quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Um tabú a ser quebrado: Brasil nunca teve virada no 2° turno da eleição presidencial

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terminou o primeiro turno da eleição presidencial de 2026 com uma desvantagem de 2,2 milhões de votos em relação a Flávio Bolsonaro (PL), ou de 1,9 pontos percentuais. Além de ficar atrás de Flávio, Lula ainda perdeu 3,4 milhões de votos em relação ao primeiro turno de 2022, quando ficou à frente de Jair Bolsonaro, pai de Flávio.

Lula que vai enfrentar Flávio novamente no segundo turno, marcado para 25 de outubro, conclamou nesta segunda-feira (05/10) aliados a buscarem mais votos entre os 33,4 milhões de eleitores que não foram votar na primeira rodada.

Apesar de Lula ainda contar com a influência da máquina pública e manter um piso eleitoral alto, o histórico das eleições presidenciais desde a redemocratização não é favorável para quem acaba o primeiro turno na segunda colocação.

Desde 1989, quando o Brasil voltou a ter eleições presidenciais diretas – e estreou o mecanismo de segundo turno –, nunca houve uma reviravolta na corrida ao Planalto entre um turno e outro. Essa foi a regra em todas as sete disputas presidenciais que tiveram segundo turno entre 1989 e 2018. Mesmo em disputas estaduais o histórico não é exatamente favorável (leia mais abaixo).

<><> Tanto o PT quanto os bolsonaristas não conseguiram forçar viradas

Em pouco mais de 30 anos, o próprio PT fracassou duas vezes em tentar forçar uma reviravolta na disputa presidencial. No primeiro turno de 1989, Lula ficou 13,3 pontos atrás do rival Fernando Collor. Entre os dois turnos, Lula conseguiu crescer 29,8 pontos percentuais, mas ainda assim acabou perdendo a votação final para Collor por seis pontos de desvantagem.

Em 2018, foi a vez de Fernando Haddad passar pela mesma dificuldade. O petista, que substituiu Lula pouco menos de um mês antes do primeiro turno, terminou 16,75 pontos atrás de Bolsonaro na primeira rodada. No segundo turno, Haddad cresceu, mas ainda assim terminou pouco mais de dez pontos atrás de Jair Bolsonaro.

O próprio Lula já esteve do outro lado dessa equação, quando, na oposição, terminou o primeiro turno à frente do então presidente Jair Bolsonaro (PL) no pleito de 2022. À época, apesar de Jair Bolsonaro instrumentalizar a máquina pública com programas e medidas eleitoreiras, a eleição ainda terminou favorável a Lula no segundo turno.

Na primeira rodada daquela eleição, Jair Bolsonaro havia ficado com uma desvantagem de 6 milhões de votos em relação a Lula, ou 5,23 pontos percentuais. No segundo turno, apesar de intensa mobilização de sua base, o então presidente terminou atrás por 1,8 ponto, ou 2,14 milhões de votos – na que foi a eleição mais apertada do Brasil desde a redemocratização.

Com o resultado, Jair Bolsonaro também se tornou o primeiro presidente no poder a perder uma disputa pela reeleição desde que o mecanismo foi instituído em 1998.

Disputas anteriores também já haviam evidenciado a dificuldade, em graus variados, de virar a desvantagem entre um turno e outro.

Os candidatos José Serra em 2002 e 2010 e Geraldo Alckmin em 2006, acabaram perderam a rodada final para candidatos do PT por diferenças de dois dígitos. Alckmin, por sua vez, conseguiu em 2006 um feito negativo que até hoje não foi repetido: perder votos entre o primeiro e o segundo turno.

Aécio Neves (PSDB), por sua vez, se saiu um pouco melhor em 2014, mas ainda assim fracassou. À época, graças a um forte impulso nos dias que precederam o primeiro turno, ele chegou inicialmente na segunda rodada oito pontos atrás de Dilma Rousseff (PT), que concorria à reeleição.

Em uma campanha acirrada no segundo turno, marcada pela interferência da Lava Jato, Aécio conseguiu diminuir significativamente a desvantagem, mas ainda assim acabou derrotado por Dilma por uma diferença de apenas 3,2 pontos.

<><> Nos estados, só um terço das disputas de 2° tiveram reviravoltas

Reviravoltas em disputas para os governos estaduais, embora não sejam inéditas, apresentam um histórico numericamente desfavorável para quem termina o primeiro turno na segunda colocação.

Entre 1990 e 2022, o Brasil foi palco de 120 eleições estaduais que tiveram uma rodada extra de votação, após nenhum candidato superar a marca de 50% dos votos válidos no primeiro turno. Em todas essas 120 eleições estaduais com segundo turno entre 1990 e 2022, só houve registro de reviravolta em 35 disputas – ou 29% do total.

Algumas dessas disputas se tornaram famosas. Em 1994, Eduardo Azeredo (PSDB) terminou o primeiro turno da disputa pelo governo de Minas Gerais 21,1 pontos atrás de Hélio Costa (PP). No segundo turno, com apoio do então governador Hélio Garcia (PTB) e embalado pelo sucesso do Plano Real, que turbinou candidaturas do PSDB país afora, Azeredo virou a eleição e venceu com vantagem de 17,5 pontos.

Em 1990, Paulo Maluf (PDS) terminou o primeiro turno em São Paulo com 43,5% dos votos e vantagem de 15,3 pontos sobre o segundo colocado, Luiz Antônio Fleury (PMDB). No segundo turno, Fleury explorou a alta rejeição registrada por Maluf e recebeu os votos do eleitorado de candidatos antimalufistas derrotados na primeira rodada. Fleury acabou praticamente dobrando sua votação entre um turno e outro, derrotando Maluf por 3,6 pontos de vantagem.

Em ciclos eleitorais mais recentes, 2018 foi palco de 14 disputas de segundo turno, mas com apenas duas viradas, em Rondônia e Santa Catarina, cujas eleições locais foram atípicas ao catapultarem candidatos praticamente desconhecidos que surfaram na onda bolsonarista que tomou o ciclo eleitoral daquele ano. Em 2022, foram quatro viradas: Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Sergipe.

<><> Em desvantagem, governador Covas transformou 2° turno de 1998 em comparação sobre caráter

Entre as 35 viradas que ocorreram desde 1990, 24 ocorreram após 1998, quando foi instituído o mecanismo da reeleição. Destas, sete foram protagonizadas por governadores em busca da reeleição que haviam sofrido tropeços no primeiro turno e chegado em desvantagem ao segundo.

O primeiro caso ocorreu em 1998, no Piauí, quando o governador Mão Santa (PMDB) terminou a primeira rodada com 3,16 pontos de desvantagem em relação ao primeiro colocado, mas virou por pouco no segundo turno, ficando à frente por 1,92.

Já o caso mais célebre de uma virada envolvendo um ocupante de executivo estadual que entrou em desvantagem no segundo turno ocorreu em São Paulo, em 1998. O então governador Mário Covas (PSDB), que era aprovado por apenas 24% dos paulistas, chegou ao segundo turno 9,3 pontos atrás do desafiante Paulo Maluf (PPB).

Covas também havia chegado por pouco no segundo turno, ficando apenas 0,44 ponto acima da terceira colocada, Marta Suplicy (PT). Para piorar, as pesquisas divulgadas logo após o primeiro turno indicavam que Maluf também aparecia à frente na preferência dos eleitores na segunda rodada.

Determinado a derrotar Maluf, Covas contrariou seus marqueteiros – que preferiam focar em realizações e planos de governo – e transformou o embate do segundo turno em uma comparação sobre o caráter dos dois candidatos.

"Eleição de governador não é nomeação de gerente. A briga agora vai ser política e moral", disse Covas à época. Nas três semanas do segundo turno, ele explorou as antigas ligações de Maluf com a ditadura, suas declarações controversas e sua bagagem de escândalos. Num debate cujos trechos ainda circulam em redes sociais, Covas disse que o "telespectador quer ver discussão de caráter, quer comparar os candidatos do ponto de vista da história de cada um, do que cada um fez ao longo da sua vida política". Covas buscou ainda apoio de políticos do PT e do PSB, que estavam à esquerda do PSDB.

Contados os votos no segundo turno, o então governador Covas acabou superando Maluf no segundo turno por uma vantagem superior a 10 pontos. O marqueteiro de Maluf, Duda Mendonça, admitiu que a estratégia de Covas de explorar a rejeição de Maluf foi certeira. "Não foi o Covas que ganhou, mas Maluf que perdeu para Maluf", disse ele após a eleição.

•        Por que as pesquisas subestimaram Flávio Bolsonaro

O fechamento das urnas no primeiro turno das eleições para presidente, no domingo (04/10) reforçou uma percepção que ocorre pelo menos há três pleitos no Brasil. Desde 2018, a maioria das pesquisas divulgadas na véspera indicam menos votos bolsonaristas do que a contagem oficial. Desta vez, os principais institutos de sondagem divulgaram uma vantagem de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), mas as urnas colocaram o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro à frente do atual presidente da República, com 47,03% contra 45,16% dos votos válidos.

De acordo com especialistas ouvidos pela DW, essa diferença é explicada por uma combinação de fatores, como a decisão cada vez mais tardia do voto, a mobilização do eleitorado bolsonarista e a migração de eleitores de candidaturas menos competitivas. Também há limitações próprias das sondagens e a possibilidade de eleitores não revelarem sua verdadeira preferência.

Para o cientista político Paulo Henrique Cassimiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), os levantamentos eleitorais ganharam protagonismo no debate público. Com isso, pequenas variações nos números passam a ser frequentemente interpretadas à luz de eventos políticos, como o cancelamento de debates ou a crise no STF.

"Passa-se a semana discutindo que um candidato subiu um ponto e o outro caiu dois, por exemplo. São pequenas variações que não querem dizer nada estatisticamente", diz Cassimiro. "Mas o que as pesquisas mostraram estatisticamente foi o empate técnico com a subida do Flávio na reta final", acrescenta ele.

<><> Decisão de última hora

A principal hipótese de Cassimiro para entender o resultado está na capacidade da direita de mobilizar eleitores nos últimos dias antes da votação. "O eleitor está se decidindo na última semana", afirma.

Para ele, muitos brasileiros acompanham pouco a campanha e só perto da eleição procuram saber quais são os candidatos. É nesse momento que entram em cena redes de informação e espaços de convivência como igrejas, família e grupos nas redes sociais – principalmente em cidades menores e distantes de grandes centros urbanos.

É nesses ambientes que o bolsonarismo, afirma Cassimiro, conseguiu construir uma presença particularmente forte. "Essa máquina funciona na semana antes da eleição." Isso representaria um desafio para pesquisas realizadas dias antes da abertura das urnas. Segundo o cientista político, os levantamentos conseguem captar tendências, mas têm mais dificuldade diante de uma mudança rápida e disseminada entre diferentes grupos do eleitorado.

Para o professor da Uerj, o fenômeno ajuda a explicar por que Flávio Bolsonaro conseguiu cerca de 5 milhões de votos a mais em 2026 do que o pai havia obtido quatro anos antes. "Essas bolhas informacionais estão ficando mais fortes, não mais fracas", diz. "Isso não chega nas pesquisas porque estamos subdimensionando a capacidade dessa informação de curtíssimo tiro, dias antes da eleição, de produzir efeito político."

<><> Voto envergonhado e voto útil

Matheus Dias, do instituto Opus, aponta outro componente: o chamado "voto envergonhado", quando o eleitor não revela sua verdadeira preferência ao entrevistador.

"Esse fenômeno a gente observa em diversas eleições ao redor do mundo. Sistematicamente, os eleitores não revelam a real preferência, principalmente com candidatos à direita. As pesquisas só podem computar o que foi dito pelos eleitores", explica o economista e especialista em diagnóstico eleitoral.

Dias acredita que houve também uma concentração de votos em Flávio Bolsonaro na reta final. Eleitores de direita e centro-direita teriam abandonado candidaturas menos competitivas ao concluir que Flávio era quem tinha mais chances de representar esse campo no segundo turno. Para ele, a insatisfação de parcela do eleitorado com o Judiciário, somada a questões econômicas e a outros temas da campanha, contribuiu para esse voto útil.

"No momento, o eleitor avaliou que o Flávio [tinha mais chances de ganhar]", afirma, acrescentando que o desempenho positivo na macroeconomia durante o mandato de Lula não necessariamente "chega na mesa" do eleitor.

"O país está no pleno emprego, mas com vagas muitas vezes ruins e remuneração incompatível com custo de vida e aspirações. Somos bombardeados pelas redes sociais com viagens, itens de luxo e o eleitor se pergunta como 'todos têm acesso?', se ele trabalha 44 horas por dia. É um sentimento de que a vida não está avançando igual acontecia antigamente", aponta Dias.

<><> Difícil acesso

Há ainda dificuldades práticas. O fundador da Opus cita o Rio de Janeiro, onde pesquisadores podem encontrar obstáculos para entrar em comunidades e regiões controladas por facções criminosas ou milícias.

Na disputa para o governo do RJ, as pesquisas mostravam Eduardo Paes (PSD) à frente de Douglas Ruas (PL) até a véspera da eleição. As urnas, no entanto, deram Ruas com 49,27%, resultado que pode ainda significar a vitória em primeiro turno do candidato do partido de Flávio caso os votos para Anthony Garotinho (Republicanos), cuja candidatura está sob Júdice, sejam anulados pela Justiça eleitoral.

Segundo Mateus Dias, uma eventual dificuldade de representar esses locais ainda pode ter efeito político, porque são áreas fortemente expostas ao problema da violência.

"Têm uma demanda muito maior por segurança pública do que locais que não enfrentam os mesmos problemas", complementa.

Em pesquisas e grupos focais realizados pela Opus para tracking interno de campanhas, por exemplo, segurança surge como um dos principais temas – e no qual a direita tem mais conseguido mobilizar eleitores.

•        Primeiro turno teve maior abstenção eleitoral em 28 anos

O primeiro turno das eleições deste ano registrou abstenção de 21%. Foi o maior índice em quase 30 anos, desde 1998 (21,5%). Os eleitores faltosos no domingo (04/10) somaram 33,4 milhões ao redor do Brasil, contra outros 125 milhões que depositaram votos.

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, afirmou que pretende trabalhar para diminuir a abstenção no segundo turno. "Não é o ideal uma abstenção de 20%," disse o magistrado.

O percentual de abstenções nas eleições gerais vem crescendo desde 2006, quando bateu os 16,8%, e se mantém próximo dos 20% desde 2014. Em 2022, o número de eleitores aptos a votar, porém ausentes, foi de 32,7 milhões no primeiro turno (20,9%). O índice praticamente não mudou para o segundo turno (20,5%).

<><> Peso para escolha presidencial

O primeiro turno deste ano também registrou 2,2 milhões de votos em branco e 3,6 milhões de nulos. Na eleição presidencial, um a cada quatro eleitores não compareceram ou não deram o voto a um dos candidatos.

Neste ano, um eventual aumento do comparecimento ou dos votos válidos no segundo turno poderia pesar para a escolha do próximo presidente.

Os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) se enfrentarão em três semanas, depois de terem protagonizado o primeiro turno mais acirrado desde a redemocratização, com diferença de apenas dois pontos percentuais entre eles.

<><> Constelação de fatores

A abstenção tende a ser mais alta entre as faixas da população menos escolarizadas, analfabetos – em 2022, metade deles não compareceram às urnas – e idosos.

De acordo com Nunes Marques, entre os grupos para os quais o voto é facultativo, a abstenção deste ano chegou a cerca de 50% entre os maiores de 70 anos, em comparação a 20% entre os jovens de 16 e 17 anos.

Especialistas apontam, entretanto, diversos fatores que podem gerar mais faltas entre parte dos eleitores. Entre eles, incluem-se a baixa confiança nas instituições democráticas, reduzido interesse pelos processos eleitorais ou, no contexto atual, uma apontada fadiga com a repetição da disputa entre lulismo e bolsonarismo.

Tradicionalmente, é também significativamente mais alta a abstenção do eleitorado no exterior. Na Alemanha, por exemplo, compareceram 46,5% dos 41.552 eleitores aptos a votar no domingo.

 

Fonte: DW Brasil

 

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