Tereza
Cruvinel: Lula busca a receita para “ganhar de virada”
Não se
tente tapar o sol com a peneira. Não foi exatamente uma catástrofe, porque a
reversão é possível, mas o presidente Lula, o PT e seus aliados sofreram uma
derrota notável no primeiro turno eleitoral. A maioria do eleitorado externou
sua preferência, por incompreensível que ela nos pareça, pela direita e pela
extrema direita, dando maioria de votos a Flavio Bolsonaro para presidente
e elegendo a maioria dos 27 dos
governadores e dos 54 senadores que conquistaram o mandato. O desafio de Lula
agora é descobrir como “ganhar de virada”, algo que ainda não vimos acontecer
desde que o sistema de dois turnos foi adotado, mas já aconteceu em eleições
para governador.
Lula já
mostrou que tem apetite e disposição para uma briga de segundo turno, embora a
situação fosse um pouco diferente. Em 2006, disputando a reeleição, ele
esperava derrotar o adversário tucano Geraldo Alckmin, como previam as
pesquisas, mas acabou atropelado pelo inesperado (o chamado escândalo dos
aloprados) e por um erro de cálculo, ao decidir com poucas horas de
antecedência não ir ao debate da TV Globo. Se agora ele acertou não indo, errou
daquela vez porque grande parte dos eleitores queria ouvir dele uma explicação
para o dinheiro apreendido com os petistas que planejavam comprar um dossiê
contra os tucanos, supostos armadores da arapuca.
Lula
havia obtido 48,6% dos votos e Alckmin 41,6%. No segundo turno ele partiu para
cima do adversário e de seu programa liberal de governo, atacando duramente
seus planos privatizantes e o risco de desmontagem das políticas sociais que
havia implantado. No segundo turno Lula cresceu para 60,8% e Alckmin encolheu
para 39,17%, perdendo mais de 2,5 milhões de votos.
Obviamente
a situação de agora é diferente. Flávio Bolsonaro obteve 47,04% dos votos e
Lula 45,15%. A diferença de 1,89 pontos percentuais corresponde a pouco mais de
dois milhões de votos, e superá-la não é coisa que aterrorize Lula. Aliás,
nenhuma pesquisa previu esta diferença. A Quaest, na reta final, apontou uma
vantagem numérica de dois pontos para Flávio, mas numa simulação de segundo
turno, não como resultado do primeiro.
Para
“ganhar de virada”, Lula terá que fazer ajustes na estratégia e no discurso de
campanha, partindo para um ataque mais impiedoso ao adversário, explorando não
seus pecados morais, como as orgias sexuais, a rachadinha ou a tomada de
dinheiro de Vorcaro para financiar o tal filme sobre o pai.
Tal
como em 2006, Lula deve explorar agora o receio de mudança, a insegurança do
eleitor com a entrega do governo do país a um candidato inexperiente e trêfego,
que só chegou ao resultado de ontem graças ao sobrenome que carrega. Quem fez
isso contra Lula, e com sucesso, foi FHC, em 1998, apontando a eventual eleição
do petista como um perigo para o Plano Real, pelo qual a população ainda estava
apaixonada, desde que se livrara da hiperinflação em 1994. A atriz Regina
Duarte fez um monólogo no programa eleitoral tucano falando dos temores que
Lula lhe inspirava e até hoje é lembrada por isso.
Imagino
que ele deva também incluir em sua narrativa de campanha a recordação de todos
os males impostos ao país pelo governo do Bolsonaro pai: da mortandade desnecessária na pandemia à fila do osso, do
desmatamento desenfreado à inundação de armas de fogo, da perseguição a
jornalistas (principalmente mulheres) à negação do racismo, da entrega do
orçamento ao Congresso à política externa vira-lata…
Dificilmente
Lula conquistará os que votaram em Renan Santos, Caiado e Cury, que tendem a
apoiar Flávio ou a liberar seus eleitores. Do Nordeste ele não pode esperar
mais votos, pois lá já bateu no teto, recebendo mais de 60% dos votos em quase
todos os estados da região.
Será
preciso conquistar eleitores do Sul e do Sudeste, bolsões da direita e da
extrema direita. Terá que seduzir os mais de dois milhões (1,84%) que votaram
em branco. Só com eles já tiraria a diferença. Lula terá também que apelar para
os 3,6 milhões que anularam o voto, convencendo-os de que a política vale a
pena, e para os 33,4 milhões (21,08%) que não votaram neste domingo,
convencendo-os de que a abstinência não compensa, de que precisam fazer valer o
que pensam. Nestas três categorias
temos, reunidos, cerca de 39 milhões de votos disponíveis para a nova pescaria.
Sobram votos. Lula precisa é da receita para conquistá-los.
O
presidente terá também de falar mais diretamente aos segmentos de centro e aos
atores econômicos do chamado mercado, acenando com a adoção das medidas fiscais
por eles desejadas, mas sem ter que escrever, como em 2002, uma nova Carta ao
Povo Brasileiro. Terá que encontrar também um modo de falar aos evangélicos e
aos jovens.
Será
preciso ampliar a coligação, para além dos partidos que hoje a compõem,
começando pelos partidos do Centrão, ainda que as alianças sejam informais.
Eles preferem assim, para terem a porta aberta se o vencedor for o outro.
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Governabilidade será ainda mais difícil
Veremos,
na curta campanha de segundo turno, Lula explorando toda a sua experiência
política e sua famosa intuição. Se ele ganhar, terá que enfrentar outro
desafio, o da governabilidade, mas isso é assunto para depois.
Das 54
cadeiras que estavam em disputa, 43 ficaram com candidatos classificados como
de direita ou extrema-direita, enquanto 11 foram para nomes da esquerda ou
centro-esquerda aliados de Lula. Os 43 agora eleitos já representam a maioria
absoluta (41 votos), quórum importante para muitas deliberações. Os 43, somados
aos remanescentes que ainda têm quatro anos de mandato, a direita alcança os
2/3 (54 votos) necessários para a aprovação de emendas constitucionais.
Lula,
se eleito, vai penar com um Senado destes. Mais ameaçado, entretanto, estará o
STF. Pedidos de impeachment de ministros e emendas reduzindo os poderes da
corte já existem de sobra na Casa. Faltavam os votos, que agora a direita terá.
• Lula terá que reduzir abstenção e
conquistar os eleitores que votaram em Flávio, mas preferem Alckmin. Por
Leonardo Attuch
O
resultado do primeiro turno deixa uma mensagem bastante clara para o presidente
Lula: para vencer em 25 de outubro, não bastará reconstruir a frente ampla de
2022. Será necessário ampliá-la.
Flávio
Bolsonaro terminou o primeiro turno com 56,1 milhões de votos, ou 47,03% dos
válidos, contra 53,9 milhões, ou 45,16%, de Lula. A diferença, de pouco mais de
2,2 milhões de votos, é significativa, mas está longe de ser intransponível.
Existe,
no entanto, um número talvez ainda mais importante para compreender a próxima
etapa da eleição: a abstenção. Dos 158,7 milhões de eleitores, 33,4 milhões
deixaram de votar, numa abstenção de 21,08%. É nesse universo, somado aos
eleitores das candidaturas eliminadas e aos votos que podem mudar de lado, que
estará boa parte da disputa das próximas três semanas.
Lula
terá três tarefas fundamentais.
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Lula terá que vir mais ao centro
A
primeira é compreender o recado das urnas. O Brasil de 2026 não é exatamente o
Brasil de 2022, muito menos o de 2002. O eleitorado mudou, suas prioridades
mudaram e a coalizão capaz de formar uma maioria nacional também precisa mudar.
Isso
significa que Lula terá que caminhar mais claramente em direção ao centro
político e econômico.
Nesse
movimento, Geraldo Alckmin pode desempenhar um papel muito mais relevante do
que teve no primeiro turno. O vice-presidente não deve ser apenas uma figura
institucional da chapa. Pode tornar-se um dos principais personagens da
campanha.
Há
certamente brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro, mas que têm
identificação política, econômica ou cultural maior com Alckmin do que com o
bolsonarismo. São eleitores conservadores ou moderados em determinados temas,
defensores da responsabilidade fiscal, da iniciativa privada, do
empreendedorismo e de uma economia aberta ao investimento, mas que não
necessariamente desejam uma radicalização política.
É
justamente com esse Brasil que Alckmin pode dialogar.
Dar
maior protagonismo ao vice-presidente significaria também sinalizar que um
quarto mandato de Lula seria um governo ainda mais amplo. Isso poderia envolver
a incorporação mais explícita de pautas econômicas liberais, combinadas com a
preservação das políticas sociais que constituem uma das marcas históricas do
lulismo.
Não se
trata de abandonar a esquerda. Trata-se de construir uma maioria.
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É preciso falar com quem perdeu a esperança
A
segunda batalha está fora do universo dos votos válidos do primeiro turno.
A
elevada abstenção revela milhões de brasileiros que, pelas mais diferentes
razões, não compareceram às urnas. Naturalmente, nem todo abstencionista deixou
de votar por desencanto político. Há dificuldades de deslocamento, problemas
pessoais e inúmeros outros fatores.
Mas uma
eleição presidencial com 33,4 milhões de ausentes também coloca diante das
campanhas uma pergunta incontornável: quantas dessas pessoas simplesmente não
encontraram motivação suficiente para votar?
Lula
precisa falar diretamente com esse eleitor.
Não
apenas com quem já está convencido. Não apenas com a militância. Não apenas com
quem acompanha política todos os dias.
Será
necessário chegar ao brasileiro que trabalha muito, ganha pouco, enfrenta
dificuldades para pagar aluguel, supermercado, transporte e serviços e que,
mesmo diante de indicadores econômicos positivos, talvez ainda não tenha
percebido uma transformação concreta em sua vida.
A
campanha terá que reconstruir esperança.
Para
isso, o discurso precisará ser menos retrospectivo e mais voltado ao futuro.
Não basta enumerar realizações. Lula terá que explicar o que pretende fazer nos
próximos quatro anos e por que esse eleitor terá razões concretas para
acreditar que sua vida poderá melhorar.
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O confronto político será inevitável
A
terceira tarefa será estabelecer com clareza as diferenças entre os dois
projetos que chegaram ao segundo turno.
Uma
campanha presidencial não é apenas uma apresentação de propostas. É também uma
comparação entre alternativas.
Lula
terá que confrontar politicamente Flávio Bolsonaro e apresentar ao eleitor os
riscos que sua campanha identifica numa eventual volta da extrema-direita ao
Palácio do Planalto.
Esse
debate deverá ser feito com fatos, memória e propostas.
A
campanha de Lula poderá recordar os conflitos institucionais ocorridos durante
o governo de Jair Bolsonaro, discutir as posições defendidas por Flávio ao
longo de sua trajetória e questionar quais seriam as consequências concretas de
seu programa para a democracia, a economia, as políticas sociais, o meio
ambiente e a inserção internacional do Brasil.
Ao
mesmo tempo, Flávio Bolsonaro certamente procurará transformar a eleição num
plebiscito sobre o atual governo. Lula terá, portanto, que evitar uma campanha
exclusivamente defensiva e conseguir deslocar o debate também para aquilo que
cada candidatura representa para os próximos quatro anos.
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Uma frente ampla ainda mais ampla
Em
2022, Lula venceu porque compreendeu que a coalizão necessária para derrotar
Jair Bolsonaro teria que ser muito maior do que o campo tradicional da
esquerda.
A
escolha de Geraldo Alckmin para a vice-presidência simbolizou esse movimento.
Em
2026, a mesma lógica terá que ser levada ainda mais longe.
Lula
precisará reunir trabalhadores e empresários, esquerda e centro, progressistas
e liberais democráticos, movimentos sociais e setores produtivos. Precisará
conversar com quem votou em outros candidatos, com quem não votou e até mesmo
com uma parcela dos brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro no primeiro
turno.
A
matemática explica por quê.
A
diferença entre os dois candidatos é de pouco mais de 2,2 milhões de votos,
enquanto 33,4 milhões de brasileiros não compareceram às urnas e milhões
escolheram outras candidaturas. O universo disponível para a disputa é,
portanto, muito maior do que a distância que separou os dois primeiros
colocados.
Mas a
política explica ainda mais.
Para
vencer, Lula terá que demonstrar que seu projeto não pertence apenas a um
partido ou a um campo ideológico. Terá que convencer uma maioria de que pode
novamente liderar uma coalizão nacional suficientemente diversa para
representar o Brasil real de 2026.
A
frente ampla que o elegeu em 2022 terá que ser ainda mais ampla em 2026.
• Quando a máquina não basta: a derrota
estratégica de Lula no primeiro turno. Por Wilton Gomes
A
história militar está repleta de exércitos maiores derrotados por exércitos
menores. Raramente perderam por falta de homens ou de recursos; perderam por
erro de desenho, por escolherem mal o terreno, por posicionarem mal os aliados,
por concentrarem forças onde elas não eram necessárias e deixarem
desguarnecidas as frentes decisivas.
Na
política eleitoral, a lógica é a mesma. A máquina pública oferece visibilidade,
agenda, capacidade de entrega e uma rede de alianças regionais, mas não
substitui a estratégia. Ministérios, programas e emendas só se convertem em
voto quando existe um plano que diga onde disputar cada eleitor, com quem e em
qual palanque. O primeiro turno sugere que esse plano falhou justamente nas
frentes que mais importavam.
São
Paulo é o exemplo mais eloquente. No maior colégio eleitoral do país, com mais
de 34 milhões de eleitores, a disputa pelo Governo resumiu-se, na prática, a
dois nomes: o governador Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad. Os demais
candidatos, todos de pequenas legendas de esquerda, não chegaram a 1% dos votos
cada um. O desfecho foi a reeleição de Tarcísio já no primeiro turno, com quase
63% dos votos válidos.
É
inevitável perguntar como um partido que controla a máquina federal não foi
capaz de colocar outros atores competitivos na disputa. Em eleições de dois
turnos, candidaturas aliadas de centro ou de centro-direita cumprem uma função
bem conhecida: fragmentam o voto do favorito, alcançam eleitores que jamais
votariam no PT e empurram a decisão para uma segunda rodada. Um segundo turno
em São Paulo manteria Tarcísio ocupado com sua própria eleição, longe do
palanque nacional de Flávio; daria a Lula mais três semanas de presença e de
estrutura no estado; e abriria espaço para novas alianças com os candidatos
eliminados. A polarização pura entre Tarcísio e Haddad entregou ao adversário
exatamente o cenário que lhe convinha: uma eleição estadual resolvida cedo e um
governador livre para trabalhar pela chapa presidencial.
O mesmo
raciocínio se aplica à disputa pelo Senado paulista. Estavam em jogo duas
vagas, e o campo governista apostou em duas ex-ministras, Simone Tebet e Marina
Silva. Ambas foram derrotadas por Guilherme Derrite e André do Prado, que
ficaram com cerca de 30% dos votos válidos cada. É verdade que, votando cada
eleitor em dois nomes, lançar duas candidaturas não seria, por si só, um erro.
O equívoco esteve na combinação.
Tebet e
Marina falam essencialmente ao mesmo público, o eleitor urbano, moderado, de
centro-esquerda, de modo que uma pouco acrescentava à outra: a chapa somou
sobreposição, e não ampliação. Ambas, além disso, construíram suas trajetórias
longe de São Paulo, uma em Mato Grosso do Sul, a outra no Acre, enquanto os
adversários eram figuras enraizadas na política estadual, um ex-secretário de
Segurança Pública e o presidente da Assembleia Legislativa. A direita, por sua
vez, fez o movimento inverso: com a desistência de Ricardo Salles na semana
anterior à eleição, após acordo com o governador, concentrou seus votos em dois
nomes. Teria sido mais racional combinar uma candidatura do campo progressista
com outra de perfil distinto, capaz de disputar o interior e o eleitor
conservador moderado, ou negociar com o centro uma candidatura única e
competitiva em troca de apoio em outra frente.
Fora de
São Paulo, o problema se repetiu sob outra forma. No Sul e no Centro-Oeste, o
mapa era conhecido muito antes da eleição. As pesquisas indicavam Flávio à
frente em Santa Catarina, no Paraná, em Mato Grosso, em Mato Grosso do Sul, em
Goiás e em boa parte do Norte, e as urnas estaduais confirmaram a força do
campo conservador, com governadores eleitos no primeiro turno por margens
expressivas, como Jorginho Mello em Santa Catarina e Eduardo Riedel em Mato
Grosso do Sul, ambos acima de 67%. Nesses estados, o objetivo racional nunca
foi vencer, mas perder por menos.
Numa
eleição nacional decidida por poucos pontos, cada ponto de margem reduzido em
Santa Catarina ou no Paraná vale tanto quanto um ponto conquistado no Nordeste.
Isso exigia uma estratégia própria: apoiar candidatos de centro com chances
reais, em vez de candidaturas de baixo teto; falar de agronegócio, logística e
crédito rural com interlocutores do próprio setor; e confiar a porta-vozes
locais, aceitos pelo eleitor conservador moderado, a tarefa que figuras
identificadas com o PT nacional não conseguiriam cumprir. O governo dispunha de
instrumentos para isso, como ministérios, bancos públicos, obras e uma ampla
base parlamentar. O resultado sugere que esses instrumentos não foram
organizados para a tarefa de conter a vantagem de Flávio onde ela era maior.
Mesmo
onde Lula foi bem, a estratégia deixou votos sobre a mesa. Pernambuco é o caso
mais ilustrativo. O Presidente venceu com folga no Estado, como era de se
esperar em seu berço político, mas a escolha do palanque estadual pode ter
limitado o teto de sua votação. Ao se alinhar ao aliado clássico, João Campos,
do PSB, o campo lulista transformou a disputa pelo governo em um confronto
direto com a governadora Raquel Lyra, do PSD, cuja gestão vinha se aproximando
da base do governo federal. O resultado foi a reeleição de Raquel já no
primeiro turno, com cerca de 53% dos votos válidos, contra aproximadamente 45%
de Campos. Mais do que a derrota do aliado, importa o que ela revela: uma
parcela expressiva do eleitorado pernambucano, inclusive eleitores simpáticos a
Lula, preferiu a governadora, e a polarização local pode ter afastado do
presidente justamente o eleitor moderado do interior que Raquel representa. Uma
postura de palanque duplo, ou ao menos de neutralidade cuidadosa, permitiria a
Lula somar os dois eleitorados em vez de dividi-los. Num estado em que cada
ponto a mais compensa margens perdidas no Sul, a fidelidade às alianças
tradicionais custou caro.
Seria
injusto ignorar os limites dessa leitura. A vantagem de Tarcísio era tão ampla
que dificilmente outras candidaturas lhe tirariam os mais de doze pontos
necessários para forçar o segundo turno. Partidos de centro têm vontade própria
e, em muitos estados, preferiram a companhia de governadores fortes à de um
governo federal desgastado. E há quem sustente, com bons argumentos, que
eleições nacionais se decidem mais pela economia, pela avaliação do governo e
pela polarização do que por escolhas de coligação. Nenhuma dessas objeções,
porém, elimina o argumento central: numa disputa decidida por quatro pontos,
erros de desenho nas principais frentes podem ser a diferença entre liderar e
correr atrás.
O
primeiro turno de 2026 deixa, assim, uma lição que vai além deste pleito: a
máquina pública é um recurso, não uma estratégia. Como na guerra, as grandes
batalhas não se perdem apenas no dia do confronto; perdem-se antes, na escolha
do terreno e dos aliados. O segundo turno dirá se a lição foi aprendida a
tempo.
Fonte:
Brasil 247

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