quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Rússia ataca servidores e põe internet na Ucrânia em risco

Antes da guerra, hackers e apagões eram as maiores ameaças aos centros de dados da Ucrânia. Hoje, porém, os próprios edifícios que abrigam os servidores passaram a ser o alvo. Desde o início de setembro, a Rússia vem atacando sistematicamente centros de dados ucranianos. A infraestrutura digital da capital, Kiev, e de outras regiões do país já foi atingida.

Após os ataques, a recepção de diversos canais de televisão e os serviços de streaming ficaram temporariamente indisponíveis. Assinantes de algumas operadoras de TV a cabo também relataram problemas.

<><> Por que a Rússia está atacando centros de dados?

Um centro de dados é uma instalação onde informações são armazenadas. Nele há servidores, dispositivos de armazenamento de dados e equipamentos de rede que garantem o funcionamento contínuo de serviços online, dos quais dependem portais de notícias, registros estatais, bancos digitais, serviços em nuvem, telefonia e sistemas corporativos.

Assim, danos a uma instalação desse tipo afetam não apenas o acesso privado à internet, mas também uma ampla gama de serviços utilizados no cotidiano. Isso torna os centros de dados um alvo estratégico importante.

O ministro do Exterior da Ucrânia, Andrii Sybiha, afirmou que a Rússia atacou grandes centros de dados ucranianos com o objetivo de interromper o fluxo de informações. Segundo ele, como a Rússia não estaria alcançando seus objetivos no campo de batalha, busca novas formas de desestabilizar a vida na Ucrânia.

<><> A internet ucraniana pode cair completamente?

Apesar da intensidade dos ataques aos centros de dados, especialistas concordam que um colapso da internet é improvável.

O setor jamais foi regulado na Ucrânia e nunca exigiu licenças milionárias. Trata-se de um setor bastante descentralizado. "Entrar nesse mercado sempre foi muito barato, por isso milhares de empresários passaram a oferecer esse tipo de serviço", diz o especialista em telecomunicações ucraniano Oleksandr Hlushchenko.

Assim, um cidadão ucraniano pode escolher entre vários provedores de internet, chegando, em alguns edifícios residenciais, a ter até dez opções. Na avaliação do especialista, essa concorrência fez com que "a Ucrânia provavelmente tenha um dos melhores serviços de acesso à internet do mundo".

Ao mesmo tempo, ele ressalta que danos físicos causados pelos ataques podem provocar interrupções apenas temporárias, em segmentos de rede de determinados provedores, até que a infraestrutura seja reparada.

O deputado Oleksandr Fediienko, membro da comissão parlamentar de segurança nacional, defesa e inteligência, também destaca esse ponto. "A internet vai desaparecer na Ucrânia? Claro que não. Haverá uma reestruturação da infraestrutura e a criação de instalações de contingência", afirmou.

Ele enfatiza que os ataques russos são ineficazes, já que os provedores ucranianos conseguem restaurar rapidamente os serviços.

Para o conselheiro presidencial para o desenvolvimento tecnológico na área de defesa, Serhii Beskrestnov, os ataques russos aos centros de dados fazem parte sobretudo de uma operação de guerra informacional. "Já tentaram nos assustar dizendo que faltariam alimentos e combustível; agora estão alimentando o temor de uma queda da internet", afirmou.

<><> Como proteger dados e equipamentos?

Hlushchenko lembra que um servidor pode ser destruído, mas, como os dados costumam ser armazenados simultaneamente em outros centros de dados, inclusive no exterior, os sistemas podem mudar automaticamente para outro centro de dados.

Além disso, empresas de telecomunicações armazenam cópias de segurança em serviços de nuvem europeus oferecidos por empresas como Google e Amazon.

O empresário Oleksandr Olshanskyi, fundador do provedor MiroHost e diretor da Internet Invest, principal empresa ucraniana de serviços de TI e hospedagem, diz que, apesar de seu centro de dados ter sido praticamente destruído, os impactos para os clientes foram mínimos.

"Cerca de 95% dos clientes não foram afetados porque utilizam infraestrutura na Polônia e na República Tcheca. Restaram apenas cerca de 150 clientes, de um total de 20 mil a 25 mil, que por algum motivo não transferiram, duplicaram nem protegeram sua infraestrutura", explicou Olshanskyi em entrevista ao portal RBC-Ucrânia.

Os especialistas recomendam que os centros de dados invistam ainda mais em descentralização, adquiram equipamentos adicionais e distribuam sua infraestrutura geograficamente. Também aconselham manter cópias espelhadas dos dados em servidores localizados em centros de dados na Europa e em serviços de computação em nuvem. Outra alternativa seria transferir instalações para abrigos subterrâneos protegidos. Todas essas medidas implicam, claro, custos adicionais para os clientes.

"Estamos acostumados a ter a internet mais rápida da Europa, a mais barata da Europa e o melhor suporte técnico", observa Fediienko. Ele prevê que isso vai mudar. Também Beskrestnov também prevê aumentos nas tarifas de internet para compensar os custos de reparo e de reforço da infraestrutura.

<><> Ucrânia usa canhões com IA para proteger pontes

A Ucrânia começou a usar torretas equipadas com canhões operados por inteligência artificial (IA) para proteger pontes e outras infraestruturas estratégicas contra ataques de drones russos. A informação foi confirmada nesta segunda-feira (05/10) pelo porta-voz da Força Aérea ucraniana, Yuri Ignat. Torreta é a estrutura móvel onde fica montada uma arma, como uma metralhadora ou um canhão, permitindo apontá-la em diferentes direções (como as de um tanque de guerra).

Segundo autoridades ucranianas, os sistemas já foram usados para derrubar drones russos, incluindo modelos a jato, que representam um desafio maior para as defesas aéreas devido à alta velocidade. Doze torretas já estão em operação em Kiev, enquanto novas unidades estão sendo instaladas nos arredores da capital.

<><> Menos intervenção humana

De acordo com Ignat, os equipamentos utilizam sensores ópticos e inteligência artificial para identificar e atingir alvos, reduzindo a necessidade de intervenção humana. Ele ressaltou, porém, que o sistema tem alcance limitado, de cerca de um quilômetro, e depende de condições favoráveis para operar com eficácia.

Nos últimos dias, diversas pontes da capital sobre o rio Dnieper foram alvo de bombardeios, provocando interrupções no tráfego e dificuldades logísticas. Autoridades ucranianas afirmam que os novos canhões não substituem outros meios de defesa aérea, mas podem reforçar a proteção de pontos críticos contra drones cada vez mais rápidos e difíceis de interceptar.

¨       Por que atacar Kaliningrado seria uma missão suicida para a Europa? Analista explica

A Rússia voltou a advertir que responderá a qualquer tentativa de atacar ou isolar Kaliningrado, exclave russo cercado por países da OTAN. Moscou afirma que poderia recorrer a todo seu arsenal, inclusive nuclear, enquanto a aliança atlanticista amplia exercícios e sua presença militar no flanco oriental na região do Báltico.

Neste cenário complexo, Ricardo Cabral, editor do canal Geopolítica & História Militar e autor do livro "Guerra na Ucrânia: análises e perspectivas", destacou, em entrevista à Sputnik Brasil, que qualquer tentativa europeia de incursão contra Kaliningrado traria graves consequências aos invasores.

"Tem tantos recursos militares ali que não seria uma boa ideia avançar em direção [a Kaliningrado]. Hipoteticamente, se houvesse uma guerra convencional. A Frota do Báltico [russa] tem submarino convencional. E o mar ali é raso, então, um submarino convencional em mar raso faz com que a OTAN não passe com um comboio porque as rotas serão todas cobertas e também [pode] bloquear o porto de Hamburgo", disse.

O especialista também chama a atenção para dois pontos fundamentais: o exclave de Kaliningrado desponta como um dos territórios mais protegidos pela Rússia e o país conta com o Oreshnik, um míssil balístico hiperveloz de alto poder letal desenvolvido para as forças russas. Além disso, o analista ressalta o peso estratégico de Minsk, que já abriga parte do arsenal tático de Moscou na região.

"Essa é uma das regiões mais bem defendidas da Rússia. E agora, com a Finlândia e com a Suécia na OTAN, Kaliningrado exponenciou todo o seu potencial geopolítico e militar. Lembro que tem Oreshnik em Belarus e é muito provável que os russos também tenham Oreshnik em Kaliningrado, até para se defender", comenta.

<><> OTAN, ao provocar a Rússia, tensiona a região báltica

Segundo análise de Cabral, o mar Báltico se encontra tensionado por causa do objetivo de países da OTAN em tentar cercar Kaliningrado, para transformar todo o perímetro de navegação em uma espécie de "mar atlanticista" para uso da aliança militar ocidental.

"A OTAN faz [exercícios militares] com frequência ali em frente a Kaliningrado. Isso não é somente para pressão e demonstração de poder, e sim, um assédio para demonstrar que podem chegar a qualquer hora. A OTAN busca fortemente a expansão para tornar o Báltico um 'mar otanista', um 'mar atlanticista'", destaca.

O analista internacional também pontua que o corredor de Suwalki, faixa de terra que passa entre a Lituânia e a Polônia e separa o exclave russo de Kaliningrado de Belarus, funciona como o principal ponto de contato e atrito entre a Rússia e o Ocidente na região. Atualmente, a área também enfrenta uma forte escalada de tensão devido ao aumento das atividades e exercícios militares da OTAN, movimentos que Moscou classifica como uma postura provocativa.

"O corredor Suwalki, que também incomoda demais poloneses e outros países, foi colocado nesta situação por causa do Ocidente. Isso é um jogo que vem sendo jogado desde o final da Guerra Fria, onde dizem que a Rússia é uma ameaça, mas quem cercou Kaliningrado não foram os russos, mas sim a OTAN, que foi incorporando Estados bálticos, de modo que Kaliningrado está hoje no meio de territórios hostis", observa.

<><> Kaliningrado tem um peso estratégico na geopolítica

Foi incorporada à União Soviética e, posteriormente, à Federação da Rússia após o fim da Segunda Guerra Mundial (Grande Guerra pela Pátria, como esse período é conhecido na Rússia). Na ocasião, Kaliningrado correspondia à antiga Prússia Oriental da Alemanha e era conhecida como Konigsberg.

Ricardo Cabral enfatiza que, por estar encravada no coração da Europa Central, na estratégica costa do mar Báltico, a posição geográfica do exclave se torna altamente valorizada para o aparato de defesa russo.

"A partir do século XX, o fim da União Soviética coloca Kaliningrado numa posição singular, já que permite uma posição estratégica avançada que permite, através do mar, interditar ameaças à Rússia vindas por parte da OTAN e, com isso, Kaliningrado exponenciou todo o seu potencial geopolítico e militar", conclui.

Diante do recrudescimento do cenário internacional, marcado por conflitos crescentes, expansão de novas rotas comerciais e relações diplomáticas severamente desgastadas, o fator territorial e a geografia voltam ao centro do debate, tornando-se não apenas relevantes, mas fundamentais para a preservação da soberania de uma nação.

¨      Guerra eleva casos de estresse pós-traumático na Ucrânia

A guerra em larga escala da Rússia contra a Ucrânia já dura mais de quatro anos. E o conflito não se limita às linhas de frente. Constantemente, mísseis atingem edifícios residenciais e estruturas civis, como instalações de fornecimento de energia. Mortes, feridos, destruição e fugas também deixam marcas, mesmo que sejam menos visíveis: quase um em cada três civis ucranianos (31,2%) apresenta sintomas de transtorno de estresse pós-traumático, incluindo sua forma complexa, uma variante ainda mais grave do distúrbio.

Essa é a conclusão de um levantamento conduzido pela rede internacional de pesquisa Cooperação e Conflito no Leste Europeu (KonKoop). Para o estudo, cientistas das áreas de saúde mental e ciências sociais entrevistaram mais de 2,5 mil ucranianos que vivem em regiões que permanecem ou voltaram a ficar sob o controle do governo de Kiev. A pesquisa recebeu financiamento do Ministério da Pesquisa da Alemanha (BMFTR) e foi publicada na revista científica European Journal of Psychotraumatology.

<><> Quando o cotidiano atormenta

O transtorno de estresse pós-traumático ocorre quando uma pessoa passa por uma experiência negativa, como uma ameaça real ou potencial à própria vida, à própria integridade física ou à de outras pessoas, e esse incidente deixa marcas duradouras na saúde mental. Quem sofre desse distúrbio pode reviver repetidamente o episódio traumático por meio dos chamados flashbacks, além de apresentar ansiedade, irritabilidade e problemas no sono. Em geral, os sintomas só aparecem algum tempo depois da experiência que causou o trauma.

Especialistas estimam que menos de 10% da população mundial atenda aos critérios para esse tipo de transtorno. Segundo o novo estudo, entre os ucranianos essa proporção é mais de três vezes maior. O levantamento se baseia em sintomas relatados pelos próprios participantes. Por isso, dizem os pesquisadores, os resultados podem ter sido influenciados pela forma como eles interpretaram as perguntas.

<><> Trauma coletivo

Segundo Deirdre MacManus, coordenadora do estudo e professora de psiquiatria forense do King's College London, o que mais chama a atenção nos resultados é a dimensão dos traumas revelada pela pesquisa.

Mais de 90% dos entrevistados afirmaram ter passado por pelo menos uma experiência traumática na vida adulta. Nem todas estavam relacionadas à guerra, mas muitas delas, sim. Metade dos participantes disse ter um familiar atuando na linha de frente. Mais de 70% relataram ter vivenciado bombardeios na região onde vivem, e 65% presenciaram algum tipo de destruição provocada pela guerra.

"Não há mais nenhuma família na Ucrânia que não tenha sofrido com a guerra, seja porque perdeu alguém ou porque algum familiar permaneceu em uma região ocupada", afirma Ruslana Lutsyk-Andrushko à DW. Ela trabalha como conselheira psicossocial da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras na cidade ucraniana de Vinítsia, a 350 quilômetros de Kiev.

"Não podemos atribuir a causa exclusivamente à invasão, já que outras experiências traumáticas podem ter contribuído para o desenvolvimento do transtorno", ressalta Emma Facer-Irwin, principal autora do estudo. Pesquisadora do King's College, ela também trabalha como psicóloga clínica no sistema público de saúde britânico, com foco em traumas e transtorno de estresse pós-traumático.

Quanto maior o número de experiências traumáticas vividas por uma pessoa ao longo da vida, maior a probabilidade de desenvolver transtorno de estresse pós-traumático, explica Facer-Irwin à DW. "Mas, levando em conta que estamos falando da população civil, e não de militares ou exclusivamente de pessoas que foram deslocadas ou se refugiaram em outros países, podemos supor que a guerra seja um fator importante para o desenvolvimento e a disseminação do distúrbio", afirma.

<><> Comunidade pode amenizar os traumas

A coordenadora do estudo Deirdre MacManus destaca que muitas pessoas na Ucrânia convivem diariamente com a ameaça de bombardeios, deslocamentos forçados, luto e incerteza. "Apesar dessas circunstâncias, muitas conseguem seguir com suas vidas e se adaptar em condições extremamente difíceis", ressalta.

O levantamento também mostra que, embora muitas pessoas relatem experiências traumáticas, nem todas desenvolvem transtornos persistentes relacionados ao trauma, acrescenta Facer-Irwin. "Isso nos mostra que dois terços da população processam as experiências traumáticas de outra forma."

A psicóloga acredita que o forte sentimento de identidade nacional dos ucranianos também possa ter um papel nesse processo. "Esse sentimento de fazer parte de uma sociedade unida, que enfrenta a invasão de forma conjunta", classifica ela. Segundo Facer-Irwin, pesquisas mostram que o apoio social e o sentimento de pertencimento podem auxiliar contra o transtorno de estresse pós-traumático.

"Por isso, proteger a saúde mental também passa pela criação de redes e ambientes de apoio. Muitas pessoas vivem em situações das quais não podem simplesmente escapar por causa da continuidade da guerra. Precisamos, portanto, de terapias voltadas para o tratamento de traumas e do transtorno de estresse pós-traumático, mas também de serviços de apoio social que possam atender a uma parcela maior da população."

Essa é a abordagem adotada pelo centro de reabilitação da organização Médicos Sem Fronteiras na cidade ucraniana de Vinítsia. "Quando as pessoas chegam até nós, o primeiro passo é estabilizar seu estado emocional e ajudá-las a desenvolver recursos para lidar com a situação", explica Ruslana Lutsyk-Andrushko. Apenas quando os pacientes se sentem melhor é que as memórias traumáticas começam a ser trabalhadas. Em uma terceira etapa, eles aprendem a incorporar à vida cotidiana as experiências e estratégias desenvolvidas durante o tratamento.

"Esse plano busca ensinar estratégias para que as pessoas consigam lidar sozinhas com situações de estresse. Depois de passar pelo centro, elas saem com uma espécie de kit de primeiros socorros, que podem usar para ajudar a si mesmas, os filhos e os amigos em momentos difíceis."

<><> Dimensão dos traumas na Ucrânia ainda é incerta

A Rússia intensifica atualmente os ataques contra a Ucrânia, o que tem afetado a saúde mental de muitos ucranianos, afirma Lutsyk-Andrushko. "Quando uma pessoa vive sob estresse e não vê perspectivas de melhora, isso naturalmente acaba provocando um enorme desgaste. As pessoas precisam de esperança e confiança em um futuro melhor", diz.

Por isso, o estudo representa apenas um retrato do momento atual, afirma a psicóloga Facer-Irwin. Ainda não é possível avaliar toda a dimensão dos impactos da guerra sobre a saúde mental da população. "Os efeitos de longo prazo provavelmente só ficarão claros quando as pessoas tiverem a oportunidade de estar em segurança e de se recuperar plenamente da guerra", conclui.

 

Fonte: DW Brasil/Sputnik Brasil

 

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