcísio fica para cima e para baixo, de um lado para o outro, sem se localizar muito bem. Mas ficou muito claro com os áudios e com os textos que o Tarcísio não é uma figura bem vista pelo Eduardo Bolsonaro. Eu acho que isso cria um atrito. Claro que o Tarcísio vai tentar minimizar essa situação, porque o que o Tarcísio está atrás, na verdade – e nesse ponto o Eduardo Bolsonaro está certo – é dos votos do seu pai, do Jair Bolsonaro”, afirmou em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Na visão de Ramirez, Eduardo percebe a “moderação” de Tarcísio em relação ao Estado Democrático de Direito, especialmente quando há outros políticos articulando diálogos com os Estados Unidos.

“Por isso mesmo o Eduardo Bolsonaro visa descartá-lo. Tarcísio pode não ser um pleno paladino em defesa da democracia, mas pelo menos tem uma visão mais pragmática, que quer se sustentar durante um bom tempo dentro da esfera política. Por isso, não faz os mesmos ataques, não são os mesmos latidos que Eduardo Bolsonaro acaba fazendo. Então isso cria esse distanciamento”, avalia.

<><> Trono vazio

O distanciamento, para o cientista político, pode se estender a políticos como Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (União Brasil), governadores de Minas Gerais e Goiás, respectivamente. Assim, o trono político do ex-presidente ficaria vazio, pela falta de candidatos aptos.

“Não há herdeiros políticos para a candidatura de Bolsonaro, a não ser os filhos. Mas hoje fica mais difícil uma candidatura deles, porque Eduardo Bolsonaro é um pária, é alguém que atua contra o Brasil, então a imagem dele fica manchada para a maioria dos eleitores. O outro filho, Carlos Bolsonaro, ele mais late do que fala, não tem muitas habilidades comunicativas. O Flávio Bolsonaro é uma figura mais tímida, sem carisma. E Jair Renan é uma piada, convenhamos”, disse.

<><> Tarifaço

Ao comentar a última pesquisa de opinião na qual a aprovação do governo teve crescimento, Ramirez afirmou que o bolsonarismo perdeu o debate na opinião pública com o tarifaço.

“Eles estragam a própria imagem diante da opinião pública, fortalecem a imagem do Lula com a questão do tarifaço e vão se complicando cada vez mais. À medida que há um prejuízo à economia brasileira, vários setores, antes extremamente bolsonaristas, como o agronegócio e exportadores para os Estados Unidos, hoje não olham mais com positividade o que a família Bolsonaro tem feito. Então, a gente pode dizer que os bolsonaristas fazem gols contra, e isso favorece o Lula, que tem melhorado muito a sua comunicação nas redes sociais também”, pontua.

•        Tarcísio fala como candidato, resgata lema de Juscelino e diz que 'Brasil precisa fazer 40 anos em 4'

Apesar de negar interesse em concorrer à Presidência da República em 2026, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), fala como candidato e, nesta segunda-feira (25), voltou a defender uma agenda nacional de desenvolvimento econômico durante o Seminário Brasil Hoje, promovido pelo grupo Esfera Brasil, em São Paulo. A declaração foi destacada pelo portal Exame.

“[O Brasil] precisa fazer 40 anos em 4”, afirmou Tarcísio, resgatando o lema do ex-presidente Juscelino Kubitschek, "50 anos de progresso em 5 anos de governo".

<><> Prioridade fiscal e enxugamento da máquina pública

Um dos pontos centrais do discurso foi a questão fiscal. Tarcísio defendeu uma revisão profunda no orçamento público e a diminuição da rigidez orçamentária. “Depende da questão fiscal o que deixaremos de legado: prosperidade ou dívida?”, questionou.

Segundo o governador, é fundamental que o Executivo federal dê o exemplo ao adotar medidas de austeridade. Ele citou a necessidade de reduzir ministérios como gesto simbólico de eficiência. “No Exército, temos um ditado que a palavra conduz e o exemplo arrasta. Quando falamos do fiscal e de diminuição do tamanho do Estado, a presidência da República tem de dar o exemplo”, disse.

Ele também destacou a importância de discutir a desindexação da economia, que, em sua avaliação, gera desequilíbrios nas contas públicas. Além disso, defendeu uma revisão dos benefícios tributários e classificou como essencial a adoção de uma “reforma orçamentária”.

<><> Tecnologia e segurança pública como pilares

Outro eixo citado pelo governador foi a necessidade de modernização tecnológica na administração pública. Ele defendeu a incorporação de ferramentas como inteligência artificial, blockchain e internet das coisas para tornar o Estado mais eficiente.

A segurança pública também foi apontada como prioridade. “Precisamos aumentar o custo do crime e diminuir a mobilidade do crime”, afirmou Tarcísio, reforçando a necessidade de políticas mais rigorosas contra a criminalidade.

<><> Geopolítica e críticas ao governo Lula

Na análise geopolítica, Tarcísio avaliou que o Brasil perdeu capacidade de articulação independente no cenário internacional. Ele lembrou que o país foi alvo de tarifas de 50% impostas pelo governo dos Estados Unidos, em iniciativa liderada pessoalmente pelo atual presidente Donald Trump.

Segundo o governador, essa postura custou trilhões em investimentos que poderiam ter sido destinados ao Brasil e comprometeu a entrada do país na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). “Falta visão de futuro, falta liderança. Tirar proveito [dessa situação] pensando só em eleição é condenar o país ao atraso”, declarou em crítica indireta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

<><> Apoio político e sucessão em São Paulo

O painel em que Tarcísio participou contou com a presença do prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), e do senador Ciro Nogueira (PP). Durante o evento, Nunes demonstrou apoio ao governador. “Vou trabalhar por você 24 horas por dia”, declarou, em referência à possibilidade de uma candidatura de Tarcísio à presidência da República em 2026.

•        Costa Neto diz que “Bolsonaro está virando o Che Guevara”

A capacidade cognitiva e a veia dos estudos nunca foram o ponto forte da extrema direita, e isso ninguém pode negar. Só que desta vez, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, parece ter ido longe de mais no absurdo. Numa entrevista a uma repórter da GloboNews, o “dono” do partido que um dia já foi do centrão resolveu sair com a pérola de que “Bolsonaro está virando o Che Guevara. Não precisa reler, é isso mesmo.

“A força da transferência de voto de Bolsonaro... O eleitor é fiel e essas coisas estão fazendo com que ele vire um Che Guevara... Porque o Che Guevara tinha um carisma muito como o do Bolsonaro, e ele é lembrado até hoje... Tanto que o Fidel Castro enquanto não pôs ele pra fora de Cuba, não sossegou... Daqui a 30 ou 40 anos, do jeito que estão fazendo com o Bolsonaro, você vai ver meninos e gente com a camisa do Bolsonaro”, disse Costa Neto.

A analogia é tão descabida e sem sentido que até pode parecer desnecessário citar pontos óbvios que diferenciam completamente esses dois homens, mas vamos lá. O argentino Ernesto “Che” Guevera é um ícone da esquerda mundial e foi em vida um revolucionário que pegou em armas e participou de inúmeras guerrilhas pelo mundo, tendo morrido em 1967 nas mãos do inimigo na Bolívia, ao tentar derrubar a ditadura de extrema direita de René Barrientos Ortuño, que até criminoso nazista nomeou para o governo.

Do outro lado, temos Jair Bolsonaro, uma figura ultrarreacionária que por mais de três décadas representou na política brasileira a mais absoluta nulidade. Um deputado de baixo clero risível que só aparecia na imprensa por falar escatologias e monstruosidades, até que em 2018 soube operar “com habilidade” o novo fenômeno comunicacional das redes sociais, aproveitando-se da situação conturbadíssima que o país vivia, para se eleger presidente, amparado e celebrado por gente tão vil quanto ele. Agora, como um covarde, implora para não ser condenado pela tentativa de golpe que empreendeu.

•        Como Ciro Gomes se move em direção a 2026

Quatro vezes candidato à Presidência da República, duas vezes ministro e ex-governador do Ceará, Ciro Gomes (PDT) teve parte de sua trajetória atrelada ao potencial para suceder o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como liderança da centro-esquerda.

Enquanto o petista tem pela frente uma dura disputa pelo quarto mandato no Palácio do Planalto, o ex-aliado está de malas prontas para trocar de partido e embarcar no campo ideológico oposto, com duas possibilidades à vista. Neste texto, a IstoÉ situa os caminhos colocados para Ciro até as eleições de 2026.

<><> Entre partidos

Qualquer rota depende da definição de seu futuro partidário. Ciro está de malas prontas para deixar o PDT, um movimento conhecido nos 43 anos e mais de 10 partidos de sua trajetória. No geral, as mudanças são provocadas por colisões de ideias e projetos.

Na sigla de Leonel Brizola (morto em 2004), o ex-ministro concorreu duas vezes a presidente (em 2018 e 2022) e, na última disputa, depois de receber 3,04% dos votos e ficar em quarto lugar no primeiro turno, não subiu ao palanque do presidente Lula e defendeu que a legenda não formalizasse apoio ao petista na votação definitiva, quando ele derrotou Jair Bolsonaro (PL).

Desde o início do mandato de Lula, o PDT chefia o Ministério da Previdência (Carlos Lupi até maio de 2025, Wolney Queiroz desde então) e é base governista no Congresso. Ciro, por outro lado, é uma voz crítica aos rumos da gestão.

A nível estadual, o descaminho é mais claro. O ex-governador do Ceará rompeu com seu irmão, o senador Cid Gomes (PSB-CE), que rumou ao atual partido e ouviu de Ciro que é “cumplice de tragédia”, referindo-se à aliança com o governador Elmano de Freitas (PT).

Em 2022, PDT e PT encerraram uma aliança de 16 anos quando o grupo cirista lançou o ex-prefeito de Fortaleza e aliado do então presidenciável, Roberto Cláudio (PDT), ao Palácio da Abolição, para não dividir palanque com Lula. Elmano foi eleito ainda em primeiro turno e atraiu, além de Cid, outros pedetistas à gestão.

“A princípio, nós pensamos em ficar no PDT para evitar que ele fosse entregue ao PT, mas essa é uma decisão que foi tomada. O povo nos colocou na oposição ao eleger um projeto [de Elmano] que entregou o Ceará às facções criminosas e à redução da conomia. O estado está retrocedendo, e nós somos contra isso”, afirmou à IstoÉ o deputado Claudio Pinho, lider da bancada pedetista na Alece (Assembleia Legislativa do Ceará), prestes a desembarcar da sigla junto do aliado.

A disposição em aglutinar a oposição cearense se consolidou a partir das eleições para a prefeitura de Fortaleza, em 2024, quando o grupo se reuniu em torno de André Fernandes (PL) para o segundo turno contra Evandro Leitão (PT), que acabou eleito por uma margem inferior a 10 mil votos.

Na rodada final da disputa, Roberto Cláudio, o ex-deputado Capitão Wagner (União Brasil) e outras lideranças distantes de André o apoiaram, em um consenso de que a eleição de Evandro representaria uma vitória de Elmano, Camilo e Lula na capital, única governada pelo PT desde então. Mesmo sem subir no palanque, Ciro fez acenos ao candidato bolsonarista.

Depois da campanha, o ex-presidenciável ficou mais perto da oposição estadual e antecipou, de forma surpreendente, apoio ao pai de André, Alcides Fernandes (PL), como candidato ao Senado em 2026. “[Com esse gesto] Ciro mostrou que as convergências devem estar acima das divergências. A mesa da oposição no Ceará é redonda, os partidos abriram a mente e perceberam que só terão êxito em 2026 se saírem juntos“, disse à IstoÉ o deputado estadual Felipe Mota (União Brasil-CE).

Em julho, Ciro foi convidado a se filiar ao União Brasil pelo presidente da sigla, Antonio Rueda. Na última semana, participou do anúncio da federação União Progressista, que também inclui o PP, em Brasília, onde discursou em defesa de um projeto que una “centro-esquerda e centro-direita” para “tirar o Brasil desse desastre” e jantou com lideranças da oposição a Lula.

O ex-ministro também tem na mesa uma proposta para retornar ao PSDB, onde esteve de 1990 a 1997 — quando governou o Ceará e foi ministro da Fazenda –, apresentada por Tasso Jereissati, seu antecessor no Palácio da Abolição e principal padrinho na política. Presidente estadual da legenda e prefeito de Massapê, Ozires Pontes dá a filiação como certa, mas ela já esteve mais próxima antes da aproximação do União Brasil.

“Há uma dívida de gratidão de Ciro com Tasso, que poderia explicar essa escolha”, disse Felipe Mota. “Mas para ter esse espaço no campo da centro-direita, estrutura partidária e recursos que viabilizem uma candidatura, o melhor caminho é da federação União Progressista“, concluiu, lembrando que, ao se unirem, União Brasil e PP passam a ter 109 deputados federais, o que resulta nas maiores fatia de fundo eleitoral e propaganda eleitoral. O PSDB, por sua vez, enfrenta um período de incerteza, perda de lideranças e risco de perder acesso ao financiamento público após o pleito de 2026.

A definição passa, também, pela própria equação de forças da oposição cearense. Principal cirista do bloco, Roberto Cláudio tem definida a ida ao União Brasil. “Pensando em composição de chapa, com o ex-prefeito no União, é natural que Ciro vá para outro partido. Ainda há tempo para essa definição”, disse Claudio Pinho.

<><> O retorno ao ninho

Da ruptura com o PDT à entrada no bloco da centro-direita, Ciro reiterava seu apoio ao ex-prefeito de Fortaleza para enfrentar Elmano. Neste fim de agosto, justamente na festa de aniversário do aliado, pegou o microfone para dizer que estará “100% à disposição do povo do Ceará, para qualquer que seja a tarefa“, sinalizando disposição para o pleito estadual.

 

Fonte: Brasil de Fato/Brasil 247/Fórum

 

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