O
agro-bolsonarismo na AM e no CO equilibrou a disputa com NE lulista, comenta
professor de universidade britânica
Ao
longo desta eleição, as pesquisas eleitorais repetiram algumas tendências. Uma delas foi o
favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Nordeste, onde o
petista construiu uma base eleitoral sólida por meio de programas sociais. O
resultado do domingo (4/10) confirmou essa tendência. Embora o presidente tenha perdido parte do eleitorado
nordestino,
essa foi a única região onde ele liderou, com 63,77% dos votos ante 30,85% de Flávio Bolsonaro (PL). "Por causa
dessa base, o PT ganhou cinco das últimas seis eleições para o governo
federal", diz Fernando Rugitsky, economista e pesquisador do departamento
de Economia da Faculdade de Estudos Orientais e Africanos (SOAS, na sigla em
inglês) da Universidade de Londres. "Essa base era muito difícil de ser
enfrentada por um projeto político sem um enraizamento tão significativo no
território."
Mas
para ele, se o Nordeste é lulista, outra força eleitoral foi capaz de
equilibrar a disputa, que é o que ele chama de "agro-bolsonarismo",
presente na Amazônia e, em especial, nas fronteiras agrícolas do Centro-Oeste,
onde Flávio teve 56,51% dos votos, e Lula, 32,62%. O agro-bolsonarismo é um
movimento, segundo Rugitsky, que vai além dos grandes empresários do setor e
encontra sustentação em camadas intermediárias de produtores rurais,
especialmente nas regiões marcadas pela expansão da soja e da pecuária. Esse
rearranjo também ajuda a explicar por que as disputas presidenciais passaram a
ser decididas por margens estreitas e por que o mapa eleitoral do país parece
cada vez mais dividido. No domingo, 2,2 milhões de votos separam a liderança de
Flávio do segundo lugar ocupado por Lula em número de votos.
LEIA A
ENTREVISTA:
·
Olhando para o mapa eleitoral deste domingo, parece que o
PT virou um partido da cidade, e o PL um partido do interior…
Fernando
Rugitsky -
O mapa de domingo é muito parecido com
o das duas últimas eleições, com essa sobreposição eleitoral muito forte dos
territórios da soja e da carne com uma base eleitoral bolsonarista. Claro que
não é só isso. É importante ressaltar, por exemplo, o fato de que várias outras
dinâmicas de construção desse bloco eleitoral bolsonarista são decisivas para
conseguir um apoio expressivo nas grandes metrópoles do Sudeste, que são muito
menos afetadas pela dinâmica do agronegócio. A partir de 2006, começa a haver a
formação da base lulista no subproletariado, como o André Singer escreve, e que tem esse
caráter geográfico muito marcado pela sobrerrepresentatividade da população,
dos 40% mais pobres na sociedade, que ganham até dois salários mínimos nos
Estados do Nordeste. Mas se você olha na região onde estava começando o boom
da soja, da carne, que é justamente essa região que vai do norte do Rio Grande
do Sul e passa por todo o interior do Sudeste, do Centro-Oeste e pega as
margens Sul e oriental da Amazônia, há uma tendência para o azul em 2006, mas o
PT também aparece, em 2010, com o Lula super popular. Em 2014, é a mesma coisa.
Mas quando chega em 2018 e 2022, essas regiões, tirando um cantinho ali do
Pantanal, ficam quase monocromáticas. O que me parece decisivo é que, por causa
dessa divisão territorial, a eleição se define nas grandes metrópoles do
Sudeste, que ainda são divididas e tendem a ir de um lado para o outro. De
certa forma, o grande Centro-Oeste, se a gente quiser chamar assim, deu à
direita uma base territorial equiparável à base do Nordeste para o PT.
·
Você defende que a política de comando e controle, que
foi o que reduziu o desmatamento durante os anos 2000, influenciou diretamente
a ascensão do agro-bolsonarismo. Como isso aconteceu e a quais fatores
exatamente essa ascensão pode ser atribuída?
Rugitsky
- É
importante deixar claro que a redução do desmatamento não é só uma conquista a
ser celebrada, mas também uma necessidade urgente da política brasileira.
Estudos dos cientistas climáticos têm sugerido há algum tempo que o bioma
Amazônia está muito próximo do ponto de não retorno. Essa ressalva é importante
para que fique claro que não se trata de defender que a solução para evitar a
ascensão do agro-bolsonarismo teria sido simplesmente deixar o desmatamento
rolar solto. Na literatura sobre conservação, há uma discussão há umas duas
décadas sobre duas alternativas para a conservação: o chamado land sparing
e o land sharing, ou a poupança de terras e o compartilhamento de
terras. A poupança de terras é, digamos, a política dominante, defendida
inclusive pelas grandes instituições multilaterais, que tenta compatibilizar a
grande agricultura industrial intensiva com a preservação ambiental. A ideia,
que uma parte da literatura de conservação chama de mentalidade colonial, é a
de concentrar a produção agrícola no menor espaço possível, com muito ganho de
produtividade, com muita tratorização, com os fertilizantes químicos, enfim,
todo o pacote da agricultura industrial moderna, que permitisse produzir
quantidade muito grande num território restrito e deixar o resto do território
para a natureza selvagem, por assim dizer. Já o compartilhamento de terras é
algo que, de certa forma, tem até respaldo nos estudos arqueológicos sobre a
Amazônia; é a ideia de que os grandes biomas tropicais não são de natureza intocada,
selvagem, sem presença humana, mas foram frutos de anos de uma presença
harmônica da sociedade com a natureza. Portanto, seria, em vez de apostar no
avanço dessa agricultura industrial em terras contidas lado a lado com a
natureza deixada intocada, apostar em pequenas e médias unidades de práticas
agroecológicas, agroflorestais que permitam, a um só tempo, a preservação
ambiental e a própria reprodução dessas sociedades na Amazônia, à maneira
antiga de compatibilizar a presença humana com a floresta tropical.
·
E como emerge o agro-bolsonarismo com a prática de
comando e controle?
Rugitsky
- Eu
acho que a melhor forma de entender esse processo é pensar que no grande
interior brasileiro, da região Sul, passando pelo interior da região Sudeste,
Centro-Oeste e o arco do desmatamento na Amazônia, a gente viveu, desde o
começo dos anos 2000, um boom da soja e do gado que é sem igual na
experiência histórica. Alguns geógrafos mencionam isso como uma alteração da
ocupação de terra sem precedentes, um avanço tanto do cultivo de soja quanto
das pastagens que transformou completamente o interior brasileiro. E essa
transformação se deu em parte com uma mudança das próprias cadeias de produção
desses dois setores mais significativos, a soja e a carne, que transformaram
esses setores em setores monopsônicos, ou seja, quando há um único comprador.
Na verdade, são setores oligopsônicos, em que há alguns poucos compradores.
·
Como isso funciona?
Rugitsky
–
Uma enorme parcela da soja e da carne exportadas pelo Brasil é inteiramente
dominada por pouquíssimas empresas. No caso da soja, as chamadas ABCD, que são
as grandes traders agrícolas internacionais: ADM [Archer Daniels Midland],
Bunge, Cargill e Louis Dreyfus. E no caso da carne, os grandes frigoríficos
brasileiros, JBS, Marfrig e Minerva. Esses setores avançaram muito nos últimos
25 anos e foram se estabelecendo com essa estrutura, gerando um desequilíbrio
de poder muito grande entre esses elos concentrados da cadeia e a
multiplicidade de produtores, sejam criadores de gado ou plantadores de soja. Há,
evidentemente, uma certa concentração crescente da terra, tanto para a criação
de gado quanto para a plantação de soja. A Amaggi, por exemplo, vinculada a
Blairo Maggi, talvez seja uma das cinco maiores plantadoras de soja do Brasil.
A empresa atua tanto como trader [vendedora e compradora] e parte do
oligopsônio, como também como proprietária de terras e produtora de soja. Mas é
um pouco excepcional. A regra nessas duas cadeias é uma dispersão muito maior
da criação de gado e da plantação de soja, numa estrutura que a literatura
sobre o assunto chama de contract farming: essas grandes corporações, em geral,
multinacionais, dão um pacote fechado de como aquela soja vai ser plantada ou
como o gado vai ser criado. Ou seja, a semente transgênica, o pacote de
fertilizante e pesticida que serão usados... E os pequenos e médios
proprietários, na verdade, são quase que empregados dos grandes oligopsônios e
entregam o produto contratado. Essa transformação desses dois setores gerou uma
pressão muito grande nessas imensas camadas intermediárias, que não são
exatamente os grupos mais pobres, são os pequenos e médios proprietários de
terra. Esse grupo não é formado por agricultores familiares, quilombolas,
indígenas ou trabalhadores rurais. Essa camada intermediária está um pouco acima
deles.
·
Como pode ser caracterizada essa camada intermediária?
Rugitsky
– O
Caio Pompeia [autor de Formação Política do Agronegócio, pela editora
Elefante] chama de empregadores agrícolas subordinados. São empregadores porque
não são o modelo de agricultura familiar propriamente dito; empregam mão de
obra, mas são subordinados a essa estrutura sobre a qual eles não têm nenhum
poder. Essa camada intermediária é muito numerosa e se sentiu muito pressionada
de um lado pelo oligopsônio, de outro pela estratégia do governo de tentar
conter os seus efeitos devastadores sobre o meio ambiente. E o desenho dessa
estratégia foi feito de forma que era muito mais fácil de ser implementado por
grandes proprietários, com mais escala, mais estrutura e assim por diante.
·
Por quê?
Rugitsky
- Porque
você tem uma certa junção de interesses entre a política ambiental e esse
grande agro transformado que conseguiu, do ponto de vista do governo, conter o
desmatamento de forma muito bem-sucedida entre 2004 e 2012.
E do
lado do grande agronegócio e dos grandes frigoríficos, também era de interesse
a contenção do desmatamento como condição para eles manterem a sua participação
nos mercados internacionais. As próprias empresas de grãos e os próprios
frigoríficos entram em acordos - claro que depois de muita pressão do movimento
ambientalista - para parar de comprar soja de terra desmatada, aderindo à
moratória de soja. De certa forma, as camadas intermediárias estavam sendo
pressionadas pelo oligopsônio de um lado, e pela política ambiental de outro. E
isso, é importante ressaltar: não significa que seja uma camada intermediária
sem nenhuma preocupação ambiental, mas simplesmente proprietários que tinham
muita dificuldade de se adequar à forma como se desenhou a política ambiental.
·
Quais são as dificuldades?
Rugitsky
- Dificuldade
de acesso ao crédito para conseguir aumentar a produtividade em uma área
reduzida e poder deixar uma reserva maior, por exemplo. E cada vez mais vão
aparecendo exemplos desse movimento de virada do discurso mais amplo que leva a
pensar que o agronegócio virou bolsonarista. Porque é um movimento que não vem
do Maggi e dos irmãos Batista, mas, essencialmente, do meio para cima. O Caio
Pompeia, em pesquisas mais recentes, tem mencionado que tem visto a penetração
do discurso agro-bolsonarista em alguns setores que eram tradicionalmente mais
orientados à esquerda, de agricultura familiar inclusive. Uma das origens do
Movimento Brasil Verde Amarelo, tido como um dos principais organizadores do 8
de janeiro de 2023, é um movimento de 2012 liderado pela UDR [União Democrática
Ruralista]. Aquele momento, era o começo da virada política do agro e a UDR
participa, junto com a Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul, de um
movimento nacional contra o monopólio dos frigoríficos. Ali aparecem discursos
muito evidentes criticando a JBS e a Amaggi, colocando explicitamente esse
pessoal como os seus adversários. É um terreno político fértil para se colocar
em questão o próprio modelo de agricultura industrial. E para mobilizar essa
camada intermediária por formas alternativas de produção agrícola, por cadeias
organizadas, de forma menos desequilibrada, inclusive para práticas
agroecológicas, agroflorestais, essas alternativas. Mas, politicamente, esses
movimentos logo identificaram a Amaggi e a JBS com os governos do PT. Com certa
razão, já que foram empresas que cresceram muito naquele período.
·
Essa camada intermediária de que você fala pode ser
associada à classe média urbana, que também ficou achatada nesses anos de
governo do PT?
Rugitsky
- Eu
acho que sim. Com algumas questões, eu fico chamando de camadas intermediárias,
porque eu quero evitar a classe média, que é um termo politicamente muito
carregado e com muitas interpretações distintas. Mas o que caracteriza a classe
média é uma certa ambiguidade, porque é gente que depende do trabalho para
viver, mas tem uma certa autonomia no trabalho, não é completamente
subordinada. Uma parte dessas camadas intermediárias rurais ocuparia também
esse espaço ambíguo, que a literatura acadêmica chamaria de pequena burguesia. Essa
camada, as classes médias, tende a ser decisiva politicamente porque ela tem
uma identificação meio ambígua, tanto com os de baixo quanto com os de cima. E
daí elas podem ir para um lado ou para o outro. Colocando a ênfase na disputa
com a Amaggi e a JBS, elas poderiam ter se vinculado ao MST e defendido um
outro modelo de ocupação agrícola do país. Mas as lideranças de entidades como
a Aprosoja [Associação dos Produtores de Soja], que foram ascendendo, eram
lideranças conservadoras que foram ganhando uma certa dimensão nacional
paralelamente ao crescimento das perspectivas de sucesso eleitoral do
Bolsonaro, ali ainda em 2017 para 2018. E viram nesse candidato a possibilidade
de canalizar os seus interesses e de se vincular a um projeto que poderia
atendê-los.
·
E Bolsonaro atendeu aos anseios dessa classe
intermediária durante os quatro anos em que foi presidente? Digo, em termos de
política pública e de investimentos, essa camada foi atendida?
Rugitsky
- De
certa forma, o projeto ideológico dessas camadas intermediárias foi atendido,
no sentido de desmonte completo das capacidades estatais em relação à política
ambiental. A autorização pública, explicitada, verbalizada, de enfrentar as
multas ambientais, de questionar a apreensão dos madeireiros, a pesca ilegal, o
garimpo, isso tudo é parte de um pacote que levou ao verdadeiro desmonte. O
enfraquecimento do Ibama, a passagem de departamentos e secretarias importantes
do Ministério do Meio Ambiente para o Ministério da Agricultura, isso tudo, de
certa forma, atende ao projeto ideológico dessas camadas intermediárias.
·
Mas este mesmo pacote também aprofundou o processo de
subordinação dessas camadas, não?
Rugitsky
– Exato.
Porém, um dos debates que mais ocuparam em particular o pessoal interessado em
economia no último ano foi o fato de que os indicadores macroeconômicos estão
de certa forma bem. O PIB cresceu nesses últimos três anos e meio, muito mais
do que no governo Bolsonaro, muito mais do que nos últimos dez anos, o
desemprego está na mínima histórica. Mas, ao mesmo tempo, a gente está indo
para uma eleição apertada que parece reproduzir, inclusive em termos de força
de ambos os lados, 2022 e 2018. Claro que em outras circunstâncias. E aí eu
acho que tem duas coisas importantes: uma é que quando a gente olha para os
mapas eleitorais, é muito importante entender que o agro-bolsonarismo
equilibrou a disputa política eleitoral no Brasil, porque deu para a
extrema-direita o que até então era algo que só o Lula tinha, que era uma base
muito grande e muito fiel no Nordeste. Lula continua tendo isso. Por causa
dessa base, o PT ganhou cinco das últimas seis eleições para o governo federal,
porque essa base era muito difícil de ser enfrentada por um projeto político
sem um enraizamento tão significativo no território.
Quando
emerge o agro-bolsonarismo, começa a haver esse empate, que é o que a gente vê
em 2022, e parece que a gente está vendo agora de novo, em que a eleição começa
a ser debatida na margem, porque o território brasileiro está cindido. Tem o
Nordeste que dá ainda grande vantagem eleitoral a Lula, tem o grande
Centro-Oeste que dá grande vitória eleitoral ao projeto bolsonarista, e a
eleição acaba sendo decidida nas grandes metrópoles, que vão ceder mais para um
lado ou para o outro.
O
agro-bolsonarismo é o que o Nordeste é para o lulismo e que permitiu, de certa
forma, criar um projeto político à altura, em termos de força eleitoral, do que
foi o lulismo que teve tanta supremacia nas eleições federais nos últimos 20
anos. A gente não deve subestimar de forma alguma essas populações
intermediárias, mas é compreensível que a experiência que elas tenham de
pujança dos seus setores seja interpretada como um bom momento econômico do
país. Se você comparar a taxa de crescimento do PIB real no governo Bolsonaro e
nos três primeiros anos do governo Lula, mais do que dobra: o PIB cresceu em
média 1,4% no governo Bolsonaro e 3% nos três primeiros anos do governo Lula,
em média. Mas se você olhar para o PIB do agro, que é calculado pelo CEPEA
[Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada], da USP, o PIB do agro
cresceu 7,7% em média no governo Bolsonaro, e 3,2% em média no governo Lula. Ou
seja, é o contrário: cai pela metade. Se você olhar para o PIB da cadeia da
soja, cresceu 23,1% ao ano, em média, no governo Bolsonaro e 1,7% ao ano no
governo Lula.
·
Mas tudo isso foi graças a políticas públicas?
Rugitsky
-
Não é política, é quase tudo preço internacional e guerra comercial entre a
China e os Estados Unidos. É o momento em que a China reage à retomada da
guerra comercial com os Estados Unidos, contendo a soja americana, e a soja
brasileira bomba. Mas para o plantador de soja, do Mato Grosso, de Goiás, do
Tocantins, onde quer que ele esteja, a renda dele estava crescendo 23% e agora
ela cresce em 1%. Se você for para o setor do agro como um todo, ele crescia 7%
e agora ele cresce 3%. O que diz algo sobre o quanto é importante a gente ir
além desses agregados macroeconômicos, em particular num país como o Brasil.
Acho que o agro-bolsonarismo não é só um movimento político-social, mas
explicita também uma cisão econômica do território brasileiro. Nos últimos
quatro anos e meio em que a economia voltou a crescer, em parte estimulada pela
retomada de uma política fiscal expansionista, por gasto estatal e uma retomada
dos programas de transferência de renda, há uma expansão da economia. Mas, no
território econômico amplamente dominado pelo agro-bolsonarismo, esse momento
foi vivido como uma desaceleração. O Bolsa Família é muito mais concentrado no
território clássico do lulismo, que é o Nordeste, e nas grandes cidades do que
no Centro-Oeste. Isso dá uma certa base material para a persistência do
agro-bolsonarismo e para a persistência do lulismo. Você poderia pensar
"ah, puxa, mas o Bolsonaro não entregou"... a cadeia da soja e da
carne continua tendo aquela estrutura que gerou o agro-bolsonarismo. E Lula, celebremente,
é o grande abridor de mercados, leva a turma do agro para todas as missões
internacionais, aumentou o Plano Safra como nunca. Mas como são setores muito
dependentes da economia internacional, o enorme boom do preço da soja coincidiu
com o governo Bolsonaro, e agora, em parte por causa desse boom de preço,
estamos vivendo uma desaceleração. E aí o agro-bolsonarismo ficou ainda mais
cristalizado.
·
E essa política de redução do desmatamento que voltou com
bastante força nesses quatro anos do governo Lula, reforça ainda mais esse
antagonismo com o PT nessas regiões?
Rugitsky
-
Acho que sim. No começo do governo Dilma, no momento em que começa a se
articular o agro-bolsonarismo, havia uma certa associação do PT com essas
políticas que iam avançando. Essa política vai se estabelecendo e ocupando
espaço, até o momento em que as Aprossojas começam a chegar e a ter espaço na
Frente Parlamentar Agropecuária, no Instituto Pensar Agro, em todas as
instituições do movimento. Eles começam então a formar essa bancada numerosa. Antes,
eles tinham ainda o foco na política setorial, em se sentar com o governo,
pedir mais no Plano Safra, negociar e fazer esse tipo de lobby. A partir de
2014 eles começam a formar essas bancadas, que hoje são poderosíssimas, é uma
parte imensa do Congresso. E aí, quando chega no terceiro governo Lula, há uma
outra situação, porque o governo Lula está tentando voltar a 2003, de certa
forma, do ponto de vista da política ambiental, reconstruir todas as políticas
de comando e controle que deram sucesso lá. E conseguiu ser bem-sucedido, em
parte por ter saído de um patamar terrível, porque, como tinha liberado geral,
qualquer redução seria gigantesca. Mas o que é preocupante, do ponto de vista
ambiental, é que grande parte do sucesso da política de comando e controle lá
atrás foi em parte pela combinação de uma série de instrumentos, mas muito
significativamente pelo avanço dos muros verdes, que são as terras indígenas,
as florestas nacionais e as áreas de proteção. Com essa bancada do agro hoje,
que é muito grande e tem um projeto político muito claro e com competitividade
eleitoral, eles conseguiram bloquear qualquer tentativa de retomada da
construção institucional de política ambiental que tinha sido construída até
2012. Então, você consegue, de certa forma, conter o pior do desmatamento com
uma retomada dos instrumentos que sobreviveram, mas não consegue avançar com
mais nada: desde a demarcação de novas terras indígenas, o Marco Temporal...
Quando
Lula tomou posse, logo ele tentou fazer aquela reorganização ministerial para
reempoderar um pouco os departamentos e secretarias vinculados à política
ambiental no Ministério da Agricultura e isso foi bloqueado pelo Congresso. E
ele foi obrigado a deixar alguns desses departamentos significativos no
Ministério da Gestão como concessão. É uma série de bloqueios em que isso
aparece. O que, a meu ver, de certa forma reproduz o agro-bolsonarismo, cuja
base está vendo os seus representantes de fato os defenderem num conflito
aberto com o governo. Então tem um pouco a volta da política de comando e
controle que alimenta o agro-bolsonarismo, e tem, por outro lado, a validação
da força desse agro-bolsonarismo resistindo à volta das políticas de comando e
controle no parlamento.
·
Você acredita que em um eventual governo de Flávio, ele
tende a calcificar seu apoio nessa região da fronteira agrícola?
Rugitsky
- Ainda
temos três semanas pela frente. No ritmo em que as transformações do clima e da
economia internacional estão indo, não seria surpreendente que a nossa economia
da soja e da carne fosse muito desafiada pelas mudanças climáticas, por
mudanças de política na China e por processos que podem afetar não só seu
próprio potencial de crescimento, mas também o seu caráter como o setor mais
dinâmico e que cresce mais rápido na economia brasileira. Evidentemente que o
projeto político encabeçado pelo Flávio Bolsonaro tem um vínculo com uma visão
específica para esse setor. Acho que já está contratado que, assumindo Flávio
Bolsonaro, devemos ver uma reincidência do desmonte do aparato institucional
das políticas ambientais, construído a duras penas pelo Estado brasileiro.
Provavelmente
haverá, novamente, a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário e a
concentração de poder no Ministério da Agricultura, e aquele movimento do
Executivo federal de dar carta branca para delitos ambientais, invasão de
terras indígenas, garimpo ilegal, madeireiras. Isso tudo eu acho que é
plausível de se esperar e, dada a construção política desse bloco
agro-bolsonarista, seria algo que poderia reforçar a identidade do bolsonarismo
com esse bloco eleitoral.
Fonte:
BBC News Brasil

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