Francisco
Calmon: O Brasil não merece um bandido na gestão pública
Mantido
mais ou menos o quadro que saiu das urnas no domingo, ainda que não sejam essas
distâncias todas, algumas conclusões já podem ser tiradas. A chamada terceira
via, a direita tradicional, praticamente deixou de existir como alternativa
própria. Foi sequestrada pela extrema direita. E o que se consolidou é uma
polarização entre a extrema direita e Lula, o que, para uma democracia, não é
exatamente uma boa notícia.
Quando
uma parcela tão grande da direita tradicional passa a gravitar em torno do
bolsonarismo e não consegue construir um caminho próprio, o espaço de disputa
política vai ficando cada vez mais estreito.
E o
resultado do Senado é talvez ainda mais significativo. A extrema direita
praticamente dobrou sua presença e o PL passou a ser, de longe, a maior bancada
da Casa. Isso mostra que não estamos falando apenas de uma onda eleitoral
passageira ou de uma candidatura presidencial. Existe uma estrutura política
montada, com bancada, dinheiro, redes sociais, produção permanente de conteúdo
e uma capacidade enorme de ocupar o imaginário popular. Flávio Bolsonaro ter
chegado ao segundo turno praticamente empatado com Lula é apenas a expressão
presidencial de uma força que já está muito mais espalhada pelo Estado
brasileiro.
Isso
também nos obriga a olhar para a própria história do Brasil. A direita
praticamente sempre governou este país. Quando olhamos para a nossa história
republicana, são poucos os períodos em que governos identificados com a
esquerda estiveram no comando. João Goulart, Lula e Dilma são exceções dentro
de uma história marcada por governos conservadores, liberais, militares ou de
centro-direita. E há uma questão ainda mais importante: mesmo quando a esquerda
chegou à Presidência, nunca teve, de forma consistente, maioria de esquerda no
Congresso.
Lula
governou cercado por um Congresso majoritariamente conservador. Dilma também.
Jango igualmente enfrentou uma correlação de forças que estava longe de ser
favorável ao seu projeto. Portanto, não é correto imaginar que o Brasil foi um
país governado pela esquerda e que agora estaria simplesmente “voltando para a
direita”. A direita nunca deixou de ser a força predominante na estrutura
política brasileira.
É nesse
ponto que precisamos voltar aos erros da própria esquerda. Desde que abandonou
um projeto de transformação mais profunda da sociedade e passou a apostar quase
exclusivamente no republicanismo institucional, na conciliação e na
administração do Estado, foi ficando cada vez mais dependente da figura de
Lula. Lula se tornou o líder quase isolado de um campo inteiro.
Outros
foram perdendo espaço, outros baixaram a cabeça e passaram a funcionar quase
como teleguiados por uma liderança centralizadora. E a idade de Lula torna essa
questão ainda mais urgente. Não existe um projeto de esquerda suficientemente
forte se ele depender permanentemente de uma única pessoa.
A
insistência em Haddad é outro exemplo disso. Mais uma vez ele foi colocado na
vitrine para testar se teria condições de ser uma alternativa futura a Lula,
mas os resultados eleitorais continuam mostrando uma dificuldade de
transferência de força política. Talvez o problema esteja justamente em
insistir na procura de um sucessor dentro dos mesmos nomes e da mesma lógica.
O
desafio não é simplesmente descobrir quem vai substituir Lula. É saber se
existe hoje um projeto capaz de sobreviver a Lula.
Enquanto
isso, Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno carregando toda a herança
política da família e uma série de controvérsias que, para parte significativa
do eleitorado, parecem não ter o peso que poderiam ter. Rachadinhas,
investigações, Banco Master, lavagem de dinheiro, associação com milicianos,
relações e ações políticas contra o trabalhador brasileiro, tentativa de golpe
e toda uma sequência de escândalos não foram suficientes para impedir que quase
metade dos votos válidos fosse para ele no primeiro turno.
Isso é
um fato político que a esquerda precisa compreender, e não simplesmente tratar
o eleitor como ignorante, manipulado ou incapaz de perceber o que está
acontecendo.
Porque
existe uma contradição enorme nesse país. O mesmo eleitor que precisa do SUS,
que precisa de escola pública, que precisa de alimentação, de moradia, de
emprego e de direitos trabalhistas pode olhar para essas mesmas políticas e
rejeitá-las porque foram identificadas como políticas “de esquerda”. Enquanto
isso, a extrema direita consegue vender a ideia de que cada indivíduo é
responsável sozinho pelo próprio sucesso, que basta trabalhar, se esforçar e
ter mérito.
É a
velha lógica meritocrática do neoliberalismo sendo apresentada como se todos
partissem exatamente do mesmo lugar.
Mas não
partem. O Brasil continua sendo um dos países mais desiguais do mundo. Enquanto
trabalhadores enfrentam jornadas exaustivas, inclusive na escala 6×1, com pouco
tempo para a família, para o descanso e para a própria vida, os setores mais
ricos continuam tendo acesso a privilégios econômicos e formas de proteção
patrimonial que o trabalhador comum jamais terá. E, quando se discute reduzir
jornada, acabar com a escala 6×1 ou ampliar direitos trabalhistas, parte do
empresariado imediatamente se coloca contra, enquanto continua utilizando o
discurso de “Deus, Pátria e Família”.
Mas que
família é essa? Porque defender a família também deveria significar defender o
direito de uma mãe e de um pai terem tempo para estar com seus filhos. Deveria
significar defender um trabalhador que não passa a maior parte da semana
trabalhando e o restante tentando recuperar o corpo para voltar ao trabalho.
Deveria significar defender condições mínimas para que as pessoas possam viver,
e não apenas sobreviver.
Setores
que se apresentam como patriotas defendem políticas que podem ampliar a
dependência econômica e tecnológica do Brasil, a abertura de nossos recursos
estratégicos e a entrega de riquezas nacionais a interesses estrangeiros.
Fala-se em soberania enquanto se aceita uma relação subordinada com os Estados
Unidos. Fala-se em pátria enquanto se discute a entrega de recursos
estratégicos brasileiros.
Fala-se
em família enquanto se combate a ampliação de direitos que poderiam melhorar
concretamente a vida dessas próprias famílias e acabar com a escala 6×1, e
vendem a fajuta flexibilização trabalhista em que você é aliciado pelo patrão
na falsa “negociação trabalhista”.
A
extrema direita, entretanto, entendeu uma coisa que a esquerda muitas vezes
parece ter esquecido: política também é disputa de imaginário. Eles produzem
conteúdo o tempo inteiro. Repetem suas mensagens até que elas se tornem senso
comum. Transformam meritocracia em valor moral, individualismo em liberdade,
desigualdade em falta de esforço e direitos sociais em privilégios. E conseguem
fazer com que uma parte da população enxergue como inimigo justamente aquilo
que poderia melhorar suas próprias condições de vida.
O
resultado de ontem é consequência disso. Não surgiu do nada. É resultado de
décadas de uma estrutura política em que a direita sempre teve enorme presença
no Estado, no Congresso, nos meios econômicos e na formação da opinião pública.
A esquerda chegou ao governo algumas vezes, mas nunca conseguiu transformar
essa correlação de forças de maneira profunda.
E,
quando deixou de disputar um projeto de transformação da sociedade para se
limitar cada vez mais à disputa institucional, abriu um espaço que a extrema
direita ocupou com enorme velocidade.
Agora
temos uma situação em que uma parcela expressiva da população está disposta a
colocar novamente o bolsonarismo no centro do poder, enquanto o Senado passa a
ter uma presença muito maior da extrema direita.
Parte
considerável do povo brasileiro elegeu ontem representantes que defendem menos
direitos trabalhistas, menos proteção social, mais concentração de renda e
maior alinhamento aos interesses econômicos externos e quase elegeu, no
primeiro turno, o homem que vai privatizar e concretizar o que o Senado, agora
mais fortalecido do que nunca, já vem fazendo há séculos.
É
preciso olhar para a ida ao segundo turno com Flávio à frente. O cenário
envolve também a correlação de forças no Congresso, especialmente no Senado,
onde a direita já possui uma presença significativa e poderá ampliar sua
capacidade de pressão sobre o Supremo Tribunal Federal e de influência na
escolha de novos ministros. A composição do STF pode mudar profundamente nos
próximos anos, caso o próximo governo tenha condições políticas de indicar
quatro ou cinco ministros. Cabe discutir as escolhas feitas pelo governo Lula
na formação da atual Corte e o peso que uma maior diversidade, inclusive com a
indicação de uma mulher negra, poderia ter tido na representação política do
Supremo.
No
primeiro turno de 2026, mais de 33 milhões de eleitores não compareceram às
urnas, correspondendo a 21,08% do eleitorado — o maior percentual desde 1998.
São milhões de brasileiros que, por diferentes razões, ficaram fora da decisão
eleitoral; há a necessidade de compreender quem são esses eleitores ausentes e
o que explica esse afastamento tão significativo das urnas.
O
Brasil já viveu isso antes. Marx diz que a história se repete primeiro como
farsa, depois como tragédia, exatamente da mesma forma, e eleger Flávio
significa a volta da ditadura sem farda, o que nos leva a uma tragédia sem
precedentes.
Quando
a desigualdade, o medo, o anticomunismo, o discurso moralista e a promessa de
ordem são utilizados para mobilizar a população contra seus próprios
interesses, o resultado pode ser uma sociedade cada vez mais autoritária e
desigual. O que está em jogo agora, portanto, é muito maior do que a disputa
entre dois candidatos. É a disputa pelo sentido do Brasil que será construído
depois desta eleição.
Somos
resilientes, lutamos por 21 anos contra a ditadura e vencemos; no momento
lutaremos por alguns dias e venceremos e impediremos o fascismo genocida na
presidência.
• Entenda por que Flávio Bolsonaro é um
inimigo, não um adversário conjuntural. Por Fábio Maia Sobral
O dia 4
de outubro de 2026 marcou uma derrota da candidatura de Lula no primeiro turno
das eleições presidenciais. Precisamos repensar a campanha para o segundo
turno. O objetivo deste texto não será o de avaliar as condições estruturais da
derrota parcial, mas o de elaborar propostas que, eu creio, possibilitariam a
vitória no segundo turno.
O
primeiro passo é reconhecer que não se trata de uma disputa entre adversários
conjunturais, mas de um antagonismo profundo: enfrentamos um inimigo. A luta de
classes atravessa estas eleições. A candidatura de Lula deve reafirmar-se como
expressão da defesa do trabalho e das camadas trabalhadoras — condição que
perdemos e que hoje é contestada pela acusação de desestimular o esforço
produtivo e a busca por melhores condições de vida. Nós somos os que defendemos
o trabalho e as camadas trabalhadoras.
Devemos
combater compreensões erradas sobre os programas governamentais, tais como o
Bolsa Família. Este programa é essencial para manter a atividade econômica na
indústria, no setor de serviços e na moradia. Sem ele, o empreendedorismo
perderia um mercado significativo. A direita se apresenta como defensora dos
empreendedores e das empreendedoras, mas isso não é verdade. Ao eliminarem
programas sociais, a atividade empreendedora desabaria, provocando a falência
de muitos pequenos negócios.
O Bolsa
Família cumpre uma função decisiva na elevação dos salários. Ao assegurar uma
renda mínima, impede que a necessidade imediata force os trabalhadores a
aceitar qualquer remuneração, pressionando os empregadores a oferecer salários
mais atrativos para preencher as vagas. Simultaneamente, ao injetar recursos na
base da economia, amplia o consumo popular, sustenta a demanda por bens e
serviços e impulsiona a produção, o emprego e a renda. Instaura-se, assim, um
ciclo multiplicador: renda mais alta gera mais consumo, que gera mais atividade
econômica, que gera mais empregos e melhores salários. Assim é que o Bolsa
Família não é apenas proteção social, mas uma política de dinamização do
mercado interno e de valorização do trabalho. Esse papel é deturpado pela
extrema direita.
O
Nordeste exige prioridade estratégica. É necessário apresentar um projeto de
futuro que enfrente injustiças históricas e reconheça no Nordeste um motor
capaz de impulsionar a economia brasileira por muitos anos. Tentativas de
atrair o grande agronegócio são inócuas: sua hostilidade a Lula e à esquerda é
estrutural e não será convertida em aliança. Não há mais espaço, nem tempo,
para tentar agradar a todos.
É
preciso substituir a ideia de “arrocho fiscal”, que sempre recai sobre as
camadas mais pobres, pelo conceito de “arrocho financeiro”. Não podemos ter as
maiores taxas de juros reais do mundo. A Ucrânia, em guerra, possui taxas
menores. Isso é injustificável. A redução brutal do pagamento de juros por
parte do governo permitiria financiar os programas que mudariam a vida do nosso
povo para um patamar mais alto. Isso eliminaria o domínio da economia
especulativa em que estamos enredados.
É
preciso propor um programa amplo de redução das prestações de empréstimos
consignados. Tais empréstimos pagam juros escorchantes e reduzem a capacidade
de consumo de parcelas significativas dos setores assalariados, afetando
fortemente o funcionalismo público em todos os níveis.
A
economia obtida com a queda dos juros permitiria a construção de sistemas
rápidos de transporte, que trariam, como consequência, menor tempo de vida
gasto no deslocamento. Além disso, permitiria a recuperação de áreas
ambientalmente degradadas, preparando-nos para enfrentar e mitigar mudanças
climáticas. Não basta desacelerar o desmatamento: desmatamento zero e ampliação
da cobertura vegetal devem ser programas de governo.
Programas
de proteção às mulheres, às crianças e aos grupos sociais e étnicos oprimidos
devem ser desenhados e defendidos. É preciso confrontar as visões da extrema
direita nesses campos.
É
preciso expor que a extrema direita sempre propõe o massacre econômico contra
as camadas médias e que nós somos os verdadeiros defensores desse setor. É
preciso propor a continuidade das correções das tabelas do imposto de renda.
Além disso, é preciso criar programas de intensa elevação da qualidade da saúde
e da educação públicas— duas fontes expressivas de gasto para a renda das
camadas médias.
Precisamos
propor um novo patamar civilizatório no Brasil, incluindo a preparação para
resistir a ameaças externas e a tentativas de subordinação.
É
preciso um programa que proponha o futuro, e não apenas a defesa de ações de
governo, como se bastasse uma mera prestação de contas. O povo não vota para
aplaudir o passado; vota para decidir o porvir. A campanha deve encarnar um
projeto de país, com metas claras, compromissos concretos e um horizonte de
dignidade, trabalho, moradia, alimentação, educação, saúde, cultura e
esperança. Sejamos o futuro aos olhos do povo brasileiro!
Fonte:
Brasil 247

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