terça-feira, 6 de outubro de 2026

O que explica a 'multiplicação dos Nikolas' com votações históricas do PL pelo Brasil

"Se um Nikolas em Brasília já incomoda o sistema, imagina dois."

Essa era uma das frases repetidas por Lucas Pavanato (PL-SP) durante o horário eleitoral, em uma peça de campanha que contou com a participação do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).

Influenciador de direita, Pavanato recebeu 3.038.438 votos em São Paulo e se tornou o segundo deputado federal mais votado da história do país aos 28 anos.

O resultado o colocou a poucos milhares de votos do recorde de seu principal espelho político, Nikolas Ferreira.

Com 3,11 milhões de votos, o mineiro, de 30 anos, mais que dobrou a votação que havia recebido em 2022, quando obteve cerca de 1,4 milhão de votos em Minas Gerais.

O recorde anterior pertencia a Eduardo Bolsonaro, que recebeu 1,8 milhão de votos em 2018 para representar São Paulo na Câmara dos Deputados.

A votação consolida Nikolas como uma das figuras de maior projeção do PL — e não apenas pelo tamanho de sua votação.

Ao longo dos últimos anos, o deputado mineiro ajudou a popularizar um modelo de atuação política que saiu das redes sociais e se multiplicou pelo país: jovens políticos de direita que transformam as plataformas digitais não apenas em instrumentos de divulgação, mas em parte central de sua atuação política.

O caso de Pavanato em São Paulo é o exemplo mais evidente dessa "multiplicação".

Vereador mais votado da capital paulista em 2024, com cerca de 160 mil votos, Pavanato começou na política como assessor de Fernando Holiday, então vereador de São Paulo, e participou ainda jovem das manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff.

Nos últimos dois anos, consolidou-se como um dos principais nomes da direita jovem no Estado e ampliou sua presença nas redes. Hoje, ele acumula cerca de 5,2 milhões de seguidores no Instagram, onde publica vídeos que combinam política, humor, abordagens nas ruas e confrontos com adversários — uma estratégia semelhante à adotada por Nikolas Ferreira, apontado pelo analista político Creomar de Souza como fundamental para a visibilidade de sua campanha.

"O grande responsável pela construção da visibilidade da campanha de Pavanato nesta eleição foi Nikolas Ferreira, que apareceu, que fez comício, que estava nas peças, que divulgou e apoiou e, ao fim do dia, tem esse resultado em sua cota pessoal", afirma Souza.

O fenômeno, contudo, não se restringiu a São Paulo. Principal aposta do PL no Espírito Santo, Lucas Polese recebeu 419.735 votos e foi o deputado federal mais votado da história do Estado.

O jovem de 29 anos fez campanha ao lado de Nikolas e usou a imagem e declarações de apoio do deputado mineiro em seu horário eleitoral. A proximidade entre os dois chegou a render a Polese o apelido de "Nikolas capixaba" no Estado.

Assim como Nikolas, Polese construiu parte importante de sua atuação política no ambiente digital e em movimentos da direita. Tem cerca de 290 mil seguidores no Instagram e se tornou um dos principais opositores do ex-governador Renato Casagrande (PSB).

Já no Ceará, André Fernandes (PL) recebeu 684.372 votos e foi reeleito deputado federal, com votação recorde, que superou nomes tradicionais da política, como Ciro Gomes. Ele também recebeu apoio de Nikolas no Estado.

André tem 29 anos e ganhou notoriedade como youtuber, produzindo vídeos de humor na internet, e depois, sobre política. Ele foi eleito deputado estadual em 2018, aos 20 anos, tornando-se um dos mais jovens do país. Depois, foi eleito deputado federal pelo PL.

Esse modelo de político também alcançou candidatos de outros partidos, mas que receberam apoio explícito de Nikolas. No Paraná, Guilherme Kilter (Novo), de 24 anos, obteve 269.832 votos e foi o segundo deputado federal mais votado do Estado.

Vereador de Curitiba, Kilter é líder de jovens e universitários da Primeira Igreja Batista de Curitiba, onde atua há mais de sete anos, e construiu parte de sua trajetória política a partir da produção de conteúdo cristão nas redes sociais. Hoje, soma cerca de 1 milhão de seguidores no Instagram.

Embora não seja filiado ao PL, recebeu apoio público de Nikolas durante a campanha — que o apresentou aos eleitores paranaenses como seu candidato no Estado.

Mas a multiplicação de "Nikolas" pelo Brasil não se deteve à disputa para a Câmara dos Deputados ou ao gênero masculino.

Em São Paulo, a vereadora de Praia Grande Eduarda Campopiano (PL), de 23 anos, foi a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa, com mais de 1,9 milhão de votos.

Aliada de Pavanato, Eduarda também construiu sua trajetória política nas plataformas digitais, onde defende pautas conservadoras e de direita, e faz críticas ao feminismo. Ela tem mais de 2,3 milhões de seguidores no Instagram.

Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, uma das características que ajudam a explicar esse fenômeno é o domínio da linguagem das redes sociais por essa nova geração de políticos, em uma sociedade cada vez mais conectada.

"Esses jovens conseguem confrontar e fazer cortes para as suas redes sociais, não raro, com lacração e memes. Isso tudo condiz com a lógica dos algoritmos que impulsionam todos os sentimentos mais extremados: medo, raiva, ódio, frustração, angústia e descrédito. São, em síntese, jovens digitais numa política ainda analógica", afirma.

Na avaliação de Eliara Santana, doutora em Estudos Linguísticos pela Unicamp e pesquisadora do Observatório das Eleições/IEPI, porém, a ascensão desses políticos não deve ser entendida apenas de uma geração de "políticos influenciadores", mas como uma transformação mais ampla na relação entre política e mídia.

"Eu não falaria no surgimento de um político influenciador, mas num cenário de um mundo que é político-midiático e em que nós não podemos mais separar essas duas instâncias", afirma.

Segundo ela, nesse ambiente, as redes sociais deixam de ser apenas uma ferramenta para divulgar a atuação de um político e passam a fazer parte da própria construção de sua identidade política.

Um dos elementos que ajudam a explicar a força desse modelo, segundo Santana, é a capacidade de transformar diferentes insatisfações e anseios em uma linguagem de fácil acesso.

O discurso, diz ela, produz identificação ao apresentar uma ideia de empoderamento e possibilidade de mudança.

"Há anseios novos, desejo de mudança, de melhorar de vida da população. E esses jovens políticos influenciadores captam esses anseios, esses desejos, e conseguem transformar isso em uma linguagem muito acessível e palatável em discurso, que não é vazio, é muito potente", afirma.

Para ela, esse é um dos motivos pelos quais reduzir o fenômeno à performance nas redes seria insuficiente.

"Não é só a performance em si, mas existe a construção de um discurso."

Para Carlos Machado, professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), a reprodução desse modelo também passa por uma mudança na forma como parte dos eleitores escolhe seus representantes. Mais do que avaliar propostas ou plataformas, diz ele, a identificação com determinadas figuras políticas ganha peso.

"Não é algo apenas do Pavanato. São pessoas das redes sociais que se especializaram no uso de redes sociais. Há uma reprodução da técnica usada pelo Nikolas", afirma.

Segundo Machado, as redes sociais ampliam um mecanismo que já existia na política: a escolha baseada em identificação simbólica com o candidato. A diferença é que as plataformas permitem que essa identificação seja construída e reforçada continuamente, por meio da exposição direta e constante do político ao eleitor.

<><> A conexão com as igrejas

A atuação desses políticos também não começa necessariamente nas redes sociais.

Segundo Santana, a conexão desses jovens com as igrejas tem um papel fundamental construção dessa militância e de circulação de discursos políticos.

"Essa turma articula via igrejas. As igrejas são muito potentes na organização discursiva, em construir mundos de sonhos."

Nikolas Ferreira tem ligação com a Igreja Batista da Lagoinha. André Fernandes tem ligação familiar com a Assembleia de Deus no Ceará, da qual seu pai, o pastor e deputado estadual Alcides Fernandes, faz parte. Pavanato, por sua vez, mantém atuação junto à Igreja Católica.

"Eles já têm uma arena, não são apenas influenciadores de um espaço digital. É como se fossem meninos religiosos que estão na política, mas que conseguem atingir também aqueles que querem discutir as preocupações dos cristãos na política.”

Santana cita, como exemplo, o livro O Cristão e a Política, publicado por Nikolas Ferreira, em que ele apresenta uma perspectiva segundo a qual os cristãos devem ocupar o espaço político para evitar que ele seja ocupado por aqueles que não compartilham de sua fé.

"Ele diz: 'O cristão deve se apropriar da política, porque, se o cristão não se apropria da política, outros vão se apropriar'", afirma.

Para a pesquisadora, há sim uma “multiplicação de Nikolas“ pelo Brasil, mas que não foram criados de forma individual, mas desenvolvidos com sucesso a partir de um modelo mais amplo que integra política, religião e redes sociais.

"Nikolas é um modelo, mas está calcado num modelo político-discursivo-midiático que é muito potente. É um modelo da extrema direita que vem dos Estados Unidos, está formado ali nas igrejas neopentecostais e que encontrou no Brasil um terreno muito fértil com o bolsonarismo", afirma.

"Ele se apropriou, ele desenvolveu muito bem, e isso está se espalhando pelo Brasil", diz.

•        De 1,3 milhão a 5 mil votos: como cearenses derrubaram Tiririca após 14 anos eleito por SP

Conhecido pelo bordão "Pior que tá, não fica", o humorista Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca (PSD), não conseguiu se reeleger deputado federal nas eleições deste domingo (4/10).

Depois de ser o deputado mais votado de 2010, com mais de 1,3 milhão de votos em São Paulo em 2010, e se reeleger mais três vezes pelo Estado, Tiririca decidiu mudar de partido e transferir sua candidatura para sua terra natal, o Ceará.

Não deu certo: ele obteve 5.523 votos em sua primeira disputa no Estado nordestino, bem longe do necessário para ocupar uma das 22 cadeiras do Estado na Câmara dos Deputados.

É a primeira derrota de Tiririca nas urnas, que deixará o cargo ao fim da atual legislatura, em 31 de janeiro de 2027.

Natural de Itapipoca, no interior cearense, Tiririca começou a carreira no circo ainda criança e ficou famoso nos anos 1990 com a música 'Florentina' e com programas de humor na TV.

<><> Legado político

Tiririca chegou à política em 2010 com uma campanha que ironizava os próprios políticos. Antes de tomar posse, teve de provar à Justiça Eleitoral que sabia ler e escrever.

O Ministério Público Eleitoral o acusou de apresentar uma declaração falsa de alfabetização, e ele passou por um teste de leitura e ditado no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Acabou absolvido.

Na Câmara, ficou conhecido pela assiduidade e pela atuação discreta. Não faltou a nenhuma sessão de votação no primeiro mandato, mas fez apenas seis discursos em plenário desde 2011.

A maior parte de seus projetos trata do circo. O de maior destaque foi o projeto que alterava a Lei Rouanet de incentivo à cultura para reconhecer a atividade circense como manifestação cultural nacional. Foi aprovado pelas comissões da Câmara em 2017, mas acabou arquivado pelo Senado em 2024.

O discurso mais lembrado foi em 2017, quando disse estar decepcionado com a política e anunciou que não disputaria outra eleição. Voltou atrás no ano seguinte.

Em novembro de 2025, Tiririca anunciou sua mudança do PL para o PSD.

Fora do plenário, ganhou outra vitrine. Segundo um levantamento da Nexus divulgado pelo site PlatôBR em julho, Tiririca tem cerca de 7 milhões de seguidores no TikTok, onde publica vídeos de humor sem conteúdo político. É o quarto parlamentar com mais engajamento na plataforma.

<><> Votos em declínio

Em 2010, Tiririca surpreendeu todo o país ao receber 1.353.820 votos.

Foi o deputado federal mais votado do Brasil e teve a segunda maior votação da história para o cargo, atrás apenas de Enéas Carneiro, em 2002.

O excesso de votos ajudou a eleger outros candidatos da coligação, que individualmente tiveram votações pequenas, o chamado efeito puxador.

Depois disso, a votação caiu a cada eleição: 1.016.796 votos em 2014, 453.855 em 2018 e 71.754 em 2022.

Na última disputa por São Paulo, foi o último colocado entre os eleitos. Conquistou a vaga nas sobras, graças ao desempenho do partido.

Tiririca atribuiu parte da queda de 2022 a uma disputa no PL. Naquele ano, o partido passou para o deputado Eduardo Bolsonaro o número de urna 2222, que o humorista usava desde 2010.

"Isso é como transferir boa parte dos meus votos para Eduardo Bolsonaro", afirmou na época, em entrevista ao UOL.

Em novembro de 2025, ele deixou o PL, se filiou ao PSD e transferiu o domicílio eleitoral para o Ceará.

"É uma felicidade imensa estar de volta ao meu Ceará e, se Deus quiser, vamos fazer um mandato sensacional agora com o apoio do PSD", declarou, em nota divulgada pelo partido.

<><> Reação nas redes

Nas redes sociais, a derrota virou motivo de comentário entre usuários que se identificavam como cearenses, e boa parte das mensagens tinha tom de orgulho regional.

"Aqui no Ceará tiririca não ganha", escreveu um usuário do X.

"Tiririca pensa que se cria aqui no Ceará", publicou outra.

Alguns associaram o resultado ao comportamento do eleitor local.

"Tiririca veio se candidatar no Ceará, acho que ele não sabe que aqui a gente estuda e pesquisa antes de dar um voto", afirmou um deles.

<><> Tiririca não foi o único

Tiririca não foi o único nome conhecido a buscar votos longe da base eleitoral de origem nesta eleição, e os resultados variaram.

O ex-deputado Jean Wyllys (PT), que teve três mandatos pelo Rio de Janeiro quando era filiado ao PSOL, disputou uma vaga na Câmara por São Paulo e recebeu 18.073 votos, insuficientes para se eleger.

Já Carlos Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e vereador do Rio de Janeiro por sete mandatos, transferiu o domicílio eleitoral para Santa Catarina e foi eleito senador, com cerca de 25% dos votos.

Diferentemente da disputa para a Câmara, a eleição para o Senado é majoritária: ficam com as vagas os candidatos mais votados, sem a distribuição de cadeiras pelos votos dos partidos.

Outras celebridades também ficaram sem mandato. Em São Paulo, não se elegeram deputados federais a apresentadora Silvia Abravanel e a jornalista Rachel Sheherazade, ambas do PSD, que tiveram cerca de 22 mil votos cada uma.

Também ficaram de fora o apresentador José Luiz Datena (PSB), o cantor Netinho de Paula (MDB), o funkeiro MC Gui (PSD) e Manoel Gomes, o Caneta Azul.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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