terça-feira, 6 de outubro de 2026

Ethel Rudnitzki: Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

Ao menos 1.069 anúncios com menções a Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL) no Facebook, Instagram e Threads foram pagos em dólar durante a campanha eleitoral de 2026. Dados da Biblioteca de Anúncios da Meta analisados pela Agência Pública revelam que os conteúdos custaram ao menos US$ 120,8 mil.

Os anúncios circularam sem rótulo de conteúdo político, mecanismo exigido pelas regras da Meta, entre 16 de agosto e 30 de setembro. Por isso, foram removidos por violação das regras da plataforma. Mas antes disso chegaram a mais de 82 milhões de impressões (número de vezes que um anúncio apareceu em uma tela).

O rótulo exige uma maior transparência sobre os anunciantes. Se os anúncios não estiverem rotulados como políticos, as páginas não são obrigadas a informar quem pagou pelos anúncios nem o público ao qual os conteúdos foram direcionados.

<><> Impulsionamento do exterior

Algumas, no entanto, divulgaram à Meta que os anúncios foram pagos usando uma plataforma de pagamentos norte-americana chamada pagolink.global, não disponível no Brasil. A empresa tem sede em Delaware, estado que não exige identificação de sócios. Através dela, foi impulsionada uma campanha de conteúdos a favor do candidato Augusto Cury (Avante), conforme revelou a Agência Lupa.

Dentre os anúncios analisados pela Pública, a PagoLink Global foi responsável, por exemplo, pelo pagamento de um anúncio com um vídeo desinformativo sobre Lula (PT). Nele, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) tira de contexto uma fala do presidente para insinuar que ele teria ofendido garis. O post rodou nas redes sociais da Meta antes de ser suspenso, e atingiu mais de 150 mil impressões.

Foi também através da PagoLink Global que foram impulsionados conteúdos contrários a Flávio Bolsonaro (PL). Entre eles, um anúncio que direcionava à reportagem do ICL que revelou que a empresa do candidato dividia endereço com escritório de Camilo Antunes, investigado por fraudes no INSS. O conteúdo atingiu mais de 70 mil impressões a um custo de US$ 200.

•        Feed virou palanque do bolsonarismo. Lulismo ainda procura o microfone. Por Leonardo Sakamoto

O resultado do primeiro turno das eleições de 2026 não caiu do céu nem foi um raio em dia de sol. O placar de 47% para Flávio Bolsonaro contra 45% para Lula só pegou de surpresa quem ainda insiste em analisar a disputa política brasileira com a cartilha analógica do século 20. Enquanto a cúpula do lulismo continuam tratando a comunicação como um release de divulgação de obras para convencer o eleitor que ele deveria ser grato, a extrema direita consolidou um império digital que pauta, molda e dita o ritmo da realidade de dezenas de milhões de brasileiros todos os dias.

A pesquisa apontou 47% para Flávio e 43% para Lula (com margem de 2,4 pontos). Ao mapear o humor de grupos de WhatsApp a partir de amostragens demograficamente equilibradas, a ferramenta pode ter captado um pulso subterrâneo que metodologias tradicionais demoram a enxergar.

Nesse ecossistema descentralizado, o jornalismo profissional deixou de ser o protagonista na mediação do debate público para se tornar, na melhor das hipóteses, um coadjuvante tardio. A extrema direita compreendeu isso há anos. Sem intermediários, ela bombardeia o cidadão diariamente contra as instituições e o Estado e, o que é mais grave, no sentido de reconstruir, à sua imagem e semelhança, o sentido e a identidade do país.

Consome-se essa narrativa de forma contínua e passiva. O cidadão acorda com o escândalo fabricado no feed, almoça a versão distorcida do fato nos grupos de família e dorme com a indignação mastigada em vídeos curtos.

A eleição parlamentar de 4 de outubro cristalizou de vez uma transição iniciada em 2018, com a transferência do voto de massa do palanque físico para o feed algorítmico. Não estou falando de parlamentares tradicionais que usam o Instagram como vitrine acessória para prestar contas. Trata-se de criadores de conteúdo em tempo integral que se tornaram deputados (ou vice-versa), cuja atividade primordial é alimentar uma esteira ininterrupta de mobilização e engajamento.

O desenho da bancada eleita para a Câmara a partir de fevereiro de 2027 mostra que essa turma está se transformando no próprio centro de gravidade da política nacional.

Basta olhar os números. O topo da lista nacional de votação traz expoentes da extrema direita que ultrapassaram, com folga, a barreira histórica dos 3 milhões de votos: Nikolas Ferreira (PL-MG), com impressionantes 3.119.318 votos, e Lucas Pavanato (PL-SP), com 3.038.438. No mesmo pelotão da audiência permanente, nomes como André Fernandes (PL-CE, 684 mil), Julia Zanatta (PL-SC, 560 mil), Jeffrey Chiquini (Novo-PR, 425 mil) e Delegado Caveira (PL-PA, 414 mil) comprovam que a indignação é o cabo eleitoral mais eficiente do país.

O campo progressista também tem seus fenômenos de engajamento, como Erika Hilton (PSOL-SP), que atingiu a expressiva marca de 1.596.472 votos, e Sâmia Bomfim (PSOL-SP, 583 mil), mas elas operam como ilhas de resistência pessoal em um oceano dominado pela articulação adversária. A presença de nomes da esquerda ou da centro-esquerda, como Ana Elisa (PT-MG, 524 mil), Tabata Amaral (PSB-SP, 476 mil) ou Jones Manoel (PSOL-PE, 249 mil), não disfarça a assimetria estrutural da disputa.

O campo democrático, e muito particularmente o PT, não pode alegar surpresa. Foi alertado repetidas vezes por pesquisadores, militantes da comunicação digital e estrategistas que não existe presença em rede sem tecnologia de ponta, monitoramento de calor em tempo real, captação contínua de lides, esteiras de conversão e manutenção ativa de comunidades locais e temáticas.Continua após a publicidade

Fazer comunicação política hoje é construir ecossistemas de relacionamento diário, não inaugurar perfis requentados a três meses do pleito para exibir fotos institucionais de corte de fita ou posts com tabelas áridas sobre indicadores macroeconômicos.

A recusa em construir essa infraestrutura decorre de uma mistura letal de soberba e ignorância. A soberba de quem acredita que a memória afetiva de governos passados basta para garantir hegemonia popular. E a ignorância de quem enxerga a internet como mera ferramenta técnica de transmissão de mensagens, ignorando sua natureza antropológica de mediação da vida.

Enquanto a cúpula do lulismo seguir tratando as plataformas como panfleto de luxo e desdenhando da arquitetura de dados, a extrema direita continuará reinando em céu de brigadeiro. O país, por sua vez, continuará pagando a conta da inércia de quem teve tempo, recursos e alertas para disputar mentes e corações, e, principalmente, projeto de país, mas preferiu se encastelar na certeza de que a realidade se dobra a discursos de palanque.

•        TSE descarta interferência estrangeira no 1º turno e explica atraso na apuração

Kassio Nunes Marques afirmou que não houve intercorrências que indicassem interferência externa e atribuiu a demora na totalização a congestionamento de dados.

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, afirmou neste domingo (4) que não foi constatada nenhuma intercorrência no primeiro turno das eleições que pudesse ser caracterizada como interferência estrangeira no pleito.

Em coletiva de imprensa, Nunes Marques disse que observadores internacionais que acompanharam a votação confirmaram a transparência e a normalidade das eleições. Segundo ele, também não houve alertas dos setores do TSE sobre eventual intervenção externa.

"Não tivemos nenhuma intercorrência grave, os riscos climáticos [foram] afastados e não tivemos nenhum alerta dos diversos setores do TSE acerca de interferência estrangeira. Não constatamos nenhum tipo de intervenção."

A declaração ocorre após o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, confirmar a abertura de uma investigação para apurar uma suposta interferência estrangeira nas eleições. Na semana passada, a Advocacia-Geral da União (AGU) acionou a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR) para investigar um possível financiamento do governo de Donald Trump para ações contra o Supremo Tribunal Federal (STF).

A apuração foi motivada por uma reportagem do jornal britânico The Guardian, segundo a qual o governo dos Estados Unidos teria destinado US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,1 milhões) para uma campanha contra o STF.

<><> Atraso na apuração

Nunes Marques também reconheceu que houve atraso na divulgação dos resultados do primeiro turno. Por volta das 19h00, o sistema de totalização dos votos deixou de atualizar os números por cerca de uma hora.

Segundo o presidente do TSE, a área de tecnologia da Corte identificou um fluxo de dados acima do normal, em razão do volume de informações enviadas pelos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs). "O que ocorreu foi um congestionamento de dados. Mas temos um protocolo muito seguro de revisitar todos os sistemas. O que não se sabe é se isso é derivado de outros problemas. Mas o que nossa TI identificou foi um fluxo acima do normal", afirmou.

A Corte também descartou que a demora tenha sido causada pelas filas registradas em algumas seções eleitorais.

Durante o primeiro turno, também foram registradas intercorrências provocadas pelo mau tempo no Paraná. Segundo Nunes Marques, quase 140 cidades do estado estavam sem energia elétrica no início da votação, mas os problemas foram solucionados e não impediram a participação dos eleitores.

Até as 21h00, com 98,48% das seções totalizadas, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparecia em primeiro lugar na disputa presidencial, com 47,29% dos votos válidos, seguido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 44,85%.

Com 99,18% das seções apuradas, 39,1 milhões de eleitores não compareceram às urnas ou votaram em branco ou nulo. A abstenção foi de 21,07%, o maior percentual registrado em um primeiro turno de eleição presidencial desde 1998.

•        Esquerda deve ocupar seu lugar e falar seu nome claramente, diz Safatle sobre 2º turno

Na campanha do segundo turno presidencial, a esquerda deve “ocupar seu lugar e falar seu nome claramente”. Essa é a opinião do filósofo Vladimir Safatle, que reagiu aos resultados do primeiro turno das eleições presidenciais neste domingo (4) que colocam Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) para definir a disputa no dia 25 de outubro.

Em conversa com o Brasil de Fato, Safatle afirmou que, até o segundo turno, o Partido dos Trabalhadores deverá fazer “o maior trabalho político da história brasileira” para virar a eleição. “[É um] trabalho que vai decidir profundamente o que vai ser esse país nos próximos dez, 15 anos. Porque, se o Flávio Bolsonaro realmente ganhar, isso não será um projeto de quatro anos”, explica.

Entre 2018 e 2022, afirmou o filófoso, foram as instituições que barraram os avanços da extrema direita no Brasil, como o Supremo Tribunal Federal e até o Congresso. Mas, para Safatle, “a gente não tem mais certeza nenhuma de institucionalidade democrática que possa suportar um governo Bolsonaro”.

“Não vai ter mais o sistema de contenção que o primeiro governo Bolsonaro teve. Quando o fascismo volta, como a gente está vendo com Trump, ele volta com muito mais força, muito mais força de destruição. Ele sabe muito bem onde estão os campos de resistência e ele trabalha nesse sentido”, completou.

Ao analisar este terceiro mandato do presidente Lula, Safatle explicou que “a política foi para os extremos, só que o Brasil só tem um extremo, que é a extrema direita”.

“Não dá para a esquerda fazer esse papel mais. A esquerda tem que ocupar o seu lugar, tem que falar o seu nome claramente”, completa.

O filósofo faz uma relação importante sobre as recentes vitórias da esquerda no mundo e cita especificamente dois locais emblemáticos: Nova York, com a vitória de Zohran Mamdani, e a recente conquista do partido Die Linke, na prefeitura de Berlim, na Alemanha.

“O que os Socialistas Democráticos da América nos ensinam em Nova York? Eles apresentaram pautas substantivas, congelamento de aluguel. Nunca no Brasil uma prefeitura de esquerda fez congelamento de aluguel, e ele [Mamdani] fez em Nova York”.

 

Fonte: Agencia Pública/UOL/Brasil de Fato

 

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