Eleição
2026: Analistas veem revés para campo progressista
De um
lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) citou um "resultado
inesperado" e prometeu mudanças para conquistar a virada. Enquanto isso, o
candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, afirmou que o primeiro turno
mostrou que o "Brasil quer mudança". Especialistas analisam o recado
das urnas e como deve ficar o Congresso em 2027.
"Confesso
que estava convencido de que ia ganhar as eleições em primeiro turno".
Assim o presidente Lula abriu o discurso após a confirmação do segundo turno
das eleições no Brasil. Porém, diferentemente de 2022, o petista não larga na
primeira posição e viu uma diferença de votos superior a dois milhões. Mesmo
assim, prometeu convencer os mais de 33 milhões de brasileiros que não
compareceram aos locais de votação neste domingo (4).
Já
Flávio Bolsonaro, que liderou o pleito, disse que o resultado mostra que a
palavra de ordem no Brasil é "mudança". Ao conversar com a imprensa
em Brasília, o candidato do PL ainda prometeu reduzir impostos e acabar com a
reeleição. "Fiquei feliz com a quantidade de brasileiros que foram às
urnas. É o fim da era do PT, está decretada a mudança no país", afirmou.
Para
além do pleito presidencial, uma das eleições mais surpreendentes das últimas
décadas terminou com governadores eleitos em primeiro turno em 20 estados, um
número recorde, e ainda o avanço sem precedentes do PL: 121 das 513 cadeiras na
Câmara dos Deputados e conquistar mais 19 no Senado, somando o total para 28, o
segundo maior número de um partido desde a redemocratização.
O
doutorando em ciências sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
(UFRRJ) e professor de direito constitucional da Universidade Cândido Mendes,
Victor Escobar David, afirma à Sputnik Brasil que, diferentemente do que
apontavam as pesquisas, houve um grande crescimento das candidaturas de direita
na reta final da campanha.
"Muitos
foram impulsionados pelo crescimento do candidato Flávio Bolsonaro. Então,
quando vamos ver a composição do Senado, a vitória de governadores em
estados-chave em primeiro turno, a distância em São Paulo que o governador
Tarcísio de Freitas conseguiu abrir em relação ao [candidato do PT] Fernando
Haddad, além do resultado em Minas Gerais [que elegeu Cleitinho Azevedo como
governador]. Então, já se desenhava como uma das eleições mais imprevisíveis da
história do Brasil, mas hoje o resultado se aproximou de uma das piores
perspectivas que o campo progressista tinha para o pleito", analisou.
Para o
especialista, o momento atual é ruim para Lula conquistar a reeleição, que
esperava conquistar um novo mandato já no primeiro turno e, caso isso não se
concretizar, ao menos largar na dianteira para o pleito suplementar.
Aliado
a isso, o professor de direito constitucional cita um fenômeno que tem se
consolidado cada vez mais no Brasil: o nível acima da polarização. "Seria
uma calcificação do eleitorado. Temos o eleitorado do Lula, o eleitorado do
Bolsonaro e o que estaria em disputa seria um percentual de mais ou menos 2%
das pessoas que votam. Mas o resultado mostrou que essa parcela já parece ter
migrado para a campanha do Flávio", acrescenta.
Apesar
disso, David também vê fatores importantes que podem contribuir para uma virada
ou não do presidente Lula. "Continuo acreditando que a votação do Flávio
Bolsonaro acaba sendo não tão entusiasmada como foi na comparação com o pai [o
ex-presidente Jair Bolsonaro]. E talvez, como as eleições já terminaram nesses
estados-chave, existe a possibilidade de haver uma desmobilização a partir dos
governadores, senadores e deputados já eleitos, até porque para eles, o pleito
já terminou", resume.
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Disputa pelos votos de Augusto Cury e Ronaldo Caiado
A
cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), Mayra Goulart, lembra à Sputnik Brasil que há possibilidade de o
presidente Lula "conquistar os votos de Augusto Cury e Ronaldo
Caiado" que ainda não foram para Flávio Bolsonaro. Juntos, os candidatos
do Avante e do PSD obtiveram seis milhões de votos.
"Muitos
desses eleitores não foram sensibilizados pelo discurso do voto útil, então são
menos suscetíveis a isso. Outro desafio é também reduzir a abstenção, que foi
de 21 pontos percentuais. Se você conseguir reduzir para 20 pontos percentuais,
que é a média histórica, só disso você já tem mais de um milhão de votos",
afirma.
Já em
relação ao Congresso Nacional, a especialista acredita que a composição das
duas casas legislativas ficou ainda mais conservadora quando comparada às
eleições de 2022. Conforme Goulart, o fenômeno não foi causado por uma redução
"expressiva" dos parlamentares de esquerda, mas sim pela expansão do
PL dentro da própria direita.
"É
uma sigla mais coesa e com um voto mais ideológico e extremista. Mas a
hegemonia do PL no Senado é ainda mais perigosa, porque a Casa tem essa
possibilidade de investir contra os demais poderes com a figura do
impeachment", justifica.
Escobar
acrescenta ainda que a sigla de Flávio Bolsonaro conseguiu tomar o espaço
principalmente do centrão, já que, segundo ele, em pleitos anteriores partidos
como PP, União Brasil e Republicanos conseguiam mobilizar eleitores
bolsonaristas, algo que não se concretizou tanto neste ano. "Vejo que essa
direita bolsonarista migrou para o PL, que é o grande vencedor das eleições de
2026 no Brasil, sem dúvidas", concluiu.
• Lula diz que país entra na
'prorrogação', mira abstenção e promete enfrentar bolsonarismo no 2º turno
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, discursou a
apoiadores em São Paulo após o resultado do primeiro turno das eleições de
2026, que o deixou em segundo lugar na disputa pela Presidência, neste domingo
(4).
Lula
admitiu que esperava vencer já no primeiro turno e afirmou que o país entra
agora na "prorrogação". Segundo ele, o segundo turno é a "prova
dos nove" e uma "nova campanha" começa a partir de segunda-feira
(5). O presidente disse que a campanha deve ouvir o recado do eleitorado e
mudar de tom.
Um dos
focos declarados é reconquistar quem não votou. Mais de 33,3 milhões de
brasileiros se abstiveram, 21,07% do eleitorado. Lula disse que pretende
convencer esse grupo de que seu projeto de país é superior ao de Flávio.
O
presidente destacou duas frentes. A primeira é a defesa do projeto de país que
ele e sua equipe consideram o melhor. Lula falou em desenvolvimento tecnológico
e científico, exploração de terras raras e minerais críticos e crescimento da
nova indústria.
Também
citou a Margem Equatorial, a educação e a justiça social, e criticou a
concentração de capital. Repetiu ainda a promessa de levar canetas
emagrecedoras ao Sistema Único de Saúde (SUS) caso seja reeleito.
A
segunda frente é o ataque à campanha adversária, que deve marcar os próximos 20
dias. Lula classificou a biografia de Flávio como "tenebrosa" e citou
suspeitas ligadas a milícias, ao crime organizado e ao Banco Master.
Ele
também mencionou as milícias do Rio de Janeiro e as execuções praticadas por
esses grupos. "Bolsonaristas, se preparem, porque nós vamos
derrotá-los". Antes, brincou que teria um dia de folga na segunda-feira e
que a campanha ganharia ritmo na terça.
Do
outro lado, Flávio Bolsonaro comemorou o resultado, agradeceu os quase 56
milhões de votos e afirmou que o desempenho foi superior ao apontado por muitas
pesquisas. O candidato do PL disse ver uma "possibilidade real" de
vitória e classificou o resultado como o "fim da era do PT".
• Imprensa alemã vê democracia "em
risco" no Brasil
As
eleições no Brasil são destaque na imprensa alemã neste domingo (04/10). Os
principais veículos da Alemanha citam a alta do custo de vida e a segurança
pública como as principais preocupações do eleitorado brasileiro, mas afirmam
que a eleição deve ser decidida por outros fatores.
O
jornal Zeit, ao citar Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL),
resume a eleição a uma disputa entre forças "democráticas" e
"autoritárias de direita" com visões distintas de sociedade.
"Lula faz campanha por um Brasil soberano e multilateral que supera a
pobreza. Flávio quer transformar o Brasil em um Estado e segurança autoritário
e aproximá-lo mais dos Estados Unidos de [Donald] Trump."
A
vitória de Flávio, segundo o Zeit, poderia ajudar Trump "a consolidar o
domínio dos Estados Unidos sobre a América Latina", após a virada à
direita do continente nos últimos anos. "O Brasil tem algumas coisas em
seu solo que poderiam interessar ao governo americano: enormes estoques de
terras raras, minério de ferro e petróleo."
O
jornal, contudo, escreve que alguns eleitores podem preferir Flávio diante das
conexões do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes –
inimigo preferencial do bolsonarismo – com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do
Master.
O
jornal Sueddeutsche Zeitung alerta em duas reportagens que a "democracia
do Brasil está em risco de novo", com destaque para a crise no STF, e que
o país é a "última peça do quebra-cabeça de Trump".
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"Nada cola" em Flávio Bolsonaro
Já a
revista Der Spiegel publicou um perfil sobre Flávio em que o descreve como
"o Bolsonaro mais malquisto", porém com boas chances de derrotar Lula
nas urnas. Segundo a revista, a imagem do senador parece não ser abalada por
"escândalos de corrupção e suas conexões com o submundo" do crime.
"Flávio
não consegue empolgar os eleitores como o pai. Ele está longe de levar tantas
pessoas às ruas quanto Jair Bolsonaro. Ainda assim, tem boas chances de
derrotar Lula", afirma a revista, citando a certeza entre seus eleitores
de que, se ele vencer, Jair Bolsonaro será posto em liberdade e passará a
governar em seu lugar.
"A
vitória de Flávio seria um retrocesso para a democracia no maior país da
América Latina", escreve a revista alemã, citando o apoio do governo de
Trump ao candidato.
Sobre
as suspeitas até agora levantadas contra o senador e suas relações com Vorcaro,
a Spiegel escreve que "nada até agora colou". "Isso porque muitos brasileiros veem a
atuação do Judiciário contra o clã Bolsonaro como parte de uma enorme
conspiração do establishment político. Eles não acreditam que Bolsonaro tenha
tentado dar um golpe de Estado."
"O
Brasil continuará sendo um contraponto a uma região que se desloca cada vez
mais para a direita ou se juntará ao novo bloco pró-Trump na América do
Sul?", questiona o site Tagesschau, da emissora pública de TV ARD, uma das
mais populares da Alemanha.
Fonte:
Sputnik Brasil/DW Brasil

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