Avalanche
bolsonarista no Senado chega para encurralar o STF
A crise
sem precedentes que atingiu o Judiciário brasileiro durante a campanha
eleitoral deste ano teve no Senado um de seus reflexos mais expressivos. Por
lá, a onda bolsonarista garantiu 19 das 54 vagas em disputa ao PL de Flávio
Bolsonaro. Com isso, o partido chega a 28 cadeiras, mais que um terço da
composição total de 81 senadores, justamente na câmara que tem as
prerrogativas, dentro do Congresso, em relação ao Supremo Tribunal Federal
(STF).
À
primeira vista, é um baque à mais alta instância da Justiça brasileira, cujo
plenário condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro, também do PL, à prisão por
tentativa de golpe de estado em 2023. São 13 senadores a mais para a sigla
bolsonarista, de longe a mais vitoriosa na campanha eleitoral. Grande parte dos
senadores eleitos defende o impeachment de magistrados da Corte.
Já o
partido mais derrotado é o PSD, que perdeu 9 cadeiras, caindo de 14 para 5. O
PT, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, manteve o mesmo número de
integrantes, de 9 senadores, passando assim a ser a segunda força, com a queda
do PSD. MDB (8), PP, Republicanos e União (5 cada) e PSB (4) vêm na sequência.
Do
ponto de vista do PL, uma eventual composição com Republicanos e PP ainda não
garantiria os dois terços (54) para votar o impeachment de ministros, algo que
sempre está na boca dos bolsonaristas – principalmente quando se fala em
Alexandre de Moraes. Na nova composição do Senado, ao menos, 49 parlamentares
já declararam ser a favor do impeachment de magistrados da Corte. Além disso, a
eleição já coloca na pauta uma mudança ideológica no STF mesmo que haja uma
agora menos provável reeleição de Lula.
O
presidente já teve de desistir de uma indicação de ministro, a de Jorge
Messias, que acabou rejeitado pelo Senado. Agora, não é difícil prever que a
tarefa seria ainda mais complicada para ele, mesmo com as quatro vagas que
devem ser abertas no Supremo para o próximo presidente.
Já
Flávio Bolsonaro terá ainda mais facilidade de indicar magistrados afinados
ideologicamente a ele na Suprema Corte. Atualmente, dos dez ministros – já que
a vaga de Luís Roberto Barroso continua em aberto –, dois (Kassio Nunes Marques
e André Mendonça) alinham-se com o bolsonarismo sem maiores problemas. Logo, o
filho de Jair Bolsonaro pode chegar ao fim do mandato tendo definido a maioria
do STF, com seis ministros no total.
• Crise e protagonismo em xeque
No
último mês, justamente o anterior à eleição, o Supremo viveu o auge de uma
crise que fez com que ministros se antagonizassem em meio ao escândalo do Banco
Master, com Alexandre de Moraes e André Mendonça se acusando mutuamente.
Moraes
está implicado no escândalo do Banco Master por ser alvo de investigações que
aludem a uma proximidade suspeita com Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco
que está em prisão preventiva.
Mendonça,
por sua vez, teria direcionado as investigações contra Moraes e o presidente do
Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), ao mesmo tempo em que teria tentado
proteger Flávio Bolsonaro, investigado por pedir dinheiro a Vorcaro para o
filme Dark Horse.
Mas não
ficou por aí. O STF também protagonizou a disputa em torno de postagens nas
redes sociais sobre um suposto plano de Flávio Bolsonaro para retirar de Nossa
Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil e interveio nas regras do
debate presidencial realizado pela Rede Globo dias antes do primeiro turno – o
que acabou levando ao cancelamento da presença de Flávio Bolsonaro, e, por fim,
do próprio debate.
No fim,
o resultado das urnas parece ter apontado para uma direção, a de encurralar e
tensionar o Supremo, que, na narrativa bolsonarista, surge como ator político
contrário, um componente do "establishment" sempre pronto a favorecer
o outro lado.
Para
isso, a primeira mudança deve ocorrer justamente na presidência do Senado, com
a saída de Davi Alcolumbre (União). O parlamentar, que durante o mandato de
Jair Bolsonaro foi próximo ao ex-presidente, vem se negando a pautar processos
de impeachment contra os ministros (sobretudo Moraes), ao mesmo tempo em que é,
ele mesmo, alvo de investigações do caso Master. Mesmo apto para uma reeleição
em 2027, Alcolumbre precisaria de ao menos 41 votos para se manter no cargo,
algo incerto diante da nova composição do Senado.
• Bancada recorde do PL no Senado pode
aprovar impeachment de ministros do STF?
A
liderança do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no primeiro turno das eleições
presidenciais não foi a única vitória da direita na disputa deste domingo
(4/10).
A
bancada bolsonarista no Senado chegou a 44 dos 81 senadores, segundo
levantamento feito pela cientista política e pesquisadora do Instituto de
Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Beatriz Rey, encaminhado à BBC News
Brasil.
Pela
classificação feita por ela, 44 dos 81 senadores que estarão em exercício a
partir de 2027 podem ser associados ao bolsonarismo.
Outros
24 são ligados ao campo lulista e 13 foram classificados por ela como
independentes dos dois grupos.
Entre
as 54 cadeiras que estavam em disputa neste domingo, 30 foram conquistadas por
candidatos que receberam apoio direto de Flávio Bolsonaro.
Por
outro lado, 16 senadores eleitos hoje fora apoiados por Lula e oito por
candidatos que não se enquadram diretamente em nenhum dos dois campos.
A
vitória do campo bolsonarista foi impulsionada pelo desempenho do PL, que
venceu 19 das 54 cadeiras em disputa neste ano, e também pela performance do
Novo, que chegou a três assentos.
Em
alguns Estados, como o Distrito Federal ou São Paulo, o desempenho da ala
bolsonarista fará com que todos os seus senadores sejam alinhados à liderança
da direita.
Partidos
de esquerda ou de centro-esquerda, por outro lado, viram suas bancadas
praticamente estagnadas.
O PT,
que tinha nove cadeiras no Senado em 2022, venceu seis disputas e conseguiu,
descontando os mandatos que vão até 2031, manter suas nove cadeiras em 2027.
O PSB
conseguiu aumentar de dois, em 2022, para quatro o seu número de senadores em
2027. O PDT, por outro lado, saiu de duas para uma vaga.
Apesar
do seu tamanho, a bancada bolsonarista não será capaz de, sozinha, aprovar o
impeachment de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), já que são
necessários 54 votos.
Mesmo
assim, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que essa nova
composição de forças no Senado vai aumentar a pressão sobre o Judiciário.
Mas
como a direita conseguiu avançar tanto no Senado nestas eleições?
Especialistas
ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que essa vitória foi resultado de um
trabalho estratégico feito pela direita ao longo dos últimos quatro anos, que
mapeou oportunidades e realizou acordos que possibilitaram vitórias expressivas
em diversos Estados.
Por
outro lado, os especialistas apontam possíveis erros na construção de
candidaturas no campo da esquerda, que abriram espaço para vitórias
adversárias.
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Senado à direita
O
professor de Ciência Política da Universidade de Brasília, Carlos Machado, diz
que o bolsonarismo entendeu mais cedo que a esquerda ou os partidos de Centro a
importância de coordenar candidaturas para uma eleição majoritária como a do
Senado.
"É
uma questão de coordenação eleitoral. Eles entenderam o quão estratégico era
ter o controle do Senado e trabalharam para isso", afirma.
Machado
lembra que uma estratégia semelhante já havia aparecido em 2018, quando
candidatos bolsonaristas até então pouco conhecidos conseguiram crescer
rapidamente na reta final, beneficiados, em sua grande maioria, pela
mobilização digital.
Em
2026, ele ressalta, essa estrutura estava mais organizada.
Em
diversos Estados, a direita lançou duas candidaturas competitivas para as duas
vagas disponíveis e trabalhou para orientar seu eleitorado a votar nos dois
nomes.
Foi o
caso do Distrito Federal, onde a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e a
deputada federal Bia Kicis (PL), foram eleitas com relativa facilidade para o
Senado.
As duas
se juntarão a outra parlamentar bolsonarista, a ex-ministra do governo de Jair
Bolsonaro (PL) Damares Alves (Republicanos-DF).
A ala
bolsonarista emplacou outras dobradinhas como essa em outros Estados. Em São
Paulo, Guilherme Derrite (Republicanos-SP) e André do Prado (PL) venceram as
duas candidatas de centro-esquerda que vinham liderando as intenções de voto ao
longo dos últimos meses: Marina Silva (PT) e Simone Tebet (PSB).
Em Mato
Grosso do Sul, outra dobradinha, ampliando ainda mais a bancada bolsonarista:
Capitão Contar (PL) e Reinaldo Azambuja (PL).
Outra
dobradinha bolsonarista aconteceu em Santa Catarina, onde Carolina de Toni
(PL-SC) e Carlos Bolsonaro (PL-SC) venceram as duas vagas em disputa.
Com
isso, sem contar com Flávio Bolsonaro, que ainda pode se tornar presidente, a
família Bolsonaro terá dois integrantes no Senado.
Para
Machado, o resultado estava longe de ser imprevisível.
"Não
era comum um partido lançar duas candidaturas ao mesmo tempo. Mas eles
colocaram candidatos competitivos puxando votos para o companheiro de chapa.
Deu certo em vários lugares. Era uma crônica de uma vitória anunciada",
diz o professor.
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A fragmentação dos adversários
Se de
um lado a direita bolsonarista conseguiu superar diferenças e saiu vitoriosa,
os dois especialistas também apontam para um problema no campo oposto: a
ausência de coordenação suficiente entre partidos de centro e de esquerda.
Enquanto
a direita investiu numa estratégia voltada especificamente para conquistar o
Senado, candidaturas não-bolsonaristas acabaram, em diferentes Estados,
disputando entre si parcelas semelhantes do eleitorado.
Um
exemplo de articulação para obter melhores resultados foi a desistência de
Ricardo Salles (Novo) a uma vaga no Senado em prol de candidaturas mais
competitivas.
Beatriz
Rey considera que faltou pragmatismo ao centro e à esquerda.
"Faltou
entender que a disputa em 2026 era diferente da de 2022. A gente vinha avisando
que algo assim poderia acontecer há mais de um ano. Era preciso ser mais
pragmática e estratégica para construir consensos e evitar candidaturas que
disputavam votos entre si, como vimos, por exemplo, em São Paulo",
afirmou.
A
diferença de organização também teria aparecido, segundo Beatriz Rey, na forma
como as campanhas da esquerda se estruturam na comparação com as da direita.
Segundo
a cientista política, a direita e a extrema direita conseguiram combinar
mobilização digital com atuação em espaços de convivência e organizações
sociais.
"Só
o campo da extrema-direita ou da direita está entendendo a importância da
eleição do Senado. Enquanto os demais campos políticos não entenderem quão
importante o Senado e o Congresso são, o Parlamento será ocupado,
majoritariamente, pela força política que se articulou melhor", afirma.
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Pedidos de impeachment e PECs
Uma das
consequências mais imediatas da nova composição deverá aparecer na relação
entre Senado e Supremo.
Até o
início de setembro, havia ao menos 109 pedidos de impeachment contra ministros
do STF apresentados ao Senado, segundo o próprio presidente da Casa, Davi
Alcolumbre (União Brasil-AP).
O
principal alvo da direita é o ministro Alexandre de Moraes, que entrou na mira
preferencial após ser o relator do processo que acabou na condenação do
ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de
Estado.
Apesar
do número, Alcolumbre não colocou nenhum pedido de impeachment para andar.
A
decisão sobre dar seguimento inicial a esse tipo de processo passa pela
Presidência do Senado, mas Alcolumbre vem resistindo às pressões da oposição
para abrir processos contra integrantes da Corte.
"Minha
percepção é que tem 109 pedidos. Isso não é normal", afirmou Alcolumbre em
setembro.
Este
cenário, no entanto, pode mudar com a direita bolsonarista fortalecida na Casa.
"A
direita, agora, tem muito mais capacidade de fazer isso andar do que
antes", diz Beatriz Rey.
Ela
pondera, no entanto, que os 44 votos contabilizados por ela não seriam
suficientes para aprovar o impeachment.
"Isso
vai exigir negociações. É claro que, agora, o custo para Alcolumbre barrar
algum pedido é maior. Ainda temos eleição para a presidência do Senado e algum
nome mais à direita pode vencer. Mesmo assim, será necessário ver como esse
campo político vai se comportar. Não é garantido que eles tentem ir pra esse
embate com o Supremo imediatamente", diz a pesquisadora.
Se para
derrubar um ministro do STF a conta ainda parece distante, a bancada
bolsonarista contabilizada por Beatriz Rey dependeria de apenas mais cinco
votos para aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) - o mínimo
necessário é de 49. As PECs, em geral, tratam de assuntos estruturantes e, em
geral, polêmicos.
Um dos
temas que pode entrar na mira de uma PEC bolsonarista, por exemplo, é a
proposta de emenda que prevê a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos,
pauta defendida por diversos dos candidatos de direita que venceram neste
domingo.
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Senado e Presidência
Os
especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que o novo Senado de 2027
vai representar um desafio grande para um eventual quarto mandato de Lula.
"O
que já era difícil tende a ficar ainda pior para um possível novo governo
petista", disse Rey.
Ela
pontua que, ao longo dos últimos quatro anos, Lula teve uma série de
dificuldades em aprovar propostas no Senado. Um dos exemplos onde essa
resistência ficou ainda mais evidente foi na derrota da indicação do
advogado-geral da União, Jorge Messias, a uma vaga no STF.
De
forma inédita em quase 100 anos, o Senado rejeitou uma indicação feita pelo
presidente da República.
Beatriz
Rey pontua que se Flávio for eleito, o cenário tende a ser mais confortável,
mas não lhe dará controle absoluto do Senado.
"O
atual cenário não garante que ele vá conseguir fazer tudo o que desejar. Será
necessário fazer negociações com os outros partidos. Mas, evidentemente, há uma
identificação ideológica maior entre a bancada e Flávio", disse.
Fonte:
DW Brasil/BBC News Brasil

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