Rafael
Fonteles, o governador mais votado do país: como matemático 'superdotado' virou
uma esperança para PT
Na
pré-campanha ao governo do Piauí em 2022, Rafael Fonteles (PT) era apresentado
localmente como o "menino do Lula". Em 2026, o menino pode estar
virando um possível "herdeiro".
Fonteles,
de 41 anos, foi reeleito governador do Piauí com 70% dos votos neste domingo
(4/10), a maior votação em disputas estaduais no país neste ano.
Visto
por analistas e colegas de PT como um petista pragmático, de uma ala mais
liberal do partido e defensor de uma "frente ampla" com partidos de
centro, nos últimos quatro anos Fonteles conseguiu imprimir seu estilo no Piauí
e é lembrado com frequência como um candidato a alçar voo nacional.
Em
entrevistas à BBC News Brasil nesta campanha, os ex-ministros petistas José
Dirceu e Fernando Haddad apontaram o nome de Fonteles quando perguntados sobre
a sucessão de Lula, hoje com 80 anos e disputando a eleição presidencial contra
Flávio Bolsonaro.
"O
Rafael Fonteles é um quadro que vai despontar no Brasil", cravou Haddad,
que já concorreu à Presidência em 2018.
Numa
agenda em São Paulo no fim de agosto, Rafael Fonteles desconversou, como
costuma fazer, quando foi perguntado pela BBC sobre seus planos nacionais.
"Nosso
foco é totalmente o Piauí. Claro que qualquer elogio vindo de qualquer quadro
dessa magnitude, como o Haddad e o ministro Dirceu, nos deixa lisonjeados, nos
faz crer que nós estamos no caminho certo", disse.
Convidado
para falar no evento do Ranking de Competitividade dos Estados devido a um
programa de segurança pública no Piauí, Fonteles parecia à vontade numa plateia
com empresários, distribuindo saudações calorosas a outros governadores
presentes no palco, como Jorginho Mello (PL), de Santa Catarina, no oposto
espectro político.
"Para
se ganhar a eleição, tem que ser um projeto majoritário. Então, a gente precisa
realmente conversar com outras forças políticas, colocá-las dentro do governo
para poder ter uma representatividade de fato majoritária da sociedade",
disse após o evento Fonteles, avaliando a campanha petista nacional em 2026.
"Só
ganha eleição para prefeito, para governador e para presidente quem representa
mais de 50% da sociedade. Para isso, a frente ampla é fundamental."
No
Piauí, o caminho nacional é uma conversa recorrente, seja como um futuro
candidato à Presidência ou ocupando cargos em ministérios, comenta o professor
Vitor Sandes, cientista político da Universidade Federal do Piauí (UFPI).
"Faz
parte de uma movimento nacional do PT de se renovar", diz.
"Ele
consegue enquadrar, de alguma maneira, uma herança do lulismo, fundamental
dentro do PT, mas ao mesmo tempo trazer uma renovação com eleitores que até se
identificam, mas com outras perspectivas e demandas, como as pautas ligadas ao
trabalho", diz o professor.
O PT do
Piauí, Estado que deu a maior votação a Lula em 2022 (74,3% dos votos), hoje já
tem espaço no primeiro escalão do governo, com nomes como o ex-governador e
padrinho político de Fonteles, Wellington Dias, como ministro do
Desenvolvimento e Assistência Social e coordenador da campanha de Lula.
Ex-secretário de Fonteles, Chico Lucas é o atual secretário nacional de
Segurança Pública.
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O 'self-made man' e os 'Rafa boys'
Fonteles
foi eleito pela primeira vez aos 37 anos, sendo o governador mais jovem eleito
do Piauí – hoje, ele tem 41 anos. A pouca idade para a média de governadores
reflete sua própria jornada.
Apesar
de filho de um quadro histórico do PT piauiense, o ex-deputado Nazareno
Fonteles, Rafael não se destacou exatamente como um militante de base do
partido.
Estudou
em uma das escolas particulares mais conceituadas de Teresina, a Dom Barreto, e
passou a juventude acumulando destaques na vida escolar.
Uma
reportagem do Estadão de 2007 sobre alunos superdotados trazia uma entrevista
com o jovem Rafael Fonteles, com 21 anos, após ele terminar em um único ano o
mestrado em Economia no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada
(Impa), no Rio de Janeiro.
O texto
dizia que Fonteles escolheu não pular nenhuma série no colégio: "Quando
você acelera muito, sua maturidade não acompanha", declarou na época.
Na
faculdade de matemática, ainda menor de idade, fundou um cursinho
pré-vestibular, que depois viraria um dos principais colégios particulares da
capital, o CEV. Como empresário, também tinha uma consultoria de investimentos.
Casou-se
e teve três filhos com Isabel Araújo, filha de um empresário bem-sucedido de
Picos, cidade sertaneja que é o principal polo comercial do interior do Piauí.
A
primeira incursão na política veio a partir de 2015, como secretário da
Fazenda, pelo convite do então governador Wellington Dias, no início de seu
terceiro mandato.
Dias,
bancário sindicalista militante do partido, já colhia no Piauí a dobradinha do
PT com o governo federal desde 2002, quando conseguiu tirar o poder estadual de
Mão Santa. (Em 2026, Santa, cuja família é influente em Parnaíba, segunda maior
cidade do Piauí, anunciou apoio a Fonteles).
"Não
tem como dissociar a votação do PT aqui para os governos estaduais do lulismo.
O Estado colheu benefícios de ter o governo federal como alinhado e das
políticas sociais que beneficiaram muitos piauienses. Com isso, conseguiu
estabelecer o domínio", diz Sandes, da UFPI.
O
Estado foi escolhido, por exemplo, para ser receber o piloto de programas
sociais como o Fome Zero e Bolsa Família.
O
domínio foi tanto que a chapa do PT incluiu, em 2018, até Ciro Nogueira (PP),
hoje opositor ferrenho.
Antes
de concluir o quarto mandato de governador, Dias escolheu Fonteles como nome
para sucessão, apesar de sua origem mais técnica e menos ligado ao sindicalismo
e à militância.
Foi
quando começou-se a associar a imagem do novo governador a um "self-made
man" (que alcançou sucesso empresarial por seu esforço), "realizador,
com uma visão mais empresarial da politica", explica o cientista político
Vitor Sandes.
Essas
acabaram sendo a marca do primeiro mandato à frente do Palácio de Karnak, sede
do governo em Teresina: "Alguém que entrega e pensa em atrair
investimentos", segue o pesquisador.
Outras
marcas foram os bons resultados do Piauí na educação (hoje entre as melhores
colocações nacionais no Ideb) e, especialmente, na segurança pública, com uso
de tecnologia para recuperar celulares, atender ocorrências policiais e um
projeto de blitze focadas em recuperar veículos roubados.
Hoje, o
Piauí é o Estado menos violento do Nordeste, levando em conta o índice de
homicídios, segundo o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
"O
nosso governo é muito bem aprovado na segurança pública. Sem dúvida, é um dos
fatores que nos colocam com uma boa aprovação popular", disse Fonteles à
BBC News Brasil.
Esses
bons índices podem explicar porque Fonteles conseguiu uma reeleição mais
tranquila, na comparação com outros governadores petistas de Estados entre os
mais violentos do país, explica Sandes.
Na
Bahia e no Ceará, o governadores Jerônimo Rodrigues e Elmano de Freitas
conseguiram a reeleição em primeiro turno após uma campanha acirrada. Já Cadu
de Lula disputa o segundo turno para dar continuidade ao governo petista de
Fátima Bezerra no Rio Grande do Norte.
No
Piauí, nem a oposição, liderada nesta eleição por Joel Rodrigues (PP),
ex-prefeito da cidade de Floriano, costuma trazer o tema de segurança para o
centro do debate.
Entre
as críticas públicas mais recorrentes à gestão de Fonteles estão as frequentes
viagens internacionais do governador e os gastos associados a elas. Fonteles
defende as viagens como missões para atrair investimentos, especialmente para
projetos de infraestrutura.
As
críticas também atingem projetos apresentados pelo governo como símbolos da
transformação econômica do Estado, como o porto de Luís Correia, prometido há
50 anos no diminuto litoral piauiense.
Em
julho, o governo anunciou o início da fase operacional do porto, com a chegada
de um navio exportador de minério de ferro, mas sem a conclusão dadragagem do
canal de acesso, essencial ao funcionamento pleno do terminal. O navio com rumo
à China foi abastecido numa operação de transbordo em alto-mar
Opositores
como Ciro Nogueira argumentam que, sem a obra de dragagem concluída, não há um
porto operacional.
Outro
projeto que sofre críticas é o bilionário polo de hidrogênio verde, prometido
para região de Parnaíba, que tem sofrido revés na Justiça por questões
ambientais e não entrou em operação.
Nos
primeiros quatro anos à frente do Piauí, Fonteles conseguiu se desviar dessas e
outras críticas com os bons resultados em outras áreas, além de imprimir a
própria marca, se descolando da gestão de Wellington Dias, diz o professor
Sandes.
O
governador se notabilizou por priorizar nomes técnicos de confiança na sua
equipe, que passaram a ser conhecidos como os "Rafa boys", ou
"os meninos do Rafa" - numa oposição a uma equipe mais política de
Dias.
A
ex-governadora e ex-senadora Regina Sousa, nome histórico do PT no Piauí, em
entrevista ao portal local 180 Graus, destacou que Fonteles tem um diferente
estilo de liderança, com métodos que podem ser novos para o PT.
"Ele
é elétrico, e sua forma de agir pode parecer estranha, Ele é muito
tecnológico", declarou Sousa, ao comentar as discussões internas do PT. É
comum a imprensa do Estado relatar um clima de certo descompasso entre o
governador e os petistas mais antigos.
"Fonteles
é visto dentro do PT como mais liberal, com uma trajetória política de
estimular a concessão de serviços, como na saúde, algo criticado por setores da
esquerda. É uma leitura diferente do restante do PT", explica Vitor
Sandes.
"Mas
isso também faz com que ele tenha avaliação positiva em setores mais
conservadores, liberais, conseguindo dialogar com esse público", conclui.
Fonte:
BBC News Brasil

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