Sinais
do fim do mundo?
Dois
eventos distantes e aparentemente não conectados, que aconteceram nos últimos
dias, podem estar, na verdade, interligados, por resultarem de ações humanas
que, de alguma forma, podem eventualmente contribuir para a extinção da vida na
Terra. São eles: (i) o alerta de empresas de tecnologia, entre elas as gigantes
Open AI, Anthropic, Google, Microsoft, Amazon, IBM, Oracle, por meio de um
manifesto, exortando o governo estadunidense a “proteger hospitais e serviços
essenciais” por causa da inteligência artificial que foi, e ainda é, financiada
pelo poder público; e, por outro lado. (ii) o desastre ambiental ocorrido no
Nepal, fruto das falhas gritantes das políticas públicas voltadas ao controle
da crise climática, que, importa frisar, há muito tempo deixou de ser um
discurso radical da esquerda woke.
Assim,
vou tentar destrinchar um pouco mais os fatos, a fim de que o leitor possa
entender melhor onde queremos chegar com o título provocativo.
Primeiro,
para quem acompanha as notícias dos avanços tecnológicos, especialmente da
inteligência artificial generativa, impende alertar que esse último mês foi de
alvoroço e estupefação dentro das empresas de tecnologia, inclusive daquelas
acima citadas, diante da notícia de que modelos de inteligência artificial IA
escaparam de seus ambientes protegidos para realizar ciberataques contra outras
empresas ou alvos.
Explicando
mais detalhadamente, a Open AI e a Hugging Face se viram envolvidas em um
incidente de segurança, quando agentes autônomos do criador do ChatGPT (da Open
AI) romperam o isolamento de seu ambiente de testes, obtiveram acesso não
autorizado à internet e se coordenaram para invadir os sistemas da Hugging
Face. Posteriormente, outras gigantes de tecnologia, como a Anthropic e a Meta,
também relataram incidentes semelhantes.
Ou
seja, depois de décadas de discurso prometeico sobre as benesses do avanço
tecnológico, finalmente as empresas reconheceram, aparentemente, que as medidas
de segurança atuais não serão suficientes para conter o aprendizado exponencial
que as inteligências artificiais estão apresentando/desenvolvendo em obscuros
laboratórios protegidos do grande público.
Daí a
inquietação recentemente manifestada pelo historiador e escritor israelense
Yuval Noah Harari, sobre os riscos das futuras gerações de inteligência
artificial serem capazes de manipular as pessoas e de influenciar os debates
sobre seus próprios direitos e limites. De fato, para ele, os sistemas de
inteligência artificial serão capazes moldar e conduzir o próprio debate sobre
seu status, pois saberão que esse debate está ocorrendo e o manipulará.
Volvendo
a atenção para o segundo fato, há que se observar que, embora o que ocorreu no
Nepal tenha sido amplamente divulgado, ao contrário do assunto sobre o avanço
tecnológico, é preciso ler nas entrelinhas o que realmente aconteceu.
Nesse
sentido, a grande mídia divulgou o ocorrido como mais uma catástrofe ambiental,
como se fosse tão-somente um evento isolado, fruto das oscilações de uma
natureza já bastante degradada. E, de fato, para o leitor que apenas se informa
por meio de “manchetes”, a catástrofe no Nepal é bem parecida com a severa
inundação que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024, por exemplo. Seria “apenas”
a natureza se vingando de tantos maus tratos e manipulações.
Mas a
catástrofe no Nepal é muito mais que isso. É um prenúncio; é a resposta da
natureza, após séculos de devastação ambiental e pouco caso do homem com as
consequências dos seus atos. Pois é sabido que a soberba humana não começou
ontem. Pelo contrário, desde pelo menos a revolução industrial, no longínquo
século XVIII, o homem passou gradativamente a se apropriar dos recursos
naturais, sem preocupar-se com a possibilidade de levá-los ao esgotamento, como
se fossem propriedade exclusiva da nossa espécie. Os famigerados “data centers”
contemporâneos, que consomem quantidades inimagináveis de água e energia,
parecem ser “a cereja do bolo” atual.
O
glaciologista Peter Wadhams afirmou que existe, sim, uma probabilidade
considerável de ruptura irreversível no sistema terrestre. O que ele quis dizer
com isso? Ora, em português claro, quis dizer que estaremos ferrados muito
antes do que pensamos, se não encontrarmos uma solução para conter os efeitos
da crise climática. Até mesmo os bilionários, se não encontrarem logo uma forma
de escapar do planeta. E foi sintomática sua resposta, quando perguntado sobre
a sua esperança para o futuro: “Acho que não me resta muita coisa”.
Pois
bem, penso que esses dois temas, o progresso tecnológico e a crise ambiental,
estão verdadeiramente imbricados. Pois ninguém pode negar – nem mesmo os
terraplanistas o estão tentando –, que o consumo de água e energia de um “data
center gigante”, nos moldes dos que atualmente existem na China, na Índia e nos
Estados Unidos, equivale ao consumo de uma cidade média, ou até mesmo de uma
grande, a depender do país. Assim, a questão não é mais se eles vão consumir
entre 100 MW e 300 MW de energia – pois já estão consumindo –, mas quais serão
as consequências nefastas daí decorrentes para as espécies ainda vivas.
Ora, é
sabido que várias regiões do planeta já dão sinais de colapso hídrico, como o
norte da África, o Oriente Médio, a bacia dos rios Tigres e Eufrates, o nosso
semiárido, entre outras. Assim, instalar monstros de metal, que consomem
diretamente cerca de 2 a 5 milhões de galões (7 a 19 milhões de litros) de
água/dia para refrigeração – o equivalente ao consumo hídrico de uma cidade de
50 mil habitantes –, só piora a situação.
E se
considerarmos também os gastos indiretos de energia que esses complexos geram e
irão gerar cada vez mais, à medida em que crescem de tamanho – empresas
terceirizadas, novos trabalhadores que se instalam e aumentam o tamanho das
cidades, destruição da natureza, poluição etc. –, não seria exagero afirmar que
estamos armando uma bomba relógio contra nós mesmos.
Tudo
fica ainda pior quando percebemos que não existe retrocesso viável, que possa
mitigar esses problemas para “salvar” essas e outras áreas que estão sendo
destruídas em nome do progresso. A natureza não é um jogo de videogame onde se
pode dar um “reset” e recomeçar do zero. Podemos até replantar alguns milhares
de árvores, mas não podemos recriar a floresta amazônica, por exemplo. Até hoje
a região da Ucrânia, onde ocorreu o acidente de Chernobyl, em 1986, permanece
desabitada, salvo por alguns poucos animais. Onze anos depois do maior acidente
ambiental da história do Brasil, em Mariana, a região continua poluída e
devastada. Os exemplos são muitos…
No
contrato social do progresso tecnológico nunca esteve escrito que os seres
vivos, o animal humano inclusive, seriam beneficiados. Pelo contrário.
Jean-Jacques Rousseau entendia que apenas no estado de natureza, o ser humano é
livre, feliz, pacífico e naturalmente bom. Em outras palavras, apenas em
harmonia com a natureza, e com o consentimento livre dos cidadãos para garantir
a liberdade e a igualdade de todos, pode-se pensar em um governo legítimo. Como
podemos ser tudo isso que ele imaginou em um mundo totalmente assimétrico?
É
verdade que a tecnologia faz parte da história do homem. Mas se no início da
vida do homo sapiens sapiens a pedra lascada ajudou a manter a espécie viva, o
contínuo aperfeiçoamento das ferramentas de sobrevivência e guerras já causou
grandes transtornos ao planeta. Alguém ainda se lembra que ajudamos a extinguir
os Mamutes? Ou que quase exterminamos o bisão-americano, atualmente chamado
búfalo, em poucas décadas no século XIX? A depender de quem faça a conta,
milhares de espécies já foram extintas diretamente pela ação humana, desde
1500.
É
também verdade que a curiosidade humana sobre o cosmos remonta à antiguidade,
pelo menos. É conhecida a história, narrada pelo autor sírio Luciano de
Samósata, sobre a caravana de marinheiros levada por um redemoinho até a Lua,
no século II d.C. Já no século XVII o astrônomo Johannes Kepler escreveu uma
história sobre uma viagem à Lua guiada por forças sobrenaturais, misturando
fantasia com suas observações astronômicas reais.
Alguém
leu Júlio Verne, com seu trio de exploradores lançados em uma cápsula por um
canhão gigante, ou H.G. Wells, que imaginou alienígenas saindo de seu planeta
(Marte) para invadir a Terra, no século XIX? Esse foi o período romântico do
animal humano, antes da explosão da bomba atômica e, mais recentemente, do
mundo virtual.
Hoje
esse romantismo está arrefecido. Com efeito, para os cientistas mais sérios,
nosso big deal mais realista é salvar o planeta. O progresso científico já
demonstrou que colonizar o espaço está ainda muito aquém da nossa capacidade.
Pelo menos para os 99,99% da população mundial. Não à toa, Stephen Hawking, uma
das mentes mais brilhantes de todos os tempos, apesar de ser favorável à
colonização do espaço, tinha dúvidas sobre essa possibilidade, especialmente
pelas recentes crises financeiras globais e as medidas de austeridade.
Para
Stephen Hawking, o desinvestimento nas áreas da ciência pode aprisionar o ser
humano em um planeta que ficará pequeno demais para ele, nas próximas décadas.
E aqui repito: para os 99,99% da população. É aqui que mora o perigo… Para ele,
só há duas possibilidades para o futuro da humanidade. A primeira é a
exploração do espaço para encontrar planetas alternativos para a vida humana. A
segunda é o uso positivo da inteligência artificial para melhorar o nosso
mundo.
Ocorre
que essas duas possibilidades não estão sendo exploradas por governos
preocupados com o futuro da humanidade, concordam? Pelo contrário. As “big
techs”, especialmente as denominadas “sete magníficas”, Microsoft, Apple,
Nvidia, Alphabet/Google, Amazon, Meta e Tesla, estão nas mãos dos atuais
Techno-oligarcas mais abastados do planeta. Será que eles estão preocupados com
o futuro dos seus semelhantes?
O
próprio Stephen Hawking apresentou sua preocupação sobre essa questão, ao
afirmar que: “Um mundo onde apenas uma minúscula superelite é capaz de
compreender os avanços científicos e tecnológicos e suas implicações seria, a
meu ver, um lugar perigoso e limitado… Pior ainda, poderíamos descobrir que a
tecnologia é usada contra nós e que talvez não tenhamos poder para impedi-la”.
(Hawking, p. 234)
Se
refletirmos um pouco sobre a história do capitalismo, será que alguém, em sã
consciência, pensaria que a atual corrida tecnológica tem algo a ver com a
prosperidade da humanidade? É lógico que a narrativa da mídia dominante é nesse
sentido. Ela está sendo muito bem paga para isso. Mas mesmo ela já traz, aqui e
acolá, indagações sobre essa corrida desenfreada rumo ao desconhecido,
principalmente por meio de entrevistas com alguns renomados especialistas.
Talvez seja uma forma de “mea culpa”. Seja como for, não é suficiente. Desde
que o capitalismo avançou com a utilização do carvão nas máquinas, a degradação
ambiental não mais parou. Nem vai parar…
Em
1972, um estudo pioneiro encomendado pelo Clube de Roma e coordenado pelos
cientistas Donella Meadows e Dennis Meadows, do MIT, intitulado “Os limites do
crescimento” (The Limits to Growth), já alertava que, se o ritmo de consumo
fosse mantido, a poluição global e o esgotamento dos recursos naturais levariam
a humanidade ao colapso no século XXI. De fato, a tese principal do estudo era
de que é impossível manter um crescimento econômico e populacional infinito em
um planeta com recursos físicos finitos. Portanto, a insistência em manter o
padrão de consumo geraria um colapso socioeconômico e demográfico inevitável
antes do ano 2100.
De
forma análoga, o cientista britânico James Lovelock (1919-2022), alertou para o
fato de acharmos que no meio desse século ainda desfrutaremos de um mundo
confortável sob a gestão humana. Para ele, ainda no meio do século passado já
deveríamos ter tido a consciência de que habitamos um planeta vivo, cujas
necessidades estão em conflito com as nossas.
Para
James Lovelock, a presença de bilhões de seres humanos almejando o máximo de
bem-estar possível, além de outros organismos vivos, já poderia ser considerada
incompatível com a homeostasia do clima. Mas o que mais preocupava James
Lovelock era o fato de o ser humano odiar qualquer mudança visível em seu modo
de vida diário e na sua visão de futuro. A maneira como a ciência é feita
reflete, pois, inadvertidamente, o modo usual de como gostamos de manter as
coisas funcionando.
Nessas
circunstâncias, James Lovelock descreve, em tom pessimista, as atitudes dos
governos alertados pelos cientistas sobre o verdadeiro estado geral da Terra, a
saber, negação e depois a busca desesperada por uma cura. Mas ele sabe que as
ofertas de modos sustentáveis de salvar o planeta por empresas alternativas e
lobistas nada mais são do que esperanças vãs. Ainda no início desse século, ele
alertava para o pouco tempo que tínhamos para agir, mas era cético quanto à
nossa capacidade de agir a tempo para evitar os desastres ambientais.
Com
efeito, para ele, a consciência de que somos os principais agentes do porvir
ainda carece de um sentimento religioso suficiente para o devido
arrependimento. Na verdade, o pessimismo dele em relação ao animal humano é tão
grande, que mesmo uma mudança nos nossos genes não seria suficiente para nós.
Pois, ainda segundo ele, a seleção natural nos fez o predador mais formidável
deste mundo.
O
resultado, para James Lovelock, é que somos um agente infeccioso do planeta há
bastante tempo, com milhares de anos de incubação, mas só recentemente, após a
Revolução Industrial, que o nosso hospedeiro, a Terra, começou a apresentar os
sintomas irreversíveis.
O
filósofo britânico John Gray escreveu sobre a busca pela imortalidade
humana.[5] Para ele, a ciência do final do século XIX e do começo do século XX
transformou-se em um instrumento investido contra a morte. Ainda segundo ele, a
ciência havia revelado que a finitude dos seres humanos não era diferente da
dos outros animais, fato este que o próprio Charles Darwin não aceitou por
completo. E, no entanto, a ciência também é impossível sem um tipo divino de fé
na busca pelas leis naturais.
Porém,
como pondera John Gray, nem mesmo a existência de Deus pode garantir que o
universo será favorável aos seres humanos. Pois a criação do nosso mundo não
implica, necessariamente, que Deus ficaria atento ao planeta Terra
indefinidamente. Ao citar Hume, Gray lembra que Deus poderia simplesmente
esquecer que havia criado um mundo.
John
Gray cita o filósofo, poeta e humanista espanhol George Santayana (1863-1952),
que disse: “Um espírito verdadeiramente despojado não pode assumir que o mundo
é totalmente inteligível. Pode haver números irracionais, pode haver fatos
concretos, pode haver abismos escuros ante os quais a inteligência deve
silenciar por temor de ficar louca”. (Gray, p. 207)
Contudo,
alguns incautos, que defendem ou já defenderam a possibilidade de mudança,
merecem também ser lembrados. Um deles é o pensador austríaco Ivan Illich. Para
ele, é fundamental que a sociedade geral reorganize debates públicos que
permitam que as pessoas deliberem sobre a própria autolimitação. Em outras
palavras, uma sociedade coesa deve se basear na equidade e na limitação do
consumo de energia dos seus cidadãos mais poderosos. Pois um governo
subserviente à busca incessante do lucro e do egocentrismo dos mais ricos é uma
sociedade corrompida.
Infelizmente,
é nesse ponto em que nos encontramos, com Donald Trump, o presidente da
principal potência mundial, os Estados Unidos, sendo considerado pela maioria
dos estadunidenses como o líder do governo mais corrupto da história. Não há
espaço, nesse texto, para falarmos dos absurdos praticados no segundo governo
de Donald Trump.
Mas é
bom frisar que se Donald Trump conseguir manipular as eleições de meio de
mandato, as “midterms”, no início de novembro, como tem tentando fazer, o mundo
ficará ainda mais perigoso. Pois os tecnoligarcas donos das setes magníficas,
citadas acima, entre outros, ganharão mais poder e liberdade para destruir o
planeta em nome do progresso desmedido.
Nesse
sentido, não é surpresa que o CEO da empresa de investimentos em tecnologia
Andreessen Horowitz, Marc Andreessen, em recente declaração, parafraseou
Filippo Tommaso Marinetti – coautor do Manifesto Fascista de Mussolini – em seu
“Manifesto Tecno-Otimista”, ao dizer: “A tecnologia deve ser um ataque violento
às forças do desconhecido, para forçá-las a se curvar diante do homem”.
Assim,
“data centers”, inteligência artificial generativa, a SpaceX de Elon Musk para
colonização extraterrestre, entre outros projetos, não estão sendo
desenvolvidos em prol do bem comum. O único objetivo real é libertar uma casta
humana das vicissitudes da vida. Mesmo que às custas da sobrevivência do
planeta.
Na
ânsia de vencer a morte, o animal humano mostra o seu profundo paradoxo
existencial, qual seja, continuar sempre se pautando pela morte. Enquanto essa
conquista final não acontece, as sete magníficas continuam transformando essa
distopia em produto comercializável. Não à toa, o CEO da Open AI, Sam Altman,
disse recentemente que quer “um futuro onde a inteligência seja um serviço
público, como eletricidade ou água, e as pessoas a comprem de nós por meio de
um medidor”.
Finalizo
com uma reflexão de John Gray, que diz: “O resultado final da investigação
científica é fazer retornar a humanidade à sua própria existência intratável.
Em vez de possibilitar que os seres humanos melhorem sua sorte, a ciência
degrada o ambiente natural no qual precisam viver. Em ver de possibilitar que a
morte possa ser vencida, produz tecnologias ainda mais poderosas de destruição
em massa. Nada disso é culpa da ciência; o que isso mostra é que a ciência não
é feitiçaria. O crescimento do conhecimento aumenta as possibilidades dos seres
humanos; não pode impedi-los de serem o que são”.
“Mesmo
que a maior parte das pessoas nunca possa deixar de sonhar com a imortalidade,
indivíduos aqui e ali podem afrouxar o poder do sonho sobre suas vidas. Se você
entender que, ao querer viver para sempre, tenta preservar uma imagem sem vida
de você mesmo, talvez não queira ser ressuscitado ou sobreviver em um paraíso
post mortem. O que poderia ser mais mortal do que ser incapaz de morrer?”
(Gray, p. 215).
Fonte:
Por André Márcio Neves Soares, em A Terra é Redonda

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