terça-feira, 6 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro e o risco de um presidente com esqueletos no armário

O Brasil que sai do primeiro turno está flertando com uma crise institucional permanente. Flávio Bolsonaro teve 2,2 milhões de votos a mais que Lula, ficando em 47% dos votos versus 45,1% do atual presidente. Se eleito, Flávio teria uma bancada de 28 nomes no Senado e 121 na Câmara dos Deputados apenas do PL, seu partido, um desempenho histórico.

Mas Flávio Bolsonaro é um candidato com muitos esqueletos no armário. Está enredado em vários escândalos e corrupção dos quais, hoje, conseguimos ter apenas um vislumbre, mas que vão se aprofundar nos próximos meses. E isso levará necessariamente a um governo maculado por revelações do seu primeiro ao seu último dia.

A jornalista Flávia de Oliveira chamou a atenção para o fato de que, por conta da ação de André Mendonça de manter sigilo do caso Master, Flávio é o único candidato investigado por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas – e o eleitor não foi informado disso a tempo.

Mesmo que você esteja acompanhando as notícias, é possível que tenha perdido as revelações mais recentes. 

Pois vamos a elas.

Primeiro, as rachadinhas, esquema de desvio de verba pública dos mandatos de Jair Bolsonaro e seus filhos através de saques em dinheiro vivo de funcionários, que depois repassavam à família, das quais Flávio sempre foi figura central. O resultado foi demonstrado há alguns anos pelos jornalistas Juliana Dal Piva e Thiago Herdy: 51 imóveis dos Bolsonaro foram pagos parcialmente em dinheiro vivo. O processo judicial das rachadinhas foi extinto pelo STJ, que questionou a quebra de sigilo fiscal, mas as evidências existem e podem gerar novas investigações. 

Segundo, vamos ao caso Master. Ainda hoje sabe-se apenas parcialmente sobre a relação entre Flávio e Daniel Vorcaro. Além do financiamento generoso do filme Dark Horse e dos muitos diálogos resgatados do celular de Vorcaro, não sabemos qual o valor real dos depósitos, que tipo de dinheiro criminoso foi usado para o pagamento pela empresa Entre Investimentos, que lavava inclusive dinheiro para o crime organizado, e nem para que fim o dinheiro foi usado nos EUA. Não se sabe, ainda, que outros favores e apoios foram prestados pelo banqueiro para Flávio – com quem ele tinha uma relação de amizade, segundo demonstram os diálogos completos publicados pela revista piauí: são 50 mensagens de Flávio, 46 de Vorcaro e 14 ligações – oito delas atendidas. Sempre se tratando como “irmãos”, Flávio chegou a oferecer a Vorcaro uma reunião com Eduardo Bolsonaro em Dubai em novembro do ano passado: “Tá precisando de algo lá? Peço pra ele te encontrar”. Além disso, jantares, cafés da manhã e muitas ligações organizadas entre os dois.

A mesma revista revelou, ainda, que Flávio e Vorcaro viajaram para Fort Lauderdale, na Flórida, no feriado prolongado de 1º de maio de 2025, tendo passado 3 dias ao mesmo tempo no balneário, apenas dias depois do primeiro depósito de Vorcaro para o filme Dark Horse. É provável que tenham passado e celebrado juntos em uma das famosas festas de Vorcaro nestes três dias. Ainda não sabemos até onde foi essa relação.

Terceiro, a ligação próxima com o “Careca de INSS”. Como revelou o ICL, Flávio tem uma empresa de capacetes que está registrada no mesmo lugar de empresas do operador financeiro do esquema que desviava verba dos aposentados e causou prejuízo de R$ 2 bilhões aos cofres públicos. Além de usar o mesmo escritório, a empresa de Flávio usava a mesma contabilidade de Antonio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como “Careca do INSS”, atualmente preso.

Quarto, os indícios de corrupção na gestão de hospitais públicos no Rio de Janeiro, inclusive durante a pandemia de Covid. Em uma reportagem bastante detalhada aqui na Agência Pública, mostramos como Flávio comandava as decisões administrativas e indicações para a gestão dos hospitais federais durante a epidemia. Há diversos indícios de superfaturamento e má conduta em diversos destes hospitais, segundo investigações do TCU e outros órgãos. Esta história está só no começo.

Quinto, a figura do advogado Willer Tomáz começa a aparecer como uma sombra sobre o passado de Flávio. O advogado já foi descrito como amigo de Flávio pelo próprio, viajou com ele para um safári na África do Sul e usou o jatinho de Willer em sociedade com Daniel Vorcaro. Willer Tomaz atualmente é investigado pela PF depois de iniciar um processo judicial no qual alega que apostou R$ 6,6 bilhões na bet Blaze por “ludopatia” e tenta recuperar R$ 163 milhões.

Sexto, possível lobby junto ao ministro do STF Kassio Nunes, um expediente descrito por Rodrigo Rangel na sua reportagem sobre a relação de Flávio Bolsonaro com Alexandre Ferreira Dias Santini, ex-sócio seu na fábrica da Kopenhagen, publicado no site Platô. Nas palavras do jornalista, Flávio era um “resolvedor-geral da República” durante o governo de Jair Bolsonaro e teria recebido mimos por isso, incluindo um rolex de 300 mil reais. Rangel é uma das pessoas em Brasília que tem muito mais documentos sobre a relação de Flávio e o ex-sócio, mas não o único. Dentre o material descrito na reportagem estão notas fiscais, relatos, fotos “impublicáveis” de Flávio em orgias com o ex-sócio, segundo descrito na reportagem. Mais gente tem esses documentos – eles vão acabar vindo à tona.

Se for eleito, Flávio Bolsonaro terá as investigações do caso Master suspensas, segundo análise do Jota. Mas o jornalismo investigativo continuará a fazer o seu papel.

Temos um presidente maculado por corrupção e escândalos variados antes mesmo de pisar no Palácio do Planalto. Não há bancada forte que segure o impacto disto sobre a opinião pública. Além disso, vale lembrar, a liderança de Flávio é contestada mesmo dentro das fileiras do Bolsonarismo. A bancada eleita tem sua agenda própria e desafetos variados que não vão tardar a aparecer.

Portanto, esta coluna é um aviso. Se o Brasil eleger Flávio Bolsonaro, não estamos flertando apenas com um governo de viés autoritário, mas com um governo que será maculado por escândalos e turbulências, assombrado por ex-sócios, fotos e vídeos “impublicáveis”, e que para se manter no poder só terá o caminho de chafurdar-se mais ainda na lama e perseguir a imprensa e os oponentes – como fez Trump nos EUA.

Para quem busca “estabilidade”, “previsibilidade” e “segurança fiscal”: está dado o recado.

<><> Lula diz que vai comparar biografias com Flávio e afirma: ‘jogo vai começar’

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) disputarão o segundo turno da eleição presidencial. Com 99,75% das urnas apuradas, Flávio tinha 47,08% dos votos, contra 45,10% de Lula.

Em seu primeiro pronunciamento após o resultado, Lula afirmou que a disputa entra agora em uma nova etapa e que sua campanha será baseada na comparação entre as trajetórias e os projetos dos dois candidatos.

“O jogo vai começar”, afirmou Lula. “Estamos na prorrogação.”

Lula afirmou que, a partir desta semana, começa uma nova etapa da campanha. Ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), candidato à reeleição na chapa, o presidente disse estar convencido de que a disputa será decidida pela apresentação dos projetos para o país.

O presidente também disse que pretende comparar sua trajetória com a de Flávio Bolsonaro. Ao se referir ao adversário, Lula afirmou que ele tem uma “biografia tenebrosa” e comentou as denúncias que vieram à tona nas últimas semanas.

“É uma biografia tenebrosa, com ligações tenebrosas, com suspeitas gravíssimas, com relação com os milicianos, com relação com o crime organizado, com relação com os assassinatos do Rio de Janeiro”, disse Lula.

“Também com a participação da criação do Banco Master, que resultou não apenas na maior corrupção desse país, mas também na maior orgia envolvendo políticos e autoridades desse país. Tudo isso vai ficar claro”, completou.

Na sequência, o presidente concentrou o discurso nas realizações e nas propostas que pretende apresentar ao eleitorado. Ele afirmou que pretende mostrar “o que foi feito e o que a sociedade espera que seja feito”.

Entre as prioridades citadas por Lula estão investimentos em educação, universidades, pesquisa e tecnologia, institutos federais e ensino médio. O presidente também falou em ampliar o Pé-de-Meia e a oferta de escolas em tempo integral.

“A gente vai mostrar o que foi feito e o que a sociedade espera que seja feito. E ninguém mais do que nós pode oferecer à sociedade brasileira um futuro. Um futuro que passa pelo investimento na educação brasileira”, disse.

“Não há nenhuma possibilidade desse país dar um salto de qualidade que ele enfrenta para se transformar num país competitivo do ponto de vista internacional, do ponto de vista da sua capacidade de produção, da sua capacidade intelectual, da sua capacidade de dar um salto, e se transformar em uma economia e uma sociedade que possa alcançar um estado de bem-estar social”, completou Lula.

Lula também defendeu a continuidade das políticas de desenvolvimento industrial e citou a chamada Nova Indústria Brasil. Segundo ele, o governo pretende continuar investindo na indústria farmacêutica para ampliar a produção nacional de medicamentos.

O presidente mencionou ainda o fortalecimento do Farmácia Popular e do Sistema Único de Saúde (SUS), além de políticas de inclusão social.

<><> Lula convoca eleitores que não votaram

Outro ponto destacado pelo presidente foi a abstenção no primeiro turno. Lula afirmou que mais de 20 milhões de eleitores não compareceram às urnas e fez um apelo para que essas pessoas participem do segundo turno.

“Nesse momento histórico do Brasil, o voto é necessário para a gente defender o futuro desse país”, disse.

Lula afirmou que descansará na segunda para conversar com a família, mas que retomará a campanha na terça-feira (6). Em tom de provocação aos adversários, declarou: “Na terça-feira, todos os bolsonaristas se preparem, porque nós vamos derrotá-los”.

O presidente encerrou sua fala comparando a eleição a um campeonato de futebol.

“Termina a primeira fase do Campeonato Brasileiro. E a segunda fase é para o Lula e para o Alckmin ganharem as eleições e continuarem governando esse país”, concluiu.

•        Só com frente ampla Lula poderá reverter favoritismo de Flávio, diz Felipe Nunes, da Quaest

O presidente Lula precisará reconstruir uma frente ampla e ampliar seu eleitorado para tentar reverter o favoritismo de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial. A avaliação é de Felipe Nunes, diretor da Quaest, em análise publicada pela Globo.

Segundo Nunes, Flávio chega à etapa decisiva em uma posição historicamente favorável. O pesquisador destaca que, nas eleições presidenciais brasileiras, os candidatos que encerraram o primeiro turno na liderança acabaram vencendo a disputa no segundo.

<><> Voto útil fortaleceu Flávio na reta final

Na avaliação do diretor da Quaest, um dos movimentos determinantes da reta final foi a consolidação do chamado voto útil no campo da direita. Eleitores que anteriormente declaravam apoio a candidaturas alternativas migraram para Flávio Bolsonaro, que avançou oito pontos.

Nunes considera que o fenômeno também revela uma mudança estrutural no comportamento do eleitor brasileiro. A identificação ideológica ganhou importância e passou a orientar de maneira mais clara as escolhas eleitorais.

Segundo ele, apenas 4% dos eleitores atualmente não se identificam com a esquerda, a direita ou o centro. Em 2002, essa parcela chegava a 25%. Nesse novo ambiente, valores, identidades políticas e visões de mundo passaram a ter peso crescente na definição do voto.

<><> Insatisfação ajudou oposição

Outro elemento apontado por Nunes é a insatisfação de uma parcela do eleitorado com o governo. A avaliação negativa da administração, a ausência de uma percepção mais disseminada de melhora no bem-estar e a dificuldade de responder a algumas das principais preocupações da população teriam alimentado o desejo de mudança.

Escândalos e crises políticas também contribuíram para esse ambiente. Segundo a análise, uma parcela dos eleitores passou a interpretar esses episódios como problemas do próprio sistema político, e não necessariamente de uma candidatura específica.

Entre os eleitores identificados com a direita, por exemplo, Nunes avalia que a explicação apresentada pela campanha de Flávio Bolsonaro para o episódio envolvendo o áudio com Vorcaro foi aceita.

<><> Frente ampla será decisiva para Lula

Para Felipe Nunes, o principal desafio de Lula agora é reconstruir a coalizão política e social ampla que poderá sustentar uma virada no segundo turno.

Isso significa buscar novamente setores que estiveram próximos do presidente em outros momentos, mas que se afastaram do governo ou optaram por candidaturas alternativas no primeiro turno. Entre esses grupos estão eleitores de perfil liberal no campo social e segmentos que se sentiram decepcionados com a atual gestão.

Os votos destinados aos demais candidatos podem ter papel central. Juntos, eles representam cerca de 8% do eleitorado — contingente expressivo em uma eleição apertada.

A tarefa, porém, não será simples. Parte desses eleitores rejeita simultaneamente Lula e Flávio Bolsonaro, o que torna a disputa por esse segmento especialmente difícil.

<><> Abstenção e debates podem abrir caminho

Outra frente para a campanha de Lula será a mobilização dos eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno. A redução da abstenção pode alterar a composição do eleitorado e abrir espaço para a recuperação do presidente.

Os debates também ganham importância nessa nova etapa. Diferentemente do primeiro turno, a disputa direta oferece a Lula a oportunidade de confrontar seu adversário e tentar convencer tanto os indecisos quanto os eleitores que hoje rejeitam as duas candidaturas.

Na avaliação de Nunes, portanto, a possibilidade de virada passa por uma combinação de estratégias: recompor a frente ampla, recuperar eleitores decepcionados, disputar os votos das candidaturas eliminadas e mobilizar quem ficou fora da primeira votação.

<><> Rio teve dinâmica própria

O diretor da Quaest também analisou o resultado eleitoral no Rio de Janeiro, onde identificou uma dinâmica particular. Segundo ele, a situação judicial de Garotinho abriu espaço para o crescimento da candidatura de Douglas Ruas.

Nunes destaca ainda o peso das igrejas evangélicas na formação do voto no estado, elemento que ajudou a produzir uma configuração eleitoral diferente daquela observada em outras regiões do país.

Com o segundo turno aberto, a avaliação do diretor da Quaest indica que Lula terá de ampliar significativamente sua coalizão para alterar uma correlação de forças que, neste momento, favorece Flávio Bolsonaro.

 

Fonte: Por Natalia Viana, em Agência Pública/ICL Notícias/Brasil 247

 

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