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turno das eleições de 2026 é marcado por metamorfoses, tecnonepotismo e
insatisfação, diz pesquisadores
O
resultado do primeiro turno das eleições “é muito significativo para
compreender as metamorfoses do eleitorado brasileiro contemporâneo”, avalia a
historiadora e cientista política Tatiana Vargas-Maia. Para ela, a chegada de
Flávio Bolsonaro ao segundo turno das eleições com 47,03% dos votos e a
ampliação da presença do PL no Senado revelam “a coexistência de leituras
diferentes e antagônicas do país”. “Uma parcela significativa do eleitorado”,
enfatiza, “reconhece avanços econômicos e sociais do atual governo, mas há
outra parcela para a qual esses avanços não necessariamente se traduziram em
uma percepção positiva da própria vida”.
Na
avaliação da pesquisadora, a interpretação dos resultados do primeiro turno
exige uma reflexão sobre “uma combinação de fatores ideológicos, mas também
materiais”. Um deles “é a consolidação de uma identidade política de direita e
extrema-direita”. Outro é a “insatisfação com as condições concretas de vida,
especialmente preocupações com custo de vida e segurança pública”, sublinha.
Para o
sociólogo Ricardo Costa de Oliveira, o resultado eleitoral explica-se pela
existência de “uma espécie de ‘tecnonepotismo’” no país. Trata-se, explica, da
“velha fórmula política do nepotismo aliada às novas tecnologias de comunicação
e informação das big techs, com apoio de redes sociais e políticas de vários
agentes”. Foi com essa fórmula, menciona, que “a direita elegeu muitos
governadores e parlamentares”, “sem programas sociais definidos, mas à base de
oposição ao governo Lula, um governo com muitos indicadores sociais e
econômicos de melhoria”.
Na
entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos –
IHU, Ricardo Costa de Oliveira e Tatiana Vargas-Maia comentam os primeiros
resultados e tendências das eleições e destacam a maior abstenção desde 1998.
“É um dado que merece atenção porque não podemos simplesmente interpretá-lo
como desinteresse político. A abstenção pode combinar desmobilização,
dificuldades de deslocamento, percepção de que o voto não produz mudança,
insatisfação com as alternativas disponíveis e fatores conjunturais. Esse dado,
portanto, fala também sobre a relação entre parte do eleitorado e o sistema
político”, destaca a pesquisadora.
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Tatiana Vargas-Maia é doutora em Ciência Política pela Southern Illinois
University – Carbondale (2016), mestra em Relações Internacionais pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) (2006), bacharela em História
pela mesma instituição (2006) e bacharela em Ciências Sociais pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) (2004). Leciona no
Departamento de Economia e Relações Internacionais e no Programa de
Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI) da UFRGS. É
autora de Uma Introdução às Relações Internacionais (Blucher, 2025) e, com
Rosana Pinheiro-Machado, organizou The Rise of the Radical Right in the Global
South (Routledge, 2023).
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Ricardo Costa de Oliveira é professor titular e decano do Departamento de
Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Possui graduação em
Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestrado
em Planejamento Urbano pela University College of London e doutorado em
Ciências Sociais pela Unicamp. Autor de 11 livros, atualmente pesquisa a
genealogia genética brasileira em um projeto internacional e atua como
coordenador do Núcleo de Estudos Paranaenses (NEP-UFPR).
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Confira a entrevista.
• Como avalia o resultado das eleições
deste domingo? Quais os três pontos que chamaram sua atenção?
Ricardo
Costa de Oliveira – Perplexo como cidadão, mas reivindicado como cientista
social e sociólogo, ao explicarmos e até prevermos o que aconteceria com a
“teoria do nepotismo”. A política é negócio de famílias políticas, com nepotes:
um “nepo-baby” poderia disputar o poder como “o filho de” sua família política,
sem méritos pessoais e com graves defeitos políticos, tendo votações elevadas.
Existe
hoje uma espécie de “tecnonepotismo” no Brasil, a velha fórmula política do
nepotismo aliada às novas tecnologias de comunicação e informação das big
techs, com apoio de redes sociais e políticas de vários agentes, políticos,
pastores de igrejas evangélicas e outras formas de influenciadores digitais de
direita, ao lado de ricos setores da classe dominante, o grande empresariado e
a grande mídia.
Tatiana
Vargas-Maia – O primeiro turno das eleições de 2026 é muito significativo para
compreender as metamorfoses do eleitorado brasileiro contemporâneo. Eu
destacaria três aspectos.
O
primeiro é a força eleitoral da direita e, particularmente, do bolsonarismo.
Isso aparece não apenas na disputa presidencial, com Flávio Bolsonaro chegando
ao segundo turno com 47% dos votos válidos, mas também na eleição para o
Congresso e nos governos estaduais. O PL ampliou sua presença no Senado e
elegeu 19 dos 54 senadores em disputa, passando a ter a maior bancada da casa,
com 28 senadores a partir de 2027. Também tivemos uma presença muito expressiva
da direita nos governos estaduais.
O
segundo ponto é a centralidade que o PL passa a ocupar no sistema político
brasileiro. O partido não se demonstrou competitivo apenas na eleição
presidencial, ele conseguiu transformar essa força eleitoral em representação
legislativa, especialmente no Senado. Isso é importante porque significa que a
direita chega a 2027 não apenas como uma força eleitoral, mas como uma força
parlamentar capaz de influenciar a agenda política nacional.
O
terceiro ponto é a abstenção. Tivemos 33,4 milhões de eleitores ausentes,
aproximadamente 21% do eleitorado, a maior taxa desde 1998. É um dado que
merece atenção porque não podemos simplesmente interpretá-lo como desinteresse
político. A abstenção pode combinar desmobilização, dificuldades de
deslocamento, percepção de que o voto não produz mudança, insatisfação com as
alternativas disponíveis e fatores conjunturais. Esse dado, portanto, fala
também sobre a relação entre parte do eleitorado e o sistema político.
• O que explica o resultado e qual é o seu
significado político?
Ricardo
Costa de Oliveira – A onda de direita é um constructo político e ideológico do
grande investimento em dinheiro e recursos do tecnonepotismo de
responsabilizarem só o governo Lula pelos problemas sociais históricos e não os
bilionários, os super-ricos, o capitalismo e o próprio nepotismo dessas
famílias políticas produtoras da desigualdade histórica – relações que só
piorariam em um governo deles com seus nepotes.
A
direita elegeu muitos governadores e parlamentares com este discurso
ideológico, sem programas sociais definidos, mas à base de oposição ao governo
Lula, um governo com muitos indicadores sociais e econômicos de melhoria. A
direita desenvolveu um imaginário próprio de oposição anti-identitário, uma
forma de disputa cultural, sem entrar na agenda trabalhista, previdenciária ou
econômica, que os prejudicaria.
Tatiana
Vargas-Maia – Interpretar o significado político dos resultados do primeiro
turno exige refletir sobre uma combinação de fatores ideológicos, mas também
materiais. Um deles é a consolidação de uma identidade política de direita e
extrema-direita que se consolidou no Brasil desde 2018 e que continua tendo
capacidade de mobilização eleitoral, mesmo depois da derrota de Jair Bolsonaro
em 2022 e dos acontecimentos que marcaram seu governo e o período posterior,
como o 8 de janeiro de 2023.
Mas a
eleição também expressa insatisfação com as condições concretas de vida,
especialmente preocupações com custo de vida e segurança pública. A própria
campanha presidencial foi marcada por esses temas. Há, portanto, uma combinação
entre identidade ideológica, avaliação do governo e percepção das condições
econômicas e sociais. Politicamente, o resultado mostra que a polarização entre
lulismo e bolsonarismo continua estruturando a política brasileira, com uma
novidade importante: o bolsonarismo demonstrou capacidade de reprodução
política para além da figura de Jair Bolsonaro. Não apenas a passagem de
liderança para Flávio Bolsonaro, mas também as eleições de Michelle, Carlos e
Jair Renan Bolsonaro são, nesse sentido, um dado importante para compreender a
eleição.
• O que o resultado diz sobre a leitura
que os brasileiros fazem da realidade social, política e econômica do país?
Ricardo
Costa de Oliveira – O resultado revela uma insatisfação com as condições
sociais, manipulado pela enganação social dos seus maiores responsáveis: a
burguesia, a mídia, as famílias políticas associadas, em alguns estados, ainda
mais com formas de privatizações, corrupção, criminalidade, milicianos e
empresários, como um modelo de rede política do capital financeiro presente em
todos os poderes – o paradigma de um Daniel Vorcaro, do Banco Master, um tema
da eleição.
A
direita produziu uma narrativa e um imaginário com as novas tecnologias para
organizar a dominação do tecnonepotismo com seus novos influenciadores, até
onde conseguiram controlar e falsificar realidades sociais e políticas com
finalidades eleitorais.
Tatiana
Vargas-Maia – O resultado parece revelar a coexistência de leituras diferentes
e antagônicas do país. Uma parcela
significativa do eleitorado reconhece avanços econômicos e sociais do atual
governo, mas há outra parcela para a qual esses avanços não necessariamente se
traduziram em uma percepção positiva da própria vida. É possível ter
indicadores macroeconômicos relativamente favoráveis e, ao mesmo tempo, uma
população preocupada com segurança e perspectivas futuras. Isso ajuda a
entender uma característica importante desta eleição: o voto não está sendo
determinado apenas pela situação objetiva do país, mas pela maneira como
diferentes grupos sociais interpretam e narram essa situação. Esta eleição
aponta para o fato de que a direita conseguiu transformar insatisfações
bastante diferentes (questões de segurança, corrupção, governo, impostos,
instituições) em uma linguagem política relativamente unificada e coesa, que
mobiliza um eleitorado significativo.
• Quais são as perspectivas para o Brasil
diante da nova composição da Câmara e do Senado?
Ricardo
Costa de Oliveira – É uma composição ainda mais ideológica e de direita. A
disputa política será intensa, mas a direita também pode se dividir em
diferentes interesses e partidos políticos. O bolsonarismo, como movimento
político, apresenta contradições, não consegue superar a forma família, não se
organiza como partido político. A família é mais importante para eles.
Muitas
novas lideranças de esquerda também surgem: alguns jovens foram eleitos nos
estados e poderão renovar a esquerda. O PL cresceu, o PT continua como um
importante partido político; reelegeu governadores em importantes estados, como
Bahia, Ceará Piauí. A direita fez os governadores no Centro-Sul. Haverá forte
resistência contra quem ganhar a presidência.
Tatiana
Vargas-Maia – Essa talvez seja uma das consequências mais importantes do
primeiro turno, porque o próximo presidente terá que governar diante de um
Congresso cuja composição será significativamente marcada pela direita e pela
extrema-direita. O caso mais evidente é o Senado: o PL elegeu 19 dos 54
senadores em disputa e deverá iniciar a próxima legislatura com 28 das 81
cadeiras, constituindo a maior bancada do Senado. Mesmo que Lula obtenha
sucesso no segundo turno, sua governabilidade estará comprometida.
Por
outro lado, no caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro, podemos antecipar um
alinhamento maior entre Executivo e Legislativo federais, o que pode facilitar
o avanço de pautas delicadas para a vitalidade da democracia brasileira, como o
equilíbrio e a independência dos Três Poderes, pontualmente a atuação do
Supremo Tribunal Federal (STF), que foi intensamente mobilizada nas últimas
semanas da campanha eleitoral. Aqui, é importante destacar: o Senado é
particularmente relevante nas disputas institucionais envolvendo o STF, porque
compete a ele processar pedidos de impeachment de ministros.
• Durante as campanhas, alguns analistas
apontaram para o risco de intervenção dos Estados Unidos nas eleições
brasileiras. Essa especulação se confirma com o fim do primeiro turno? Os
resultados indicam interferência norte-americana?
Ricardo
Costa de Oliveira – De certa maneira as relações políticas entre a família
Bolsonaro e Trump são conhecidas. Muitas grandes empresas, como as big techs,
também são conhecidas por favorecerem candidaturas de direita, inclusive nos
Estados Unidos e Europa. Grupos políticos internacionais de direita, como um
Netanyahu e Milei, também foram citados como apoiadores das campanhas
bolsonaristas.
Tatiana
Vargas-Maia – Houve, efetivamente, uma elevação da pressão e da participação
política dos Estados Unidos no debate eleitoral brasileiro. A própria Agência
Brasileira de Inteligência (ABIN) alertou para risco de influência ou
interferência externa, classificando o cenário atual como de alta criticidade.
Todavia,
documentar pressão ou tentativa de influência é diferente de demonstrar que
essa atuação alterou o resultado eleitoral. Até o momento, não há evidência
apresentada pelas autoridades eleitorais brasileiras de que tenha ocorrido uma
interferência estrangeira capaz de comprometer ou determinar o resultado das
eleições. Portanto, eu não diria que o resultado do primeiro turno “confirma”
uma interferência americana. O que é possível afirmar é que houve uma disputa
internacional em torno do processo eleitoral brasileiro e que o governo Trump
exerceu pressão política e econômica sobre o Brasil. O que não é possível
afirmar, com as evidências disponíveis hoje, é que essa pressão tenha produzido
o resultado eleitoral.
• O que se pode esperar para o segundo
turno?
Ricardo
Costa de Oliveira – O segundo turno será difícil para o incumbente Lula, mas
Flávio Bolsonaro também apresenta grande rejeição e muitas vulnerabilidades
para uma eleição. Se houver debates entre os dois, Flávio pode ter mais
dificuldades, como já aconteceu em outras eleições. O segundo turno é uma
continuidade e uma nova eleição ao mesmo tempo. O jogo é difícil e ainda está
aberto. Houve uma grande abstenção no primeiro turno, cerca de 20% ou mais de
trinta milhões de ausentes.
Tatiana
Vargas-Maia – O segundo turno muda bastante a natureza da eleição. No primeiro
turno, os candidatos disputam um eleitorado fragmentado; agora, a disputa será
essencialmente binária. Isso significa que os dois candidatos terão que tentar
ampliar suas coalizões para além de suas bases mais fiéis.
Um
primeiro elemento importante será o comportamento dos eleitores dos candidatos
que ficaram fora do segundo turno. Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado
somaram uma parcela relevante dos votos e suas bases não necessariamente
migrarão de maneira homogênea para Lula ou Flávio Bolsonaro. Um segundo
elemento será a abstenção. Com 33 milhões de eleitores ausentes no primeiro
turno, a capacidade de mobilizar eleitores que não votaram vira um diferencial
importante. O terceiro elemento será a capacidade de cada campanha de ampliar
sua coalizão sem perder sua base.
A
eleição deixa de ser apenas uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro e passa a
ser também uma disputa pela definição de qual narrativa sobre o futuro do
Brasil conseguirá incorporar os eleitores que não estavam representados pelos
dois candidatos no primeiro turno. Por fim, a campanha deverá ser ainda mais
centrada em temas como economia, segurança pública, corrupção, instituições
democráticas e a relação do Brasil com os Estados Unidos, ou seja, uma campanha
bastante polarizada e com forte disputa pela interpretação do resultado do
primeiro turno.
• Deseja acrescentar algo?
Ricardo
Costa de Oliveira – Um aviso aos mais jovens de quem já viveu muitas
conjunturas políticas, vitórias e derrotas: daqui a alguns anos a roda da
fortuna política gira de novo. A direita não atende aos interesses populares,
não haverá ganhos para a maioria da população e para os jovens com o
tecnonepotismo. Não desanimem. Afirmo o clássico ditado: a luta sempre
continua!
Fonte:
Entrevista com Tatiana Vargas-Maia e Ricardo Costa de Oliveira, em IHU

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