As
candidatas que desafiaram a onda conservadora
Embora
o primeiro turno das eleições de 2026 tenha resultado numa onda de direita
sobre o Congresso e os governos estaduais, o campo progressista também celebra
algumas vitórias ao redor do Brasil.
Diversas
candidatas mulheres obtiveram votações expressivas ao concorrerem com campanhas
que acenaram a minorias sociais em vários estados.
Veja
abaixo uma seleção destas candidaturas femininas que saíram vitoriosas da
votação de domingo (04/10).
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LGBTQIA+
Ao ser
reeleita, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) se tornou a mulher mais
votada na história da Câmara dos Deputados, com 1.596.472 votos, segundo dados
do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Ela que
é mulher trans, recebera 256.903 votos em 2022, isto é, cerca de seis vezes a
menos. Apesar do crescimento impressionante, ainda assim, ela obteve neste ano
cerca de metade dos votos do primeiro colocado na disputa para deputado federal
por São Paulo, Lucas Pavanato (PL-SP).
Em
Brasília, Hilton, atuou em prol dos direitos das mulheres, da comunidade
LGBTQIA+ e das populações preta e parda. Desde o ano passado, ganhou
popularidade ao propor o fim da escala 6x1 no Congresso.
Já para
o Legislativo paulista, se elegeu Sofia Favero (PSOL-SP) com 407.773 votos,
apoiada por Hilton. Ela também é mulher trans e atua em favor da população
transexual e de outras minorias.
Favero
foi a terceira candidata a deputada estadual mais votada pelos paulistas, atrás
de Eduardo Suplicy (PT-SP) e Eduarda Campopiano (PL-SP).
No Rio
de Janeiro, Dani Balbi (PCdoB-RJ), mulher trans e negra, foi reeleita deputada
estadual com 169.474 votos. Ela teve a quarta maior votação para a Assembleia
Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), atrás de Índia Armelau (PL-RJ), Márcio
Canella (União Brasil-RJ) e Renata Souza (PSOL-RJ).
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Mulheres
Outras
mulheres obtiveram assentos ao declararem apoio à pauta feminista. Foi o caso
de Sâmia Bomfim (PSOL-SP), a terceira colocada na disputa em São Paulo por
assentos na Câmara dos Deputados, com 583.107 votos, e Tábata Amaral (PSB-SP),
a quinta colocada com 476.383 votos.
Tábata
frequentemente se apresenta como defensora da igualdade de gênero e tem
associado sua atuação política a pautas ligadas ao tema. Ao mesmo tempo,
setores do movimento feminista e da esquerda criticam parte das suas posições
distantes do campo progressista.
No Rio
Grande do Norte, a deputada federal Natália Bonavides (PT-RN), que se define
como feminista e ativista de direitos humanos, foi a candidata ao mesmo cargo
mais votada de todo o estado, com apoio de 215.509 eleitores, cerca de 10% dos
votos válidos para o cargo.
Eleita
vereadora de Praia Grande em 2024, Eduarda Campopiano (PL-SP), em
contrapartida, se autodeclara "inimiga das feministas". Com ampla
margem, ela obteve a maior votação entre os candidatos a deputado estadual de
São Paulo, com 1.956.238 votos.
Já no
Senado, as mulheres obtiveram 12 das 54 vagas em disputa, o maior número de
senadoras eleitas num só pleito desde a redemocratização. A bancada feminina,
entretanto, é majoritariamente reforçada por mulheres de direita — somente um
terço das eleitas deste ano é filiada a partidos de esquerda.
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População preta e parda
Também
houve votações expressivas de mulheres negras cuja trajetória política está
ligada ao combate ao racismo e à defesa de direitos humanos.
No Rio
de Janeiro, Renata Souza (PSOL-RJ) foi reeleita deputada estadual com 176.871
votos. Mulher negra e feminista, ela obteve a terceira maior votação para a
Alerj.
Na
disputa pela Câmara dos Deputados no mesmo estado, a ex-ministra da Igualdade
Racial Anielle Franco (PT-RJ) foi eleita com 149.726 votos, a nona maior
votação entre os 46 deputados federais eleitos pelo Rio. Os oito primeiros
colocados foram candidatos homens de seis partidos.
Já em
Minas Gerais, a ex-ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania Macaé Evaristo
(PT-MG) foi reeleita deputada estadual com 157.301 votos.
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Indígenas
Entre
as candidaturas indígenas, foi reeleita por São Paulo a deputada federal
Juliana Cardoso (PT-SP), com 111.904 votos. Filha de pai indígena do povo
Terena e de mãe negra, Cardoso atua em defesa dos direitos indígenas.
Em
2026, ela presidiu a Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e
Tradicionais da Câmara dos Deputados, onde defendeu medidas contra o garimpo
ilegal, o desmatamento e a violência nos territórios indígenas.
Também
foi reeleita Sônia Guajajara (PSOL-SP) ao cargo de deputada federal por São
Paulo com 54.207 votos. A ex-ministra dos Povos Indígenas, do povo
Guajajara/Tentehar, recebeu, entretanto, o menor número de votos entre os
eleitos no estado.
Neste
ano, o Brasil teve um recorde de candidaturas indígenas, segundo levantamento
da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Foram 191 postulantes
registrados pela Justiça Eleitoral, mais que o dobro dos 85 de 2014.
• Nova Câmara redesenha forças e amplia
peso da direita
O
pleito de 2026 entrou para história neste domingo (04/10) ao sacramentar o
recorde obtido pelo PL, partido do presidenciável Flávio Bolsonaro, que
conquistou 121 cadeiras na Câmara dos Deputados. Trata-se do maior avanço já
registrado por um partido de oposição e de mais um sinal da consolidação da
direita no Congresso Nacional.
Enquanto,
no Senado, os partidos ligados ao bolsonarismo terão força inédita para
influenciar a composição do Supremo Tribunal Federal (STF), o peso do PL na
Câmara mais poderosa da história democrática do país dará à legenda influência
sem precedentes sobre o próximo presidente eleito.
Isso
porque cabe aos deputados não apenas debater, elaborar e votar projetos de lei,
mas também definir as leis orçamentárias anuais e o destino de cerca de um
quinto das despesas discricionárias da União, por meio das emendas
parlamentares. Em 2027, tais emendas podem chegar a R$ 57,5 bilhões, sendo R$
44,4 bilhões impositivos, ou seja, que o governo é obrigado a pagar. Além
disso, um poder cada vez mais relevante estará nas mãos do próximo presidente
da Câmara: decidir sobre o andamento dos pedidos de impeachment contra o chefe
do Executivo.
Também
passa pela Câmara o destino do Fundo Partidário, de cerca de R$ 1 bilhão ao
ano, e do Fundo Eleitoral, de R$ 5 bilhões.
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PL avança sobre o Centrão
Se o
crescimento contínuo do Centrão já vinha ampliando a capacidade de pressão do
Legislativo sobre o Executivo e dando à Câmara a palavra final em diversas
negociações, a ascensão da direita pode levar esse poder acumulado a um novo
patamar. Em 2022, o PL já havia alcançado um recorde de 99 deputados, mas ainda
era a segunda maior força da Casa, atrás da federação União Brasil-PP, que
levou 106 parlamentares a Brasília. Isso foi suficiente para que as siglas
ampliassem seu espaço de negociação com o governo e chegassem a ocupar
ministérios.
Agora,
o grupo político de Bolsonaro avança sobre o Centrão, que diminui sua
participação na Casa, ainda que o núcleo formado por PP, União Brasil e
Republicanos some 128 cadeiras na Câmara e possa garantir a um futuro governo
ampla margem para aprovar suas prioridades. Nas últimas eleições, esses
partidos têm atuado ao lado dos vencedores e tiveram papel central na condução
da agenda do Congresso.
No novo
cenário, um eventual governo Lula deve enfrentar um Congresso praticamente
hostil à sua agenda e que, ao lado do Senado, terá poder para dar a palavra
final sobre projetos de lei. Se, desde a redemocratização, a caneta
presidencial costumava ter maior peso decisório, levantamento da DW mostra que
o Congresso está cada vez mais disposto a derrubar vetos do Executivo.
As
derrubadas atingiram um recorde proporcional durante o governo Lula, com mais
da metade de seus vetos rechaçados pelo Congresso. Já no governo do
ex-presidente Jair Bolsonaro, alcançaram um recorde em números absolutos. Ambos
governaram sob forte influência do Centrão. Já em um eventual governo Flávio
Bolsonaro, que saiu na frente no primeiro turno, a tendência é encontrar uma
Câmara mais alinhada à sua agenda.
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Como ficou a nova composição da Câmara
Na nova
composição da Câmara, o PL ganhou 22 cadeiras e chegou a 121 deputados, ante 99
na legislatura anterior. A federação PT-PCdoB-PV avançou sete cadeiras,
chegando a 88 parlamentares. Já a federação União Brasil-PP ficou com 87
deputados, 19 a menos do que há quatro anos. Em seguida aparecem PSD, com 43
cadeiras; Republicanos, com 41; MDB, com 36; Podemos, com 27; PSB, com 15;
federação PSOL-Rede, com 15; e federação PSDB-Cidadania, com 11. O Novo, com
dez deputados, completa a lista dos partidos com representação de dois dígitos.
Solidariedade, PV, PDT, Avante, Rede e Missão não alcançaram dez cadeiras, mas
elegeram representantes.
Para
alcançar maioria absoluta na Câmara, são necessárias 257 cadeiras. A aprovação
de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) exige 308 votos. Já a
autorização para abertura de um processo de impeachment contra o presidente da
República requer 342 votos, enquanto a derrubada de um veto presidencial
depende de 257 parlamentares.
A
capacidade do Congresso de travar pautas do governo ou usar o impeachment como
instrumento de pressão ficou evidente na última legislatura, durante os embates
entre Lula e o presidente da Câmara, Hugo Motta, em torno da tramitação de
diversos projetos de lei, como o PL da Anistia e o aumento do IOF, e da
distribuição de emendas parlamentares.
O poder
da Casa, portanto, vai muito além da votação de projetos de lei. A instalação
de comissões parlamentares de inquérito (CPIs) também tem sido um dos
principais instrumentos de pressão sobre o Executivo.
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Renovação é a menor da série histórica
A
renovação da Câmara dos Deputados em 2026 foi a menor da série histórica.
Apenas 42,7% dos eleitos não exerciam mandato na legislatura anterior, o
equivalente a 219 deputados. Desses, 33 já haviam ocupado cargos eletivos na
Casa em outros períodos. O índice vem caindo desde 2018, quando a renovação
atingiu o recorde de 53%, e é o menor desde 2002. O levantamento foi feito pela
DW com base em dados da Justiça Eleitoral
Tocantins
(75%) e Espírito Santo (70%) foram os estados com maior renovação de suas
bancadas, enquanto Paraíba e Sergipe (25%) figuram entre os que mais apostaram
em nomes já conhecidos do eleitorado.
Os
deputados Cláudio Cajado (PP-BA) e Arlindo Chinaglia (PT-SP) seguem como
recordista de mandatos consecutivos, com nove eleições seguidas. Eles venceram
todas as disputas desde 1994.
Entre
os 513 deputados eleitos, apenas 41 não tentaram a reeleição nem concorreram a
outro cargo. Por outro lado, a participação feminina atingiu um recorde
histórico: 109 deputadas foram eleitas, o equivalente a 21,2% da Câmara, acima
dos 17,7% da legislatura anterior. Em relação a raça e cor, a composição mudou
pouco em comparação com 2022: foram eleitos 373 deputados brancos, 105 pardos,
30 pretos, três indígenas, um amarelo e um sem informação. Com quatro
representantes a mais do que em 2022, o número de autodeclarados pretos é o
maior já registrado. Ainda assim, a participação conjunta de pretos e pardos
permanece praticamente estagnada.
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Cresce o número de milionários
A
Câmara também não rejuvenesceu. A média de idade dos eleitos ficou em 50,1
anos, dentro do padrão observado desde 1994. As mudanças ocorreram nos
extremos: 23 deputados têm menos de 30 anos e 30 têm mais de 70. São os maiores
números da série histórica em ambas as faixas etárias.
Outro
dado relevante é o avanço dos parlamentares mais ricos. Dos 513 eleitos, 307
declararam patrimônio de R$ 1 milhão ou mais. Trata-se da maior proporção já
registrada. Em comparação com 2022, a parcela de milionários passou de 56,3%
para 59,8%, em valores corrigidos pela inflação.
Os
puxadores de voto também alcançaram marcas históricas. Nikolas Ferreira (PL-MG)
ampliou sua votação de 1,49 milhão para 3,12 milhões de votos, estabelecendo o
recorde histórico para um candidato a deputado federal. Estreante na política
nacional, Lucas Pavanato (PL-SP) recebeu pouco mais de 3 milhões de votos. No
sistema proporcional brasileiro, uma votação muito alta aumenta os votos totais
do partido e, consequentemente, o número de cadeiras a que a legenda tem
direito.
A maior
votação da esquerda ficou com Erika Hilton (PSOL-SP), que obteve 1,6 milhão de
votos. Entre os dez deputados federais mais votados do país, quatro são do PL.
Fonte:Agencia
Brasil/ DW Brasil

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