quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Francisco Calmon: O Brasil não merece um bandido na gestão pública

Mantido mais ou menos o quadro que saiu das urnas no domingo, ainda que não sejam essas distâncias todas, algumas conclusões já podem ser tiradas. A chamada terceira via, a direita tradicional, praticamente deixou de existir como alternativa própria. Foi sequestrada pela extrema direita. E o que se consolidou é uma polarização entre a extrema direita e Lula, o que, para uma democracia, não é exatamente uma boa notícia.

Quando uma parcela tão grande da direita tradicional passa a gravitar em torno do bolsonarismo e não consegue construir um caminho próprio, o espaço de disputa política vai ficando cada vez mais estreito.

E o resultado do Senado é talvez ainda mais significativo. A extrema direita praticamente dobrou sua presença e o PL passou a ser, de longe, a maior bancada da Casa. Isso mostra que não estamos falando apenas de uma onda eleitoral passageira ou de uma candidatura presidencial. Existe uma estrutura política montada, com bancada, dinheiro, redes sociais, produção permanente de conteúdo e uma capacidade enorme de ocupar o imaginário popular. Flávio Bolsonaro ter chegado ao segundo turno praticamente empatado com Lula é apenas a expressão presidencial de uma força que já está muito mais espalhada pelo Estado brasileiro.

Isso também nos obriga a olhar para a própria história do Brasil. A direita praticamente sempre governou este país. Quando olhamos para a nossa história republicana, são poucos os períodos em que governos identificados com a esquerda estiveram no comando. João Goulart, Lula e Dilma são exceções dentro de uma história marcada por governos conservadores, liberais, militares ou de centro-direita. E há uma questão ainda mais importante: mesmo quando a esquerda chegou à Presidência, nunca teve, de forma consistente, maioria de esquerda no Congresso.

Lula governou cercado por um Congresso majoritariamente conservador. Dilma também. Jango igualmente enfrentou uma correlação de forças que estava longe de ser favorável ao seu projeto. Portanto, não é correto imaginar que o Brasil foi um país governado pela esquerda e que agora estaria simplesmente “voltando para a direita”. A direita nunca deixou de ser a força predominante na estrutura política brasileira.

É nesse ponto que precisamos voltar aos erros da própria esquerda. Desde que abandonou um projeto de transformação mais profunda da sociedade e passou a apostar quase exclusivamente no republicanismo institucional, na conciliação e na administração do Estado, foi ficando cada vez mais dependente da figura de Lula. Lula se tornou o líder quase isolado de um campo inteiro.

Outros foram perdendo espaço, outros baixaram a cabeça e passaram a funcionar quase como teleguiados por uma liderança centralizadora. E a idade de Lula torna essa questão ainda mais urgente. Não existe um projeto de esquerda suficientemente forte se ele depender permanentemente de uma única pessoa.

A insistência em Haddad é outro exemplo disso. Mais uma vez ele foi colocado na vitrine para testar se teria condições de ser uma alternativa futura a Lula, mas os resultados eleitorais continuam mostrando uma dificuldade de transferência de força política. Talvez o problema esteja justamente em insistir na procura de um sucessor dentro dos mesmos nomes e da mesma lógica.

O desafio não é simplesmente descobrir quem vai substituir Lula. É saber se existe hoje um projeto capaz de sobreviver a Lula.

Enquanto isso, Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno carregando toda a herança política da família e uma série de controvérsias que, para parte significativa do eleitorado, parecem não ter o peso que poderiam ter. Rachadinhas, investigações, Banco Master, lavagem de dinheiro, associação com milicianos, relações e ações políticas contra o trabalhador brasileiro, tentativa de golpe e toda uma sequência de escândalos não foram suficientes para impedir que quase metade dos votos válidos fosse para ele no primeiro turno.

Isso é um fato político que a esquerda precisa compreender, e não simplesmente tratar o eleitor como ignorante, manipulado ou incapaz de perceber o que está acontecendo.

Porque existe uma contradição enorme nesse país. O mesmo eleitor que precisa do SUS, que precisa de escola pública, que precisa de alimentação, de moradia, de emprego e de direitos trabalhistas pode olhar para essas mesmas políticas e rejeitá-las porque foram identificadas como políticas “de esquerda”. Enquanto isso, a extrema direita consegue vender a ideia de que cada indivíduo é responsável sozinho pelo próprio sucesso, que basta trabalhar, se esforçar e ter mérito.

É a velha lógica meritocrática do neoliberalismo sendo apresentada como se todos partissem exatamente do mesmo lugar.

Mas não partem. O Brasil continua sendo um dos países mais desiguais do mundo. Enquanto trabalhadores enfrentam jornadas exaustivas, inclusive na escala 6×1, com pouco tempo para a família, para o descanso e para a própria vida, os setores mais ricos continuam tendo acesso a privilégios econômicos e formas de proteção patrimonial que o trabalhador comum jamais terá. E, quando se discute reduzir jornada, acabar com a escala 6×1 ou ampliar direitos trabalhistas, parte do empresariado imediatamente se coloca contra, enquanto continua utilizando o discurso de “Deus, Pátria e Família”.

Mas que família é essa? Porque defender a família também deveria significar defender o direito de uma mãe e de um pai terem tempo para estar com seus filhos. Deveria significar defender um trabalhador que não passa a maior parte da semana trabalhando e o restante tentando recuperar o corpo para voltar ao trabalho. Deveria significar defender condições mínimas para que as pessoas possam viver, e não apenas sobreviver.

Setores que se apresentam como patriotas defendem políticas que podem ampliar a dependência econômica e tecnológica do Brasil, a abertura de nossos recursos estratégicos e a entrega de riquezas nacionais a interesses estrangeiros. Fala-se em soberania enquanto se aceita uma relação subordinada com os Estados Unidos. Fala-se em pátria enquanto se discute a entrega de recursos estratégicos brasileiros.

Fala-se em família enquanto se combate a ampliação de direitos que poderiam melhorar concretamente a vida dessas próprias famílias e acabar com a escala 6×1, e vendem a fajuta flexibilização trabalhista em que você é aliciado pelo patrão na falsa “negociação trabalhista”.

A extrema direita, entretanto, entendeu uma coisa que a esquerda muitas vezes parece ter esquecido: política também é disputa de imaginário. Eles produzem conteúdo o tempo inteiro. Repetem suas mensagens até que elas se tornem senso comum. Transformam meritocracia em valor moral, individualismo em liberdade, desigualdade em falta de esforço e direitos sociais em privilégios. E conseguem fazer com que uma parte da população enxergue como inimigo justamente aquilo que poderia melhorar suas próprias condições de vida.

O resultado de ontem é consequência disso. Não surgiu do nada. É resultado de décadas de uma estrutura política em que a direita sempre teve enorme presença no Estado, no Congresso, nos meios econômicos e na formação da opinião pública. A esquerda chegou ao governo algumas vezes, mas nunca conseguiu transformar essa correlação de forças de maneira profunda.

E, quando deixou de disputar um projeto de transformação da sociedade para se limitar cada vez mais à disputa institucional, abriu um espaço que a extrema direita ocupou com enorme velocidade.

Agora temos uma situação em que uma parcela expressiva da população está disposta a colocar novamente o bolsonarismo no centro do poder, enquanto o Senado passa a ter uma presença muito maior da extrema direita.

Parte considerável do povo brasileiro elegeu ontem representantes que defendem menos direitos trabalhistas, menos proteção social, mais concentração de renda e maior alinhamento aos interesses econômicos externos e quase elegeu, no primeiro turno, o homem que vai privatizar e concretizar o que o Senado, agora mais fortalecido do que nunca, já vem fazendo há séculos.

É preciso olhar para a ida ao segundo turno com Flávio à frente. O cenário envolve também a correlação de forças no Congresso, especialmente no Senado, onde a direita já possui uma presença significativa e poderá ampliar sua capacidade de pressão sobre o Supremo Tribunal Federal e de influência na escolha de novos ministros. A composição do STF pode mudar profundamente nos próximos anos, caso o próximo governo tenha condições políticas de indicar quatro ou cinco ministros. Cabe discutir as escolhas feitas pelo governo Lula na formação da atual Corte e o peso que uma maior diversidade, inclusive com a indicação de uma mulher negra, poderia ter tido na representação política do Supremo.

No primeiro turno de 2026, mais de 33 milhões de eleitores não compareceram às urnas, correspondendo a 21,08% do eleitorado — o maior percentual desde 1998. São milhões de brasileiros que, por diferentes razões, ficaram fora da decisão eleitoral; há a necessidade de compreender quem são esses eleitores ausentes e o que explica esse afastamento tão significativo das urnas.

O Brasil já viveu isso antes. Marx diz que a história se repete primeiro como farsa, depois como tragédia, exatamente da mesma forma, e eleger Flávio significa a volta da ditadura sem farda, o que nos leva a uma tragédia sem precedentes.

Quando a desigualdade, o medo, o anticomunismo, o discurso moralista e a promessa de ordem são utilizados para mobilizar a população contra seus próprios interesses, o resultado pode ser uma sociedade cada vez mais autoritária e desigual. O que está em jogo agora, portanto, é muito maior do que a disputa entre dois candidatos. É a disputa pelo sentido do Brasil que será construído depois desta eleição.

Somos resilientes, lutamos por 21 anos contra a ditadura e vencemos; no momento lutaremos por alguns dias e venceremos e impediremos o fascismo genocida na presidência.

•        Entenda por que Flávio Bolsonaro é um inimigo, não um adversário conjuntural. Por Fábio Maia Sobral

O dia 4 de outubro de 2026 marcou uma derrota da candidatura de Lula no primeiro turno das eleições presidenciais. Precisamos repensar a campanha para o segundo turno. O objetivo deste texto não será o de avaliar as condições estruturais da derrota parcial, mas o de elaborar propostas que, eu creio, possibilitariam a vitória no segundo turno.

O primeiro passo é reconhecer que não se trata de uma disputa entre adversários conjunturais, mas de um antagonismo profundo: enfrentamos um inimigo. A luta de classes atravessa estas eleições. A candidatura de Lula deve reafirmar-se como expressão da defesa do trabalho e das camadas trabalhadoras — condição que perdemos e que hoje é contestada pela acusação de desestimular o esforço produtivo e a busca por melhores condições de vida. Nós somos os que defendemos o trabalho e as camadas trabalhadoras.

Devemos combater compreensões erradas sobre os programas governamentais, tais como o Bolsa Família. Este programa é essencial para manter a atividade econômica na indústria, no setor de serviços e na moradia. Sem ele, o empreendedorismo perderia um mercado significativo. A direita se apresenta como defensora dos empreendedores e das empreendedoras, mas isso não é verdade. Ao eliminarem programas sociais, a atividade empreendedora desabaria, provocando a falência de muitos pequenos negócios.

O Bolsa Família cumpre uma função decisiva na elevação dos salários. Ao assegurar uma renda mínima, impede que a necessidade imediata force os trabalhadores a aceitar qualquer remuneração, pressionando os empregadores a oferecer salários mais atrativos para preencher as vagas. Simultaneamente, ao injetar recursos na base da economia, amplia o consumo popular, sustenta a demanda por bens e serviços e impulsiona a produção, o emprego e a renda. Instaura-se, assim, um ciclo multiplicador: renda mais alta gera mais consumo, que gera mais atividade econômica, que gera mais empregos e melhores salários. Assim é que o Bolsa Família não é apenas proteção social, mas uma política de dinamização do mercado interno e de valorização do trabalho. Esse papel é deturpado pela extrema direita.

O Nordeste exige prioridade estratégica. É necessário apresentar um projeto de futuro que enfrente injustiças históricas e reconheça no Nordeste um motor capaz de impulsionar a economia brasileira por muitos anos. Tentativas de atrair o grande agronegócio são inócuas: sua hostilidade a Lula e à esquerda é estrutural e não será convertida em aliança. Não há mais espaço, nem tempo, para tentar agradar a todos.

É preciso substituir a ideia de “arrocho fiscal”, que sempre recai sobre as camadas mais pobres, pelo conceito de “arrocho financeiro”. Não podemos ter as maiores taxas de juros reais do mundo. A Ucrânia, em guerra, possui taxas menores. Isso é injustificável. A redução brutal do pagamento de juros por parte do governo permitiria financiar os programas que mudariam a vida do nosso povo para um patamar mais alto. Isso eliminaria o domínio da economia especulativa em que estamos enredados.

É preciso propor um programa amplo de redução das prestações de empréstimos consignados. Tais empréstimos pagam juros escorchantes e reduzem a capacidade de consumo de parcelas significativas dos setores assalariados, afetando fortemente o funcionalismo público em todos os níveis.

A economia obtida com a queda dos juros permitiria a construção de sistemas rápidos de transporte, que trariam, como consequência, menor tempo de vida gasto no deslocamento. Além disso, permitiria a recuperação de áreas ambientalmente degradadas, preparando-nos para enfrentar e mitigar mudanças climáticas. Não basta desacelerar o desmatamento: desmatamento zero e ampliação da cobertura vegetal devem ser programas de governo.

Programas de proteção às mulheres, às crianças e aos grupos sociais e étnicos oprimidos devem ser desenhados e defendidos. É preciso confrontar as visões da extrema direita nesses campos.

É preciso expor que a extrema direita sempre propõe o massacre econômico contra as camadas médias e que nós somos os verdadeiros defensores desse setor. É preciso propor a continuidade das correções das tabelas do imposto de renda. Além disso, é preciso criar programas de intensa elevação da qualidade da saúde e da educação públicas— duas fontes expressivas de gasto para a renda das camadas médias.

Precisamos propor um novo patamar civilizatório no Brasil, incluindo a preparação para resistir a ameaças externas e a tentativas de subordinação.

É preciso um programa que proponha o futuro, e não apenas a defesa de ações de governo, como se bastasse uma mera prestação de contas. O povo não vota para aplaudir o passado; vota para decidir o porvir. A campanha deve encarnar um projeto de país, com metas claras, compromissos concretos e um horizonte de dignidade, trabalho, moradia, alimentação, educação, saúde, cultura e esperança. Sejamos o futuro aos olhos do povo brasileiro!

 

Fonte: Brasil 247

 

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