Antonio
Martins: Por onde recomeçar?
As
derrotas são mais profundas e mais prolongadas quando se confundem as causas
que as produziram, se evitam as correções de rota e se adotam “saídas” que
agravam os erros. O governo Lula e a esquerda viveram um desastre nas eleições
brasileiras deste domingo (4/10). Ao contrário do que previam todas as
pesquisas, o presidente terminou o primeiro turno 2,2 milhões de votos atrás de
Flávio Bolsonaro — e, o que é mais significativo, 3,4 milhões abaixo do que
recebeu há quatro anos, quando a máquina do Estado funcionava contra si e a
favor de seu adversário. Sua votação decresceu em 98% dos municípios.
O PL,
principal partido da ultradireita, elegeu 121 deputados e 28 senadores,
tornando-se a maior bancada nas duas casas. As agremiações ligadas ao Centrão,
embora ligeiramente reduzidas, terão cerca de 250 representantes na Câmara e 35
no Senado, o que tornará mais fácil a formação de alianças para alterar a
Constituição ou decretar o impeachment de ministros do STF. Caso eleito, Flávio
poderá indicar quatro integrantes à corte, alterando substancialmente a
correlação de forças interna. Que motivos levaram a estes resultados? Como
evitar que ele se consolide, convertendo-se em hegemonia política prolongada da
ultradireita? Qual o sentido essencial da mudança de rumos necessária à
esquerda?
Nas
mídias comerciais e na exuberância caótica das plataformas, multiplicam-se as
interpretações. Algumas são pontuais. Fala-se, por exemplo, na ausência ao
debate da Globo, na relação muito próxima com Alexandre de Moraes, na abordagem
de temas que seriam supostamente distantes do cotidiano das maiorias, como as
terras raras. Entre as interpretações sistêmicas, três delas parecem
especialmente duvidosas: a) A derrota principal não teria sido da esquerda,
cujas bancadas caíram pouco. O movimento essencial captado pelas urnas foi um
deslocamento dos votos no interior da direita — das correntes mais moderadas e
fisiológicas do Centrão para as mais ideológicas e radicalizadas do PL e Novo;
b) O resultado seria produto de uma mudança na natureza dos processos eleitorais
e políticos. Agora, os interesses e aspirações materiais da sociedade já não
desempenhariam papel central, pois teriam cedido espaço à afirmação subjetiva
dos eleitores, ainda não compreendida pela esquerda; c) Em função destes dois
fatores, seria de se esperar um inverno político — um período prolongado de
hegemonia da ultradireita e direita sobre a vida política do país.
Há
nestas três interpretações elementos importantes para uma análise mais ampla do
pleito. O problema é o que elas negam ou omitem: Lula III foi um governo
pequeno, que não ofereceu às maiorias que o elegeram nem uma vida nitidamente
melhor, nem motivos para voltar a acreditar na política e em seu papel
transformador. Estes fracassos deveram-se a duas acomodações fatais, que serão
examinadas adiante. Em consequência delas, o governo sofreu desgaste lento,
porém constante. E ofereceu à ultradireita, como tem ocorrido em tantos países
do Ocidente, a oportunidade de apresentar-se como antissistema e de se
beneficiar do descontentamento e das aflições populares.
A visão
que destaca em primeiro lugar a migração de votos do centro-direita e da
direita tradicional para a ultradireita foi expressa, entre outros, pelo bravo
Leonardo Sakamoto. Em sua coluna no UOL, nesta segunda-feira (5/10), ele
destaca o comportamento miserável dos partidos conservadores tradicionais. Ao
longo dos últimos quatro anos, eles atuaram com frequência em frente com os
“neo”-fascistas, que acabaram “normalizados” (uma crítica idêntica poderia ser
dirigida a quase toda a mídia empresarial…). Julgando usar a ultradireita como
“escada”, acabaram em parte “jantados” por ela — em especial no Senado, onde o
crescimento do PL (+13 senadores) e do Novo (+2) deu-se às custas do PSD (-9),
MDB (-2), PSDB (-2) e PP (-1).
Embora
precisa e necessária, a observação de Sakamoto deixa de lado questões
incômodas. Por que o desgaste do Centrão jogou água no moinho da ultradireita,
ao invés de resultar, por exemplo, num crescimento da esquerda — como ocorreu
tantas vezes, no Brasil e em outros países?
A
resposta não é difícil. Ao longo de seus quatro anos, Lula III esteve quase
invariavelmente associado ao Centrão. Aqui reside sua primeira acomodação:
conformar-se aos limites da institucionalidade conservadora; evitar ao máximo
tensioná-la por meio da pressão popular; acreditar apenas nas acanhadas
mudanças que foi possível fazer por meio das brechas no Legislativo. O
insucesso da luta pelo fim da escala 6×1 é um emblema desta atitude. Podendo
eletrizar a disputa pela Presidência, desencadeando em paralelo a ela uma
campanha popular pela aprovação da medida, Lula preferiu depositar suas
esperanças nas mãos do presidente do Senado, Rodrigo Alcolumbre. Não produziu
mobilização, não obrigou os adversários a uma defensiva incômoda, nem obteve
vitória.
Em
setembro de 2025, o governo perdeu a maior das muitas oportunidades que teve
para sacudir o poder conservador do Congresso. O repúdio popular à PEC da
Blindagem, que restringiria, se aprovada, os processos judiciais contra
parlamentares, levou multidões às ruas — convocadas principalmente por artistas
e movimentos sociais. Abriu-se a possibilidade de uma pedagogia política que
começasse a apontar os limites e as disfunções do sistema político e de
enquadrar o bolsonarismo, que previsivelmente posicionava-se a favor do
privilégio. A PEC foi barrada, mas em seguida o Executivo refluiu da disputa.
Manteve-se associado a um mundo institucional visto como corrupto, elitista e
insensível aos dramas do povo. Descredenciou-se de disputar o voto de protesto.
Colheu os frutos amargos no domingo.
Em
abordagem distinta à de Sakamoto, o filósofo Moysés Pinto Neto e outros autores
têm chamado atenção, em suas primeiras análises sobre o 4 de outubro, para a
fragmentação do espaço público, produzida pelas plataformas das big techs. Elas
oferecem a cada pessoa, por meio dos algoritmos que programam, uma visão
distinta da realidade social. Torna-se muito mais difícil, em consequência,
identificar problemas e reivindicações materiais comuns — a luta por direitos
trabalhistas ou por um SUS dignamente financiado, por exemplo. O eleitor já não
as abraça, pensam os autores, porque não se enxerga como parte de um coletivo.
Tende a valorizar, em vez disso, os papéis que a subjetividade neoliberal lhe
atribui — o de empreendedor, por exemplo. O eventual erro da esquerda, segundo
esta interpretação, seria insistir em ilusões passadistas.
A
advertência de Moysés é de grande relevância e dialoga com textos como “O
fascismo apocalíptico e a aposta dos bilionários”, de Naomi Klein e Astra
Taylor. Ao contrário do que ocorria há um século, a ultradireita já não acena
com um futuro luminoso. Concentra-se no ressentimento — em especial dos homens
jovens. “Eles pertencem a uma geração que teme nunca ter uma casa própria, mas
compensa isso com o prazer que sentem ao provocar constantemente progressistas
online. Convencidos de que seu futuro foi roubado, eles compartilham memes que
romantizam regimes autoritários históricos”, dizem os autores.
Mas
Moysés parece confundir este risco com uma inevitabilidade. Ele não percebe que
a resposta da esquerda não pode ser adaptar-se, mas, ao contrário, reforçar a
possibilidade da política como ação coletiva. E também não se dá conta de que
esta reviravolta está sendo possível em alguns dos processos de mobilização
mais promissores do século XXI. A eleição, no final de 2025, do jovem muçulmano
Zohran Mamdani para a prefeitura de Nova York, com uma pauta baseada na luta
materialíssima por uma cidade acessível. A vitória, há duas semanas, do Partido
de Esquerda em Berlim, a partir da defesa de expropriação das imobiliárias
privadas. A recentíssima onda de manifestações na Espanha (com ocupação da
Porta do Sol, em Madri), por dezenas de milhares de jovens mobilizados pelo
Sindicato dos Inquilinos, para defender a limitação dos preços dos aluguéis.
Ao
vestir em si mesmo a camisa de força do “arcabouço fiscal”, nos primeiros meses
de 2022, Lula III adotou a segunda acomodação fatal de seu mandato. Diante de
uma institucionalidade conservadora e de um país devastado por quatro anos de
bolsonarismo, elevar o investimento público era a arma que lhe restava para
oferecer vida mais digna às maiorias e firmar um pacto anticonservador com
elas. O mesmo Estado que emite 1 trilhão de reais ao ano para alimentar um
punhado de rentistas poderia fazer o mesmo para estender a estratégia de Saúde
da Família a todos os brasileiros (R$ 30 bilhões); oferecer escola pública e
creche em período integral a todos os adolescentes, crianças e, em especial,
suas mães; universalizar o saneamento, acompanhando-o da despoluição dos rios
urbanos; multiplicar as redes de metrô; iniciar a transformação urbanística das
periferias; e tantos outros projetos necessários.
Em
abril de 2023, um artigo em Outras Palavras alertou que o “arcabouço” poderia
“apequenar o governo Lula e manter as lógicas que condenam o país à
desigualdade e à regressão”. Um ano depois, um novo texto demonstrou que a
contenção do gasto público estava estrangulando ações vitais para a população e
a popularidade do presidente. Em novembro de 2024, veio o choque de realidade,
na forma de uma derrota humilhante do governo nas eleições municipais. Nem
assim, a tranca fiscal foi removida ou amenizada. Ao contrário: ao longo de
quatro anos, ela foi o elemento central na narrativa política do governo, que
se orgulhava de dizer que havia “acertado as contas do Estado”, sem perceber o
quanto a frase era falsa (frente ao pagamento de R$ 1 trilhão em juros) e quanto
significava um tiro no próprio pé.
Lula
despertou em setembro de 2026. O reajuste da Bolsa-Família (depois de quatro
anos de congelamento), o anúncio da oferta de canetas anti-obesidade no SUS e a
proibição das bets mostraram que o Estado tem poder para agir de modo decidido
em favor das maiorias, quando há governantes dispostos a enfrentar barreiras.
As grandes marchas que fecharam a campanha em Fortaleza, Salvador, Rio e São
Paulo, às vésperas do 4 de outubro, revelaram como estas iniciativas podem
convocar a militância e a população. Mas era tarde — e foi pouco demais para
alterar o destino do primeiro turno.
A
hipótese de uma virada nas três semanas até 25 de novembro não pode ser
descartada. Não é simples, nem fácil. Depende não apenas de reduzir a diferença
de 2,2 milhões de votos, mas também de compensar a migração dos eleitores dos
demais candidatos da direita, que tende a favorecer majoritariamente Flávio
Bolsonaro. Para concretizar-se, o movimento requer ampla mobilização
“vira-voto”, que pode ser estimulada por novos acenos de Lula. As próximas
horas e dias serão decisivos.
Caso a
vitória do bolsonarismo se concretize também no Executivo, ela comporá um
cenário de alto risco para a soberania nacional e a democracia. Os enormes
desafios para os quais esta hipótese aponta convidarão a reexaminar em
profundidade, e com abertura real à autocrítica, os projetos (ou sua ausência)
e as práticas da esquerda. Mas significaria, então, que estamos condenados ao
longo inverno de hegemonia da ultradireita que começa a se desenhar em algumas
análises?
É cedo
demais para afirmar, sugere um texto de Alvaro Garcia Linera, o pensador que
foi vice-presidente da Bolívia do governo de Evo Morales. Sua hipótese central:
esta corrente tem fôlego curto. Num momento em que o mundo todo volta a falar
em soberania e proteção das economias nacionais, ela propõe um neoliberalismo
mofado e recolonial. Sua submissão aos EUA é tão escancarada e patética quanto
os acenos de Flávio e Eduardo Bolsonaro a Donald Trump. Seu projeto é algo como
um “salve-se quem puder”. Mais desigualdade, capitalismo sem limites,
devastação e supremacismo.
Dará
certo? Nos EUA, dois anos apenas após iniciar seu segundo mandato, o próprio
Trump amarga recordes de impopularidade e pode estar à beira de perder a
maioria na Câmara e no Senado, nas eleições de novembro.
Todo
recomeço é difícil. Seja qual for o resultado do segundo turno, as derrotas de
4/10 mostram quão profundamente será preciso, para a esquerda brasileira,
repensar e refazer. Mas, assim como subestimar os erros, seria tolo pensar que
já não há como reconstruir um projeto. A História não acabou. Os tempos estão
mais acelerados que nunca.
Fonte:
Brasil 247

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