Alimentos
gordurosos e doces: por que dão prazer e ao mesmo tempo fazem mal
Por que
consumir um pedaço de chocolate ou uma porção de batata frita é algo tão
prazeroso? O que explica essa sensação no corpo e porque é tão díficil reduzir
ou até mesmo cortar o consumo desses produtos?
Os
mecanismos por trás disso, ressaltam especialistas ouvidos pelo g1, estão
associados ao fato de que, cada vez mais, a indústria alimentícia se apropria
de diversas técnicas para que os alimentos que consumimos sejam altamente
atraentes para nosso paladar. E a maioria desses alimentos são chamados por
especialistas de ultraprocessados.
Entenda,
abaixo, o que são esses alimentos, por que eles são tão prazerosos e que riscos
eles representam para a nossa saúde.
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O que são alimentos ultraprocessados?
Na
prática, quando falamos de ultraprocessados, estamos nos referindo aqueles
alimentos que são altamente manipulados pela indústria com diversos
ingredientes adicionados (chamados de aditivos), de origem natural ou
artificial, para que prolonguem seu tempo de conservação e pareçam mais
atrativos não só ao paladar como ao olfato e visão dos consumidores.
E a
lista é imensa, inclui diversos doces, sorvetes, salsichas, sopas de pacotinho,
cereais, nuggets, e etc.
“O que
distingue os AUP dos simplesmente processados é o fato de que os alimentos
processados são alimentos naturais (produzidos pela natureza) acrescidos de
pequenas quantidades de sal, gordura ou açúcar, de modo que o produto final
ainda tem muitas das características do alimento original”, destaca Carlos
Augusto Monteiro, coordenador do departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde
Publica da USP.
Os
alimentos processados são qualquer produto que sofre uma alteração pela
indústria. E isso pode ser desde um aquecimento, congelamento até um corte
diferente. Legumes em conserva, frutas em calda, queijos e pães são um exemplo
de alimentos processados.
Diferentemente
dos ultraprocessados, segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira do
Ministério da Saúde, documento que reúne orientações para os programas sociais
na área, os alimentos minimamente processados (tais como o leite pasteurizado,
carnes congeladas, grãos empacotados, etc.) devem ser a base da nossa
alimentação.
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Mas por que essas comidas são tão prazerosas e viciantes?
Os
aditivos presentes nos alimentos ultraprocessados, como o açúcar, o sal, os
óleos, as gorduras e outras substâncias do tipo, acionam os receptores de
recompensa do nosso cérebro.
Isso
acontece porque só o fato de olharmos para esses alimentos, como mostram alguns
estudos, o nosso sistema nervoso é estimulado a liberar dopamina, uma
substância responsável por esse processo de gratificação.
São
esses receptores de dopamina, presentes em todo o nosso cérebro, que nos dizem
que tomar mais uma taça de sorvete seria uma boa ideia.
“Os
aditivos desencadeiam a sensação de prazer por simularem propriedades
sensoriais (sabor, cor, textura, etc.) mas não é só isso. A combinação de
proporções determinadas de gordura e açúcar ou gordura e sal provocam também
grande sensação de prazer e são manipuladas pela indústria de ultraprocessados
para esse fim” explica Monteiro.
Fernanda
Rauber, pesquisadora no Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde
e no Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP,
acrescenta que as altas concentrações de açúcares e gorduras são a base do
potencial recompensador dos alimentos ultraprocessados, pois isso ativa a
liberação rápida da dopamina por meio das sensações sensoriais (como a sensação
na boca e o sabor doce) e pelo aumento rápido da glicose no sangue.
"A
remoção de ingredientes (como a fibra) também aumenta o potencial viciante dos
alimentos ultraprocessados, aumentando a rápida ingestão desses alimentos e das
substâncias recompensadoras (agentes viciantes)", diz.
Além
disso, a gordura e açúcar presentes nesses alimentos também “acalmam” o
cérebro, pois as substâncias responsáveis pelo estresse no nosso corpo diminuem
de concentração quando ingerimos alimentos ultraprocessados. Pelo menos, por um
curto período de tempo. A longo prazo, o corpo percebe o quanto esses alimentos
“prazerosos” são prejudiciais.
Um
estudo realizado por pesquisadores brasileiros, por exemplo, publicado em 2021
em uma revista científica internacional, investigou os hábitos alimentos de
mais de 1200 trabalhadores de Vitória da Conquista, na Bahia. A pesquisa
mostrou então que aqueles que consumiam alimentos ultraprocessados pelo menos
uma vez por semana apresentaram níveis de estresse significativamente maior em
comparação aos que não consumiam nenhum produto do tipo.
Segundo
conta ao g1 o coordenador desse estudo, Matheus Lopes Cortes, mestre em
Alimentos, Nutrição e Saúde e doutor em Epidemiologia, embora mais pesquisas
sejam necessárias para corroborar a associação causal entre esses dois fatores,
o estresse psicológico pode desencadear comportamentos de risco à saúde, como o
consumo desses alimentos, que trazem uma sensação prazerosa e reduzem
momentaneamente as emoções negativas.
"No
entanto, o contrário pode também ser observado, sendo, neste caso, a má
alimentação como um fator que desencadeia maiores níveis de estresse, ou seja,
o consumo alimentar afetando como as pessoas se sentem", diz o também
professor na Universidade Federal da Bahia.
Um
fator que explicita isso, pontua Cortes, é que, como corroborado por alguns
estudos, pessoas com excesso de peso são mais insatisfeitas com seus corpos do
que pessoas com o peso considerado "adequado" pela sociedade.
"Essa
diferença é mais significativa nas mulheres", complementa o especialista.
"A insatisfação corporal pode aumentar o estresse e os motivos podem se
originar de fatores socioculturais, como os ideais corporais atuais,
estigmatização ou provocações de outros; das comorbidades somáticas ou das
consequências do peso elevado, como mobilidade reduzida e oportunidades
restritas de inclusão social".
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Tão viciantes quanto algumas drogas
Esse
processo de absorção dos ultraprocessados no nosso corpo é tão intenso e
viciante que alguns pesquisadores chegam a dizer que os efeitos desses
alimentos no cérebro são semelhantes ao de algumas drogas, como o cigarro e até
mesmo a cocaína, embora isso ainda não seja um consenso para a ciência.
“Eles
têm um grande potencial viciante e serão tanto mais viciantes quanto maior for
o desenvolvimento tecnológico da indústria”, avalia Carlos Monteiro, professor
da Faculdade de Saúde Pública da USP.
Em
outro estudo sobre ultraprocessados, pesquisadores americanos descobriram que
comidas ricas em gordura ou carboidratos refinados (açúcar, farinha branca),
tais como uma pizza, sorvete ou um cheeseburger, provocam comportamentos
associados ao vício como perda do controle do consumo e uma incapacidade de
parar ou reduzir a vontade de comer apesar das consequências negativas desse
hábito.
"Alimentos
ultraprocessados quando administrados a camundongos em laboratórios de pesquisa
demonstraram ser tão viciantes ou mais viciantes do que as drogas",
explica ao g1 a autora do estudo e neurocientista da Universidade de Princeton,
Nicole Avena. "Esses alimentos causam reações semelhantes em nossos
cérebros que as drogas, e podemos nos tornar dependentes de suas propriedades e
da maneira como nos fazem sentir".
“Os AUP
são desenvolvidos em laboratórios de análise sensorial assim como os cigarros
são desenvolvidos”, acrescenta Monteiro. “Em ambos os casos, a procura é por
combinações de ingredientes que maximizem o prazer do usuário. Isso leva
inevitavelmente a que o potencial viciante dos AUP seja imenso”.
Ivan de
Araújo, professor titular de Neurociências da Escola de Medicina do Hospital
Monte Sinai em Nova York ressalta que drogas como o cigarro e a cocaína viciam
através da super estimulação dos sistemas de recompensa cerebrais que evoluíram
para motivar o nosso corpo a buscar nutrientes – algo que é fundamental para a
vida.
Contudo,
aponta o pesquisador, essas alterações cerebrais ao consumirmos alimentos
ultraprocessados, especialmente a liberação de dopamina, ocorrem em níveis
muitos mais altos após o consumo de drogas.
"Os
circuitos envolvidos no uso de drogas têm muito em comum com circuitos de
recompensa alimentar, e então é razoável dizer que a compulsão alimentar pode
ser qualitativamente comparada à compulsão por drogas", destaca o
especialista.
Alimentos
ultraprocessados — Foto: Pexels
Apesar
disso, Araújo pontua que não temos uma visão completa dos efeitos centrais da
ingestão desses alimentos e que outros elementos, além da dopamina, podem
desempenhar papeis importantes nesse processo.
"Mas,
como está bem estabelecido que o neurotransmissor dopamina é fundamental para
percepções de prazer e para a motivação em geral, sua difusão por centros
cerebrais certamente é necessária para se observar alterações comportamentais
que se assemelham a vícios ou compulsões", explica.
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Hiperpalatabilidade e facilidade de consumo
Outro
fator importante que explica porque os alimentos doces e gordurosos são tão
prazerosos é fato de que eles são hiperpalatáveis.
Isso
quer dizer que eles são altamente atraentes para nosso paladar. Monteiro
explica que um cozinheiro competente que domina as técnicas de preparação
culinária também produz comidas altamente atraentes, mas a diferença
fundamental entre ele e a indústria alimentícia é o “arsenal de recursos” à
disposição.
“Alem
disso, a comida muito gostosa em geral demanda ingredientes mais caros e
cozinheiros altamente qualificados, com o que o preço da refeição tende a
encarecer o que determina que a maioria das pessoas não vai comer isso todos os
dias e em grandes quantidades, como acontece com os ultraprocessados”, salienta
o pesquisador.
Conforme
explica o mestre em alimentos Matheus Lopes Cortes, essa sensação também está
atrelada à ativação do sistema recompensa e liberação de neurotransmissores
associados com a sensação de bem-estar, como a dopamina.
"O
nosso cérebro se acostuma com essa sensação e sentimos cada vez mais vontade de
consumi-los. Exemplos desses alimentos no nosso dia-a-dia são os refrigerantes
e outras bebidas açucaradas, como hamburgueres, pizza, salgadinhos, biscoitos
recheados, doces, chocolates, etc.".
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Chocolate é ultraprocessado? Por que ele é tão viciante?
Se
consideramos o chocolate na forma como o produto é vendido em supermercados, ou
seja, aquelas barras ou bombons, ele é pode ser classificado com um alimento
ultraprocessado, avalia Ivan de Araújo, pois substâncias como açúcares e
lipídeos que não são encontrados junto à sua matéria prima original, o cacau,
são adicionados durante o processo de manipulação pela indústria.
Outra
característica do chocolate, ressalta o pesquisador, é a sua chamada alta
densidade calórica: pequenos pedacinhos de um barra, por exemplo, possuem
grandes quantidades de caloria, o que facilita a ativação de sistemas
recompensa no nosso corpo e, ao mesmo tempo, evita sensações inibidoras do
apetite como a chamada distensão gástrica, o aumento do estômago.
"Aliás,
tal característica parece ser encontrada em alimentos tipicamente
ultraprocessados e pouco nutritivos, como produtos tais quais tortilhas
salgadas, que levam ao consumo de grandes quantidades de sódio com pouco
preenchimento gástrico", pontua.
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Por que reduzir ou cortar alimentos ultraprocessados e prazeros é tão difícil?
Mudar
hábitos alimentares é algo muito difícil para qualquer pessoa,
independentemente da dieta a qual ela esteja acostumada, seja ela rica em
alimentos ultraprocessados ou não.
Lopes
pede para que façamos o seguinte exercício: vá até a geladeira ou a dispensa de
sua casa e veja quantos alimentos industrializados diferentes você tem.
"Tenho
certeza que a grande maioria das pessoas que fizer o que estou propondo vai se
surpreender com a quantidade de alimentos processados e ultraprocessados que
possui em casa".
Ele
pontua que estes alimentos, infelizmente, fazem parte do nosso dia-a-dia numa
frequência cada vez maior, mas que, embora seja díficil se desprender dessa
dieta, alguns hábitos podem ajudar quem deseja encarar esse desafio.
"Uma
dica que pode ajudar é sempre priorizar alimentos naturais nos lanches entre as
principais refeições, evitar comprar esses alimentos hiperpalatáveis nos
supermercados e armazená-los em casa (evitando a tentação de tê-los
facilmente)", sugere o especialista.
Outro
importante fator, ainda segundo o professor, é fazer um esforço para que a
alimentação ao longo da semana seja o mais natural possível (por exemplo,
consumir fruta em vez do suco de caixinha) e para que o consumo desses
alimentos seja uma exceção e não uma regra.
Ele
lembra ainda que não nos alimentamos com o pensamento exclusivo em oferecer as
condições indispensáveis à vida, mas que comer também é um ato social. Por
isso, os pais e as escolas também precisam estar muito atentos a isso, pois,
segundo o pesquisador, eles são os principais responsáveis pelos hábitos
alimentares das crianças.
Fonte:
Saúde e Bem Estar

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