Um
tabú a ser quebrado: Brasil nunca teve virada no 2° turno da eleição
presidencial
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terminou o primeiro turno da eleição
presidencial de 2026 com uma desvantagem de 2,2 milhões de votos em relação a
Flávio Bolsonaro (PL), ou de 1,9 pontos percentuais. Além de ficar atrás de
Flávio, Lula ainda perdeu 3,4 milhões de votos em relação ao primeiro turno de
2022, quando ficou à frente de Jair Bolsonaro, pai de Flávio.
Lula
que vai enfrentar Flávio novamente no segundo turno, marcado para 25 de
outubro, conclamou nesta segunda-feira (05/10) aliados a buscarem mais votos
entre os 33,4 milhões de eleitores que não foram votar na primeira rodada.
Apesar
de Lula ainda contar com a influência da máquina pública e manter um piso
eleitoral alto, o histórico das eleições presidenciais desde a redemocratização
não é favorável para quem acaba o primeiro turno na segunda colocação.
Desde
1989, quando o Brasil voltou a ter eleições presidenciais diretas – e estreou o
mecanismo de segundo turno –, nunca houve uma reviravolta na corrida ao
Planalto entre um turno e outro. Essa foi a regra em todas as sete disputas
presidenciais que tiveram segundo turno entre 1989 e 2018. Mesmo em disputas
estaduais o histórico não é exatamente favorável (leia mais abaixo).
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Tanto o PT quanto os bolsonaristas não conseguiram forçar viradas
Em
pouco mais de 30 anos, o próprio PT fracassou duas vezes em tentar forçar uma
reviravolta na disputa presidencial. No primeiro turno de 1989, Lula ficou 13,3
pontos atrás do rival Fernando Collor. Entre os dois turnos, Lula conseguiu
crescer 29,8 pontos percentuais, mas ainda assim acabou perdendo a votação
final para Collor por seis pontos de desvantagem.
Em
2018, foi a vez de Fernando Haddad passar pela mesma dificuldade. O petista,
que substituiu Lula pouco menos de um mês antes do primeiro turno, terminou
16,75 pontos atrás de Bolsonaro na primeira rodada. No segundo turno, Haddad
cresceu, mas ainda assim terminou pouco mais de dez pontos atrás de Jair
Bolsonaro.
O
próprio Lula já esteve do outro lado dessa equação, quando, na oposição,
terminou o primeiro turno à frente do então presidente Jair Bolsonaro (PL) no
pleito de 2022. À época, apesar de Jair Bolsonaro instrumentalizar a máquina
pública com programas e medidas eleitoreiras, a eleição ainda terminou
favorável a Lula no segundo turno.
Na
primeira rodada daquela eleição, Jair Bolsonaro havia ficado com uma
desvantagem de 6 milhões de votos em relação a Lula, ou 5,23 pontos
percentuais. No segundo turno, apesar de intensa mobilização de sua base, o
então presidente terminou atrás por 1,8 ponto, ou 2,14 milhões de votos – na
que foi a eleição mais apertada do Brasil desde a redemocratização.
Com o
resultado, Jair Bolsonaro também se tornou o primeiro presidente no poder a
perder uma disputa pela reeleição desde que o mecanismo foi instituído em 1998.
Disputas
anteriores também já haviam evidenciado a dificuldade, em graus variados, de
virar a desvantagem entre um turno e outro.
Os
candidatos José Serra em 2002 e 2010 e Geraldo Alckmin em 2006, acabaram
perderam a rodada final para candidatos do PT por diferenças de dois dígitos.
Alckmin, por sua vez, conseguiu em 2006 um feito negativo que até hoje não foi
repetido: perder votos entre o primeiro e o segundo turno.
Aécio
Neves (PSDB), por sua vez, se saiu um pouco melhor em 2014, mas ainda assim
fracassou. À época, graças a um forte impulso nos dias que precederam o
primeiro turno, ele chegou inicialmente na segunda rodada oito pontos atrás de
Dilma Rousseff (PT), que concorria à reeleição.
Em uma
campanha acirrada no segundo turno, marcada pela interferência da Lava Jato,
Aécio conseguiu diminuir significativamente a desvantagem, mas ainda assim
acabou derrotado por Dilma por uma diferença de apenas 3,2 pontos.
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Nos estados, só um terço das disputas de 2° tiveram reviravoltas
Reviravoltas
em disputas para os governos estaduais, embora não sejam inéditas, apresentam
um histórico numericamente desfavorável para quem termina o primeiro turno na
segunda colocação.
Entre
1990 e 2022, o Brasil foi palco de 120 eleições estaduais que tiveram uma
rodada extra de votação, após nenhum candidato superar a marca de 50% dos votos
válidos no primeiro turno. Em todas essas 120 eleições estaduais com segundo
turno entre 1990 e 2022, só houve registro de reviravolta em 35 disputas – ou
29% do total.
Algumas
dessas disputas se tornaram famosas. Em 1994, Eduardo Azeredo (PSDB) terminou o
primeiro turno da disputa pelo governo de Minas Gerais 21,1 pontos atrás de
Hélio Costa (PP). No segundo turno, com apoio do então governador Hélio Garcia
(PTB) e embalado pelo sucesso do Plano Real, que turbinou candidaturas do PSDB
país afora, Azeredo virou a eleição e venceu com vantagem de 17,5 pontos.
Em
1990, Paulo Maluf (PDS) terminou o primeiro turno em São Paulo com 43,5% dos
votos e vantagem de 15,3 pontos sobre o segundo colocado, Luiz Antônio Fleury
(PMDB). No segundo turno, Fleury explorou a alta rejeição registrada por Maluf
e recebeu os votos do eleitorado de candidatos antimalufistas derrotados na
primeira rodada. Fleury acabou praticamente dobrando sua votação entre um turno
e outro, derrotando Maluf por 3,6 pontos de vantagem.
Em
ciclos eleitorais mais recentes, 2018 foi palco de 14 disputas de segundo
turno, mas com apenas duas viradas, em Rondônia e Santa Catarina, cujas
eleições locais foram atípicas ao catapultarem candidatos praticamente
desconhecidos que surfaram na onda bolsonarista que tomou o ciclo eleitoral
daquele ano. Em 2022, foram quatro viradas: Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Rio
Grande do Sul e Sergipe.
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Em desvantagem, governador Covas transformou 2° turno de 1998 em comparação
sobre caráter
Entre
as 35 viradas que ocorreram desde 1990, 24 ocorreram após 1998, quando foi
instituído o mecanismo da reeleição. Destas, sete foram protagonizadas por
governadores em busca da reeleição que haviam sofrido tropeços no primeiro
turno e chegado em desvantagem ao segundo.
O
primeiro caso ocorreu em 1998, no Piauí, quando o governador Mão Santa (PMDB)
terminou a primeira rodada com 3,16 pontos de desvantagem em relação ao
primeiro colocado, mas virou por pouco no segundo turno, ficando à frente por
1,92.
Já o
caso mais célebre de uma virada envolvendo um ocupante de executivo estadual
que entrou em desvantagem no segundo turno ocorreu em São Paulo, em 1998. O
então governador Mário Covas (PSDB), que era aprovado por apenas 24% dos
paulistas, chegou ao segundo turno 9,3 pontos atrás do desafiante Paulo Maluf
(PPB).
Covas
também havia chegado por pouco no segundo turno, ficando apenas 0,44 ponto
acima da terceira colocada, Marta Suplicy (PT). Para piorar, as pesquisas
divulgadas logo após o primeiro turno indicavam que Maluf também aparecia à
frente na preferência dos eleitores na segunda rodada.
Determinado
a derrotar Maluf, Covas contrariou seus marqueteiros – que preferiam focar em
realizações e planos de governo – e transformou o embate do segundo turno em
uma comparação sobre o caráter dos dois candidatos.
"Eleição
de governador não é nomeação de gerente. A briga agora vai ser política e
moral", disse Covas à época. Nas três semanas do segundo turno, ele
explorou as antigas ligações de Maluf com a ditadura, suas declarações
controversas e sua bagagem de escândalos. Num debate cujos trechos ainda
circulam em redes sociais, Covas disse que o "telespectador quer ver
discussão de caráter, quer comparar os candidatos do ponto de vista da história
de cada um, do que cada um fez ao longo da sua vida política". Covas
buscou ainda apoio de políticos do PT e do PSB, que estavam à esquerda do PSDB.
Contados
os votos no segundo turno, o então governador Covas acabou superando Maluf no
segundo turno por uma vantagem superior a 10 pontos. O marqueteiro de Maluf,
Duda Mendonça, admitiu que a estratégia de Covas de explorar a rejeição de
Maluf foi certeira. "Não foi o Covas que ganhou, mas Maluf que perdeu para
Maluf", disse ele após a eleição.
• Por que as pesquisas subestimaram Flávio
Bolsonaro
O
fechamento das urnas no primeiro turno das eleições para presidente, no domingo
(04/10) reforçou uma percepção que ocorre pelo menos há três pleitos no Brasil.
Desde 2018, a maioria das pesquisas divulgadas na véspera indicam menos votos
bolsonaristas do que a contagem oficial. Desta vez, os principais institutos de
sondagem divulgaram uma vantagem de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), mas
as urnas colocaram o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro à frente do atual
presidente da República, com 47,03% contra 45,16% dos votos válidos.
De
acordo com especialistas ouvidos pela DW, essa diferença é explicada por uma
combinação de fatores, como a decisão cada vez mais tardia do voto, a
mobilização do eleitorado bolsonarista e a migração de eleitores de
candidaturas menos competitivas. Também há limitações próprias das sondagens e
a possibilidade de eleitores não revelarem sua verdadeira preferência.
Para o
cientista político Paulo Henrique Cassimiro, da Universidade do Estado do Rio
de Janeiro (Uerj), os levantamentos eleitorais ganharam protagonismo no debate
público. Com isso, pequenas variações nos números passam a ser frequentemente
interpretadas à luz de eventos políticos, como o cancelamento de debates ou a
crise no STF.
"Passa-se
a semana discutindo que um candidato subiu um ponto e o outro caiu dois, por
exemplo. São pequenas variações que não querem dizer nada
estatisticamente", diz Cassimiro. "Mas o que as pesquisas mostraram
estatisticamente foi o empate técnico com a subida do Flávio na reta
final", acrescenta ele.
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Decisão de última hora
A
principal hipótese de Cassimiro para entender o resultado está na capacidade da
direita de mobilizar eleitores nos últimos dias antes da votação. "O
eleitor está se decidindo na última semana", afirma.
Para
ele, muitos brasileiros acompanham pouco a campanha e só perto da eleição
procuram saber quais são os candidatos. É nesse momento que entram em cena
redes de informação e espaços de convivência como igrejas, família e grupos nas
redes sociais – principalmente em cidades menores e distantes de grandes
centros urbanos.
É
nesses ambientes que o bolsonarismo, afirma Cassimiro, conseguiu construir uma
presença particularmente forte. "Essa máquina funciona na semana antes da
eleição." Isso representaria um desafio para pesquisas realizadas dias
antes da abertura das urnas. Segundo o cientista político, os levantamentos
conseguem captar tendências, mas têm mais dificuldade diante de uma mudança
rápida e disseminada entre diferentes grupos do eleitorado.
Para o
professor da Uerj, o fenômeno ajuda a explicar por que Flávio Bolsonaro
conseguiu cerca de 5 milhões de votos a mais em 2026 do que o pai havia obtido
quatro anos antes. "Essas bolhas informacionais estão ficando mais fortes,
não mais fracas", diz. "Isso não chega nas pesquisas porque estamos
subdimensionando a capacidade dessa informação de curtíssimo tiro, dias antes
da eleição, de produzir efeito político."
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Voto envergonhado e voto útil
Matheus
Dias, do instituto Opus, aponta outro componente: o chamado "voto
envergonhado", quando o eleitor não revela sua verdadeira preferência ao
entrevistador.
"Esse
fenômeno a gente observa em diversas eleições ao redor do mundo.
Sistematicamente, os eleitores não revelam a real preferência, principalmente
com candidatos à direita. As pesquisas só podem computar o que foi dito pelos
eleitores", explica o economista e especialista em diagnóstico eleitoral.
Dias
acredita que houve também uma concentração de votos em Flávio Bolsonaro na reta
final. Eleitores de direita e centro-direita teriam abandonado candidaturas
menos competitivas ao concluir que Flávio era quem tinha mais chances de
representar esse campo no segundo turno. Para ele, a insatisfação de parcela do
eleitorado com o Judiciário, somada a questões econômicas e a outros temas da
campanha, contribuiu para esse voto útil.
"No
momento, o eleitor avaliou que o Flávio [tinha mais chances de ganhar]",
afirma, acrescentando que o desempenho positivo na macroeconomia durante o
mandato de Lula não necessariamente "chega na mesa" do eleitor.
"O
país está no pleno emprego, mas com vagas muitas vezes ruins e remuneração
incompatível com custo de vida e aspirações. Somos bombardeados pelas redes
sociais com viagens, itens de luxo e o eleitor se pergunta como 'todos têm
acesso?', se ele trabalha 44 horas por dia. É um sentimento de que a vida não
está avançando igual acontecia antigamente", aponta Dias.
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Difícil acesso
Há
ainda dificuldades práticas. O fundador da Opus cita o Rio de Janeiro, onde
pesquisadores podem encontrar obstáculos para entrar em comunidades e regiões
controladas por facções criminosas ou milícias.
Na
disputa para o governo do RJ, as pesquisas mostravam Eduardo Paes (PSD) à
frente de Douglas Ruas (PL) até a véspera da eleição. As urnas, no entanto,
deram Ruas com 49,27%, resultado que pode ainda significar a vitória em
primeiro turno do candidato do partido de Flávio caso os votos para Anthony
Garotinho (Republicanos), cuja candidatura está sob Júdice, sejam anulados pela
Justiça eleitoral.
Segundo
Mateus Dias, uma eventual dificuldade de representar esses locais ainda pode
ter efeito político, porque são áreas fortemente expostas ao problema da
violência.
"Têm
uma demanda muito maior por segurança pública do que locais que não enfrentam
os mesmos problemas", complementa.
Em
pesquisas e grupos focais realizados pela Opus para tracking interno de
campanhas, por exemplo, segurança surge como um dos principais temas – e no
qual a direita tem mais conseguido mobilizar eleitores.
• Primeiro turno teve maior abstenção
eleitoral em 28 anos
O
primeiro turno das eleições deste ano registrou abstenção de 21%. Foi o maior
índice em quase 30 anos, desde 1998 (21,5%). Os eleitores faltosos no domingo
(04/10) somaram 33,4 milhões ao redor do Brasil, contra outros 125 milhões que
depositaram votos.
O
presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, afirmou
que pretende trabalhar para diminuir a abstenção no segundo turno. "Não é
o ideal uma abstenção de 20%," disse o magistrado.
O
percentual de abstenções nas eleições gerais vem crescendo desde 2006, quando
bateu os 16,8%, e se mantém próximo dos 20% desde 2014. Em 2022, o número de
eleitores aptos a votar, porém ausentes, foi de 32,7 milhões no primeiro turno
(20,9%). O índice praticamente não mudou para o segundo turno (20,5%).
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Peso para escolha presidencial
O
primeiro turno deste ano também registrou 2,2 milhões de votos em branco e 3,6
milhões de nulos. Na eleição presidencial, um a cada quatro eleitores não
compareceram ou não deram o voto a um dos candidatos.
Neste
ano, um eventual aumento do comparecimento ou dos votos válidos no segundo
turno poderia pesar para a escolha do próximo presidente.
Os
candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) se
enfrentarão em três semanas, depois de terem protagonizado o primeiro turno
mais acirrado desde a redemocratização, com diferença de apenas dois pontos
percentuais entre eles.
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Constelação de fatores
A
abstenção tende a ser mais alta entre as faixas da população menos
escolarizadas, analfabetos – em 2022, metade deles não compareceram às urnas –
e idosos.
De
acordo com Nunes Marques, entre os grupos para os quais o voto é facultativo, a
abstenção deste ano chegou a cerca de 50% entre os maiores de 70 anos, em
comparação a 20% entre os jovens de 16 e 17 anos.
Especialistas
apontam, entretanto, diversos fatores que podem gerar mais faltas entre parte
dos eleitores. Entre eles, incluem-se a baixa confiança nas instituições
democráticas, reduzido interesse pelos processos eleitorais ou, no contexto
atual, uma apontada fadiga com a repetição da disputa entre lulismo e
bolsonarismo.
Tradicionalmente,
é também significativamente mais alta a abstenção do eleitorado no exterior. Na
Alemanha, por exemplo, compareceram 46,5% dos 41.552 eleitores aptos a votar no
domingo.
Fonte:
DW Brasil

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