quarta-feira, 7 de outubro de 2026

As candidatas que desafiaram a onda conservadora

Embora o primeiro turno das eleições de 2026 tenha resultado numa onda de direita sobre o Congresso e os governos estaduais, o campo progressista também celebra algumas vitórias ao redor do Brasil.

Diversas candidatas mulheres obtiveram votações expressivas ao concorrerem com campanhas que acenaram a minorias sociais em vários estados.

Veja abaixo uma seleção destas candidaturas femininas que saíram vitoriosas da votação de domingo (04/10).

<><> LGBTQIA+

Ao ser reeleita, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) se tornou a mulher mais votada na história da Câmara dos Deputados, com 1.596.472 votos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Ela que é mulher trans, recebera 256.903 votos em 2022, isto é, cerca de seis vezes a menos. Apesar do crescimento impressionante, ainda assim, ela obteve neste ano cerca de metade dos votos do primeiro colocado na disputa para deputado federal por São Paulo, Lucas Pavanato (PL-SP).

Em Brasília, Hilton, atuou em prol dos direitos das mulheres, da comunidade LGBTQIA+ e das populações preta e parda. Desde o ano passado, ganhou popularidade ao propor o fim da escala 6x1 no Congresso.

Já para o Legislativo paulista, se elegeu Sofia Favero (PSOL-SP) com 407.773 votos, apoiada por Hilton. Ela também é mulher trans e atua em favor da população transexual e de outras minorias.

Favero foi a terceira candidata a deputada estadual mais votada pelos paulistas, atrás de Eduardo Suplicy (PT-SP) e Eduarda Campopiano (PL-SP).

No Rio de Janeiro, Dani Balbi (PCdoB-RJ), mulher trans e negra, foi reeleita deputada estadual com 169.474 votos. Ela teve a quarta maior votação para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), atrás de Índia Armelau (PL-RJ), Márcio Canella (União Brasil-RJ) e Renata Souza (PSOL-RJ).

<><> Mulheres

Outras mulheres obtiveram assentos ao declararem apoio à pauta feminista. Foi o caso de Sâmia Bomfim (PSOL-SP), a terceira colocada na disputa em São Paulo por assentos na Câmara dos Deputados, com 583.107 votos, e Tábata Amaral (PSB-SP), a quinta colocada com 476.383 votos.

Tábata frequentemente se apresenta como defensora da igualdade de gênero e tem associado sua atuação política a pautas ligadas ao tema. Ao mesmo tempo, setores do movimento feminista e da esquerda criticam parte das suas posições distantes do campo progressista.

No Rio Grande do Norte, a deputada federal Natália Bonavides (PT-RN), que se define como feminista e ativista de direitos humanos, foi a candidata ao mesmo cargo mais votada de todo o estado, com apoio de 215.509 eleitores, cerca de 10% dos votos válidos para o cargo.

Eleita vereadora de Praia Grande em 2024, Eduarda Campopiano (PL-SP), em contrapartida, se autodeclara "inimiga das feministas". Com ampla margem, ela obteve a maior votação entre os candidatos a deputado estadual de São Paulo, com 1.956.238 votos.

Já no Senado, as mulheres obtiveram 12 das 54 vagas em disputa, o maior número de senadoras eleitas num só pleito desde a redemocratização. A bancada feminina, entretanto, é majoritariamente reforçada por mulheres de direita — somente um terço das eleitas deste ano é filiada a partidos de esquerda.

<><> População preta e parda

Também houve votações expressivas de mulheres negras cuja trajetória política está ligada ao combate ao racismo e à defesa de direitos humanos.

No Rio de Janeiro, Renata Souza (PSOL-RJ) foi reeleita deputada estadual com 176.871 votos. Mulher negra e feminista, ela obteve a terceira maior votação para a Alerj.

Na disputa pela Câmara dos Deputados no mesmo estado, a ex-ministra da Igualdade Racial Anielle Franco (PT-RJ) foi eleita com 149.726 votos, a nona maior votação entre os 46 deputados federais eleitos pelo Rio. Os oito primeiros colocados foram candidatos homens de seis partidos.

Já em Minas Gerais, a ex-ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania Macaé Evaristo (PT-MG) foi reeleita deputada estadual com 157.301 votos.

<><> Indígenas

Entre as candidaturas indígenas, foi reeleita por São Paulo a deputada federal Juliana Cardoso (PT-SP), com 111.904 votos. Filha de pai indígena do povo Terena e de mãe negra, Cardoso atua em defesa dos direitos indígenas.

Em 2026, ela presidiu a Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais da Câmara dos Deputados, onde defendeu medidas contra o garimpo ilegal, o desmatamento e a violência nos territórios indígenas.

Também foi reeleita Sônia Guajajara (PSOL-SP) ao cargo de deputada federal por São Paulo com 54.207 votos. A ex-ministra dos Povos Indígenas, do povo Guajajara/Tentehar, recebeu, entretanto, o menor número de votos entre os eleitos no estado.

Neste ano, o Brasil teve um recorde de candidaturas indígenas, segundo levantamento da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Foram 191 postulantes registrados pela Justiça Eleitoral, mais que o dobro dos 85 de 2014.

•        Nova Câmara redesenha forças e amplia peso da direita

O pleito de 2026 entrou para história neste domingo (04/10) ao sacramentar o recorde obtido pelo PL, partido do presidenciável Flávio Bolsonaro, que conquistou 121 cadeiras na Câmara dos Deputados. Trata-se do maior avanço já registrado por um partido de oposição e de mais um sinal da consolidação da direita no Congresso Nacional.

Enquanto, no Senado, os partidos ligados ao bolsonarismo terão força inédita para influenciar a composição do Supremo Tribunal Federal (STF), o peso do PL na Câmara mais poderosa da história democrática do país dará à legenda influência sem precedentes sobre o próximo presidente eleito.

Isso porque cabe aos deputados não apenas debater, elaborar e votar projetos de lei, mas também definir as leis orçamentárias anuais e o destino de cerca de um quinto das despesas discricionárias da União, por meio das emendas parlamentares. Em 2027, tais emendas podem chegar a R$ 57,5 bilhões, sendo R$ 44,4 bilhões impositivos, ou seja, que o governo é obrigado a pagar. Além disso, um poder cada vez mais relevante estará nas mãos do próximo presidente da Câmara: decidir sobre o andamento dos pedidos de impeachment contra o chefe do Executivo.

Também passa pela Câmara o destino do Fundo Partidário, de cerca de R$ 1 bilhão ao ano, e do Fundo Eleitoral, de R$ 5 bilhões.

<><> PL avança sobre o Centrão

Se o crescimento contínuo do Centrão já vinha ampliando a capacidade de pressão do Legislativo sobre o Executivo e dando à Câmara a palavra final em diversas negociações, a ascensão da direita pode levar esse poder acumulado a um novo patamar. Em 2022, o PL já havia alcançado um recorde de 99 deputados, mas ainda era a segunda maior força da Casa, atrás da federação União Brasil-PP, que levou 106 parlamentares a Brasília. Isso foi suficiente para que as siglas ampliassem seu espaço de negociação com o governo e chegassem a ocupar ministérios.

Agora, o grupo político de Bolsonaro avança sobre o Centrão, que diminui sua participação na Casa, ainda que o núcleo formado por PP, União Brasil e Republicanos some 128 cadeiras na Câmara e possa garantir a um futuro governo ampla margem para aprovar suas prioridades. Nas últimas eleições, esses partidos têm atuado ao lado dos vencedores e tiveram papel central na condução da agenda do Congresso.

No novo cenário, um eventual governo Lula deve enfrentar um Congresso praticamente hostil à sua agenda e que, ao lado do Senado, terá poder para dar a palavra final sobre projetos de lei. Se, desde a redemocratização, a caneta presidencial costumava ter maior peso decisório, levantamento da DW mostra que o Congresso está cada vez mais disposto a derrubar vetos do Executivo.

As derrubadas atingiram um recorde proporcional durante o governo Lula, com mais da metade de seus vetos rechaçados pelo Congresso. Já no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, alcançaram um recorde em números absolutos. Ambos governaram sob forte influência do Centrão. Já em um eventual governo Flávio Bolsonaro, que saiu na frente no primeiro turno, a tendência é encontrar uma Câmara mais alinhada à sua agenda.

<><> Como ficou a nova composição da Câmara

Na nova composição da Câmara, o PL ganhou 22 cadeiras e chegou a 121 deputados, ante 99 na legislatura anterior. A federação PT-PCdoB-PV avançou sete cadeiras, chegando a 88 parlamentares. Já a federação União Brasil-PP ficou com 87 deputados, 19 a menos do que há quatro anos. Em seguida aparecem PSD, com 43 cadeiras; Republicanos, com 41; MDB, com 36; Podemos, com 27; PSB, com 15; federação PSOL-Rede, com 15; e federação PSDB-Cidadania, com 11. O Novo, com dez deputados, completa a lista dos partidos com representação de dois dígitos. Solidariedade, PV, PDT, Avante, Rede e Missão não alcançaram dez cadeiras, mas elegeram representantes.

Para alcançar maioria absoluta na Câmara, são necessárias 257 cadeiras. A aprovação de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) exige 308 votos. Já a autorização para abertura de um processo de impeachment contra o presidente da República requer 342 votos, enquanto a derrubada de um veto presidencial depende de 257 parlamentares.

A capacidade do Congresso de travar pautas do governo ou usar o impeachment como instrumento de pressão ficou evidente na última legislatura, durante os embates entre Lula e o presidente da Câmara, Hugo Motta, em torno da tramitação de diversos projetos de lei, como o PL da Anistia e o aumento do IOF, e da distribuição de emendas parlamentares.

O poder da Casa, portanto, vai muito além da votação de projetos de lei. A instalação de comissões parlamentares de inquérito (CPIs) também tem sido um dos principais instrumentos de pressão sobre o Executivo.

<><> Renovação é a menor da série histórica

A renovação da Câmara dos Deputados em 2026 foi a menor da série histórica. Apenas 42,7% dos eleitos não exerciam mandato na legislatura anterior, o equivalente a 219 deputados. Desses, 33 já haviam ocupado cargos eletivos na Casa em outros períodos. O índice vem caindo desde 2018, quando a renovação atingiu o recorde de 53%, e é o menor desde 2002. O levantamento foi feito pela DW com base em dados da Justiça Eleitoral

Tocantins (75%) e Espírito Santo (70%) foram os estados com maior renovação de suas bancadas, enquanto Paraíba e Sergipe (25%) figuram entre os que mais apostaram em nomes já conhecidos do eleitorado.

Os deputados Cláudio Cajado (PP-BA) e Arlindo Chinaglia (PT-SP) seguem como recordista de mandatos consecutivos, com nove eleições seguidas. Eles venceram todas as disputas desde 1994.

Entre os 513 deputados eleitos, apenas 41 não tentaram a reeleição nem concorreram a outro cargo. Por outro lado, a participação feminina atingiu um recorde histórico: 109 deputadas foram eleitas, o equivalente a 21,2% da Câmara, acima dos 17,7% da legislatura anterior. Em relação a raça e cor, a composição mudou pouco em comparação com 2022: foram eleitos 373 deputados brancos, 105 pardos, 30 pretos, três indígenas, um amarelo e um sem informação. Com quatro representantes a mais do que em 2022, o número de autodeclarados pretos é o maior já registrado. Ainda assim, a participação conjunta de pretos e pardos permanece praticamente estagnada.

<><> Cresce o número de milionários

A Câmara também não rejuvenesceu. A média de idade dos eleitos ficou em 50,1 anos, dentro do padrão observado desde 1994. As mudanças ocorreram nos extremos: 23 deputados têm menos de 30 anos e 30 têm mais de 70. São os maiores números da série histórica em ambas as faixas etárias.

Outro dado relevante é o avanço dos parlamentares mais ricos. Dos 513 eleitos, 307 declararam patrimônio de R$ 1 milhão ou mais. Trata-se da maior proporção já registrada. Em comparação com 2022, a parcela de milionários passou de 56,3% para 59,8%, em valores corrigidos pela inflação.

Os puxadores de voto também alcançaram marcas históricas. Nikolas Ferreira (PL-MG) ampliou sua votação de 1,49 milhão para 3,12 milhões de votos, estabelecendo o recorde histórico para um candidato a deputado federal. Estreante na política nacional, Lucas Pavanato (PL-SP) recebeu pouco mais de 3 milhões de votos. No sistema proporcional brasileiro, uma votação muito alta aumenta os votos totais do partido e, consequentemente, o número de cadeiras a que a legenda tem direito.

A maior votação da esquerda ficou com Erika Hilton (PSOL-SP), que obteve 1,6 milhão de votos. Entre os dez deputados federais mais votados do país, quatro são do PL.

 

Fonte:Agencia Brasil/ DW Brasil

 

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