Escândalo
Master pesou na urna para uns e passou batido para outros
Em
março, 38% dos eleitores disseram à Genial/Quaest que evitariam votar em
candidatos envolvidos no maior escândalo bancário da história do país, que
envolve Daniel Vorcaro e o Banco Master. O fim do primeiro turno, no entanto,
mostrou que a disposição do eleitor se concentrou em alguns desses nomes e
passou longe de outros, sem garantia de que essa decisão decorreu do
envolvimento direto ou indireto dos candidatos no escândalo. Nenhum dos citados
foi condenado, e todos negaram irregularidades.
Na
noite deste domingo, com o Piauí ainda contando votos, o senador Ciro Nogueira
(PP-PI) divulgou uma carta de despedida nas redes sociais. Presidente nacional
do PP e ex-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, ele terminou em terceiro na
disputa pela reeleição ao Senado, atrás de Marcelo Castro (MDB) e de Júlio
César (PSD). “O povo é soberano em suas escolhas”, escreveu.
Ciro é
investigado pela Polícia Federal (PF) por suas relações com Daniel Vorcaro,
ex-dono do Banco Master. Segundo a PF, a emenda com a qual ele propôs elevar de
250 mil para 1 milhão de reais a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos
(FGC) teria sido redigida pela assessoria do banco. Fotos do celular de
Vorcaro, reveladas pela piauí, mostram os dois dançando numa estação de esqui
nos Alpes, em janeiro de 2025.
No
Maranhão, Weverton Rocha (PDT), cujo nome também foi associado a Vorcaro, ficou
em quarto lugar na corrida ao Senado. O inquérito que mais pesa contra ele,
porém, é o das fraudes no INSS. Na Bahia, ACM Neto (União Brasil) perdeu o
governo para Jerônimo Rodrigues (PT) no primeiro turno. Uma consultoria ligada
a ele teria recebido R$ 5,4 milhões do Master, e Vorcaro o citou numa proposta
de delação que a PF e a PGR recusaram. ACM Neto diz que seus encontros com o
banqueiro foram profissionais. João Roma (PL), convocado pela CPI do Crime
Organizado para explicar as mudanças no crédito consignado do Auxílio Brasil,
também ficou fora do Senado.
Na
mesma Bahia, Jaques Wagner (PT), investigado na Operação Compliance Zero por
suspeita de ter recebido vantagens negociadas com um ex-sócio de Vorcaro, foi
reeleito senador com 3,88 milhões de votos. Ele nega ter atuado em favor do
banco.
Também
saiu ileso o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Neste domingo,
a mesma piauí publicou fotos dele em eventos bancados pelo Master em Londres.
Motta pediu ao banco um empréstimo para uma empresa da cunhada e diz que a
operação foi regular, e Motta foi reeleito com quase 124 mil votos na Paraíba.
No Rio
de Janeiro, Antonio Rueda, presidente do União Brasil, cujo escritório teria
recebido R$ 6,4 milhões do Master, foi eleito deputado federal com 155.836
votos. Advogado pernambucano de 51 anos, ele disputou um cargo eletivo pela
primeira vez, depois de décadas nos bastidores, e fez campanha pela Baixada
Fluminense. O Ministério Público Eleitoral chegou a pedir a impugnação do
registro, sob o argumento de que a candidatura teria se beneficiado de uma
estrutura política ligada a milícias na região. O TRE-RJ liberou a candidatura
em 22 de setembro. Rueda nega irregularidades.
Dois
nomes nem chegaram à urna. Ibaneis Rocha (MDB) foi o único político que Vorcaro
citou nominalmente em depoimento ao STF. Deixou o governo do Distrito Federal
para disputar o Senado e desistiu em julho. “Vou cuidar da minha vida”, disse à
Folha. No Rio, Cláudio Castro (PL) abandonou a disputa em maio, depois de
buscas da PF ligadas a aplicações do Rioprevidência no banco. A essa altura, o
TSE já o havia declarado inelegível em outro processo. Davi Alcolumbre, que a
piauí cita entre os frequentadores das festas de Vorcaro, não disputava nada e
perdeu mesmo assim, porque seus aliados foram derrotados no Amapá.
Em São
Paulo, o deputado Mario Frias (PL), produtor-executivo de Dark Horse, filme
sobre Jair Bolsonaro bancado em grande parte por Vorcaro, foi eleito por São
Paulo com 91 mil votos. Em setembro, ele foi alvo de buscas da PF numa
investigação sobre cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares que teriam
sido desviadas para o filme.
Em
Minas Gerais, Nikolas Ferreira (PL) foi reeleito deputado federal com mais de
2,6 milhões de votos e tornou-se o deputado mais votado da história do país. Em
março, quando a CPI do INSS encontrou seu número entre os contatos do celular
de Vorcaro, ele disse que nunca havia se encontrado com o banqueiro e que não
se lembrava de ter conversado com ele. Admitiu apenas ter viajado num avião de
Vorcaro, sem saber, segundo ele, quem era o dono.
Em
setembro, o ICL Notícias revelou áudios enviados por Nikolas ao banqueiro em
março de 2025. Neles, o deputado pede a Vorcaro que ajude seu advogado e
ex-assessor, Thiago Rodrigues de Faria, a liberar um ativo de mineração que
estava parado. Em outra mensagem, desculpa-se por ter criticado, nas redes, um
evento em Londres, financiado pelo Master. Nikolas confirmou os áudios. Disse
que recebeu o contato do pastor André Valadão em 2023, que conhecia o banqueiro
apenas como “Dani” e que nunca recebeu dinheiro dele.
No
Distrito Federal, 12 dos 15 deputados distritais que aprovaram, em 2025, a
compra do Master pelo BRB foram eleitos neste domingo, segundo o site Amado
Mundo: 11 foram reconduzidos à Câmara Legislativa e um, Thiago Manzoni (PL),
chegou à Câmara dos Deputados com 90.418 votos.
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Flávio mentiu 43 vezes sobre relação com Vorcaro
Flávio
Bolsonaro chegou ao segundo turno à frente de Lula, com 47,27% dos votos
válidos contra 44,88%. Segundo as investigações, Vorcaro teria pago cerca de 14
milhões dos 24 milhões de dólares solicitados por Flávio, numa relação que
passa pelo financiamento de Dark Horse, filme sobre o pai dele. Flávio nega ter
oferecido contrapartida.
A
versão do candidato, porém, mudou ao longo da campanha. O levantamento do Aos
Fatos, publicado em 24 de setembro, mapeou ao menos 43 declarações enganosas de
Flávio sobre o caso, organizadas em cinco estratégias. Em março, quando seu
número apareceu entre os contatos do celular de Vorcaro entregues à CPI do
INSS, disse que não conhecia o banqueiro. Em maio, quando o Intercept Brasil
revelou as mensagens entre os dois, primeiro negou que existissem e, horas
depois, admitiu as conversas, mas sem reconhecer irregularidade. Mais
recentemente, passou a atacar Alexandre de Moraes, do STF, por ter voado num
jatinho ligado a Vorcaro, até que documentos da PF mostrassem que ele próprio
viajou na mesma aeronave. Nas mensagens, Flávio chamava o banqueiro de “irmão”
e dizia: “estarei contigo sempre”.
• Renan Santos chama Flávio de o “mais
corrupto da família Bolsonaro”
enan
Santos (Missão) fez um ataque direto a Flávio Bolsonaro (PL) após o primeiro
turno e afirmou que o Brasil poderá ser governado pelo “mais corrupto da
família Bolsonaro”. Em transmissão realizada na noite de domingo (4), o
candidato derrotado também disse não pretender indicar voto em nenhum dos nomes
que seguem na disputa.
A
avaliação de Renan foi de que o resultado consolidou o poder político do
bolsonarismo. Ele chegou a falar em uma “monarquia bolsonarista” e afirmou
considerar Flávio um político sem o carisma ou a inteligência do pai, Jair
Bolsonaro.
O
candidato do Missão também fez críticas pesadas ao eleitorado. Segundo ele, os
brasileiros vêm repetindo escolhas equivocadas desde 2002 e tratam a política
de forma excessivamente simplificada. Renan classificou a eleição de 2026 como
“a mais estranha” e “a pior” que já acompanhou.
Ao
analisar um eventual governo Flávio, Renan afirmou esperar forte alinhamento
com Donald Trump e aproximação com partidos do Centrão. Também previu mudanças
na relação entre o Executivo e o Supremo Tribunal Federal e disse acreditar que
Jair Bolsonaro poderá ser beneficiado por um acordo com a Corte.
Renan
afirmou ainda que Flávio fez o necessário para chegar ao segundo turno, mas
voltou a classificá-lo como “um homem fraco e um corrupto”. Na avaliação do
candidato do Missão, o desempenho do senador está ligado ao peso político do
sobrenome Bolsonaro e à estrutura construída em torno da família.
• Bancada bolsonarista articula PEC para
retirar processos criminais do STF e esvaziar poderes da Corte
A
bancada bolsonarista no Senado Federal prepara uma Proposta de Emenda à
Constituição (PEC) com o objetivo de esvaziar os poderes do Supremo Tribunal
Federal (STF), alterando de forma substancial a atuação da alta corte do país,
informa Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo.
A
medida central do projeto prevê a retirada do STF do julgamento de processos
criminais que envolvam autoridades. Pela proposta, essas ações penais seriam
transferidas para instâncias inferiores ou paralelas, como o Superior Tribunal
de Justiça (STJ) e os Tribunais Regionais Federais (TRFs). Na prática, a
mudança converteria o STF em um tribunal estritamente constitucional, retirando
dos magistrados uma de suas principais fontes de poder e influência política e
jurídica. O impacto da iniciativa é visto como ainda mais profundo para a
estrutura do tribunal do que o eventual impeachment de um de seus integrantes.
As
projeções políticas tomam como base a nova composição do Senado. Somando os
senadores que continuam em exercício aos 35 parlamentares eleitos no último
domingo (4), a bancada apoiadora de Jair Bolsonaro soma pelo menos 49 votos
favoráveis a pautas contra a corte. Embora esse número seja insuficiente para
aprovar um pedido de impeachment contra ministros — processo que exige ao menos
54 votos favoráveis —, ele atinge exatamente a quantidade necessária para
aprovar uma emenda à Constituição e modificar o texto constitucional.
O
pacote de reformas voltado ao Poder Judiciário deve ser apresentado de forma
imediata no Senado assim que os novos parlamentares tomarem posse. O movimento
reflete diretamente os compromissos assumidos na campanha eleitoral de Flávio
Bolsonaro, que inseriu a reformulação do STF em seu programa oficial de
governo.
Entre
as propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro durante a campanha estão o fim
das competências criminais originárias do STF, o término do foro privilegiado
para autoridades na corte, a limitação de decisões monocráticas proferidas por
ministros e a imposição de novas restrições à atuação de parentes de
magistrados em tribunais onde seus familiares exercem a magistratura.
A
tramitação e o alcance das medidas também dependem do cenário da disputa
presidencial. Caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente, a articulação pelo
impeachment do ministro Alexandre de Moraes deve ganhar novo impulso, exigindo
forte mobilização política para a busca dos cinco votos que ainda faltam para
atingir o quórum de afastamento no Senado. Por outro lado, caso Lula seja o
vencedor do pleito, a avaliação é de que o impeachment dificilmente prosperará,
mas a proposta de reforma constitucional para limitação das atribuições do STF
deve seguir em tramitação na Casa Legislativa.
Fonte:
Por Thiago Domenici, em Agência Pública/Fórum/Brasil 247

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