Flávio
coordena derrotar no Senado o fim da escala 6x1, que pode virar último ativo
eleitoral de Lula, avalia historiador
O
projeto que acaba com a escala 6x1 de
trabalho, diminuindo a jornada de 44 para 40 horas semanais no
Brasil, deve assumir um papel decisivo na corrida presidencial daqui até o dia
25 de outubro, após o resultado do primeiro turno da eleição deste domingo
(4/10).
A
avaliação é do historiador e cientista político Luiz Felipe de Alencastro,
professor catedrático da Universidade Sorbonne, em Paris, na França e autor,
entre outros, do livro O trato dos viventes: formação do Brasil nos séculos
XVI e XVII (Companhia das Letras, 2000).
A
proposta, que se transformou um dos pêndulos da política brasileira do ano
passado para cá, foi aprovada na Câmara dos Deputados, em maio, com ampla
maioria (472 votos contra 22 em primeiro turno), mas travou na tramitação no
Senado por ação do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), à época em
conflito com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Na
semana passada, ele anunciou que a votação acontecerá nesta terça-feira (6/10).
Na leitura de Alencastro — que também lecionou na Fundação Getúlio Vargas —, a
jogada de Alcolumbre, na verdade, era esperar a eleição acontecer.
Com o
pleito já decidido, os senadores em atual mandato atual poderão derrubar o
projeto sem o temor de encarar a reação negativa das urnas. Uma pesquisa da
Quaest, feita em maio, mostrou que a medida é popular: tem apoio de 7 em cada
10 brasileiros (71%).
Mas,
para o historiador, a derrota do projeto no Senado pode se transformar no
último ativo eleitoral de Lula, vencido no primeiro
turno pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), que somou 47,03% dos votos
contra 45,16% do presidente.
"Lula
pode sair a campo agora pela [defesa do] fim da escala 6x1, colocando a
responsabilidade da derrota [do projeto] na direita, no Senado, no establishment.
Pode revigorar a campanha dele", analisa ele à BBC News Brasil.
Até por
isso, Alencastro acredita que Alcolumbre deve retirar o projeto da pauta antes
da votação. "Eles não vão dar mais nenhum presente para Lula.
Acabou", continua.
Isso
seria, da mesma forma, benéfico para o presidente, que teria como prometer a
aprovação da lei em um eventual quarto mandato — que, ainda assim, é bastante
difícil de acontecer, na leitura de Alencastro.
Ele
espera que Flávio tenha, no segundo turno, não apenas boa parte dos votos dos
candidatos derrotados no primeiro (cerca de 7%), como ainda contará com a força
do eleitorado de três Estados-chave: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
No
primeiro, Flávio fez 51,93% dos votos neste domingo. Em Minas, o senador do PL
ganhou por uma diferença de 588 mil votos (48,24% contra 43,33%) e, no Rio,
teve seu melhor resultado entre os três estados: 53,01%.
"Ele
sai na frente porque tem uma reserva de votos. Se fosse uma corrida de
automóveis, ele ainda pode parar em um pit stop. O Lula não tem mais pit
stop. O tanque [de combustível] dele é esse aí."
A
possível derrota não será o fim da carreira política de Lula — para o
historiador, depois de um mês ele vai começar a trabalhar na própria sucessão
dentro do PT e da política brasileira.
De
qualquer forma, admite, o presidente deverá se recolher. "Para alguém que
está sempre na tomada, é um choque é muito grande [perder a eleição]".
LEIA A
ENTREVISTA:
·
Qual é a avaliação do senhor sobre os resultados do
primeiro turno? O pleito está decidido ou a segunda volta ainda pode mudar
algo?
A
primeira coisa é que essa história de ganhar no primeiro turno acabou no
Brasil. O [ex-presidente] Fernando Henrique Cardoso até ganhou em primeiro
turno, nas eleições de 1994 e de 1998, mas em uma época em que as estratégias
dos partidos e dos candidatos ainda não havia se adaptado ao federalismo
brasileiro e às alianças regionais. Hoje, os dois turnos são um jogo que todo
mundo já sabe jogar.
·
Mas, desde a vitória de Lula em 2002, ele nunca tinha
perdido um primeiro turno nas eleições que disputou. O que isso significa?
Luiz
Felipe de Alencastro - Isso torna Flávio [Bolsonaro] automaticamente favorito,
porque ele ainda tem uma reserva de votos que vai servir como um ponto de
partida muito difícil [para Lula]. Amanhã [hoje], inclusive, já vai haver uma
reação na Bolsa [de Valores], porque as ações de todas essas empresas
"privatizáveis" — a Petrobras, as ações do governo na Vale — vão
lidar com uma situação diferente. E tem alguns dados muito preocupantes.
·
Quais?
Alencastro
- Lula
perdeu no Rio de Janeiro e em São Paulo, como já era esperado, mas também
perdeu em Minas Gerais, e com uma desvantagem de cinco pontos [4,91 pontos
percentuais, com 100% das urnas apuradas]. Isso torna, de saída, a campanha
dele muito rígida, porque perder nesses três estados-chaves — onde, aliás,
[Jair] Bolsonaro ganhou a eleição [de 2018] — será algo muito difícil de
reverter.
Ele
ainda ficou abaixo do que as pesquisas indicavam em Pernambuco, embora tenha
ficado acima na Bahia. Houve, nitidamente, uma antecipação do segundo turno,
porque os votos dele em relação às sondagens em Goiás, por exemplo, aumentaram
em quase 16%. Quer dizer que boa parte do eleitorado do Ronaldo Caiado já votou
no Flávio [nesse primeiro turno].
Ainda
fica uma parte dos eleitores, de cerca de 7%, que virá dos outros candidatos.
Essa é uma regra de ferro no modelo dos dois turnos. Eu morei por 40 anos na
França, onde os dois turnos existem desde 1860. Há um século e meio. Aprendi lá
que, se um candidato vai para o segundo turno sem reserva de votos, ele perde a
eleição.
Assim,
mesmo que o resultado do primeiro turno tivesse sido o inverso, com Lula saindo
na frente de Flávio por esses dois pontos de diferença, ele ainda provavelmente
perderia o segundo turno, porque precisaria de quatro, cinco, seis pontos, para
se precaver dessa transferência de votos dos outros candidatos — que será
maciçamente benéfica para Flávio agora.
·
Então, para o senhor, não há como reverter?
Alencastro
- A vitória larga
do Tarcísio [de Freitas, no Estado de São Paulo] pode levar a um
abstencionismo no segundo turno que favoreceria Lula. Isso pode acontecer em
outros Estados que já resolveram no primeiro turno. Também pode vir uma
surpresa: estamos nadando em denúncias, e a maior parte das acusações ligadas
ao Banco Master está colada nas costas do Flávio e do grupo dele.
Uma
terceira coisa, que é mais "political fiction", seria o
[Donald] Trump [presidente dos Estados Unidos] e os assessores dele começarem a
festejar a vitória do Flávio e provocarem uma reação no Brasil, como aconteceu
com o primeiro-ministro do Canadá, [Mark] Carney, ou na Hungria. Esse assanhamento
do governo americano até poderia gerar um backlash.
·
Por que Flávio venceu o primeiro turno mesmo em uma
campanha marcada por denúncias graves contra ele?
Alencastro
- Ele
sai na frente porque tem reserva de votos. Se fosse uma corrida de automóveis,
ele ainda pode parar em um pit stop. O Lula não tem mais pit stop.
O tanque [de combustível] dele é esse.
·
Me referia às acusações que ele sofreu durante a
campanha. Como ele conseguiu se manter competitivo mesmo lidando com elas?
Alencastro
- O
Lula está na vida política do Brasil — e de São Paulo — desde 1980, desde a
fundação do PT. A gente esquece que ele foi candidato a governador do Estado,
em 1992, quando perdeu, ficando em terceiro lugar, e pensou até em abandonar a
política. Daí vem a candidatura do Flávio que, malgradas todas as forças
reacionárias e a base conservadora que o impulsiona, além das associações com o
[Daniel] Vorcaro, as reportagens, os vídeos, ainda oferece uma mudança, uma
alternativa.
O
eleitorado não ficou entusiasmado com o programa e com a liderança do Lula e,
evidentemente, tem um desgaste que se acumulou, principalmente depois dos 500
dias que ele ficou preso, perdendo contato com o PT. A velha guarda do partido,
que o acompanhava desde o início, se retirou. Ele não tem interlocutores
imediatos que ele escute de maneira clara.
·
Essa derrota virtual encerra a carreira de Lula?
Alencastro
- Ele
vai começar a preparar o sucessor dele. A carreira dele não vai terminar por
causa de uma derrota. O PT já começa a discutir novas candidaturas daqui um
mês. Mas, para alguém que está sempre na tomada, é um choque é muito grande.
A Ruth
[Cardoso] dizia, lembrando a derrota do Fernando Henrique para a prefeitura de
São Paulo, em 1985, que isso é como ter um aspirador no meio da sala e, de
repente, ver alguém chegar e o tirar da tomada. Parece que é outro mundo. Acaba
a conversa, o barulho, vem aquele silêncio. O político entra em introspecção.
Quando
o Lula perdeu a eleição de 1989, ele sumiu por alguns meses. Certamente vai se
recolher e fazer um balanço disso.
Ele é
um homem extremamente vigoroso, como deu para ver naquela entrevista ao podcast
[Flow, às vésperas do primeiro turno]. Foi uma entrevista histórica.
Ali, há
uma interpretação do Brasil feita por alguém que refletiu e testemunhou,
sentado na primeira fila, sobre todos os dramas que ocorreram no Brasil nos
últimos 50 anos. A vitalidade intelectual dele é muito grande, mas ele já
enfrentava resistências no próprio sistema partidário para fazer alianças.
Por
exemplo: eu aposto com você que o presidente do Senado, [Davi] Alcolumbre, não
vai nem colocar o projeto do fim da escala 6x1 em pauta para votar — e, se ele
puser, a emenda vai ser derrotada.
O texto
já estava aprovado na Câmara dos Deputados e seria votado no Senado se fosse
colocado [em votação] antes das eleições, porque os senadores, indo encarar os
eleitores, não teriam disposição para votar contra o projeto. Mas, com esse
resultado aí, eles não vão ter medo nenhum de enterrar a emenda.
·
Quais serão os efeitos disso?
Alencastro
- Pode
ser uma boa batalha, porque o Lula pode ir a campo com uma campanha pela
[defesa do] fim da escala 6x1, colocando a responsabilidade da derrota na
direita, no Senado, no establishment. Ele pode revigorar a campanha. É
por isso que o Alcolumbre vai retirar da pauta.
·
O fim da escala 6x1 virou o grande ativo do Lula então?
Alencastro
- Pois
é. Não vão dar mais nenhum presente para ele. Acabou.
·
Por que o bolsonarismo continuou tão forte no horizonte
do país?
Alencastro
- O
bolsonarismo era algo isolado no Rio de Janeiro. Era a mesma base eleitoral do
[Anthony] Garotinho [ex-governador do Rio de Janeiro entre 1999 e 2002]. Eu
achava que ele, quando se candidatou à Presidência [em 2002], se projetou a
partir dessa base eleitoral evangélica do Rio e de outros Estados.
A
diferença do bolsonarismo para o Garotinho é que o Jair Bolsonaro e seus
conselheiros perceberam que o potencial da direita radical estava na junção da
base evangélica que ele já dispunha no Rio com o agronegócio do Centro-Oeste.
Em
certa medida, a candidatura do Ronaldo Caiado já estava condenada em 2018,
quando o eleitorado e os financiadores potenciais das campanhas dele já tinham
migrado para o Bolsonaro. Essa é a base do bolsonarismo que está se
estratificando e que vai se consolidar.
Inclusive,
veremos novidades muito grandes na política brasileira com um Senado totalmente
dominado pela direita e pela direita radical e uma esquerda mais enfraquecida.
Será
até mais difícil para a esquerda agora do que foi na época do Bolsonaro pai.
·
Por quê?
Alencastro
- Porque
a base de Flávio no Congresso é muito maior. E ele tirou o Lula do pedaço.
Antes [no governo de Jair Bolsonaro], o Lula estava na cadeia, podendo sair. A
diferença é que os militares estão vacinados. Há generais do Exército presos
que serão indultados. E tem um alerta muito interessante do [João] Amoêdo [do
Partido Novo]: Flávio vai tirar o pai da cadeia, vai indultá-lo e colocá-lo
para trabalhar com ele na Casa Civil. O pai foi condenado por golpismo!
Teremos
no Planalto não apenas um bloco eleitoralmente forte da direita radical, mas
também um bloco golpista. O [ex-deputado federal] Eduardo Bolsonaro no
Itamaraty será um caos. O Brasil tem compromissos internacionais e o Trump não
ajuda nenhum aliado dele.
·
Os resultados dos Executivos estaduais, do Congresso e
dos legislativos estaduais indicam um aprofundamento da legitimidade da direita
radical. Mas, para além da análise contextual, o que isso significa do ponto de
vista histórico?
Alencastro
- Esses
resultados questionam o PT e a esquerda de maneira profunda a longo prazo. A
discussão não é sobre se Lula deveria ter ido ao debate [da TV Globo, na
quinta-feira, 1], se deveria ter usado chapéu, etc. São efeitos secudários da
derrota.
O PT
nasceu do movimento sindical, mas é preciso ver que a situação da classe
trabalhadora mudou. Ela não tem mais o papel estratégico que sempre teve, como
já foi assinalado por muitos movimentos políticos e por muitos pesquisadores.
O fato
do movimento sobre o fim da escala 6x1 ter vindo do Rick Azevedo [eleito
vereador pelo PSOL, no Rio de Janeiro, em 2024] no TikTok mostra como essa
reivindicação profundamente ligada a uma luta social de dois séculos — a
redução do tempo de trabalho — veio por fora do movimento sindical ligado ao PT
e ao próprio partido.
Ele
pegou esse trem em marcha dizendo que era uma pauta tradicional da CUT [Central
Única dos Trabalhadores]. Foi a [deputada federal] Erika Hilton quem
encaminhou o projeto na Câmara. Isso tudo deveria gerar uma reflexão profunda
do movimento sindical.
O PT
também perdeu mais nos municípios do interior do país onde há mais pobres.
Perdeu onde a Igreja Católica é mais forte. Vai muito além do futuro do Lula.
Tem a ver com o futuro do próprio PT e com o futuro da esquerda estruturada no
Brasil.
·
Isso explica o fato dos dois candidatos jovens ligados ao
bolsonarismo – Lucas Pavanato, em São Paulo, e Nikolas Ferreira, em Minas
Gerais – terem se tornado os mais votados da história do Brasil ontem?
Alencastro
- Eles
responderam à aspiração de mudança do eleitorado. Não está claro o que a
direita vai fazer, porque nos debates do segundo turno ele [Flávio] vai ter que
explicar o programa de governo dele, e isso pode ter outros desdobramentos, mas
é um fato que a sociedade brasileira é mais conservadora do que a gente
imaginava — do que eu imaginava, pelo menos. Ou se tornou mais conservadora.
·
Que diferenças e semelhanças entre lulismo e bolsonarismo
impactaram no resultado do primeiro turno?
Alencastro
- Eles
são radicalmente diferentes na política e na base eleitoral. O Lula tem a
maioria dos votos de quem ganha até dois salários mínimos. Isso é uma
constante. Ele tem maioria entre os afrodescendentes, nas regiões mais pobres
do Nordeste e mantém ainda uma base operária em São Paulo — na Baixada Santista
e no ABC.
O
Bolsonaro é uma liderança dessa zona tenebrosa do Rio de Janeiro. As acusações
são conhecidas: mais de 30 imóveis comprados com dinheiro vivo, várias coisas
enroladas que não pertencem à base do Lula. E ele tem a pretensão de
estabelecer a religião dele como a oficial do país. Veremos essa diferença em
defesas de políticas como a do sistema de cotas nas universidades, por exemplo.
·
O bolsonarismo não irrompe como uma perspectiva de mundo,
um jeito de ser, enquanto o lulismo permanece sendo um projeto político, tal
como era o varguismo, por exemplo?
Alencastro
- Eu
concordo em partes. É difícil comparar Getúlio Vargas com Lula. O Getúlio era
da classe dominante, era da oligarquia gaúcha. A história do Lula é diferente.
O lulismo e o PT nasceram de baixo para cima justamente porque o trabalhismo
era fraco politicamente em São Paulo. Ele nunca pisou no Estado mais
industrializado do país.
·
Mas, em perspectiva histórica, essa diferença faz
sentido?
Alencastro
- Claro.
A direita radical brasileira é a mais autêntica do mundo, porque é enraizada em
fatores endógenos, internos. O problema da migração clandestina, ilegal, que é
central nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, não existe no Brasil.
A
direita radical aqui é fundada em uma crença profunda contra o progresso social
— como se vê no debate do fim da escala 6x1 —, contra a ciência e contra uma
maior liberdade de espírito diante da vida, da religião, dessas coisas todas.
Essa
direita radical não é favorecida por fatores externos, incontroláveis, como a
migração na Europa. Ela é nutrida por uma doutrina puramente reacionária. Essa
é a especificidade do bolsonarismo.
·
E o que fez o lulismo permanecer relevante por tanto
tempo, então?
Alencastro
- Ele
foi uma herança da luta anti-ditadura, da Constituição de 1988, que é liberal e
progressista, além da perda de hegemonia da direita mais conservadora. É até
por isso que eu acho cretinismo, de parte da esquerda, propor uma nova
Constituinte. Fazer isso, agora, com a esquerda enfraquecida, vai servir apenas
para quê? Só para piorar a Constituição.
Fonte:
BBC News Brasil

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