Marcio
Pochmann: O mundo não pode perder o Brasil
A
eleição presidencial dos Estados Unidos em 2024 deixou uma questão que
ultrapassa as fronteiras daquele país. Mais do que a vitória de Donald Trump, o
resultado revelou a dificuldade do Partido Democrata de reproduzir a própria
votação obtida quatro anos antes. Em 2020, Joe Biden recebeu 51,3% dos votos
populares, contra 46,9% de Trump. Em 2024, Kamala Harris ficou com 48,3%,
enquanto Trump alcançou 49,8%. A diferença parece pequena, mas produziu uma
mudança decisiva no resultado.
O dado
mais revelador está na capacidade de retenção dos eleitores. Entre os que
haviam votado em Trump em 2020, 85% voltaram a fazê-lo em 2024. Entre os
eleitores de Biden, Harris reteve 79%; outros 15% deixaram de votar e 5%
migraram para Trump. Também houve vantagem de Trump entre eleitores que não
haviam votado em 2020 e retornaram às urnas em 2024.
Pode-se
dizer, portanto, que o Partido Democrata perdeu, em parte, para si próprio, uma
vez que não conseguiu reproduzir a mesma capacidade de mobilização e retenção
da coalizão que havia levado Biden à Presidência. Isso não significa que a
eleição possa ser explicada por um único fator. Significa que, em disputas
estreitas, a capacidade de manter uma determinada composição social e eleitoral
pode ser tão importante quanto conquistar novos eleitores.
A
experiência estadunidense oferece uma chave para observar o Brasil. O primeiro
turno de 2026 mostra também uma alteração importante em relação a 2022. A
votação de Lula passou de 57,26 milhões para 53,88 milhões de votos, uma
redução de aproximadamente 3,38 milhões. Sua participação nos votos válidos
caiu de 48,43% para 45,16%. A redução ocorreu em 25 das 27 unidades da
Federação.
Mais
significativo ainda é o mapa municipal. Segundo levantamento publicado a partir
dos resultados das urnas, a participação de Lula nos votos válidos caiu em 98%
dos municípios brasileiros em comparação com o primeiro turno de 2022. A queda
ocorreu em cidades de diferentes tamanhos e perfis socioeconômicos, embora com
intensidades distintas conforme as regiões.
Esses
números não permitem afirmar, isoladamente, para onde foram os votos que
deixaram de ser destinados ao candidato. Tampouco permitem atribuir a mudança a
uma única causa econômica, social ou política. Mas indicam que uma coalizão
eleitoral não é uma estrutura permanente. Ela é produzida por circunstâncias
históricas determinadas e pode se modificar quando a sociedade muda.
É
justamente aí que a questão eleitoral encontra uma transformação muito mais
profunda, quando se considera a mudança da sociedade do trabalho. Durante
grande parte do século XX, era relativamente simples identificar o trabalhador
pelo lugar onde trabalhava. Havia a fábrica, o escritório, o comércio, a
repartição pública, a escola, o hospital. O empregador era reconhecível. A
jornada possuía alguma delimitação. A renda estava associada a uma ocupação e,
em grande medida, a direitos vinculados ao emprego.
Essa
arquitetura pertencente à antiga sociedade urbano-industrial vem sendo
substituída. O trabalhador contemporâneo pode dirigir para um aplicativo pela
manhã, vender produtos pela internet à tarde, produzir conteúdo à noite e
complementar a renda com alguma atividade realizada dentro de casa. Pode
cozinhar para uma plataforma de entrega, prestar serviços sob demanda,
participar da economia dos jogos, vender diretamente pelas redes sociais ou
combinar diferentes fontes de rendimento.
A
economia digital deixou de ser apenas um setor. Tornou-se uma infraestrutura
que atravessa praticamente todos os setores da economia. Essa mudança ainda é
parcialmente captada pelas estatísticas. Em 2024, por exemplo, cerca de 1,7
milhão de pessoas trabalhavam por meio de plataformas digitais de serviços no
Brasil, número 25,4% superior ao de 2022. Mas essa é somente a parte mais
diretamente identificável de uma transformação muito maior.
Existe
um universo crescente de atividades econômicas realizadas nos domínios
dependentes de infraestrutura digital. São produtores de conteúdo, vendedores,
prestadores de serviços, trabalhadores de aplicativos, produtores de alimentos
em domicílios e participantes de novas formas de entretenimento e produção
cultural. A atividade econômica passa a ocorrer não apenas no estabelecimento
tradicional, mas também na casa, na rua, no celular e na plataforma.
O
estabelecimento deixa de ser o único lugar da produção. O domínio digital passa
a cumprir parte dessa função. Essa transformação modifica também a própria
condição do trabalhador. Ele pode não ter um patrão visível, mas estar
subordinado a um algoritmo. Pode não possuir uma jornada formal, mas trabalhar
durante grande parte do dia. Pode ser juridicamente tratado como empreendedor,
embora dependa de uma plataforma que organiza o acesso ao consumidor,
estabelece critérios de visibilidade, distribui oportunidades e interfere na
formação de preços.
A
antiga relação entre trabalho, empresa e território torna-se mais complexa. E o
problema não é apenas trabalhista. É também estatístico, econômico e
democrático. Cada busca, deslocamento, compra, entrega, pagamento, interação ou
publicação produz dados. Esses dados podem ser utilizados para prever
comportamentos, organizar mercados, estabelecer preços, direcionar publicidade,
avaliar trabalhadores e desenvolver sistemas de inteligência artificial.
Surge,
assim, uma nova dimensão do poder econômico sob o controle da infraestrutura de
informação. Quem controla a plataforma pode conhecer o trabalhador, o
consumidor e o território com uma profundidade que muitas vezes supera a
capacidade do próprio Estado. A sociedade passa a produzir uma quantidade
extraordinária de informações sobre si mesma, mas grande parte desse
conhecimento permanece concentrada em estruturas privadas.
É nesse
sentido que a datacracia precisa ser compreendida. Não se trata apenas de
máquinas tomando decisões. Trata-se de uma sociedade na qual dados passam a
organizar relações econômicas, sociais e políticas.
Por
isso, a soberania no século XXI também passa pela soberania de dados. O Brasil
precisa construir uma infraestrutura pública de informação compatível com essa
nova realidade. Isso significa atualizar as estatísticas sobre trabalho e
renda, identificar novas formas de ocupação, compreender as atividades
realizadas nos domicílios e medir a economia que se desenvolve nos domínios
digitais.
Não
basta contar o emprego tradicional enquanto uma parcela crescente da geração de
renda ocorre fora das categorias convencionais. Também será necessário repensar
proteção social, representação coletiva, qualificação profissional, tributação,
concorrência, regulação das plataformas, ciência e tecnologia e segurança dos
dados. O desafio é fazer com que a transformação tecnológica seja acompanhada
por instituições capazes de compreender e proteger uma sociedade em rápida
mudança.
Mas
existe uma questão ainda mais profunda sob quem ficará com os ganhos de
produtividade proporcionados pela tecnologia? Se inteligência artificial,
automação e sistemas digitais permitem produzir mais com menos tempo de
trabalho, o resultado não precisa ser necessariamente mais consumo e mais
trabalho. Pode significar também mais tempo para viver.
É
possível imaginar uma sociedade do tempo livre. O aumento da produtividade pode
ser convertido em tempo para o cuidado, a educação, a cultura, a ciência, a
convivência, a criatividade e a participação social. A tecnologia pode reduzir
o tempo necessário para produzir o que a sociedade necessita, em vez de
simplesmente ampliar a disponibilidade humana para novas tarefas.
Essa
discussão é especialmente importante para o Brasil porque a transformação
digital ocorre sobre uma sociedade marcada por profundas desigualdades de
renda, território, acesso tecnológico e proteção social. O desafio não é apenas
digitalizar a economia existente, mas decidir que sociedade será construída com
as novas possibilidades tecnológicas.
É nesse
ponto que as experiências eleitorais dos Estados Unidos e do Brasil oferecem
uma advertência comum. Não porque uma eleição possa ser automaticamente
explicada pela outra, mas porque ambas mostram que coalizões eleitorais
construídas em determinado momento podem não se reproduzir quando as condições
sociais se transformam.
A
política pode continuar utilizando categorias que já não descrevem
adequadamente a vida cotidiana. O trabalhador que hoje produz renda por meio de
uma plataforma não necessariamente se reconhece nas antigas categorias
profissionais. O jovem que combina conteúdo digital, trabalho intermitente e
prestação de serviços pode não possuir uma identidade ocupacional única. A
família que transforma a própria residência em unidade de produção econômica
pode permanecer invisível para estatísticas concebidas em torno do
estabelecimento.
Se a
política não enxergar essas transformações, outros atores as enxergarão. As
grandes plataformas já conhecem padrões de consumo, deslocamento, trabalho,
preferência e comportamento em escala inédita. O risco é que o setor privado
disponha de uma representação estatística mais sofisticada da sociedade do que
as próprias instituições públicas.
É por
isso que a discussão sobre democracia, trabalho e tecnologia passa
necessariamente pela discussão sobre dados. O Brasil possui escala territorial,
diversidade social, universidades, instituições científicas e um sistema
estatístico e geocientífico com capacidade para produzir conhecimento sobre a
sociedade e o território. Essa infraestrutura pública pode desempenhar papel
decisivo na compreensão da nova economia e das novas formas de trabalho.
O
trabalhador do futuro pode estar diante de uma tela, dentro da própria casa,
produzindo simultaneamente trabalho, renda e dados. Pode circular entre
diferentes atividades sem que nenhuma delas, isoladamente, defina sua condição
econômica.
A
questão é saber se as instituições serão capazes de enxergá-lo. O mundo não
pode perder o Brasil porque o país reúne condições singulares para participar
da construção de uma resposta democrática à transformação digital. Não se trata
de escolher entre tecnologia e trabalho, nem entre crescimento e tempo livre.
Trata-se de decidir como distribuir os ganhos de produtividade, conhecimento e
informação produzidos pela nova economia.
A
transformação digital é global. A forma de organizá-la, porém, é uma escolha
institucional e social. Quem controla os dados conhece o presente. Quem
consegue transformar conhecimento público em capacidade de decisão participa da
construção do futuro que segue em disputa.
• A mídia é parte essencial do fascismo
que devora o Brasil. Por Tiago Barbosa
Nenhuma
análise do avanço extremista é válida se despreza o efeito da mídia no
municiamento da estratégia bolsonarista. E isso engloba do discurso da
extrema-direita ao comportamento progressista.
Digo e
repito há tempos: o ecossistema midiático corporativo é quem pauta, nutre e
infla a narrativa bolsonarista e inibe, vilaniza ou esteriliza a existência da
esquerda.
Na
economia, a mídia invisibiliza a melhoria (mesmo a mais tímida) gerada pelo
governo Lula e legitima a distorção cognitiva de sobreposição da narrativa de
colapso ao real.
Mentiras
como “Lula criador de imposto”, “o PT quebra o país”, “o endividamento é culpa
da esquerda” são ecos de um noticiário metodicamente construído para tachar
como inepta uma gestão eficaz e popular.
A
ficção é reciclada pela propaganda bolsonarista e disseminada como legítima –
vira fake news com selo de isenção.
A mídia
é a fonte para fazer da corrupção tema capital no debate público e imputar à
esquerda delitos inerentes e abundantes na (extrema) direita – o que irriga o
estigma nuclear do discurso bolsonarista.
Os
bordões “Lula ladrão”, “Lulinha bandido” e “PT corrupto” encontram na imprensa
alinhada o respaldo “jornalístico” para alienar a massa, mobilizar ódios e
blindar quem, de fato, são os verdadeiros corruptos.
Caso
Master, roubo de joias, desvio para filme, emendas parlamentares, rachadinha,
milícia, todos atos escabrosos do bolsonarismo são atenuados ou escondidos para
inventar e manter no foco leviandades imputadas ao filho do presidente.
A
lógica se estende à definição do inimigo comum – peça-chave na consolidação de
qualquer retórica fascista.
Na
campanha, a mídia descredibilizou e meteu um alvo – com timing e seletividade –
justamente no tribunal apontado pela extrema-direita como tendencioso e
persecutório.
A
dobradinha deu azo à narrativa de vitimização nutrida desde antes do 8 de
janeiro, monopolizou o noticiário e desobrigou o bolsonarismo a falar do país –
melhor impossível.
Não há,
aqui, a inocência de esperar de um aparelho ideológico uma conduta alheia aos
interesses do capitalismo – esse estado de fascismo hibernado. Mas minimizar o
conjunto de ações de uma mídia militante do extremismo quando o Brasil é
varrido por uma onda imbecilizante de ódio e fundamentalismo só reforça essa
lógica.
Aliás,
a mídia também pauta a esquerda quando elege parâmetros limitantes e
desgastantes atribuídos ao PT e ao lulismo. A ideia difusa de “renovação” é uma
dessas balelas impostas goela abaixo para criar a percepção de envelhecimento e
imobilismo do campo progressista.
A
família Bolsonaro está, há décadas, inoculada nas tetas do estado, medalhões da
direita se reelegem até a velhice e ninguém é questionado para “abrir mão do
poder” – ao contrário de Lula.
E pior:
a distorção exclui e ignora quadros relevantes eleitos nas bases esquerdistas
para manter o falso estigma em evidência.
A
desconstrução midiática é tão absurda que, mesmo após a derrota no primeiro
turno, a culpa é toda imputada a Lula e à esquerda para sangrar ainda mais quem
só apanhou.
A
consciência sobre esse papel nefasto da mídia no fortalecimento da
extrema-direita é indispensável para analisar a deterioração civilizatória e
definir a reação contra a avalanche reacionária e fascista.
Pular a
armadilha do autoflagelo proposto pelo campo adversário é o primeiro passo para
qualquer redenção.
Fonte:
Brasil 247

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