AGU
estuda ação na Justiça americana contra sanções da Lei Magnitsky sobre
Alexandre de Moraes
A
Advocacia-Geral da União (AGU) avalia mover uma ação judicial nos Estados
Unidos, inclusive junto à Corte Suprema norte-americana, para contestar sanções
baseadas na Lei Magnitsky impostas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo
Tribunal Federal (STF).
O
Palácio do Planalto entende que é necessária uma resposta institucional firme
ao que é visto como interferência externa nos julgamentos em curso. A
possibilidade de uma medida por parte do órgão já vinha sendo levantada nesta
quarta-feira (30).
Uma
nota oficial publicada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT),
inclusive, reafirmou que a soberania nacional não é negociável, destacando que
as decisões do STF — incluindo aquelas turmas colegiadas — são fruto de
processamentos institucionalizados, e não ataques individuais.
“Os
nossos escritórios já estão trabalhando. A avaliação é de que a fundamentação
do ato do MGA [Magnitsky Global Act] é ilegítima", pontou um integrante do
governo brasileiro.
"Há
um cenário claro de disputa judicial com consequências administrativas.
Obviamente isso está sendo estudando com muita cautela. A decisão será tomada
quando estiver madura, mas claro que há urgência”, prosseguiu.
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Percepção no Supremo
No
Supremo uma ação é muito bem vista, porque a percepção é que não se trata de um
ação contra um ministro, mas contra a Corte.
Consultado
pelo blog, um ministro do STF explicou que todas as decisões foram colegiadas e
não individuais. Isto é, mesmo que partisse de um ministro, elas foram
confirmadas por um colegiado, seja da Primeira Turma ou por um colegiado do
plenário.
Ainda
segundo esse ministro, a orientação é manter o foco no julgamento sobre a
tentativa de golpe, considerado o principal tema político em curso no país — o
qual pode levar à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros
integrantes do núcleo crucial.
O
ministro ressaltou ainda que a estratégia de certos grupos, inclusive com
pressão envolvendo interlocuções com a Casa Branca, visa desviar o debate
principal.
No
entanto, Moraes já sinalizou para interlocutores que o cronograma do julgamento
segue inalterado e que o desfecho deve ocorrer em setembro, independentemente
da sanção sofrida por ele.
• Sem Visa e Netflix? O que muda na vida
de Alexandre de Moraes com Lei Magnitsky
O
anúncio, pelos Estados Unidos, da imposição de novas sanções ao ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes deve dificultar o acesso do
magistrado brasileiro a uma série de serviços financeiros e de tecnologia.
As
medidas contra Moraes foram impostas com base na Lei Magnitsky, uma das mais
severas punições disponíveis para Washington contra estrangeiros considerados
autores de graves violações de direitos humanos e práticas de corrupção.
Há três
consequências principais para quem é colocado na lista de sancionados pela
legislação: proibição de viagem aos EUA, congelamento de bens nos EUA e
proibição de qualquer pessoa ou empresa nos EUA de realizar transações
econômicas com o indivíduo penalizado.
Moraes
já estava impedido de entrar em território americano. O secretário de Estado
americano, Marco Rubio, já havia anunciado, em 18 de julho, a revogação do
visto do ministro, seus familiares e "aliados" — sem detalhar quem
são esses.
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Serviços financeiros
O
último ponto previsto pela lei, que trata das transações financeiras, é o que
costuma causar maiores problemas às pessoas sancionadas pelos EUA, afirmou
Natalia Kubesch, advogada da Redress — entidade britânica que ajuda vítimas de
tortura e abusos de direitos humanos em diversas partes do mundo — em
entrevista à BBC News Brasil.
Isso
significa, em tese, que os cartões de crédito de Moraes podem ser cancelados —
mesmo se emitidos por bancos no Brasil — já que as empresas de cartões Visa,
MasterCard e American Express são americanas.
Porém,
segundo Kubesch, isso também pode não acontecer, já que decisões como essa
costumam ser analisadas caso a caso pelas instituições financeiras. Mas a
advogada afirma que há precedentes em que isso aconteceu.
"A
American Express anunciou no ano passado que havia encerrado contas de clientes
[sancionados pela Lei Magnitsky]. Eles provavelmente tinham ligações com o
governo do Irã, então a operadora encerrou completamente essas contas de
clientes", diz a especialista.
"Da
mesma forma, em 2022, Visa, MasterCard e American Express bloquearam certos
bancos russos de suas redes de pagamento após a imposição de sanções."
Também
existe a possibilidade do ministro ser impedido de manter conta em bancos
brasileiros com ligação ao sistema americano, já que instituições financeiras
de qualquer país que mantêm contas ou cartões para pessoas punidas pela Lei
Magnitsky podem ser alvo de sanções.
Indivíduos
sob a jurisdição americana também podem ser punidos por manter negócios ou
fazer transações com indivíduos sancionados.
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Redes sociais e plataformas de tecnologia
E as
contas de mídias sociais de Alexandre de Moraes? As sanções americanas poderiam
forçar empresas baseadas nos EUA — como Google, Meta e X — a cancelarem as
contas do juiz brasileiro?
Kubesch
afirma que existe uma "zona jurídica cinzenta" quanto a isso.
"Ser
sancionado não o proíbe de ter uma conta em uma rede social. E empresas como
Twitter e o Facebook não necessariamente violariam as sanções ao permitir que
alguém tivesse uma conta", diz a advogada.
Isso
porque vetar o acesso de uma pessoa a uma plataforma de comunicação de massa
por causa de sanções seria visto por muitos como uma violação do seu direito à
liberdade de expressão, diz Kubesch.
"Mas
existe uma área cinzenta porque contas em redes sociais podem ser usadas para
permitir ou facilitar a potencial proibição de uma sanção, ou podem promover
sua agenda específica", diz a advogada.
"Há
precedentes em que o Facebook bloqueou em 2017 contas do chefe da República
Chechena da Rússia, patrocinado pelo Kremlin, depois que ele foi
sancionado", ressalta Kubesch.
"Há
precedentes de plataformas de mídia bloquearam contas após a imposição de
sanções, mas isso também pode, às vezes, ser uma abordagem proativa [das
empresas de mídias sociais], em vez de ser uma violação direta, resultado da
qual eles teriam que agir."
Em
teoria, Moraes também poderia sofrer restrições para acessar plataformas de
tecnologia que oferecem armazenamento em nuvem, contas de e-mail ou serviços de
pagamento, como PayPal.
Ele
também poderia ser impedido de assinar serviços de streaming americanos.
A
decisão dos Estados Unidos de sancionar Moraes foi publicada no site do
Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros.
Em
nota, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prestou
"solidariedade" a Moraes e disse que tentativas de interferência
externa no Judiciário brasileiro é algo inaceitável.
Segundo
o texto, Moraes é "alvo de sanções motivadas pela ação de políticos
brasileiros que traem nossa pátria e nosso povo em defesa dos próprios
interesses".
O STF
também manifestou em nota "solidariedade" a Moraes e afirmou que
todas suas decisões na ação que tem o ex-presidente Jair Bolsonaro como réu
foram confirmadas por outros ministros da Corte.
O
processo judicial contra Bolsonaro tem motivado declarações de membros do
governo americano e retaliações, como tarifas de 50% sobre produtos
brasileiros. Ao anunciar as tarifas em 9 de julho, o presidente Donald Trump
falou que uma "caça às bruxas" a Bolsonaro na Justiça brasileira.
Nesta
quarta-feira, o presidente americano assinou o decreto que institui as novas
taxas, mas que também prevê uma longa lista de isenções.
• O que é a Lei Global Magnitsky, que EUA
usou contra Alexandre de Moraes
O
ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, é o mais novo nome a
ser incluído pelos Estados Unidos na lista de de estrangeiros punidos com a Lei
Global Magnitsky.
Esta é
a primeira vez que uma autoridade brasileira é submetida a tal punição, uma das
mais severas disponíveis para Washington contra estrangeiros considerados
autores de graves violações de direitos humanos e práticas de corrupção.
A
decisão foi anunciada pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros nesta
quarta-feira (30/7), mas a sanção já era uma possibilidade desde maio, quando o
secretário de Estado americano, Marco Rubio, disse que ela estava sendo
considerada.
"A
caça às bruxas política do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal
Federal, contra Jair Bolsonaro criou um complexo de perseguição e censura tão
abrangente que não só viola direitos básicos dos brasileiros, mas também se
estende além das fronteiras do Brasil e atinge os americanos", argumentou
Rubio na ocasião em resposta ao deputado republicano Cory Mills, da Flórida..
Mills
tem articulado com o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP),
filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e que está morando nos EUA.
O
republicano já afirmou em uma audiência no Capitólio que o Brasil vive um
"alarmante declínio dos direitos humanos", citando supostos episódios
de "censura generalizada" e "perseguição política contra a
oposição, jornalistas e cidadãos comuns".
Ele
também se referiu a uma "iminente prisão política do ex-presidente
Bolsonaro" e alegou, sem apresentar provas, que a repressão se estenderia
a pessoas vivendo nos EUA.
Esta é
a quarta rodada de sanções impostas pelos EUA ao Brasil, desde que o presidente
americano Donald Trump subiu o tom contra o país, criticando o tratamento dado
ao ex-presidente Jair Bolsonaro no processo em que ele é acusado de tramar um
golpe de Estado.
Em 9 de
julho, Trump anunciou tarifas de 50% contra produtos brasileiros; em 15 de
julho, o governo Trump anunciou investigação sobre o que chamou de práticas
comerciais "desleais" do Brasil; e, no dia 18, o secretário de Estado
americano, Marco Rubio, anunciou a revogação do visto americano do ministro
Alexandre de Moraes e de seus familiares e "aliados".
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O que é a Lei Global Magnitsky
Aprovada
durante o governo de Barack Obama, em 2012, a Lei Magnitsky foi criada para
punir autoridades russas envolvidas na morte do advogado Sergei Magnitsky, que
denunciou um esquema de corrupção estatal e morreu sob custódia em Moscou.
Inicialmente
voltada para os responsáveis por sua morte, a lei teve seu alcance ampliado em
2016, após uma emenda que permitiu a inclusão de qualquer pessoa acusada de
corrupção ou de violações de direitos humanos na lista de sanções.
Desde
então, a lei passou a ter aplicação global.
Em
2017, pela primeira vez a lei foi aplicada fora do contexto russo, durante o
primeiro governo de Donald Trump.
Na
ocasião, três latino-americanos foram alvo de sanções por corrupção e violações
de direitos humanos: Roberto José Rivas Reyes, então presidente do Conselho
Supremo Eleitoral da Nicarágua; Julio Antonio Juárez Ramírez, deputado da
Guatemala; e Ángel Rondón Rijo, empresário da República Dominicana.
As
punições incluem o bloqueio de bens e contas no país, além da proibição de
entrada em território americano. Não há necessidade de processo judicial — as
medidas podem ser adotadas por ato administrativo, com base em relatórios de
organizações internacionais, imprensa ou testemunhos.
Segundo
o texto da própria lei, são consideradas violações graves atos como execuções
extrajudiciais, tortura, desaparecimentos forçados e prisões arbitrárias
sistemáticas.
Também
podem ser sancionados agentes públicos que impeçam o trabalho de jornalistas,
defensores de direitos humanos ou pessoas que denunciem casos de corrupção.
A Lei
Magnitsky já foi usada contra membros do judiciário de países como Rússia e
autoridades de Turquia e Hong Kong, em casos de perseguição a opositores,
julgamentos fraudulentos ou repressão institucionalizada.
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Ofensiva contra Moraes e o STF
A
movimentação em torno da Lei Magnitsky representa um esforço para
internacionalizar o embate político entre bolsonaristas e o judiciário
brasileiro.
Sanções
americanas a Moraes são uma das pautas mais defendidas por Eduardo Bolsonaro e
outros militantes de direita radicados nos Estados Unidos.
Eles
afirmam que Moraes e outros integrantes do STF estariam conduzindo uma
perseguição judicial contra Bolsonaro e contra outros políticos e militantes de
direita.
No pano
de fundo, está também a tensão entre o Judiciário brasileiro e as plataformas
digitais.
Moraes
foi alvo de críticas do ex-senador Rubio após ordenar o bloqueio do X
(ex-Twitter) no Brasil, em agosto de 2024. À época, Rubio classificou a medida
como uma "manobra para minar liberdades básicas".
No
início de maio, o governo americano enviou um representante do Departamento de
Estado ao Brasil pela primeira vez — o chefe interino da coordenação de sanções
internacionais, David Gamble.
Desde
que a vinda da comitiva norte-americana foi confirmada, surgiram rumores de que
um dos assuntos seriam sanções a membros do STF como Moraes — relator de
diversos processos que tramitam contra Bolsonaro e seus apoiadores na Corte,
como os relacionados aos atos de 8 de janeiro de 2023.
Na
postagem em que anunciou a ida da equipe do Departamento de Estado ao Brasil,
Eduardo Bolsonaro fez uma menção ao ministro.
"Quando
eu disse que a batata do Alexandre de Moraes estava esquentando aqui nos
Estados Unidos, pode ter certeza de que está esquentando de verdade. Se Deus
quiser, os violadores sistemáticos de direitos humanos [...] vão ser
punidos", disse o parlamentar licenciado.
Em
fevereiro, Moraes foi processado pessoalmente pela empresa de mídia de Trump, a
Trump Media & Technology Group (TMTG), em conjunto com a rede Rumble, que
havia sido bloqueada no Brasil por ordem de Moraes.
A ação,
movida na Flórida, questionou o poder do ministro para tomar decisões sobre
conteúdos postados na Rumble e sobre a monetização destes conteúdos.
O
processo foi iniciado horas depois de a Procuradoria-Geral da República (PGR)
denunciar Jair Bolsonaro como suposto líder de uma organização criminosa que
teria planejado a ruptura democrática do Brasil após as eleições de 2022.
Em
outra frente, parlamentares republicanos lideram, na Câmara dos Representantes
dos EUA (equivalente à Câmara dos Deputados, no Brasil) um projeto batizado de
"No Censors on our Shores Act" ("Lei Sem Censores dentro de
nossas Fronteiras", em tradução livre).
O
projeto prevê a deportação ou a proibição de entrada em território americano de
autoridades estrangeiras que tenham infringido a Primeira Emenda da
Constituição dos Estados Unidos, que trata da liberdade de expressão.
Fonte:
g1/BBC News Brasil

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