quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Como prisão de Bolsonaro pode impactar acenos de Lula e Trump sobre tarifaço

A prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), determinada na segunda-feira (4/8) pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, acontece em meio a um dos momentos mais delicados da relação entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a gestão do presidente norte-americano, Donald Trump. Ela ocorre após emissários brasileiros receberem os primeiros sinais de abertura de canais de comunicação com o governo dos Estados Unidos, em uma tentativa de mitigar ou reverter as tarifas de 50% sobre produtos brasileiros anunciadas por Trump no dia 9 de julho.

Na quarta-feira (30/7), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, se encontrou pela primeira vez com seu homólogo norte-americano, o secretário do Departamento de Estado Marco Rubio. No domingo (3/8), Trump deu uma nova demonstração de abertura e disse que Lula poderia ligar para ele quando quisesse.

A decisão de Moraes, da segunda-feira, no entanto, atingiu em cheio esses esforços, e o governo Trump já se manifestou contra a medida. "Colocar ainda mais restrições à capacidade de Jair Bolsonaro se defender em público não é um serviço público. Deixem Bolsonaro falar! Os Estados Unidos condenam a decisão de Moraes, impondo prisão domiciliar a Bolsonaro, e vão responsabilizar aqueles que ajudam e incentivam a conduta sancionada", diz uma postagem no X (antigo Twitter) feita pelo Escritório para o Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado norte-americano.

Oficialmente, o governo não se manifestou sobre o assunto, e a orientação entre ministros é a mesma que vigorava há algumas semanas: evitar ruídos gerados pela situação de Bolsonaro que possam atrapalhar as negociações com o governo norte-americano.

Nesta terça-feira (5/8), Lula afirmou que não vai ligar para Trump para falar sobre o aumento das tarifas, que deve entrar em vigor na quarta-feira (6/8), porque o norte-americano não está interessado. "Não vou ligar para Trump para convencer de nada não porque ele não quer falar", afirmou. O presidente disse que deve falar com Trump sobre a COP30, marcada para novembro em Belém. "Vou ligar para o Trump convidá-lo para vir para COP porque quero saber o que ele pensa da questão climática. Vou ter a gentileza de ligar", disse Lula na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), o Conselhão.

Mas a ideia, segundo um integrante do governo ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado, é continuar as tentativas de negociação com os Estados Unidos para reverter ou mitigar os efeitos do tarifaço sobre produtos brasileiros. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, no entanto, se dividem sobre se a prisão de Bolsonaro pode ou não afetar a aproximação esboçada nos últimos dias entre Brasil e Estados Unidos.

<><> Pausa e avanço

Um integrante do governo brasileiro, ouvido em caráter reservado pela BBC News Brasil, disse que ainda não é possível saber se a decisão de Moraes vai ou não afetar a tímida aproximação entre Brasil e Estados Unidos. Ele admitiu, no entanto, que, na semana passada, uma suposta trégua nas ações do STF em relação a Bolsonaro foi aproveitada por emissários brasileiros para tentar abrir canais junto aos norte-americanos. A trégua mencionada por ele ocorreu após um dos momentos de maior tensão entre os dois países neste ano.

No dia 18 de julho, Moraes autorizou uma operação de busca e aprensão contra Bolsonaro em sua casa, em Brasília, e determinou medidas como a proibição do uso de redes sociais próprias ou por terceiros. Ele também proibiu que Bolsonaro se comunicasse com seu filho, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), por estar, supostamente, orquestrando uma pressão internacional contra o Brasil. Eduardo Bolsonaro se mudou para os Estados Unidos no início deste ano e vem defendendo, publicamente, que o governo norte-americano aplique sanções contra Moraes. Ele também chegou a comemorar, nas redes sociais, a ameaça de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros feita por Trump. No mesmo dia, o governo norte-americano revogou vistos de viagem de Moraes e de outros ministros da Corte em resposta à operação contra Bolsonaro.

"A caça às bruxas política do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, contra Jair Bolsonaro criou um complexo de perseguição e censura tão abrangente que não só viola direitos básicos dos brasileiros, mas também se estende além das fronteiras do Brasil e atinge os americanos", argumentou Rubio em uma postagem nas redes sociais. Segundo um integrante do governo brasileiro, ouvido pela BBC News Brasil, a operação contra Bolsonaro no dia 18 de julho teria dificultado os esforços de emissários brasileiros que tentavam se aproximar do governo Trump.

Nos dias seguintes à operação autorizada por Moraes, Bolsonaro fez aparições públicas e deu entrevistas que circularam nas redes sociais. O comportamento do ex-presidente fez com que Moraes pedisse esclarecimentos à defesa do ex-presidente, sob pena de prisão. A defesa, no entanto, alegou que Bolsonaro não violou nenhuma medida judicial. No dia 24 de julho, Moraes aceitou a argumentação dos advogados do ex-presidente e decidiu não prender Bolsonaro.

A partir de então, transcorreram 11 dias nos quais emissários brasileiros tentaram desbloquear os canais de comunicação com o governo norte-americano. Foi nesse contexto que o governo brasileiro conseguiu a reunião com Marco Rubio.

Segundo a fonte ouvida pela BBC News Brasil, a posição levada ao governo norte-americano era de que o Brasil seguia disposto a negociar, mas não aceitaria interferências externas no julgamento de Bolsonaro.

<><> Mais pressão adiante?

Na avaliação do professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas em São Paulo (FGV-SP), Matias Spektor, não parece ter havido movimentos concretos de aproximação política entre Brasil e Estados Unidos. Por isso, no campo político, a prisão domiciliar de Bolsonaro pode levar a mais pressão norte-americana. "Os esforços de aproximação foram na área econômica. Na área política, não houve esse movimento de um lado ou do outro. Nesse contexto, Trump pode, sim, manter ou até mesmo aumentar sanções contra membros da Corte e (adotar) outras medidas", diz Spektor à BBC News Brasil.

Já o conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e professor da Universidade de Harvard, Hussein Kalout, diz acreditar que, ao menos do ponto de vista comercial, a prisão domiciliar de Bolsonaro não deverá afetar as negociações sobre o tarifaço. "Os Estados Unidos vão olhar para aquilo que interessa a eles em matéria comercial. Bolsonaro nada mais é que um instrumento político pontual. Quando os Estados Unidos fizeram a lista de exceção tarifária, fizeram isso voltados para o que interessa às empresas e ao consumidor americanos. Não fizeram focados na condição jurídica do Bolsonaro", afirmou Kalout.

A menção à lista de exceção tarifária é uma referência à relação divulgada na semana passada com quase 700 produtos brasileiros que ficaram de fora do tarifaço. Segundo dados preliminares da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos (Amcham), as exceções correspondem a 42% de todo o volume de exportações do Brasil para o mercado norte-americano. Jana Nelson, especialista em Relações Internacionais pela Universidade Georgetown e ex-subsecretária de Segurança e Defesa no Pentágono para a América Latina, também diz avaliar que a prisão domiciliar de Bolsonaro não afeta substancialmente a visão de Trump sobre o processo contra o ex-presidente brasileiro. "Na perspectiva de Trump, tudo se mantém igual. Ele já achava, baseado em sua experiência própria, que o Bolsonaro é vítima de um processo de politização do Judiciário. E o fato de que o processo judicial (contra Bolsonaro) continua não necessariamente afeta a situação das possíveis negociações, até porque as negociações não começaram", diz Nelson à BBC News Brasil.

•        Bolsonaro 'forçou a barra' e Moraes 'precisava reagir': a visão de dois juristas sobre a prisão domiciliar

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro nesta segunda-feira (4/8). A decisão é um agravamento das medidas cautelares já impostas em julho pelo ministro. Para Moraes, Bolsonaro descumpriu de forma deliberada ordens judiciais — especialmente a proibição de uso de redes sociais e a tentativa de interferir no curso das investigações. Em 17 de julho, Moraes impôs uma série de medidas cautelares ao ex-presidente, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica, recolhimento domiciliar noturno e proibição de usar redes sociais, direta ou indiretamente. Quatro dias depois, em 21 de julho, a Primeira Turma do STF referendou a decisão e reforçou que a proibição de uso das redes se estendia também à veiculação de áudios, vídeos ou transcrições de entrevistas em perfis de terceiros.

Moraes esclareceu que entrevistas e discursos públicos usados como "material pré-fabricado" para alimentar redes sociais por meio de aliados também seriam considerados descumprimento da ordem judicial. Neste domingo (3/8), o ex-presidente apareceu por meio de uma ligação de vídeo no celular do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) nas manifestações de apoiadores em São Paulo, e depois em um vídeo na rede social de um dos filhos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). "A participação dissimulada de Jair Messias Bolsonaro, preparando material pré-fabricado para divulgação nas manifestações e redes sociais, demonstrou claramente que manteve a conduta ilícita de tentar coagir o Supremo Tribunal Federal e obstruir a Justiça, em flagrante desrespeito as medidas cautelares anteriormente impostas", escreveu o ministro.

O ex-presidente é investigado por supostos crimes de coação no curso do processo, obstrução de investigação de organização criminosa e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. A Polícia Federal já havia pedido medidas cautelares contra Bolsonaro no âmbito da mesma investigação que envolve o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

<><> O que motivou a prisão domiciliar

Segundo Moraes, Bolsonaro ignorou as medidas impostas pelo STF. A fundamentação para a decretação da prisão domiciliar está no "reiterado descumprimento" das restrições impostas, especialmente a proibição de uso de redes sociais, e na "instrumentalização" de terceiros para burlar essas determinações. Moraes cita a partipação "dissimulada" do ex-presidente em manifestação no Rio, quando Bolsonaro saudou por telefone os participantes de um ato em Copacabana.

Durante o evento, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente, colocou o pai no viva-voz e publicou o vídeo no Instagram. A postagem foi apagada. Na chamada, o ex-presidente disse: "obrigado a todos. É pela nossa liberdade, nosso futuro, nosso Brasil. Sempre estaremos juntos".

De acordo com Moraes, a fala foi uma tentativa deliberada de produzir material para mobilizar apoiadores contra o STF e obstruir a Justiça. O ministro classificou o gesto como "simulação" voltada à coação institucional. "Não seria lógico e razoável permitir a utilização do mesmo modus operandi criminoso com diversas postagens nas redes sociais de terceiros, em especial por 'milícias digitais' e apoiadores políticos previamente coordenados para a divulgação das condutas ilícitas", afirma o magistrado na decisão. Para ele, isso demonstrou uma tentativa de driblar as restrições judiciais por meio de apoiadores e de estruturas organizadas que ele chama de "milícias digitais".

Outro argumento foi a tentativa de pressão internacional. Segundo o magistrado, Bolsonaro continua instrumentalizando entrevistas e discursos públicos, que são posteriormente usados por terceiros nas redes sociais. É uma estratégia para coagir o STF e induzir chefes de Estado estrangeiros a interferir nas decisões do Judiciário brasileiro — o que o ministro classificou como "flagrante atentado à soberania nacional".

Moraes destacou que Bolsonaro reincidiu nas práticas investigadas, ignorando por mais de uma vez as ordens da Corte. "A Justiça é igual para todos. O réu que descumpre deliberadamente as medidas cautelares — pela segunda vez — deve sofrer as consequências legais", escreveu.

Além da prisão domiciliar, o STF estabeleceu:

•        Proibição de receber visitas, exceto de advogados e pessoas previamente autorizadas pelo STF;

•        Proibição de uso de celular, inclusive para tirar fotos ou fazer gravações;

•        Manutenção da proibição de contatos com embaixadores, autoridades estrangeiras e demais investigados;

•        Manutenção da proibição de uso de redes sociais, direta ou indiretamente.

A decisão adverte que o descumprimento das regras da prisão domiciliar levará à decretação da prisão preventiva.

<><> O que dizem advogados sobre prisão de Bolsonaro

A decisão de Alexandre de Moraes que proibiu Bolsonaro de usar as redes sociais, ainda que por meio de terceiros, dividiram juristas quanto à sua constitucionalidade.

O advogado criminalista Davi Tangerino, professor de Direito Penal da UERJ, discorda da medida cautelar imposta em julho, que, segundo ele, pode configurar censura prévia. Mas ele avalia que a decisão desta segunda-feira (4/8), que decretou a prisão domiciliar do ex-presidente, é coerente. "É um imbróglio entender os limites do que estava sendo proibido e permitido ali. Mas a cautelar foi dada, foi validada e foi claramente descumprida", afirma.

Segundo Tangerino, Bolsonaro usou terceiros para burlar a proibição imposta — o que ficou evidente, diz ele, na participação remota do ex-presidente no ato em Copacabana. "Usar outros como subterfúgio para usar a própria rede social, que foi exatamente o que ele fez, está claramente desenhado e proibido. Moraes precisava reagir. Ele não podia ficar desautorizado dessa forma." Tangerino também considera que Moraes foi "hábil" ao decretar a prisão domiciliar, em vez da preventiva, que implicaria cumprimento da medida no presídio da Papuda. "Ele encontrou ainda um último recurso antes da preventiva, que é a domiciliar." Na avaliação do advogado, Bolsonaro já havia dado motivos para ser preso preventivamente no episódio da visita à embaixada da Hungria, em março de 2024. "Na minha cabeça, Moraes quer prender quando houver uma sentença condenatória de verdade. Agora, Bolsonaro está forçando a barra. Acho que a domiciliar é uma última chance para evitar a preventiva. Sinceramente, acho que Moraes nunca quis decretar a preventiva."

O professor da FGV Direito Rio Thiago Bottino também criticou a falta de previsão legal para a proibição de uso das redes sociais imposta a Bolsonaro. Ele lembra que o Artigo 319 do Código de Processo Penal lista dez medidas cautelares alternativas à prisão, e essa não está entre elas. No entanto, a decisão desta segunda, diz o advogado, é compreensível. "Continuo sendo crítico do ponto de vista formal, pois não há previsão expressa para algumas das medidas decretadas. Porém, essa matéria foi submetida ao colegiado, foi referendada por maioria e também foi objeto de embargos — e foi mantida. Nesse sentido, goste eu ou não, ela deve ser observada, porque assim funciona o sistema judiciário de qualquer país", afirma. Bottino, no entanto, entende o argumento do relator: a proibição faria sentido porque os crimes atribuídos ao ex-presidente foram cometidos justamente por meio das redes sociais. "Mal comparando, seria como proibir alguém que tem porte de arma de andar armado porque estava ameaçando pessoas." Ele também esclarece que a prisão domiciliar já traz, por si só, restrições como a proibição de visitas e o uso de celular. "Sempre foi aplicada dessa forma, porque a diferença entre ela e a prisão preventiva é apenas o local de cumprimento: em vez de cela, a casa do réu."

Para garantir o cumprimento das medidas, além da tornozeleira eletrônica, policiais fiscalizam a proibição de acesso ao preso.

<><> É possível recorrer da decisão?

A decisão desta segunda-feira não precisa, necessariamente, ser referendada por um colegiado do STF — assim como a anterior também não precisava. "As medidas de gestão do processo cabem ao relator. Já as decisões de mérito, como o recebimento da denúncia e o julgamento, são do colegiado. A turma não precisa se manifestar sobre tudo", afirma Bottino. Ainda assim, ele acredita que Moraes deve submeter o caso à Primeira Turma do Supremo, como já fez anteriormente. "Houve várias decisões, até polêmicas, que ele tomou sozinho e não mandou para a turma, como proibir o réu de usar uma roupa específica para depor. Mas acho que, pela repercussão, ele agiu bem ao levar essa à turma. Tecnicamente, cabe ao relator decidir monocraticamente, mas não é um problema a turma decidir." O advogado acrescenta: "Como agora é uma nova decisão, se ele seguir o mesmo padrão, vai mandar para a turma. Até porque — é só uma hipótese — os ministros podem discordar e decretar uma prisão preventiva, por exemplo."

Tangerino afirma que há espaço para a defesa de Bolsonaro pedir revisão da decisão.

"As cautelares são provisórias por natureza. Podem ser revistas a qualquer tempo. A defesa pode argumentar, por exemplo, que não entendeu claramente que aquilo era proibido, que ele só saudou a turma de Copacabana. Mas acho que esse argumento não se sustenta. Quando se diz que não pode usar rede social, não pode, ponto." Segundo ele, a partir de agora, Bolsonaro está tecnicamente cumprindo pena. Se passar um ano em prisão domiciliar, esse tempo poderá ser contabilizado em uma eventual sentença condenatória.

Os advogados de Bolsonaro afirmaram que vão apresentar o recurso cabível. Em nota, a defesa afirmou que se viu "surpreendida" com a decretação de prisão domiciliar. "Cabe lembrar que na última decisão constou expressamente que 'em momento algum Jair Messias Bolsonaro foi proibido de conceder entrevistas ou proferir discursos em eventos públicos'. Ele seguiu rigorosamente essa determinação", disseram os advogados. "A frase 'Boa tarde, Copacabana. Boa tarde meu Brasil. Um abraço a todos. É pela nossa liberdade. Estamos juntos' não pode ser compreendida como descumprimento de medida cautelar, nem como ato criminoso", finalizaram.

•        Prisão de Bolsonaro: decisão de Moraes desafia Trump, diz jornal britânico

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de decretar a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro "desafia a exigência de Donald Trump" de que o Brasil coloque fim ao julgamento do ex-presidente brasileiro, segundo reportagem do jornal britânico Financial Times desta terça-feira (5/8). O jornal lembra que a decisão de Moraes foi tomada depois que o presidente dos Estados Unidos impôs, na semana passada, tarifas comerciais pesadas contra o Brasil, exigindo que os processos criminais contra Bolsonaro sejam encerrados. "A mais recente ação contra Bolsonaro, que costuma ser chamado de 'Trump dos Trópicos', provavelmente aumentará as tensões em meio a uma crise nas relações entre as duas democracias mais populosas das Américas", diz o texto do Financial Times. "Moraes é uma figura odiada pelo movimento de direita brasileiro, e as autoridades americanas impuseram sanções financeiras a ele na semana passada, sob a Lei Magnitsky, por supostas violações de direitos humanos."

O Financial Times também destaca que Bolsonaro "pode passar o resto da vida na prisão se for considerado culpado de conspirar com aliados, incluindo militares, para permanecer ilegalmente no poder após não conseguir ser reeleito em 2022. Bolsonaro nega qualquer irregularidade". Além da detenção em casa, Bolsonaro também está proibido de receber visitas, "salvo de seus advogados regularmente e com procuração nos autos, além de outras pessoas previamente autorizadas" pelo STF. Os visitantes autorizados não poderão usar celular, fazer fotos ou gravar vídeos, assim como o ex-presidente, que também está proibido de usar o celular "diretamente ou por intermédio de terceiros".

O mandado de busca e apreensão de aparelhos celulares do ex-presidente foi cumprido no fim da tarde em Brasília, segundo informou a Polícia Federal. A defesa de Bolsonaro afirmou ter sido "surpreendida" com o decreto da prisão domiciliar, já que o ex-presidente "não descumpriu qualquer medida". Por meio de nota, os advogados afirmaram que Bolsonaro não estava proibido de dar entrevistas ou fazer discursos públicos. "A frase 'boa tarde, Copacabana. Boa tarde meu Brasil. Um abraço a todos. É pela nossa liberdade. Estamos juntos', não pode ser compreendida como descumprimento de medida cautelar, nem como ato criminoso."

O governo de Donald Trump emitiu nota condenando a decisão e afirmando que se trata de uma "ameaça à democracia". O Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, parte do Departamento de Estado, afirmou que os EUA "responsabilizarão todos aqueles que auxiliarem e forem cúmplices da conduta" de Moraes.

A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro foi destaque em diversos veículos de imprensa pelo mundo. O jornal The New York Times, um dos principais veículos americanos, afirmou que as medidas de Moraes "ameaçam agravar a maior crise diplomática em décadas entre os Estados Unidos e o Brasil" — uma referência à decisão de Donald Trump de "defender Bolsonaro e impor tarifas de 50% sobre alguns produtos do Brasil, a maior economia da América Latina, a menos que o processo contra o ex-presidente fosse arquivado". O britânico The Guardian pontuou que a ordem de prisão domiciliar faz parte de um processo em curso no STF, no qual Bolsonaro é acusado de liderar uma conspiração para anular os resultados das eleições de 2022. O jornal também cita a escalada de tensão entre Brasil e EUA e a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro do STF. O The Guardian destacou que a prisão domiciliar foi "imediatamente condenada pelos EUA".

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Nenhum comentário: