O
voto que pode custar o mercado do agro brasileiro: se Lula cair, vocês vão
junto
O
problema não é gostar dos Estados Unidos ou da China. É saber quem compra, quem
concorre, quem controla ativos estratégicos e o que o Brasil perde quando troca
margem de manobra por alinhamento. Os documentos já permitem fazer essa conta
sem adivinhação.
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Quando a ideologia chega à planilha
Há
alguns meses publiquei um texto chamado “Se Lula cair, vocês
caem junto”.
O argumento era simples. Num mundo reorganizado pela disputa entre Estados
Unidos e China, afinidade política não revoga interesse econômico. Potências
defendem seus produtores, suas empresas, sua tecnologia e seu poder. Não era
uma profecia. Era uma conta. A julgar pelo entusiasmo com que parte do agro
recebeu a candidatura de Flávio Bolsonaro, talvez valha conferir os números
mais uma vez.
Em 1º
de outubro, a diretoria da Frente Parlamentar da Agropecuária declarou apoio
oficial a Flávio. Quatro dias depois, Ronaldo Caiado anunciou que faria o mesmo
no segundo turno. Nada há de estranho em empresários, produtores ou suas
representações políticas apoiarem quem consideram mais próximo de seus
interesses. A curiosidade começa quando se pergunta se todos os interesses
entraram na planilha.
E
planilha é justamente uma coisa que o agro sabe fazer. O produtor calcula
fertilizante, diesel, frete, câmbio, produtividade, juros, seguro, armazenagem
e preço futuro. Alguns centavos por tonelada têm a desagradável propriedade de
continuar sendo dinheiro quando multiplicados por uma safra inteira. É uma
atividade pouco tolerante a romantismo contábil. Por isso chama atenção a
facilidade com que uma parte do setor parece abandonar a calculadora quando a
conta chega à geopolítica.
No
primeiro trimestre de 2026, a China comprou US$ 11,33 bilhões do agronegócio
brasileiro e respondeu por 29,8% das exportações do setor. Os Estados Unidos
compraram US$ 2,24 bilhões, equivalentes a 5,9%. No mesmo período, as vendas do
agro brasileiro ao mercado americano caíram 31,2%. Esses números não fazem de
Pequim amiga do Brasil nem de Washington inimiga. Apenas lembram que países
compram, vendem, protegem mercados e defendem interesses. É menos emocionante
que uma fotografia de campanha, mas costuma pagar melhor.
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O produtor de Iowa também fez a conta
O
agricultor americano não interrompe a colheita para verificar a afinidade
ideológica do concorrente de Mato Grosso. Ele olha preço, produtividade,
mercado e governo. O Departamento de Agricultura dos próprios Estados Unidos
descreve o Brasil como concorrente em soja, milho, algodão, carnes, açúcar,
café, suco de laranja e etanol. Na soja, o Brasil tomou a liderança americana e
hoje responde por parcela próxima de 60% das exportações mundiais. No milho,
chegou a superar os Estados Unidos como maior exportador em 2023. No algodão,
os dois países disputam a ponta do comércio internacional.
Essa
mudança não ocorreu num seminário sobre multipolaridade. Ocorreu em portos,
contratos e toneladas. Há vinte anos, os Estados Unidos respondiam por cerca de
40% das exportações mundiais de soja e 68% das de milho. Em 2024, essas
participações haviam caído para aproximadamente 26% e 30%. Seria preciso uma
confiança extraordinária na fraternidade entre povos para imaginar que
Washington observou duas décadas de perda de mercado e decidiu não fazer nada a
respeito.
Trump
fez exatamente o contrário. A Casa Branca negociou com Pequim compromissos de
compra de pelo menos 25 milhões de toneladas de soja americana por ano entre
2026 e 2028, além de pelo menos US$ 17 bilhões anuais em outros produtos
agrícolas dos Estados Unidos. O acesso da carne bovina americana ao mercado
chinês também entrou no pacote. Washington apresentou o acordo como vitória de
seus agricultores. Naturalmente. America First ainda não ganhou uma tradução em
que Goiás venha antes de Iowa.
A
guerra comercial anterior já havia mostrado o outro lado da equação. Pesquisa
publicada em 2026 na revista The World Economy estimou que a retaliação chinesa
contra produtos americanos elevou em 28,4% o valor e em 21,2% a quantidade das
exportações brasileiras beneficiadas pelo desvio de comércio. Quando o produto
americano perdeu espaço na China, o brasileiro ocupou parte dele. Quando
Washington negocia para recuperar mercado, tenta recuperar exatamente aquilo
que perdeu. Não há vilão nessa história. Há concorrente.
Nem
Pequim merece tratamento sentimental. Em 2026, a China limitou importações de
carne bovina e passou a aplicar tarifa adicional sobre volumes brasileiros
acima da cota. Quando seus interesses domésticos exigiram proteção, a parceria
estratégica esperou do lado de fora. Isso é útil porque limpa a discussão de
qualquer romantismo. O Brasil ganha quando compradores competem pelo que produz
e perde quando transforma um deles em patrono.
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Washington chegou com a lista pronta
A
discussão deixaria espaço para abstrações se o governo americano não tivesse
colocado no papel as políticas brasileiras que pretende alterar. A investigação
da Seção 301 tratou de comércio digital, serviços de pagamentos eletrônicos,
tarifas preferenciais, propriedade intelectual, acesso do etanol americano ao
mercado brasileiro, combate à corrupção e desmatamento ilegal. Em julho,
Washington aplicou tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos do
Brasil. O próprio USTR explicou que sua ação buscava defender agricultores,
trabalhadores, inovadores e exportadores americanos. Não chega a ser uma
mensagem cifrada.
O
momento mais revelador veio em 7 de julho, quando Flávio Bolsonaro participou
da audiência pública do USTR. Ele informou que havia se reunido no mês anterior
com Donald Trump, JD Vance e Marco Rubio para discutir as tarifas. Uma
representante americana então perguntou que medidas, além das tarifas, poderiam
levar o Brasil a eliminar as políticas contestadas no processo. Flávio
respondeu que as tarifas não eram o caminho adequado, mencionou a possibilidade
de mudança de governo em janeiro e sugeriu que Washington considerasse esperar
ou suspender a decisão.
É
importante não inventar aquilo que o documento não diz. Flávio não prometeu
naquela resposta acabar com o Pix, desmontar o RenovaBio ou conceder cada item
da lista americana. A transcrição permite uma afirmação mais precisa e, por
isso mesmo, mais séria. Diante de uma pergunta sobre como obter mudanças em
políticas brasileiras, a possibilidade de um novo governo apareceu na resposta
do candidato. Poucas investigações recebem da realidade a gentileza de entregar
pergunta, resposta e contexto no mesmo documento.
O Pix
ajuda a perceber o alcance dessa agenda. Empresas e associações americanas
questionaram características do sistema brasileiro de pagamentos, inclusive o
papel do Banco Central e as condições de concorrência. Flávio defendeu a
preservação do Pix, mas também propôs mantê-lo afastado de certas redes de
pagamentos não ocidentais. O debate, portanto, não é apenas sobre soja ou
tarifa. Chega à infraestrutura por onde circulam dinheiro, dados e poder
econômico. O agricultor acompanha Chicago, o banco acompanha juros, a
mineradora acompanha o minério. Washington tem a inconveniente vantagem de
olhar tudo ao mesmo tempo.
A
experiência brasileira já deveria servir de vacina contra a ideia de que
proximidade política suspende interesse comercial. Em março de 2019, Jair
Bolsonaro chegou a Washington oferecendo isenção unilateral de vistos,
facilidades em Alcântara e uma cota anual de 750 mil toneladas de trigo com
tarifa zero. A comitiva voltou frustrada com a falta de avanços em carne e
açúcar, e o apoio americano à entrada do Brasil na OCDE veio condicionado a uma
concessão na OMC. Meses depois, Trump ameaçou restaurar tarifas sobre aço e
alumínio brasileiros e justificou a medida dizendo que a política cambial do
Brasil prejudicava agricultores americanos. A amizade continuava ótima. A conta
também.
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Goiás já entrou na planilha de Washington
Se a
geopolítica ainda parecer distante da porteira, Goiás resolve o problema. O
estado governado por Caiado está no centro da corrida por minerais críticos que
abastecem motores elétricos, turbinas, eletrônicos avançados e sistemas de
defesa. Em março, o governo goiano assinou um memorando de cooperação com os
Estados Unidos para pesquisa, processamento, manufatura e atração de
investimentos. O documento admite, em determinadas condições, acesso exclusivo
temporário de entidades indicadas pelos americanos a informações produzidas por
levantamentos geológicos apoiados pelos Estados Unidos. Quem conhece antes o
recurso, sua localização e seu potencial não recebeu apenas uma curiosidade
científica.
A Serra
Verde mostra a escala do movimento. A operação de Minaçu produz em escala os
quatro elementos magnéticos de terras raras mais importantes para ímãs
permanentes. Em 2026, a americana USA Rare Earth acertou sua aquisição numa
operação de aproximadamente US$ 2,8 bilhões. A Serra Verde recebeu
financiamento de até US$ 565 milhões da DFC e firmou um acordo de quinze anos
para destinar 100% da produção da primeira fase a uma estrutura capitalizada
por organismos do governo americano e capital privado, com pisos de preço para
os quatro elementos magnéticos.
É
preciso reconhecer o mérito. Washington identifica o recurso, financia a
expansão, organiza a compra de longo prazo e integra o ativo a uma cadeia
concebida para reduzir a dependência ocidental da China. Não é conspiração. É
política industrial. Das boas, inclusive. O problema aparece quando o Brasil
participa da história apenas com o buraco no chão.
Investimento
estrangeiro não é pecado econômico. País que precisa de capital e tecnologia e
decide rejeitar ambos pode terminar soberano apenas sobre o próprio atraso. A
questão relevante é onde ficam conhecimento, beneficiamento, tecnologia, poder
de decisão e margem industrial depois que o minério sai de Goiás. A nova
política federal de minerais críticos tenta justamente criar triagem para
mudanças de controle estrangeiro, acesso a informação geológica estratégica e
operações sensíveis, além de estimular agregação de valor no país. O ponto não
é impedir negócio. É evitar que negócio e estratégia sejam tratados como a
mesma coisa.
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A estratégia está escrita
Há uma
razão para soja, Pix e terras raras aparecerem na mesma história. A Estratégia
de Segurança Nacional dos Estados Unidos de 2025 afirma que Washington pretende
fortalecer cadeias críticas no Hemisfério Ocidental, reduzir dependências,
tornar-se parceiro preferencial dos países da região e dificultar o avanço de
concorrentes extrarregionais. O documento fala em identificar pontos e recursos
estratégicos, mobilizar instrumentos do governo americano e desencorajar certas
colaborações com outros parceiros. É uma política legítima para uma potência
que sabe o que quer.
O
problema brasileiro não está em Washington perseguir seus objetivos. Está em
Brasília, Goiânia ou qualquer outro lugar imaginar que esses objetivos sejam
automaticamente os nossos. A economia brasileira cresceu em poder externo
justamente porque passou a operar entre vários centros, vendendo à China,
negociando com os Estados Unidos, buscando Europa, Oriente Médio e Ásia e
usando a competição entre compradores e investidores para ampliar sua própria
margem. A posição mais racional não é escolher um protetor. É impedir que
qualquer potência possa cobrar o preço de ser indispensável.
É por
isso que o apoio de Caiado e da FPA a Flávio Bolsonaro merece uma leitura mais
séria do que a fotografia eleitoral. Um projeto de aproximação maior com
Washington pode produzir ganhos em algumas áreas e custos em outras. A pergunta
estratégica é quem fará a conta quando o interesse do agricultor de Iowa
colidir com o do produtor de Mato Grosso, quando uma empresa estrangeira quiser
controlar um ativo crítico ou quando o governo americano pedir mudanças em
regras brasileiras que beneficiem suas próprias empresas. Nessas horas, amizade
ajuda a marcar reunião. Não decide o preço.
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A calculadora também funciona na geopolítica
O agro
brasileiro construiu uma das atividades mais competitivas do mundo porque
aprendeu a fazer conta sem sentimentalismo. Incorporou tecnologia, assumiu
risco, ampliou produtividade, encontrou mercados e aproveitou uma transformação
internacional que deslocou parte do comércio agrícola dos Estados Unidos para o
Brasil. Seria uma ironia peculiar chegar ao momento de maior disputa por esse
espaço e decidir que geopolítica é a única área em que números podem ser
substituídos por afinidade.
Nada
disso exige escolher a China contra os Estados Unidos. Essa seria apenas outra
forma de dependência, com bandeira diferente. O interesse brasileiro está em
vender para quem comprar, negociar com quem oferecer melhores condições,
receber investimento sem abrir mão de capacidade de decisão e conservar
concorrência suficiente para que nenhum parceiro transforme acesso ao mercado
brasileiro em direito adquirido sobre a política brasileira.
O
primeiro texto terminava com um aviso. Este termina com uma conta mais
completa. O governo americano já declarou os setores que pretende proteger,
negociou a recuperação de mercado agrícola na China, abriu contencioso contra
políticas brasileiras, incorporou minerais críticos à sua estratégia
hemisférica e financiou uma cadeia de terras raras em Goiás. Flávio Bolsonaro
já esteve diante do USTR discutindo esse conflito. Caiado e a principal frente
parlamentar do agro decidiram apoiá-lo. Todos esses fatos podem coexistir sem
teoria conspiratória alguma.
A
questão é apenas se quem sabe calcular uma safra inteira está disposto a
calcular também o preço de uma escolha estratégica.
Porque
o mercado costuma perdoar menos que a política.
Fonte: Reynaldo
José Aragon, em Brasil 247

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