Como
PL e Michelle Bolsonaro contribuíram com bancada feminina recorde na Câmara
O resultado do
1º turno mostrou que o PT não apenas subestimou a força da
candidatura de Flávio
Bolsonaro (PL), como também não dimensionou o grau de consolidação
da direita no país, avalia a cientista política Malu Gatto, professora da
University College London (UCL).
Para
ela, o desempenho do candidato do PL, que terminou o primeiro turno à frente do
presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT), coloca o petista em uma posição especialmente
difícil na disputa que começa agora.
"A
esquerda subestimou o crescimento da direita, mas subestimou também, e talvez
principalmente, a candidatura de Flávio Bolsonaro", afirmou Gatto em
entrevista à BBC News Brasil.
Além da
vantagem nas urnas, diz, o senador tem maior potencial para atrair os eleitores
dos demais candidatos de direita e pode se beneficiar do efeito psicológico de
ter largado na frente.
Mas, na
avaliação da cientista política e professora de Política Latino-Americana no
Instituto das Américas da University College London (UCL), o resultado da
eleição vai além da corrida presidencial.
O fortalecimento
do PL no Congresso e sua crescente capilaridade nos Estados e
municípios indicariam uma transformação mais profunda no sistema partidário
brasileiro
"Na
ciência política, costumávamos organizar o sistema partidário a partir do PT,
mas não podemos mais", afirma. "Temos um novo sistema partidário no
qual o PT não é o único partido mais institucionalizado, com
capilaridade."
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A força do PL entre as mulheres
Outro
aspecto que chama a atenção da pesquisadora após o 1º turno é o avanço da
direita entre as mulheres e sua capacidade de impulsionar candidaturas
femininas.
Ao
todo, 12 mulheres foram eleitas para o Senado e 109 para a Câmara dos Deputados
— que representam um recorde de 21% de todos os deputados. Uma mulher também
foi eleita governadora e outras três passaram para o 2º turno.
O PL
foi o partido que mais elegeu senadoras, com 3 representantes. Republicanos,
PSDB, Podemos, União e MDB elegeram uma mulher cada.
Já na
Câmara, o partido de Flávio Bolsonaro conseguiu eleger 22 mulheres dentro das
121 cadeiras conquistadas, ou pouco mais de 18%. Para efeito de comparação, o
PCdoB elegeu 7 mulheres entre seus 11 deputados federais, o que corresponde a
63,6% da bancada.
"Apesar
da direita ter elegido mais mulheres em termos absolutos, a proporção de
mulheres nos partidos de esquerda foi maior", diz a professora da UCL.
Mas
segundo Gatto, o PL foi bem-sucedido em reduzir a resistência que
historicamente existiu entre parte do eleitorado feminino em relação ao
bolsonarismo.
Esse
movimento não surgiu apenas durante a campanha de 2026, diz. Para a
pesquisadora, o partido vem investindo há anos no recrutamento de mulheres, em
uma estratégia que teve Michelle Bolsonaro como uma de suas principais
articuladoras.
"O
partido incentivou que as mulheres fizessem e participassem da política de sua
própria maneira, sem reproduzir a lógica do fazer política masculina",
aponta.
"Uma
das dificuldades das mulheres é fazer política enquanto se mantém a
responsabilidade de cuidado e o trabalho, mas a forma encontrada por eles foi
mais compatível com a vida dessas mulheres."
Mas
apesar de positiva para a representatividade, a entrada de mais parlamentares
de direita deve tornar a bancada feminina mais heterogênea e aprofundar
divergências sobre quais devem ser as prioridades das políticas voltadas às
mulheres, diz Malu Gatto.
"Vai
ser mais difícil encontrar consenso, criar políticas públicas e legislar com
uma bancada tão heterogênea".
Leia, a
seguir, a entrevista completa:
·
Qual a sua avaliação geral sobre o 1º turno das eleições?
As pesquisas erraram o resultado da eleição presidencial?
Malu
Gatto - As
pesquisas mostravam uma tendência de crescimento de Flávio Bolsonaro nos
últimos dias, com ele basicamente empatado com Lula dentro da margem de erro.
Acho que houve uma confiança exagerada na ideia de que Lula estava
numericamente na frente de Flávio. As pesquisas não mostravam isso de forma tão
eloquente mesmo, mas os dados davam a possibilidade de interpretação de que o
resultado poderia ser esse.
Para
além disso, vejo que o PL sai muito forte desse primeiro turno. Só no Senado, o
partido terá uma bancada enorme, com 28 senadores – contra 8 ou 9 dos segundos
maiores partidos. Na Câmara, também conseguiu se consolidar, com expectativa de
121 deputados eleitos. Tudo isso deve impactar muito o 2º turno.
·
E qual sua expectativa para esse 2º turno?
Gatto
- Nunca
na história da redemocratização, uma pessoa que perdeu o 1º turno, venceu o 2º,
ou seja, Flávio vai muito forte para essa disputa. Ao mesmo tempo, ele em uma
margem de vantagem menor do que em outros 2º turnos no passado – são 2 pontos
percentuais de diferença, menor do que em 2022 quando Lula ficou 5 pontos a
frente de Jair Bolsonaro.
Mas
sair na frente no 1º turno é muito importante, pois demonstra viabilidade
eleitoral e também tem um efeito psicológico no eleitor – é o que chamamos de
bandwagon voting, quando os eleitores transferem seus votos para aquele que
está na frente.
Também
é importante mencionar que Flávio parece ter maior potencial de crescimento.
Todos os demais candidatos à Presidência com algum apoio eleitoral no 1º turno
eram candidatos de direita e, ainda que alguns escolham apoiar Lula, esses 8%
de votos tendem a ir para ele.
Isso
tudo coloca a campanha do Lula em uma posição muito difícil. Eles estavam com
uma sensação de "vamos ganhar", que até ajuda na motivação, mas acho
que agora tendem a partir para uma campanha mais negativa e defensiva.
·
A esquerda subestimou o crescimento da direita ou deixou
de ver um movimento coordenado da oposição?
Gatto
- A
esquerda subestimou esse movimento, mas subestimou também, e talvez
principalmente, a candidatura de Flávio Bolsonaro. Existia a ideia de que ele
não tinha a força do pai, mas, na verdade, o Flávio aumentou a votação de Jair
Bolsonaro de 2022.
Além
disso, também vejo uma má interpretação do que aconteceu há quatro anos. Ficou
perdido em termos de interpretação, talvez, para a campanha do PT, que 2022 não
foi uma vitória do Lula, mas sim uma derrota do Bolsonaro. Lula ganhou com 2
milhões de votos, o que é uma margem muito pequena – e para isso acontecer o PT
teve que angariar o apoio de todo o espectro ideológico, inclusive da
centro-direita, enquanto Bolsonaro quase ganhou sozinho.
A pauta
de extrema direita que vai para além de Bolsonaro tem ganhado força no Brasil,
que fica claro também a partir da proliferação de outros candidatos de direita,
inclusive na disputa presidencial.
·
Nesse sentido, o Brasil está mesmo acompanhando uma
tendência mundial?
Gatto
- Existe
sim uma tendência global em termos de insatisfação com a política, com os
sistemas e instituições, que de muitas formas contribuiu também para o
crescimento da direita. No Brasil, o eleitor médio sempre foi conservador em
termos de morais e costumes, mas essa nova direita, o bolsonarismo, conseguiu
unir os mais conservadores em termos econômicos, com o conservadores em termos
das Forças Armadas, com o agronegócio e a direita do âmbito mais religioso.
Houve uma repaginada da própria direita, que conseguiu levar o eleitorado
junto.
·
Para além da eleição presidencial, como avalia o
crescimento da direita – e especialmente do PL — no Congresso e também nas
eleições para governador?
Gatto
- Me
chama atenção o fortalecimento institucional do PL. Isso já vinha acontecendo
desde as eleições municipais de 2024, com o partido demonstrando cada vez mais
capilaridade nos município e estados. Na ciência política, costumávamos
organizar o sistema partidário a partir do PT, mas não podemos mais. Temos um
novo sistema partidário no qual o PT não é o único partido mais
institucionalizado, com capilaridade.
Outro
ponto importante são as candidaturas femininas sendo elevancadas por partidos
de direita e, principalmente, pelo PL. Prova disso é o Distrito Federal, que se
torna a única unidade federativa com três senadoras mulheres, sendo duas do PL
e uma de um partido aliado, além de provavelmente uma governadora mulher,
também pelo PL.
·
O que significa
para o Brasil ter mais mulheres conservadoras ou de direita em posições de
poder?
Gatto
- No
Senado, vemos que a presença feminina cresceu principalmente puxada pela
direita. Já na Câmara, o cenário está mais dividido.
Ao
todo, foram 109 eleitas, o que aumenta a proporção de mulheres na Câmara dos
Deputados para um recorde de 21% e nos tira da lanterna da América Latina [em
termos de representatividade feminina]. Agora estamos à frente apenas da
Guatemala, que é o único país da América Latina que nunca adotou cotas de
gênero. O Brasil tem cotas para mulheres implementadas desde 1998 em eleições
gerais e, mesmo assim, continua remando para bater esse recorde, enquanto
outros países da região como México, Bolívia, Argentina e Costa Rica têm mais
de 40% de representatividade.
Mas
observando as bancadas dentro dos partidos, percebemos que, apesar da direita
ter elegido mais mulheres em termos absolutos, a proporção de mulheres nos
partidos de esquerda foi maior. Isso tem implicações para a atuação da bancada
feminina como um todo. A fragmentação causa disputas internas com relação ao
que é a pauta feminina e como os direitos das mulheres deveriam ser tratados.
Vai ser mais difícil encontrar consenso, criar políticas públicas e legislar
com uma bancada tão heterogênea.
·
As últimas pesquisas antes do 1º turno mostraram um
avanço de Flávio Bolsonaro entre o eleitorado feminino. A direita também
conseguiu, como a senhora mencionou, eleger muitas mulheres. O que explica esse
fenômeno?
Gatto
- Em
2018, grande parte do eleitorado feminino foi resistente à candidatura de Jair
Bolsonaro, mas o PL entendeu isso em 2022 e, de fato começou, a trabalhar para
mudar. A Michelle Bolsonaro trabalhou muito para filiar mulheres no país
inteiro e começou a recrutar mais candidatas.
Em
2026, o Flávio tentou de forma muito explícita se apresentar como um candidato
mais palatável para as mulheres também, inclusive trazendo a esposa dele para a
campanha. No discurso após os resultados do primeiro turno, ele mencionou
explicitamente o tema da violência contra as mulheres, tentando sinalizar para
esse eleitorado também.
Essas
eleições foram muito marcadas por campanhas para se votar mais em mulheres e,
ao mesmo tempo, pelo tema da corrupção. E diversas análises e estudos apontam
que as mulheres tendem a ser percebidas pelo eleitorado como mais honestas ou
menos corruptas. O PL entendeu isso também e tentou colocar as mulheres como
outsiders, se usando do sentimento anti-sistema.
O
partido, em grande parte encabeçado pela Michelle Bolsonaro, também incentivou
que as mulheres fizessem e participassem da política de sua própria maneira,
sem reproduzir a lógica do fazer política masculina. Vimos uma ênfase muito
grande no feminino tradicional, usando, por exemplo, o âmbito doméstico para
encontros políticos.
Parte
do motivo pelo qual o PL teve sucesso em recrutar mais mulheres, tanto
candidatas quanto filiadas, é porque não estava demandando que elas fossem às
reuniãos do partido. Uma das dificuldades das mulheres é fazer política
enquanto se mantém a responsabilidade de cuidado e o trabalho, mas a forma
encontrada por eles foi mais compatível com a vida dessas mulheres.
Fonte:
BBC News Brasil

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