Reynaldo
José Aragon: Enquanto nós olhavamos as ruas, eles organizavam a urna
Pela
terceira eleição consecutiva, o Brasil chegou à urna com mais dados, mais
pesquisas e mais monitoramento do que nunca e, ainda assim, o campo
progressista foi surpreendido pelo mesmo movimento que dizia acompanhar. O
problema não foi invisibilidade. Foi incapacidade estratégica de compreender o
que estava diante dos olhos.
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Depois da urna
Depois
das eleições do primeiro turno, eu me perguntei o que deveria fazer para
contribuir de forma séria com o debate público. Pensei em vários assuntos
importantes que pretendo trazer depois, mas uma pergunta não me deixou em paz.
Como foi possível chegar novamente à urna cercados de pesquisas, especialistas,
monitoramento, campanhas profissionalizadas, universidades, institutos e uma
quantidade inédita de informação sobre o comportamento político brasileiro e,
ainda assim, sermos surpreendidos pela força organizada da extrema direita?
Resolvi começar por aí porque esta não foi uma surpresa qualquer. Foi a
terceira eleição presidencial consecutiva em que um movimento decisivo apareceu
com mais força na urna do que na leitura predominante feita imediatamente antes
dela.
Em
2018, falamos em onda. Em 2022, discutimos erro de pesquisa, voto envergonhado,
migração tardia, voto útil e mobilização bolsonarista. Em 2026, depois de oito
anos de experiência acumulada, o campo democrático voltou a olhar para a
apuração como se uma parte importante daquele eleitorado tivesse surgido no
domingo. Não surgiu. O bolsonarismo vinha demonstrando capacidade de
mobilização tardia desde a primeira eleição. A disputa pelo Senado havia sido
assumida publicamente como objetivo estratégico. O peso das igrejas, a expansão
de redes conservadoras, a centralidade da segurança, o desgaste do governo e as
mudanças territoriais eram conhecidos. O problema foi outro. Vimos esses sinais
em relatórios, pesquisas e análises diferentes, mas não construímos a tempo uma
leitura capaz de perceber que eles pertenciam ao mesmo movimento.
É essa
falha que me interessa. A eleição de 2026 não aconteceu num deserto de
informação. Aconteceu no meio de uma abundância de dados que produziu uma falsa
sensação de controle. Sabíamos cada vez mais sobre partes do processo e,
paradoxalmente, enxergávamos cada vez menos o processo inteiro. O campo
democrático chegou à reta final convencido de que acompanhava a correlação de
forças porque via pesquisas, manifestações e métricas digitais. A urna mostrou
que poder político estava sendo acumulado também em relações que esses
instrumentos captavam de forma parcial. O erro de 2026 não foi ausência de
informação. Foi uma falha de arquitetura interpretativa. A pergunta que orienta
este texto nasce daí. Como um campo político cercado de dados e inteligência
foi surpreendido pela terceira eleição consecutiva e o que isso revela sobre
sua incapacidade de enxergar o poder quando o poder mudou de forma?
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O problema não estava nos dados
Há uma
saída fácil depois de uma eleição como a de domingo. Culpar as pesquisas. Ela é
tentadora porque desloca a responsabilidade para o instrumento e permite que a
leitura política permaneça intacta. Só que a sequência das últimas três
eleições torna essa explicação insuficiente. Pesquisa não é profecia. Ela
registra um momento e não tem obrigação de prever tudo o que ocorrerá entre a
última entrevista e a urna. Justamente por isso, quando diferenças parecidas
reaparecem em eleições distintas, o que precisa ser investigado não é apenas o
erro estatístico, mas o processo social que continua depois da fotografia.
Em
2018, o Datafolha da véspera registrava Jair Bolsonaro com 40% dos votos
válidos e Fernando Haddad com 25%. A urna entregou 46,03% e 29,28%. Houve
compressão dos votos dos candidatos menores, mas Bolsonaro avançou mais. Em
2022, o desenho ficou muito mais assimétrico. O último Datafolha mostrava Lula
com 50% dos válidos e Bolsonaro com 36%. Lula terminou com 48,43%. Bolsonaro
chegou a 43,20%. Em 2026, a pesquisa final registrava Lula com 45% e Flávio
Bolsonaro com 42%. Lula terminou praticamente no mesmo lugar, com 45,16%.
Flávio alcançou 47,03%. Três contextos diferentes, três eleições diferentes,
nenhum direito a uma explicação única. O que permanece é a recorrência de uma
força da direita radical que chega à urna maior do que a leitura dominante imediatamente
anterior sugeria.
Isso
deveria ter mudado a maneira como o campo democrático acompanha uma eleição.
Não mudou o suficiente. Na própria reta final de 2026 ainda havia uma parcela
relevante de eleitores admitindo a possibilidade de alterar o voto. O problema
não estava em descobrir que indecisos existiam. Estava em compreender quem
possuía melhores condições de organizar essa margem e de fazer uma preferência
já existente sobreviver até o confirma. Entre uma pesquisa e a urna continuam
acontecendo conversas familiares, cultos, recomendações, acontecimentos
políticos, grupos de mensagem, voto útil, decisões sobre comparecimento e
orientações para os demais cargos. A pesquisa encerra o campo. A política não.
O dado
mais incômodo de 2026 é a estabilidade de Lula diante do avanço de Flávio na
comparação com a última pesquisa. Isso não prova sozinho de onde vieram os
votos e não autoriza fantasias sobre um eleitor clandestino que mente
sistematicamente ao entrevistador. Faz algo mais útil. Obriga a investigar o
que aconteceu depois da medição para que uma das forças políticas transformasse
aquele intervalo em vantagem. Depois de 2022, essa deveria ter sido uma
prioridade de inteligência. Em vez disso, continuamos sofisticando pesquisas,
painéis e monitoramentos sem construir na mesma velocidade uma arquitetura
capaz de reuni-los. O instituto mede um momento. Estratégia precisa compreender
movimento.
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A multidão que não tinha avenida
Uma das
imagens mais fortes da reta final foi a ocupação das ruas. Havia gente,
bandeira, corpo, canto, encontro e uma sensação concreta de que uma força
social voltava a se reconhecer publicamente. Seria desonesto diminuir isso
depois do resultado. A mobilização progressista existiu. O erro começou quando
a imagem visível dessa força passou a servir como medida suficiente da disputa.
A rua concentra pessoas no mesmo espaço, permite contar, fotografar e comparar.
Ela oferece uma representação imediata do poder coletivo. A extrema direita
contemporânea aprendeu a produzir parte de sua força sem precisar concentrá-la
fisicamente.
Isso
desafia uma tradição política que aprendeu a reconhecer organização na
assembleia, no sindicato, no comício, na ocupação e na passeata. Essas formas
continuam fundamentais. O que mudou foi o adversário. Desde 2018, a extrema
direita brasileira acumulou uma infraestrutura distribuída entre
influenciadores, igrejas, grupos de mensagem, canais de vídeo, páginas locais,
lideranças políticas, relações familiares e autoridades informais. Milhões de
pessoas podem permanecer separadas no território e, durante dias, receber
interpretações convergentes, reconhecer os mesmos inimigos e reforçar a mesma
identidade. Não existe necessariamente uma fotografia capaz de reunir essa
força num único enquadramento.
A
política digital ampliou uma forma de concentração sem proximidade física. O
eleitor pode escutar o pastor, encontrar uma versão semelhante num vídeo,
receber outra pelo grupo da família e terminar o dia diante de uma recomendação
de alguém que conhece pessoalmente. Nenhuma dessas relações isoladas parece uma
grande operação. A força aparece na repetição por caminhos diferentes e,
sobretudo, na confiança depositada em quem transporta a mensagem. Às vezes há
coordenação explícita. Em outras, afinidade ideológica, interesse econômico e
pertencimento fazem os conteúdos convergirem sem comando central permanente.
Foi
assim que a imagem das ruas nos enganou sem ser falsa. A multidão progressista
apareceu como multidão. A força distribuída da extrema direita apareceu como
indivíduos até o instante em que seus votos foram somados. Quando a apuração
terminou, aquilo que parecia dispersão revelou direção comum. A rua não havia
mentido. Nós é que pedimos a ela que mostrasse uma correlação de forças que já
não cabia inteira dentro da rua.
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Audiência não é organização
Também
é fácil concluir que a esquerda perdeu porque abandonou as redes. Os dados não
sustentam essa caricatura. Lula teve enorme presença digital, investimento,
estrutura de comunicação, apoio de artistas e influenciadores e, em momentos
importantes da campanha, liderou interações. Em uma semana de setembro, seus
perfis oficiais registraram 5,7 milhões de interações no Instagram, acima dos 5
milhões atribuídos a Flávio. O campo democrático estava nas plataformas.
Produzia, impulsionava, monitorava e media desempenho. O problema foi confundir
circulação com organização.
A
diferença aparece quando observamos quem estava politicamente imerso nesses
ambientes. Pesquisa Datafolha realizada em setembro mostrou que 65% dos
eleitores de Flávio haviam tido contato com conteúdo eleitoral nas redes,
contra 52% dos eleitores de Lula. A distância era ainda maior nos perfis de
influenciadores, 44% contra 29%. Esses números não explicam o voto por si sós.
Revelam densidades diferentes de exposição dentro de redes que funcionam também
como ambientes de pertencimento e validação.
Uma
postagem pode alcançar milhões e desaparecer no mesmo dia. Uma comunidade
conserva memória. Pessoas reconhecem quem merece confiança, compartilham
linguagem, reforçam interpretações e carregam mensagens para espaços onde a
campanha oficial não entraria com a mesma legitimidade. É isso que chamo de
capital político de rede. Seu valor não está no número bruto de seguidores, mas
na capacidade de ativar relações. Uma audiência recebe comunicação. Uma rede
organizada consegue fazer a comunicação circular entre pessoas que já possuem
vínculos e critérios comuns de credibilidade.
Há
ainda uma camada acima do influenciador. Quem consegue reconhecer quais
intermediários possuem autoridade em cada comunidade, quais linguagens
atravessam determinados públicos e quais atores conectam grupos diferentes
passa a operar sobre a própria mediação. É a metaintermediação. Uma orientação
pode chegar pela igreja, pelo grupo familiar, por uma liderança municipal, por
um vídeo e por um influenciador sem parecer a mesma mensagem repetida cinco
vezes. Para o eleitor, ela aparece como confirmação produzida por fontes
diferentes.
A
campanha progressista profissionalizou sua comunicação, mas profissionalização
não produz automaticamente enraizamento. Redes permanentes não se constroem nos
trinta dias finais. A extrema direita passou anos alimentando comunidades que
continuavam funcionando fora do calendário eleitoral. A esquerda teve alcance
e, em muitos momentos, enorme presença. O déficit estava na conversão dessa
presença em relações políticas duradouras. Essa é uma diferença estratégica que
nenhuma guerra de memes resolve.
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Da intenção de voto à intenção de cédula
A
pesquisa pergunta em quem o eleitor pretende votar. A urna exige uma sequência
de escolhas para cargos diferentes, com números diferentes e graus muito
desiguais de informação. Em 2026, essa distância entre preferência e execução
se tornou decisiva. Quase seis em cada dez eleitores ainda estavam indecisos
sobre o Senado poucos dias antes da votação. Naquele momento, medir apenas a
força individual dos candidatos dizia menos do que parecia. Com duas vagas em
disputa, importava também saber quem conseguiria organizar combinações.
São
Paulo oferece um exemplo claro. Na véspera da eleição, o Datafolha mostrava
quatro candidatos tecnicamente empatados nos votos válidos. Guilherme Derrite e
André do Prado tinham 22% cada, Marina Silva 21% e Simone Tebet 20%. Na urna,
Derrite chegou a 30,6% e André a 29,3%, conquistando juntos as duas cadeiras.
No Rio de Janeiro, Benedita da Silva liderava a última pesquisa, enquanto
Carlos Portinho e Carlos Jordy vinham atrás. O resultado entregou as duas vagas
ao PL. Portinho fez 26,8% e Jordy 24,6%. A pergunta que esses casos impõem vai
além do crescimento individual de cada candidatura. Interessa saber quantos
eleitores chegaram ao domingo entendendo os dois nomes como parte da mesma
escolha política.
A Bahia
impede qualquer explicação essencialista. Rui Costa e Jaques Wagner também
fizeram campanha combinada e levaram as duas vagas pelo PT, com 30,07% e
27,65%. Isso desmonta a ideia de um eleitor conservador naturalmente mais
disciplinado. Coordenação é capacidade política, não característica moral de um
campo. Onde a esquerda chegou à urna com liderança territorial forte, chapa
coerente e orientação compreensível, também conseguiu transformar identidade em
sequência de voto.
A
partir daí, proponho olhar para uma dimensão que as pesquisas tradicionais não
tratam como centro do problema. A intenção de cédula. Ela complementa a
intenção de voto e precisa ser lida como processo, não como indicador isolado.
Serve para perguntar em que medida uma preferência já foi convertida em
comportamento eleitoral preparado. O eleitor sabe os aliados para os demais
cargos, reconhece números, recebeu orientação de pessoas em quem confia,
definiu os dois votos para o Senado, pretende comparecer e consegue executar
sua escolha sem voltar a decidir dentro da cabine. Quanto maior essa
preparação, menor o espaço para dispersão entre identidade política e voto
efetivo.
A
extrema direita entendeu com especial eficiência que uma eleição não é uma
coleção de candidaturas independentes. Governador pode validar senador. Senador
pode reafirmar candidato presidencial. Influenciador pode traduzir a
combinação. Liderança local pode entregar nomes e números. A força de uma
candidatura passa a proteger as outras. Enquanto o campo democrático
acompanhava principalmente quem estava à frente, seu adversário trabalhava para
que uma parte maior da base chegasse ao domingo sabendo o que fazer com a urna
inteira.
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O país material por trás da rede
Seria
intelectualmente pobre explicar tudo isso como vitória do algoritmo. Nenhuma
plataforma inventou o preço da comida, a dívida acumulada, a insegurança, a
precariedade dos serviços, o ressentimento contra instituições ou a expansão do
conservadorismo religioso. A tecnologia encontrou contradições reais e ampliou
a capacidade de uma força política de lhes dar interpretação e direção. Se
perdermos isso de vista, transformaremos novamente o instrumento em causa e
preservaremos intacto o problema político.
O
Brasil chegou à eleição com uma distância evidente entre indicadores econômicos
e experiência cotidiana. Emprego e renda haviam melhorado em diferentes
medidas, mas o endividamento das famílias alcançava níveis muito altos e uma
parcela enorme da população continuava vivendo sob orçamento apertado. O
eleitor não vota no PIB. Vota também no supermercado, no cartão, no aluguel, na
jornada exaustiva e na sensação de que qualquer imprevisto pode romper uma vida
financeira já comprimida. A esquerda pode apresentar resultados objetivos do
governo e ainda assim perder a disputa sobre o sentido que milhões atribuem à
própria experiência material.
A
segurança pública expõe outro abandono. Durante anos, parte do campo
progressista tratou o tema com linguagem defensiva, enquanto trabalhadores e
moradores de periferias conviviam com crime organizado, milícia, tráfico,
violência policial e ausência do Estado. A extrema direita ofereceu respostas
autoritárias, frequentemente simplificadoras e muitas vezes irresponsáveis. Mas
ofereceu uma interpretação reconhecível. Quando uma contradição real não recebe
elaboração política convincente, ela não fica vazia à espera da esquerda. Outro
projeto a ocupa.
A
religião funciona do mesmo modo. Flávio alcançou 52% dos votos válidos nos
municípios com presença evangélica acima da média nacional. O dado não permite
concluir que todo evangélico vote da mesma maneira, mas revela a importância de
estruturas de sociabilidade que o campo progressista ainda insiste em observar
como segmentos eleitorais. Igrejas são relações concretas de confiança, ajuda,
presença cotidiana e produção de sentido. Em muitos lugares, estão mais
próximas da vida popular do que partidos, sindicatos e movimentos que um dia
cumpriram parte dessa função.
O mapa
confirma que não houve uma conversão homogênea do país. A direita avançou com
enorme força no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, enquanto o Nordeste preservou
outro padrão político. Mais de 33 milhões de brasileiros também ficaram fora da
votação, numa abstenção de 21,08%. Território e comparecimento importam porque
modificam o peso relativo dos blocos que já existem. O país material estava ali
antes das plataformas. A capacidade da extrema direita foi conectar
insegurança, desgaste, religião, ressentimento e identidade numa narrativa
nacional suficientemente simples para circular por estruturas muito diferentes.
A esquerda denunciou muitas das falsificações dessa narrativa. Não conseguiu
disputar com a mesma eficácia as condições sociais que a tornavam plausível.
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A derrota estratégica
Chega
um ponto em que continuar descrevendo a eficiência da extrema direita passa a
servir de álibi para a incapacidade do campo democrático. Esse ponto chegou.
Depois de 2018 e 2022, já não era razoável entrar em 2026 sem uma inteligência
preparada para movimentos tardios, redes fechadas, coordenação entre
candidaturas, influência religiosa e assimetrias de comparecimento. O problema
é mais grave porque recursos não faltavam. Havia universidades, institutos,
pesquisadores, movimentos sociais, partidos nacionais, sindicatos, governos,
profissionais de comunicação, estruturas jurídicas, veículos progressistas,
dinheiro de campanha e ferramentas de monitoramento. A abundância de
instrumentos não produziu uma leitura comum.
No
comando da campanha, pesquisa, comunicação, mobilização, território e redes
continuaram funcionando em compartimentos demais. Cada área podia produzir
relatórios tecnicamente competentes e, mesmo assim, o conjunto permanecer sem
direção. A profissionalização criou especialistas, mas não necessariamente uma
inteligência capaz de decidir quais sinais exigiam mudança imediata de
estratégia. Um dashboard pode acompanhar milhares de indicadores e ainda
oferecer apenas uma sensação sofisticada de controle. O que faltou foi síntese
política.
A base
também precisa entrar nessa crítica. A esquerda brasileira construiu sua
história com presença cotidiana em sindicatos, associações, pastorais,
movimentos populares, organizações culturais e trabalho territorial. Parte
dessa capilaridade foi sendo corroída enquanto a extrema direita ocupava novos
espaços de sociabilidade e aprendia a mantê-los ativos fora da eleição. Não
adianta contratar uma operação digital excelente se ela chega a uma comunidade
depois de quem passou quatro anos produzindo pertencimento dentro dela.
Comunicação não corrige sozinha ausência social.
Esse
vazio aparece nos temas entregues ao adversário. Segurança foi tratada por
tempo demais como terreno hostil. Religião frequentemente apareceu como nicho.
O ressentimento contra instituições recebeu muita defesa institucional e pouca
investigação sobre suas bases materiais. Endividamento e precarização entraram
no discurso, mas nem sempre foram traduzidos em uma interpretação política
capaz de reorganizar a experiência de quem vive essas contradições. A extrema
direita ocupou essas fraturas com inimigos fáceis, falsificações, medo e
respostas autoritárias. Denunciar a mentira é obrigação democrática. Acreditar
que a denúncia, sozinha, reconquista o território é uma ilusão estratégica.
O mais
duro é admitir que os alertas existiam. O Senado era uma prioridade declarada
pelo bolsonarismo. O avanço conservador em redes religiosas e territoriais era
conhecido. A diferença de exposição digital entre os eleitorados estava medida.
A recorrência dos movimentos de última hora já tinha precedente. O campo
progressista possuía as peças. Faltou leitura para montá-las antes da apuração.
Produzimos informação em abundância e chegamos ao domingo sem uma doutrina
capaz de dizer quais relações estavam alterando de fato a correlação de forças.
Por
isso a responsabilidade não pode ser empurrada novamente para o instituto, para
a plataforma ou para um eleitor supostamente incompreensível. Depois da
terceira eleição, surpresa deixa de ser uma explicação aceitável. O campo
democrático não perdeu os sinais. Perdeu o sentido dos sinais. Se essa
diferença não for enfrentada, qualquer modernização de campanha corre o risco
de informatizar a mesma cegueira.
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O segundo turno já começou
O
primeiro turno terminou, mas a eleição que ele revelou ainda está sendo
interpretada. Em 25 de outubro, Lula e Flávio Bolsonaro voltarão às urnas
separados por menos de dois pontos percentuais no resultado do primeiro turno.
A tentação será acompanhar diariamente quem ganhou ou perdeu um ponto. Esse
dado continuará importante, mas a principal lição de 4 de outubro é justamente
que a média nacional não basta para explicar a direção do movimento.
O
segundo turno começa sobre um terreno modificado. As candidaturas menores
saíram da disputa, alianças estão sendo reorganizadas, governadores e
lideranças estaduais ganharam novo peso, a vitória da direita no Senado alterou
a percepção de força e milhões de eleitores agora escolhem entre apenas dois
nomes. A tarefa jornalística e estratégica é observar onde a certeza cresce,
quais territórios mudam, como os votos dos derrotados migram, quem pretende
comparecer e quais redes de confiança estão adquirindo capacidade de orientar
essa passagem.
Também
não será suficiente medir a superfície digital. Alcance, visualização e
impulsionamento dizem quanto uma mensagem circulou. O que importa agora é saber
quando circulação começa a produzir organização. Quais intermediários conseguem
transportar uma interpretação entre comunidades diferentes, que lideranças
ganham autoridade e onde uma orientação política passa a ser repetida por
relações pessoais, religiosas e territoriais. O mesmo vale para as ruas.
Mobilização física continua tendo enorme valor, mas precisa ser lida pelo que
consegue ativar depois que o ato termina.
Nada
disso torna a extrema direita inevitável. O primeiro turno mostrou resistência
importante em regiões onde o campo progressista conserva liderança, organização
e presença social. O que desapareceu foi o direito à ingenuidade. A extrema
direita brasileira é hoje um campo institucionalmente forte, territorializado,
financiado, conectado a redes religiosas e digitais e capaz de transformar
rapidamente identidade em ação eleitoral. Dentro dele há setores autoritários e
neofascistas que não escondem sua hostilidade a pilares da democracia.
Subestimá-lo depois de tudo que aconteceu desde 2018 seria menos um erro de
comunicação do que uma recusa em olhar a realidade.
O
segundo turno oferece ao campo democrático a oportunidade imediata de provar
que aprendeu alguma coisa com o primeiro. Depois dele, qualquer que seja o
resultado, a tarefa continuará. Reconstruir presença social, inteligência
estratégica e capacidade de interpretar as relações através das quais as
pessoas dão sentido à própria vida. Nunca tivemos tantos dados sobre o eleitor
brasileiro. O que faltou foi compreender o momento em que dados separados
começavam a formar poder. Enquanto olhávamos para quem aparecia na frente, eles
organizavam relação por relação o caminho que levaria seus eleitores até a
urna.
Fonte:
Código Aberto

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