A
eleição deveria pertence aos brasileiros
Chegamos
à reta final do primeiro turno das eleições sob pressão internacional, num
cenário diferente daquele de 2022. Há quatro anos, o governo de Joe Biden
contribuiu para desencorajar uma ruptura institucional e reconheceu prontamente
a vitória de Lula. Agora, as afinidades da administração Donald Trump com o
bolsonarismo alimentam preocupações sobre a atuação de Washington. Entretanto,
nenhuma potência tem autoridade para tutelar nossas urnas, financiar sua
deslegitimação ou condicionar o reconhecimento do resultado à vitória de seu
candidato preferido. Cabe exclusivamente aos brasileiros escolher seu
presidente.
Não se
trata de uma prerrogativa do governo Lula, mas de um direito da sociedade
brasileira, inclusive de quem pretende derrotá-lo. Segundo o Tribunal Superior
Eleitoral (TSE), 158,7 milhões de cidadãos estão habilitados a votar neste ano.
É desse eleitorado que deve sair o mandato presidencial. Afinidades
internacionais podem integrar o debate sobre política externa; não podem
substituir a vontade popular nem conferir a governos estrangeiros qualquer
poder de arbitragem sobre a democracia brasileira.
É
grave, nesse contexto, a informação que levou a Advocacia-Geral da União a
solicitar investigação à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal.
Segundo reportagem do The Guardian, US$ 1 milhão do Departamento de Estado
americano estaria destinado ao programa "Combate ao lawfare e à censura no
Brasil". O pedido de apuração é necessário: a existência de financiamento
ilegal e sua eventual conexão eleitoral precisam ser demonstradas, com provas e
respeito ao devido processo.
O
problema ultrapassa o montante anunciado. Recursos de uma potência destinados a
influenciar disputas institucionais brasileiras podem produzir efeitos
políticos superiores ao seu valor financeiro. Se confirmada uma operação dessa
natureza, o Brasil deve reagir pelos canais diplomáticos e pelos mecanismos
legais disponíveis. A Constituição fornece o fundamento dessa resposta. A
soberania é princípio fundamental da República; a independência nacional e a
não intervenção orientam suas relações internacionais.
Também
merece atenção a suspensão dos serviços consulares americanos, seguida pelo
fechamento da embaixada australiana. O Departamento de Estado alegou
preocupações de segurança e informou que trabalha com autoridades brasileiras.
Não apresentou publicamente a natureza da ameaça nem vinculou a medida à
eleição. Cabe ao Brasil proteger as representações diplomáticas e esclarecer os
riscos. O momento justifica vigilância, mas não permite converter suspeitas de
pressão política em fatos comprovados.
Repelir
ingerências estrangeiras tampouco significa conceder imunidade ao Supremo
Tribunal Federal (STF). Seus ministros devem prestar contas de suas decisões e
responder por eventuais irregularidades, conforme as leis brasileiras. A defesa
da soberania ganha força quando acompanha a exigência de transparência
institucional. O desgaste de uma Corte não concede a outro país licença para
dirigir sua reforma, selecionar seus integrantes ou explorar suas
vulnerabilidades para interferir na escolha do presidente.
Esse
princípio vale para os Estados Unidos e para qualquer outro país, seja
governado pela direita, seja pela esquerda. O Brasil precisa de relações
internacionais capazes de ampliar comércio, investimento e cooperação,
preservando sua liberdade de decisão. A campanha deve devolver centralidade à
segurança, à renda, à saúde e à educação, e o vencedor terá de responder aos
brasileiros por esses problemas. Nossa democracia comporta divergências
profundas; sua legitimidade depende de que o resultado das urnas prevaleça
sobre interesses estrangeiros e seja respeitado por vencedores, derrotados e
parceiros internacionais.
¨
Memória de eleição
O país
acordou nesta segunda-feira com uma vertigem pós-eventos importante.
Popularmente conhecida como ressaca, a ressaca das eleições. Como era projetado
por diversas pesquisas, o pleito presidencial de 2026 — que escolherá o 10º
presidente da República no pós-democratização — segue para o segundo turno com
os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) daqui a
exatos 20 dias.
Quando
parei para pensar neste texto — em um dia em que outros assuntos seriam
ofuscados —, muitas ideias surgiram. Desde a análise sobre a força católica em
um pleito até a retórica sobre fake news que permearam a primeira fase das
eleições deste ano, muito poderia ter sido dito sobre as campanhas e sobre os
sentimentos envolvidos nesta segunda-feira. Inusitadamente, só consegui pensar
em história.
Uma das
minhas primeiras memórias que envolvem política não está relacionada à
militância, nem à sala de aula, menos ainda à identificação partidária. Está
ligada à preparação, à comemoração (ou decepção) e à ressaca.
Como
estudante de escola pública ao longo dos pleitos dos anos 1990 e 2000, lembro
de viver a preparação das eleições de uma forma um tanto quanto sui generis. As
aulas eram reduzidas nas sextas-feiras pré-primeiro domingo de outubro. Era
necessário tempo para organizar as salas.
Aquela
infinidade de crianças poderia atrapalhar. Mas já ao longo da semana, a
movimentação na escola mudava. Caixas empilhadas no pátio, uma movimentação
mais concentrada, papéis com números de seções em determinados corredores. Tudo
apontava para as eleições.
Depois
de visitar as urnas com os familiares, a noite de domingo era dedicada à
comemoração (ou decepção). Minha família não foi uma das mais politizadas da
história. Não lembro de nenhum parente panfletando voluntariamente, nem
participando de carreatas para apoiar determinado candidato. A comemoração
depois da contagem dos votos, todavia, era sagrada.
Sair em
buzinaço pela praça da Vila Planalto, na frente do Armazém do Seu Geraldo, era
um clássico. Lanchar com os primos um cachorro-quente com um copo de
refrigerante (por R$ 1), enquanto uma pequena multidão gritava o nome do
vitorioso seguido de "campeão". Lembro que raras vezes chovia no
Distrito Federal no começo de outubro. Caso o candidato de preferência
perdesse, o clima era ficar em casa mesmo, deitar mais cedo.
Na
segunda-feira, era a vez da ressaca. Voltar para a escola e notar alguns
papeizinhos no chão. Até um ou outro comprovante de votação esquecido em um
canto da sala com os dados de algum desconhecido. As salas ainda estavam com as
cadeiras desorganizadas.
A
proposta deste artigo, nesta segunda-feira pós-eleições, é relativamente
simples: lembre-se das suas primeiras eleições. Não as que você votou, mas,
sim, as primeiras memórias, o primeiro contato. Tenho a teoria de que aquela
inocência transformava os pleitos em processos menos desgastantes. Diante de
mais semanas de embates intensos até o segundo turno, preservar a memória do
que nos unia na infância pode ser o melhor remédio contra a ressaca da
política.
Fonte:
Correio Braziliense

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