terça-feira, 6 de outubro de 2026

A eleição deveria pertence aos brasileiros

Chegamos à reta final do primeiro turno das eleições sob pressão internacional, num cenário diferente daquele de 2022. Há quatro anos, o governo de Joe Biden contribuiu para desencorajar uma ruptura institucional e reconheceu prontamente a vitória de Lula. Agora, as afinidades da administração Donald Trump com o bolsonarismo alimentam preocupações sobre a atuação de Washington. Entretanto, nenhuma potência tem autoridade para tutelar nossas urnas, financiar sua deslegitimação ou condicionar o reconhecimento do resultado à vitória de seu candidato preferido. Cabe exclusivamente aos brasileiros escolher seu presidente.

Não se trata de uma prerrogativa do governo Lula, mas de um direito da sociedade brasileira, inclusive de quem pretende derrotá-lo. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 158,7 milhões de cidadãos estão habilitados a votar neste ano. É desse eleitorado que deve sair o mandato presidencial. Afinidades internacionais podem integrar o debate sobre política externa; não podem substituir a vontade popular nem conferir a governos estrangeiros qualquer poder de arbitragem sobre a democracia brasileira.

É grave, nesse contexto, a informação que levou a Advocacia-Geral da União a solicitar investigação à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal. Segundo reportagem do The Guardian, US$ 1 milhão do Departamento de Estado americano estaria destinado ao programa "Combate ao lawfare e à censura no Brasil". O pedido de apuração é necessário: a existência de financiamento ilegal e sua eventual conexão eleitoral precisam ser demonstradas, com provas e respeito ao devido processo.

O problema ultrapassa o montante anunciado. Recursos de uma potência destinados a influenciar disputas institucionais brasileiras podem produzir efeitos políticos superiores ao seu valor financeiro. Se confirmada uma operação dessa natureza, o Brasil deve reagir pelos canais diplomáticos e pelos mecanismos legais disponíveis. A Constituição fornece o fundamento dessa resposta. A soberania é princípio fundamental da República; a independência nacional e a não intervenção orientam suas relações internacionais. 

Também merece atenção a suspensão dos serviços consulares americanos, seguida pelo fechamento da embaixada australiana. O Departamento de Estado alegou preocupações de segurança e informou que trabalha com autoridades brasileiras. Não apresentou publicamente a natureza da ameaça nem vinculou a medida à eleição. Cabe ao Brasil proteger as representações diplomáticas e esclarecer os riscos. O momento justifica vigilância, mas não permite converter suspeitas de pressão política em fatos comprovados.

Repelir ingerências estrangeiras tampouco significa conceder imunidade ao Supremo Tribunal Federal (STF). Seus ministros devem prestar contas de suas decisões e responder por eventuais irregularidades, conforme as leis brasileiras. A defesa da soberania ganha força quando acompanha a exigência de transparência institucional. O desgaste de uma Corte não concede a outro país licença para dirigir sua reforma, selecionar seus integrantes ou explorar suas vulnerabilidades para interferir na escolha do presidente.

Esse princípio vale para os Estados Unidos e para qualquer outro país, seja governado pela direita, seja pela esquerda. O Brasil precisa de relações internacionais capazes de ampliar comércio, investimento e cooperação, preservando sua liberdade de decisão. A campanha deve devolver centralidade à segurança, à renda, à saúde e à educação, e o vencedor terá de responder aos brasileiros por esses problemas. Nossa democracia comporta divergências profundas; sua legitimidade depende de que o resultado das urnas prevaleça sobre interesses estrangeiros e seja respeitado por vencedores, derrotados e parceiros internacionais.

¨      Memória de eleição

O país acordou nesta segunda-feira com uma vertigem pós-eventos importante. Popularmente conhecida como ressaca, a ressaca das eleições. Como era projetado por diversas pesquisas, o pleito presidencial de 2026 — que escolherá o 10º presidente da República no pós-democratização — segue para o segundo turno com os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) daqui a exatos 20 dias.

Quando parei para pensar neste texto — em um dia em que outros assuntos seriam ofuscados —, muitas ideias surgiram. Desde a análise sobre a força católica em um pleito até a retórica sobre fake news que permearam a primeira fase das eleições deste ano, muito poderia ter sido dito sobre as campanhas e sobre os sentimentos envolvidos nesta segunda-feira. Inusitadamente, só consegui pensar em história.

Uma das minhas primeiras memórias que envolvem política não está relacionada à militância, nem à sala de aula, menos ainda à identificação partidária. Está ligada à preparação, à comemoração (ou decepção) e à ressaca.

Como estudante de escola pública ao longo dos pleitos dos anos 1990 e 2000, lembro de viver a preparação das eleições de uma forma um tanto quanto sui generis. As aulas eram reduzidas nas sextas-feiras pré-primeiro domingo de outubro. Era necessário tempo para organizar as salas.

Aquela infinidade de crianças poderia atrapalhar. Mas já ao longo da semana, a movimentação na escola mudava. Caixas empilhadas no pátio, uma movimentação mais concentrada, papéis com números de seções em determinados corredores. Tudo apontava para as eleições.

Depois de visitar as urnas com os familiares, a noite de domingo era dedicada à comemoração (ou decepção). Minha família não foi uma das mais politizadas da história. Não lembro de nenhum parente panfletando voluntariamente, nem participando de carreatas para apoiar determinado candidato. A comemoração depois da contagem dos votos, todavia, era sagrada.

Sair em buzinaço pela praça da Vila Planalto, na frente do Armazém do Seu Geraldo, era um clássico. Lanchar com os primos um cachorro-quente com um copo de refrigerante (por R$ 1), enquanto uma pequena multidão gritava o nome do vitorioso seguido de "campeão". Lembro que raras vezes chovia no Distrito Federal no começo de outubro. Caso o candidato de preferência perdesse, o clima era ficar em casa mesmo, deitar mais cedo.

Na segunda-feira, era a vez da ressaca. Voltar para a escola e notar alguns papeizinhos no chão. Até um ou outro comprovante de votação esquecido em um canto da sala com os dados de algum desconhecido. As salas ainda estavam com as cadeiras desorganizadas.

A proposta deste artigo, nesta segunda-feira pós-eleições, é relativamente simples: lembre-se das suas primeiras eleições. Não as que você votou, mas, sim, as primeiras memórias, o primeiro contato. Tenho a teoria de que aquela inocência transformava os pleitos em processos menos desgastantes. Diante de mais semanas de embates intensos até o segundo turno, preservar a memória do que nos unia na infância pode ser o melhor remédio contra a ressaca da política.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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