quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Igor Felippe Santos: Ataque do imperialismo, soberania nacional e luta popular

O Brasil atravessa um momento decisivo de sua história. A imposição pelo presidente dos EUA Donald Trump de tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros em setores estratégicos não é um gesto isolado, mas parte de uma ofensiva do imperialismo norte-americano contra a soberania do nosso país.

Essa medida cumpre diferentes funções articuladas entre si. No plano geopolítico, procura enfraquecer os BRICS e, em particular, desgastar a aliança estratégica entre Brasil e China. No campo econômico, tem como alvo direto os setores exportadores brasileiros, ao mesmo tempo em que mira áreas estratégicas, como terras raras e minérios críticos. Do ponto de vista tecnológico, atua para limitar a capacidade do Brasil de regular as redes sociais e, além disso, ameaça o fortalecimento do Pix como um sistema de pagamentos soberano e independente. Já no terreno político, a iniciativa interfere nos assuntos internos do país, buscando blindar o ex-presidente Jair Bolsonaro de punições por seus crimes e influenciar nos rumos das eleições de 2026.

Esses ataques externos não podem ser vistos separados da situação interna. Desde o golpe de 2016, a burguesia brasileira aprofundou seu caráter antinacional, antipopular e antidemocrático. Michel Temer aprovou o teto de gastos e a reforma trabalhista; Bolsonaro entregou a Eletrobrás, atacou a Previdência e submeteu o Banco Central aos interesses do capital financeiro. O resultado foi a precarização em massa: quase 40% da classe trabalhadora vive na informalidade, submetida a jornadas intensas e à exploração das plataformas digitais.

A eleição do presidente Lula para a presidência em 2022 foi uma importante vitória política. No entanto, o governo enfrenta a pressão do grande capital e do Congresso, que expressa o programa da burguesia e busca impor seus interesses. Desde 2023, vivemos um período de crescimento econômico e queda no desemprego, mas não houve uma mudança substantiva na vida do povo, que se manifesta nas dificuldades nas pesquisas de opinião. A avaliação do governo melhorou, justamente, quando denunciou as manobras da maioria de direita do Congresso, defendeu de forma firme a taxação dos super-ricos e a soberania nacional diante dos ataques do presidente dos EUA, Donald Trump.

A classe dominante brasileira não tem compromisso com a nossa soberania nem interesse em construir um projeto nacional. Sempre se associou de forma subalterna aos Estados Unidos e aceitou acordos de dependência. Só quem pode defender o Brasil a soberania nacional é a classe trabalhadora, organizada e em luta. Para isso, é necessário associar a defesa da soberania com a luta em defesa do programa da classe trabalhadora.

Assim, o Plebiscito Popular Por um Brasil Mais Justo assume um papel central, como uma metodologia de trabalho popular para consultar a população sobre a taxação dos super-ricos com a isenção do Imposto de Renda para os trabalhadores e a classe média e a redução da jornada de trabalho sem redução salarial com o fim da escala 6×1. Essas medidas podem garantir melhores condições de vida para os trabalhadores, assim como constroem as bases de um projeto soberano de desenvolvimento.

Entre 1º e 7 de setembro, será realizado em todo o país um mutirão nacional de votação do plebiscito, como ação de convocação para as manifestações de 7 de setembro. Se a extrema-direita tentou sequestrar essa data para atos golpistas, cabe agora à classe trabalhadora recuperá-la como símbolo da verdadeira independência.

No Dia da Pátria, precisamos ocupar as ruas para afirmar que a independência não é apenas uma memória de 1822, mas uma luta viva contra o imperialismo, em defesa do Brasil e dos direitos da classe trabalhadora.

O 7 de setembro pode elevar a luta de classes no Brasil, enfrentando o Congresso submisso à burguesia, exigindo a aprovação do projeto da renda e a tramitação da proposta de redução da jornada de trabalho sem redução salarial e a punição do ex-presidente Jair Bolsonaro e dos golpistas pelos crimes contra a democracia.

As eleições de 2026 estão no horizonte, mas só haverá vitória popular se o povo estiver em movimento. O desafio é mobilizar a classe trabalhadora para defender a soberania nacional por meio do plebiscito e dos atos do 7 de setembro para enfrentar o imperialismo, derrotar a extrema-direita e avançar na construção de um projeto popular para o Brasil, com a realização de mudanças estruturais.

•        "Você está demitido": um jeito Trump para ditar a realidade

O presidente dos EUA, Donald Trump, é conhecido por demitir pessoas. A frase "Você está demitido", aliás, virou sua marca registrada no programa de TV O Aprendiz. Agora, como presidente, não poderia ser diferente.

A demissão de Erika McEntarfer no início de agosto, no entanto, foi um tanto peculiar. Ela não perdeu o cargo de chefe do Bureau of Labor Statistics (Escritório de Estatísticas do Trabalho) por criticar Trump ou por ter se indisposto com os republicanos.

McEntarfer, cuja nomeação foi confirmada por ampla maioria bipartidária (86 a 8) no Senado dos EUA em janeiro de 2024, perdeu o cargo simplesmente por fazer o seu trabalho.

<><> "Eu a demiti!"

No início de agosto, o gabinete de McEntarfer apresentou seu relatório periódico sobre a evolução do mercado de trabalho americano. Segundo o documento, a criação de empregos nos EUA foi menor do que o esperado nos últimos meses.

Poucas horas depois, McEntarfer foi demitida. A jornalistas, Trump qualificou os números como phony, o que pode significar falsos ou simplesmente estranhos, e acrescentou: "Eu a demiti".

Mas o que aconteceu exatamente? "O número de novos empregos criados teve que ser revisado significativamente para baixo; a previsão anterior não se concretizou", explica Hendrik Mahlkow, economista do Instituto da Economia Mundial (IfW), em Kiel.

"Nos últimos dois meses, foram criados mais de 200 mil empregos a menos do que o esperado. Isso mostra que as políticas de Trump estão enfrentando obstáculos", disse Mahlkow no podcast de negócios da DW (em alemão).

<><> Portadores de más notícias sob constante tensão

Em sua plataforma social Truth Social, Trump voltou a bater na mesma tecla, e chamou McEntarfer de "incompetente" e a acusou de alterar os números para prejudicá-lo.

Para Mahlkow, especialista do IfW, não há "nenhuma evidência" sobre isso. Fato é que o Bureau of Labor Statistics primeiro elabora um prognóstico – ou seja, uma estimativa de como o mercado de trabalho poderá se desenvolver nos próximos meses.

Essa estimativa é baseada em pesquisas de opinião. "Posteriormente, quando são disponibilizados os números reais de quantos novos empregos foram criados, as previsões precisam ser revisadas."

As revisões podem ir em ambas as direções. Neste caso, elas foram para baixo – o que irritou Trump. "O cerne da política de Trump é que ele se apresenta como um líder que promove a recuperação econômica", diz Mahlkow. "Se os indicadores econômicos não se encaixam nessa narrativa, o portador de más notícias é demitido."

Mas quem pensa que isso não passa de apenas mais um capricho de Trump está subestimando a importância dos dados oficiais para a economia.

Deste episódio, surgem algumas perguntas. Por exemplo: quão confiáveis serão esses dados no futuro? Será que em breve todas as estatísticas passarão a ser revisadas antes da publicação para determinar se podem ou não desagradar a Trump? E até que ponto tais números ainda refletem a realidade?

<><> Quem precisa desses dados?

Investidores nas bolsas de valores americanas também se fizeram perguntas semelhantes, com os índices caindo significativamente no dia da demissão de McEntarfer. Demitir a chefe de estatísticas foi um "ataque deliberado à integridade dos dados econômicos dos EUA e de todo o sistema estatístico", disse Jed Kolko, do Instituto Peterson de Economia Internacional em Washington, D.C., à BBC.

Dados precisos sobre o mercado de trabalho também são fundamentais para o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA). Entre as funções do órgão, está viabilizar o pleno emprego por meio de sua política monetária.

"Se o Fed não puder mais confiar nos dados do mercado de trabalho, a política monetária não poderá mais reagir de forma confiável", disse o economista Mahlkow, do IfW.

Por décadas, os dados econômicos americanos eram apresentados como um modelo de excelência, disse Mahlkow. "Ter dados tão bons e detalhados para uma economia tão grande distinguia os EUA. Agora, isso está se deteriorando."

<><> Os EUA estão se tornando como a China?

O exemplo da China, a segunda maior economia do mundo depois da americana, pode trazer algumas pistas sobre aonde isso tudo pode levar. Lá, a liderança comunista faz questão de garantir que seus planos sejam cumpridos – o que resulta em baixa confiança nos números oficiais de crescimento econômico.

"Investidores, bancos e organizações internacionais têm se esforçado para interpretar os números supostamente verdadeiros", diz Mahlkow. Eles comparam, por exemplo, os números oficiais sobre exportações de produtos chineses com dados de importação de outras economias ou tentam tirar conclusões sobre a atividade econômica a partir de dados de mobilidade.

O ceticismo em relação aos dados dos EUA ainda não é tão grande, diz Mahlkow. "Mas os acontecimentos dos últimos meses mostram a rapidez com que uma base de confiança construída ao longo de décadas se erode."

Isso especialmente porque a confiança é rara numa época em que ameaças alfandegárias, acordos e prazos mudam semanalmente.

"Trump nos ensinou que as regras não se aplicam mais a ele e aos EUA. Agora só existe o direito do mais forte, e as pessoas estão constantemente testando até aonde podem ir", avalia Florian Heider, diretor científico do Instituto Leibniz de Pesquisa de Mercado Financeiro e professor da Universidade Goethe em Frankfurt am Main.

A incerteza resultante é um veneno para os mercados financeiros, que recentemente tiveram uma leve recuperação achando que o pior das "tarifas recíprocas" já havia passado.

Uma nova demissão, porém, poderia causar pânico rapidamente. "Ele [Trump] só precisa demitir o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, por querer taxas de juros mais baixas", disse Heider à DW. "Ao fazer isso, ele questiona a independência do banco central. E aí as coisas podem degringolar de novo muito rapidamente."

 

Fonte: Opera Mundi/DW Brasil

 

Nenhum comentário: