Avanço
da direita em eleição no Brasil é vitória de Trump e derrota da nossa soberania?
A direita
brasileira teve vitórias expressivas nas eleições de domingo (5/10).
Flávio
Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno da eleição presidencial à frente do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O Partido Liberal terá a
maior bancada no Senado e na Câmara dos Deputados. Candidatos a governos
estaduais que o apoiam venceram em dez pleitos e disputarão o segundo turno em
outros cinco.
A
disputa pela Presidência segue em
aberto entre Flávio Bolsonaro e Lula até o segundo turno, em 25 de
outubro. Uma vitória de Flávio consolidaria uma tendência vista nos últimos
anos no continente: de vitórias da
direita em países como Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia.
Essa
guinada coincide em muitos casos com a ascensão do governo de Donald Trump e
sua política externa para a América Latina — que analistas chamam de "Doutrina
Donroe".
No ano
passado, Trump anunciou sua Estratégia de Segurança Nacional, na qual considera
que ameaças externas na América Latina — especialmente a influência econômica e
tecnológica da China e a presença de redes criminosas transnacionais — exigem
uma postura mais ativa de Washington.
O
documento citava nominalmente a Doutrina
Monroe, formulada há mais de dois séculos, que afirmava que qualquer
intervenção no Hemisfério Ocidental seria vista pelos EUA como uma ameaça
direta à sua segurança.
Na
segunda-feira (5/10), Trump falou sobre a eleição brasileira. Ele classificou
como uma "grande vitória" a vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula,
embora tenha sido apertada.
"É
uma grande vitória, bem apertada, mas uma grande, grande vitória.
Incrível", disse Trump a jornalistas ao deixar a Casa Branca, sem citar
nominalmente Flávio.
Em
outra declaração, o presidente americano afirmou que o segundo turno entre
Flávio e Lula será "muito acirrado".
Mais
cedo, em uma publicação na rede social Truth Social, Trump também elogiou a
rapidez da apuração brasileira e usou o resultado para criticar o sistema
eleitoral dos Estados Unidos.
"125
milhões de pessoas votaram hoje no primeiro turno da eleição presidencial do
Brasil. Os resultados saíram pouco depois do encerramento da votação, NO MESMO
DIA! Em Detroit, Filadélfia, Califórnia e várias outras cidades e estados dos
EUA, os resultados, com números muito menores, muitas vezes levam semanas para
serem fraudados — quer dizer, calculados. A votação nos Estados Unidos é
CORRUPTA!!!", escreveu Trump.
A BBC
News Brasil perguntou a analistas baseados no exterior se o resultado
expressivo da direita nas eleições de domingo poderia ser considerado um sucesso de
Donald Trump e sua política externa para o continente.
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Doutrina Donroe
"Isso
[o avanço da direita no Brasil na eleição de domingo] é uma vitória para a
Doutrina Donroe? Eu diria que sim", afirma Christopher Sabatini,
pesquisador sênior do Programa América Latina, EUA e Américas da Chatham House,
um dos principais think tank (centros de estudo) britânicos, com sede em
Londres.
Um dos
pontos centrais da Doutrina Donroe é excluir influências externas, como China e
Rússia, e defender interesses americanos no continente, como acesso a recursos
minerais e controle de fronteiras. A consolidação de partidos de direita
radical simpáticos à Trump no poder na América Latina é uma forma de garantir o
sucesso dessa política.
"Está
claro que uma guinada em direção ao bolsonarismo no Brasil será uma vitória de
enorme importância para Donald Trump", afirma Gaspard Estrada, cientista
político francês e especialista em América Latina, vinculado à Global South
Unit da London School of Economics (LSE).
"Há
muitas pautas relacionadas à relação com a China que estarão no centro dessa
política externa."
"É
provável que uma vitória de Flávio Bolsonaro se traduza em algumas mudanças
importantes na política externa brasileira. Por exemplo, acredito que o Brasil
acabaria deixando o Brics. Vale lembrar que isso não aconteceu durante o
primeiro mandato de Bolsonaro."
Para
Sabatini, a estratégia da campanha de Lula não repercutiu junto ao eleitorado
brasileiro.
"A
tentativa de usar as medidas altamente intervencionistas de Donald Trump e de
seu governo — tanto no que diz respeito às tarifas quanto às sanções contra o
ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes — como um ponto de
mobilização em torno da soberania nacional e do patriotismo não
funcionou", afirma.
Sabatini
acredita que no Brasil a direita está conseguindo se consolidar de maneira mais
aprofundada — e não meramente passageira. E parte disso se dá ao trabalho do
grupo político ligado a Trump.
"Muitos
dos conselheiros de Donald Trump que são os mentores políticos por trás desse
movimento — Steve Bannon, Donald Trump Jr. — todos eles estão trabalhando com e
reunindo um grupo desses candidatos de extrema-direita, vindos de fora do
establishment, que estão fortemente alinhados a Trump", diz o pesquisador.
Sabatini
avalia que as eleições no Brasil e até mesmo em outros casos como na Colômbia
ou no Chile demonstram que alguns desses partidos mais à direita podem, de
fato, tornar-se mais do que um fenômeno passageiro.
"Estamos
testemunhando uma espécie de mudança que nasce da base e que, ao mesmo tempo,
retira espaço — no caso de Lula e do PT — de um partido político
social-democrata moderado."
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'Sucesso' de Trump
Estrada
acredita que, para Trump, é importante que Flávio Bolsonaro vença Lula no
segundo turno para consolidar a influência americana no maior país da América
Latina.
Essas
vitórias eleitorais da direita na América Latina poderiam então ser
apresentadas ao público americano como um sucesso da política externa de Trump
para o continente — em um momento em que as intervenções dos EUA no mundo estão
sendo questionadas pelos eleitores americanos.
"Está
claro que uma guinada em direção ao bolsonarismo no Brasil representaria uma
vitória de enorme importância para Donald Trump, visto que outras grandes
prioridades de sua política externa acabaram sendo, de certa forma, fracassos —
especificamente no Irã ou em sua intenção de acabar com a guerra na
Ucrânia."
Já
Mahrukh Doctor, professora de economia política e especialista em Brasil da
Universidade de Hull, no Reino Unido, não vê as vitórias eleitorais da direita
no Brasil necessariamente como um sucesso que possa ser atribuído a Trump.
"Eu
não acredito que o eleitor brasileiro comum foi às urnas pensando em
Trump", diz Doctor.
"Nas
disputas para governos estaduais, cargos locais e o Congresso, as pessoas
estavam muito mais preocupadas em saber se os ocupantes dos cargos haviam
apresentado resultados, com a insatisfação em relação ao desempenho dos
governos e com a escolha entre continuidade ou mudança."
Questões
ligadas a Trump podem ter influenciado a campanha de forma periférica, diz a
professora. "Mas não foram centrais no debate, e não acredito que o
eleitor brasileiro estivesse pensando principalmente em política internacional
ao votar."
Para
ela, não existe necessariamente uma "onda de direita" varrendo o
continente, mas sim um pêndulo.
"Essa
guinada à direita parece fazer parte de um movimento pendular observado na
América Latina desde a redemocratização nas décadas de 1980 e 1990. À medida
que cresce a insatisfação com os governantes da hora, o humor político oscila
de um lado para o outro; portanto, não é algo tão surpreendente", afirma
Doctor.
"Trump,
naturalmente, é um fator que agrava o contexto, mas, no passado, essas mudanças
ocorriam em torno de agendas de política interna, geralmente ligadas ao
crescimento, à pobreza e ao desenvolvimento. Hoje, a situação tem um fundo
ligeiramente diferente, pois incorpora um elemento externo."
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Segundo turno
Para
Vinicius de Carvalho, professor de estudos brasileiros e latino americanos da
King's College University, do Reino Unido, a influência americana foi um tema
importante das campanhas eleitorais. E vai continuar a ter grande impacto no
segundo turno da eleição, especialmente entre os eleitores indecisos, que não
votaram ou escolheram candidatos alternativos a Lula e Flávio Bolsonaro.
O
especialista explica que os eleitores que veem a interferência americana com
maus olhos já se identificam naturalmente com Lula, enquanto aqueles que apoiam
a aproximação com os EUA tendem a votar em Flávio Bolsonaro.
Por
isso, é para os demais que o tema pode ter impacto.
"A
grande maioria de eleitores muitas vezes vota mais por paixões e emoções do que
por razão", diz.
"O
impacto de como esse grupo que não votou sobre relação com os EUA e sobre
autonomia se posicionará no segundo turno será muito grande".
Fonte:
BBC News Brasil

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