Gustavo
Tapioca: O buraco é mais em cima
Flávio
Bolsonaro saiu na frente no primeiro turno, com 47% dos votos. Lula chegou ao
segundo turno com 45%, por margem estreita. O resultado de 4 de outubro foi
assustador para quem defende a democracia e deixou aberta, até 25 de outubro, a
possibilidade de o clã Bolsonaro voltar ao Planalto.
A
campanha de Lula e o PT têm muito a examinar. O presidente precisa fazer sua
autocrítica, reconhecer erros do governo e da comunicação, rever o que ainda
for possível na estratégia eleitoral. A campanha precisa responder melhor às
preocupações cotidianas com custo de vida, segurança e emprego. Não basta
culpar Sidônio, Janja, o discurso “superado” de Lula, ou seja lá o que for. É
preciso corrigir os rumos e disputar cada voto.
Mas
essa autocrítica não pode se transformar numa explicação que absolva o restante
do cenário. Os erros da campanha importam, mas não explicam sozinhos a força de
Flávio. O buraco é mais em cima: está na expansão da extrema direita, na
articulação continental promovida por Donald Trump e na disputa dos Estados
Unidos para trazer o Brasil para sua esfera de influência.
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Uma onda continental — e um projeto de poder
A
guinada à direita avançou em vários países sul-americanos. Daniel Noboa foi
reeleito no Equador; Rodrigo Paz venceu na Bolívia; José Antonio Kast, no
Chile; Keiko Fujimori voltou ao poder no Peru; e Abelardo de la Espriella
venceu na Colômbia, com o endosso de Trump. A Argentina de Javier Milei
tornou-se um polo de articulação regional.
No mapa
político atual, o pequeno Uruguai e o gigante Brasil são as exceções a dessa
onda devastadora. Pelo menos, por enquanto.
Esses
governos sul-americanos têm diferenças importantes. O que os aproxima é a
combinação de promessas de agendas de redução ou reorientação do Estado e maior
alinhamento com Washington. A insatisfação econômica, a insegurança e o
desgaste dos governos anteriores abriram espaço para a direita. Trump não
produziu sozinho esses votos.
Sua
administração, porém, oferece apoio político, articulação e uma referência
comum a lideranças que prometem “reorganizar” a região.
A
pretensão foi resumida numa frase oficial. Após a operação norte-americana na
Venezuela, o Departamento de Estado publicou: “Este é hemisfério é nosso”.
Marco Rubio, secretário de Estado, sustenta que Washington não permitirá que
sua segurança seja ameaçada na região.
É o
espírito da chamada Doutrina Donroe, versão trumpista da Doutrina Monroe: os
Estados Unidos reivindicam primazia no Hemisfério Ocidental e o direito de
afastar potências rivais, sobretudo a China.
O
Escudo das Américas, apresentado como aliança contra cartéis e redes
criminosas, oferece um instrumento de cooperação regional para esse projeto. A
captura de Nicolás Maduro por uma operação dos EUA, a pressão sobre governos
que não se alinham a Washington e o anúncio de Trump de que “Cuba é a próxima”
compõem o mesmo ambiente.
“América
Latina é nossa” não foi uma citação literal: é a síntese política que se pode
extrair dessa sequência.
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Brasil, a joia da coroa
O
Brasil é a peça decisiva. É a maior economia e população da América Latina,
integra os BRICS, tem a China como principal parceira comercial e possui
recursos estratégicos cobiçados por Washington.
Para
Trump e Rubio, a oportunidade de puxar o país para a órbita norte-americana não
pode ser perdida. Lula defende a autonomia brasileira. Flávio oferece outra
orientação: aproximação com Trump, adesão ao Escudo das Américas e oferta de
minerais críticos brasileiros às prioridades dos Estados Unidos.
Não se
trata apenas de afinidade ideológica. Há uma estratégia de pressão e
aproximação em curso. No ano passado, Trump vinculou tarifas contra produtos
brasileiros ao processo judicial de Jair Bolsonaro.
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A tarefa de Eduardo
Eduardo
Bolsonaro mudou-se para os Estados Unidos em fevereiro de 2025 e passou a atuar
em Washington para pressionar o governo Trump contra o STF e em defesa do pai.
Em junho deste ano, o Supremo o condenou a
quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo, ao concluir
que ele articulou sanções e tarifas para interferir no julgamento. Eduardo
sustenta que buscava cobrar o cumprimento da Constituição. A Reuters relatou a
condenação e seus fundamentos.
Eduardo
não ocupa cargo no governo americano. Instalou-se no Texas com a mulher e os
filhos; em julho, a família recebeu residência permanente nos EUA. A CNN Brasil
noticiou a concessão do green card à família.
Em
maio, acompanhou Flávio ao Salão Oval, onde os dois foram recebidos por Trump.
Às vésperas do primeiro turno, segundo fontes americanas ouvidas pelo UOL,
Eduardo foi a Washington e disse a interlocutores do governo Trump que um
encontro entre Lula e o presidente dos EUA poderia favorecer eleitoralmente o
petista.
O mesmo
relato afirma que Rubio e o secretário do Tesouro, Scott Bessent, atuaram para
evitar que os presidentes se encontrassem. A Reuters confirmou a reunião com
Trump; o UOL reconstituiu a articulação às vésperas do pleito.
O
próprio Eduardo apresentou essa rede como trunfo político: disse que consegue
colocar Flávio diante de Trump e Rubio e facilitar medidas como a designação do
PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.
Flávio
pediu essa designação; o Departamento de Estado a anunciou depois do encontro
dos irmãos com Trump. A reportagem do UOL descreveu os contatos e essa
sequência, que não prova alteração de votos, mas revela convergência política
entre a campanha e setores do governo americano.
Também
em setembro Eduardo anunciou que voltaria a pressionar pela retomada de sanções
dos EUA contra o ministro Alexandre de Moraes. A Reuters registrou a
iniciativa.
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Há ainda uma dimensão de política externa
Eduardo
ameaça fazer uma “faxina” no Itamaraty caso o irmão vença e promete retaliar
diplomatas que, segundo ele, sabotaram o governo Jair Bolsonaro. Em vídeo,
insinuou que poderia comandar o ministério ou representar o Brasil em
Washington; defendeu a entrada no Escudo das Américas e a transferência da
embaixada brasileira em Israel para Jerusalém.
A
campanha de Flávio afirma que Eduardo não fala oficialmente pelo candidato, mas
suas declarações mostram o projeto de alinhamento que ele pretende
impulsionar. A Folha descreveu essas ameaças e planos.
O
governo Trump também tentou enviar ao Brasil funcionários que, segundo fontes
ouvidas pela Reuters, pretendiam questionar a integridade do sistema eleitoral.
O Brasil negou os vistos. A tentativa foi noticiada pela Reuters.
Somada
às tarifas, às sanções contra autoridades brasileiras e ao apoio político a
interlocutores do bolsonarismo, ela forma um conjunto de pressões sobre a
soberania e o processo político brasileiro — sem provar que tenha determinado o
resultado das urnas.
A
candidatura de Flávio, portanto, não é apenas a volta de uma família ao poder.
Uma vitória aproximaria a principal potência sul-americana da estratégia de
Trump e daria ao bolsonarismo o governo para tentar reverter responsabilizações
e pressionar instituições que limitaram seu poder.
É uma
possibilidade política anunciada por seus próprios protagonistas; seus efeitos
dependerão do voto e da resistência dos contrapesos democráticos.
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A disputa não está decidida
Steven
Levitsky e Daniel Ziblatt, em Como as democracias morrem, lembram que a erosão
democrática pode avançar pelas urnas, conduzida por líderes eleitos que
enfraquecem os limites ao próprio poder.
Essa
ideia ajuda a compreender o perigo brasileiro: Jair Bolsonaro foi condenado por
tentativa de golpe, mas o movimento que sustentou seu projeto continua
organizado e agora disputa a Presidência com seu filho. A condenação conteve
uma ruptura; não desfez a força política que a tornou possível.
Isso
torna indispensável a autocrítica de Lula e do PT — e também impede que ela
seja usada para ignorar a dimensão continental da disputa. A onda trumpista não
é destino.
É
preciso corrigir os erros da campanha, falar de novo à vida concreta da
população e mobilizar o campo democrático. Lula não pode fazer essa campanha
sozinho. Cada conversa, cada rua e cada comunidade contam.
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Uma história de lutas e vitórias
Lula já
venceu três eleições presidenciais. Em 2002, foi eleito para governar de 2003 a
2006. Em 2006, reelegeu-se no segundo turno e governou de 2007 a 2010. Em 2022,
venceu Jair Bolsonaro, pai do adversário que enfrenta agora. É uma história de
lutas e vitórias — experiência que deve servir de força, não de acomodação.
Militantes
do PT e de todo o campo progressista: vamos à luta. O segundo turno ainda pode
ser vencido, mas ninguém o vencerá por nós. Vamos conquistar os votos, defender
a democracia e mostrar que o Brasil não será entregue a Trump nem aos
Bolsonaro.
Em 5 de
janeiro de 2027, vamos subir de novo, junto com Lula, a rampa do Planalto.
• O Brasil não é de direita. Por Saulo
Marino
A
maioria dos brasileiros não é conservadora. O Brasil não é um país de direita.
O que falta para o campo progressista é organização e trabalho de base para
disputar e vencer eleições.
Enxergo
que a fórmula é relativamente simples. Um candidato forte. Um projeto de
cidade, de estado e de país. Um partido coeso (ou melhor, a união de todos os
partidos possíveis). Comunicação profissional. E trabalho de base. Por que
política é o curioso caso onde a vitória vai sendo construída na véspera. Por
exemplo: quem será o candidato a governador de São Paulo em 2030? 5 de outubro
de 2026, a eleição já começou.
Vamos
pegar o Maranhão como exemplo, um estado extremamente religioso foi o
responsável por eleger o primeiro governador da história do Partido Comunista
do Brasil. Incoerência? Não acredito. Antes de mais nada, é fundamental que a
população saiba com antecedência quem é o candidato. Uma pessoa com chances
reais de vitória. O líder do projeto. Já testado nas urnas. Que realmente seja
de esquerda e cumpra o plano de governo. No caso, Flávio Dino capitaneou a
missão.
Depois,
é preciso ter uma equipe para criar palanque em todas as cidades do estado: um
membro do Partido tem que estar na chapa, disputando eleição como prefeito ou
vice, e mais uma vez com chances de ganhar. E aqui é papo de filiar candidatos
de todas as vertentes, desde que respeite o projeto do Partido e seu líder.
Isso sim é uma frente ampla. Amplíssima. Se determinado grupo político “domina
a cidade faz 3 ou 30 anos” e vota com a extrema-direita, beleza. Quem relevante
de lá é ou quer ser oposição, é leal e consegue organizar um grupo de
vereadores? Sempre tem alguém. Tragam esse pessoal para o Partido e vamos pra
luta. Foi assim que o PCdoB Maranhão fez 1 prefeito em 2008, 14 em 2012 e 46 em
2016. Eram todos bolcheviques? Marxistas-leninistas? Claro que não. Mas
garantiram a vitória de Dino em 2014 e 2018.
Desse
grupo de prefeitos sairão os deputados federais e estaduais, dividindo o estado
em microrregiões, porque o trabalho é contínuo. Não dá pra todo mundo disputar
voto na capital porque “tem mais eleitor” e esquecer do interior. Todas as
cidades são importantes, todo voto tem o mesmo peso. Muito menos disputar
eleição “cada um por si”. Não se comemora uma vitória isolada se o grupo como
um todo perdeu.
Também
não dá pra ficar aguardando o “voto orgânico” nas majoritárias, ideológico,
espontâneo, porque “somos mais inteligentes”, “mais bonitos”, temos o melhor
programa de governo. O voto tem que ser casado! Política é guerra. E na batalha
você não vai querer estar sozinho, armado com um ramo de arruda enquanto seus
adversários formam uma quadrilha portando fuzis. Ou seja, o cara que vota no
seu vereador precisa votar no seu prefeito, deputado, senador, governador e
presidente. O discurso tem que estar alinhado. Esse é o trabalho de base.
Feito
isso, é preciso lembrar diariamente que toda revolução gera uma
contrarrevolução. A luta deve ser permanente. Lula e o PT tiraram o Brasil do
mapa da fome, reduziram as desigualdades, ampliaram as universidades,
distribuíram renda, levaram luz para quem vivia na escuridão. Isso foi uma
revolução. O que estamos vivendo agora é uma contrarrevolução, que começou em
2014.
O
historiador Mark Bray publicou um livro em 2017 apontando alguns fatores
fundamentais da luta antifascista. Primeiro, a Europa entreguerras nos ensinou
que o combate ao fascismo começa pela capacidade de reconhecê-lo. Segundo, os
fascistas nunca chegaram ao poder através da força (como a tentativa de golpe
do 8 de janeiro). Eles chegaram ao poder por vias legais. É nítido o que
estamos vivendo.
Antes
da Marcha sobre Roma, em outubro de 1922, Mussolini já tinha sido convidado
pelo rei Vítor Emanuel III para assumir o cargo de primeiro-ministro da Itália.
Em 1923, Hitler fracassou na tentativa de golpe. Dez anos depois, sua ascensão
ao poder aconteceu quando o presidente Hindenburg o nomeou chanceler. E a lei
que lhe concedeu plenos poderes foi aprovada pelo parlamento.
Seguindo
o raciocínio de Mark Bray, temos o terceiro ponto: “As lideranças socialistas e
comunistas foram mais lentas do que suas bases em compreender a ameaça do
fascismo”.
Em 2026
grandes nomes do campo progressista foram “desperdiçados” em competições
perdidas em estados como Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul,
pois a esquerda quis disputar eleições de igual para igual no meio de uma luta
desigual. E em outros estados sequer sabíamos quem era candidato do campo
progressista. Puro suco do caos.
Enquanto
muitos da esquerda insistem em “candidaturas individualistas”, isoladas em si
mesmas, brigando dentro da bolha de esquerda para ver quem é mais de esquerda,
a extrema-direita está disputando o voto de todo mundo, porque estão
organizados, “aprenderam” a conversar com o eleitor.
Além
disso, o discurso deles é extremamente simplório, direto e acessível:
simplificar problemas estruturais do país atribuindo as responsabilidades a um
único fator, o adversário político. “É culpa do Lula”. “É culpa do PT”.
“Comunistas”.
Vejam
as campanhas, acessem as redes sociais, assistam os programas eleitorais. É
tudo muito bem feito, planejado, como também cantou a bola Mark Bray: “o
fascismo rouba da ideologia, da estratégia, do imaginário e da cultura de
esquerda”. Eles vestem a camisa do Brasil para dizer que são nacionalistas
(mesmo entregando o país aos EUA), empregam “pessoas de direita” em seus
negócios (atuando como faz um sindicato, usado como porta de entrada para
empregos na indústria), eventualmente participam de ações de caridade, etc.
Então
chegamos ao fatídico 4 de outubro de 2026. O resultado do primeiro turno é
catastrófico. Ficamos paralisados, com a impressão de que disputamos por
disputar, à medida que o Senado ia sendo tomado por psicopatas fascistas. A
tática eleitoral deles deu certo. E, independente do que acontecer na
majoritária no segundo turno, o Brasil já saiu derrotado. Destaco a quinta e
última lição de Mark Bray: “Não são necessários muitos fascistas para instaurar
o fascismo”. Regra que fala por si só.
Nós
estamos à beira de uma tragédia.
Sou
vizinho de uns bares. Enquanto o âncora apresentava na TV o resultado das
eleições, de casa escutei algumas pessoas se divertindo, bebendo cerveja e
conversando aleatoriamente. Lembrei daquela cena do filme Flores Raras, quando
a atriz que interpreta Elizabeth Bishop toma um choque de realidade com o
anúncio no rádio do golpe de 1964, observando da janela a extrema naturalidade
da rotina carioca: pessoas jogando futebol na praia de Copacabana.
Alienados?
Muitos. Conservadores? Tenho certeza que não. A maioria do povo só está
preocupada com comida no prato, segurança, transporte e um salário digno. Mesmo
que o projeto da direita nunca entregue isso, é muito grande o salto entre
entender o que se está sentindo, transformar isso em luta (de classes) e chegar
à conclusão de que, no limite, a saída sempre será à esquerda.
25 de
outubro de 2026 se transformou em Lula ou barbárie. Depois, muita coisa precisa
mudar. Estamos vivendo novos tempos. Mapear todas as cidades do Brasil, dividir
o país por estados e regiões para organizar as bases me parece extremamente
importante, o ponto zero dessa história. O surgimento de novas lideranças
precisa ser induzido, não espontâneo.
E a
Elizabeth Bishop do mundo real? Polêmica poetisa erradicada no Brasil durante
duas décadas, dias após o golpe de 64 ela escreveu o seguinte: “Ando
horrivelmente deprimida com o que está acontecendo por aqui, e meu único
pensamento é ir embora por um tempo”. E assim foi.
Fonte:
Brasil 247

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