quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Ressurgimento de Bolsonaro expõe a fraqueza de Lula, diz jornal econômico mais importante do mundo

No rastro de uma série de reportagens no exterior repercutindo os resultados do primeiro turno das eleições de 2026 no Brasil, o Financial Times — jornal inglês que é considerado o mais importante do mundo na área econômica — publicou um editorial sobre o que vê como iminência de retorno da família Bolsonaro ao poder em Brasília.

O texto parte de uma comparação entre a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado — com elogios ao Brasil "por sua disposição em defender a democracia e se proteger dos aspectos mais perigosos do populismo de extrema-direita" — e a falha, na visão do jornal, que os Estados Unidos cometeram ao não punir Donald Trump por sua tentativa de reverter os resultados da eleição de 2020, da qual saiu derrotado por Joe Biden.

"No entanto, assim como Trump desafiou as probabilidades para conquistar um segundo mandato como presidente dos EUA, a família Bolsonaro tem grandes chances de protagonizar seu próprio retorno notável", diz o texto, acrescentando que, caso o retorno da família Bolsonaro se concretize, "coroaria uma trajetória notável de candidatos alinhados a Trump na América Latina".

A região deu uma guinada à direita nos últimos anos, com a eleição de líderes como Javier Milei, na Argentina; Daniel Noboa, no Equador; Santiago Peña, no Paraguai; José Antonio Kast, no Chile; Rodrigo Paz, na Bolívia; e, mais recentemente, Abelardo de la Espriella, na Colômbia.

Nayib Bukele, em El Salvador, também se tornou um dos principais expoentes da direita latino-americana e um aliado de Trump, com uma estratégia de segurança para derrubar os índices de violência que chamou atenção no mundo todo, entre críticas e elogios.

<><> De onde vem a força de Flávio e a fraqueza de Lula, segundo o Financial Times

O senador Flávio Bolsonaro (PL), vale lembrar, superou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 47,03% dos votos válidos (excluíndo nulos, brancos e abstenções), ante os 45,16% registrados pelo petista, no primeiro turno.

"Se eleito, Flávio Bolsonaro corre o risco de desencadear uma nova crise institucional caso leve adiante sua promessa de libertar o pai da prisão sem o apoio decisivo do Congresso", avalia o Financial Times.

Para o jornal, porém, o fôlego que os Bolsonaro conseguiram recuperar após a derrota para Lula nas eleições de 2022 não está nas realizações de Flávio, mas nas falhas de Lula, que teriam se tornado mais evidentes nesta campanha.

A primeira delas, segundo o periódico britânico, é a segurança pública: "Lula tem enfrentado dificuldades para convencer os eleitores de que possui uma resposta eficaz para a ascensão das facções do narcotráfico; muitos setores da esquerda passam a impressão de não considerar essa questão uma prioridade".

A segunda é o campo econômico, que, apesar de "indicadores de destaque apresentarem bom desempenho, incluindo taxas de desemprego em níveis historicamente baixos", é um percalço enfrentado pela campanha do petista ao Palácio do Planalto.

"Uma política fiscal frouxa contribuiu para taxas de juros elevadíssimas, que penalizam os 82% das famílias brasileiras que possuem dívidas pessoais", diz o texto.

O editorial afirma ainda que Lula "acaba sendo responsabilizado pelas falhas de terceiros", citando o escândalo recente que envolveu ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), entre eles Alexandre de Moraes, que capitaneou a condenação de Jair Bolsonaro, e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, que está preso por suspeita de fraudar mais de R$ 12 bilhões do sistema financeiro nacional.

"Lula não teve ligação direta com o escândalo — ao contrário de Flávio, que solicitou financiamento ao banqueiro para um filme sobre seu pai —, mas a forte rejeição pública diante da percepção de corrupção nas elites o prejudicou consideravelmente", finaliza o editorial.

•        Lula e Alckmin pretendem dialogar com todas as lideranças que não querem o Brasil “entregue às milícias”

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do vice-presidente Geraldo Alckmin pretende ampliar o diálogo político no segundo turno e buscar o apoio de lideranças e setores da sociedade que rejeitem o projeto representado por Flávio Bolsonaro (PL). A estratégia foi detalhada pelo presidente nacional do PT, Edinho Silva, após o primeiro turno da eleição presidencial.

“Nós vamos conversar com todas as lideranças que queiram construir um Brasil que não se entregue às milícias”, afirmou Edinho. O dirigente petista disse que a campanha buscará interlocução com forças políticas dispostas a discutir o futuro do país, independentemente das posições assumidas na primeira etapa da eleição.

A campanha considera que o segundo turno abre uma nova etapa da disputa, na qual Lula e Alckmin procurarão evidenciar as diferenças entre os dois projetos que chegaram à votação decisiva. “O segundo turno é uma outra eleição. Nós sabemos que é uma eleição de confronto direto de projetos”, afirmou Edinho após reunião da coordenação da campanha em Brasília.

<><> Dois projetos em confronto

Segundo Edinho, a campanha pretende contrapor a trajetória e as propostas do presidente Lula ao projeto político de Flávio Bolsonaro. O presidente do PT tem associado o adversário a grupos milicianos do Rio de Janeiro e sustenta que essas relações precisam fazer parte do debate sobre segurança pública no segundo turno.

Entre os episódios mencionados nesse debate está a homenagem concedida por Flávio Bolsonaro, quando deputado estadual, ao ex-capitão da Polícia Militar Adriano da Nóbrega, posteriormente apontado pelo Ministério Público como integrante de milícia. O gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio também empregou a mãe e a ex-mulher de Nóbrega. Flávio afirma que, quando concedeu a homenagem, Adriano era reconhecido por sua atuação policial e não havia acusações contra ele.

Edinho sustenta que Lula representa, em contraste, um projeto “humanista”, voltado às pessoas, à proteção da natureza e ao desenvolvimento sustentável. A campanha pretende enfatizar também temas como soberania nacional, políticas sociais, geração de emprego e renda e defesa das instituições democráticas.

<><> Alianças mais amplas

A busca por novas alianças deverá ultrapassar o campo tradicional da esquerda. Antes mesmo da votação do primeiro turno, Edinho já havia sinalizado a intenção de conversar com partidos e lideranças de centro e centro-direita.

A avaliação da campanha é que a diferença estreita registrada no primeiro turno torna especialmente importante a construção de uma frente política mais ampla. Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 45,16%, levando a eleição para o segundo turno, marcado para 25 de outubro.

A estratégia inclui ainda ampliar a mobilização dos eleitores que não compareceram às urnas e intensificar a presença do presidente na campanha. Lula pretende participar de debates no segundo turno, depois de ter ficado fora dos confrontos televisivos da primeira etapa.

<><> Reformas e futuro do país

Edinho também reconheceu que a crise de credibilidade das instituições, particularmente do sistema político e do Judiciário, teve impacto sobre o ambiente eleitoral. Lula passou a defender publicamente mudanças institucionais e uma reforma do Judiciário, tema que deverá aparecer na campanha do segundo turno.

Para o presidente do PT, o eleitorado conhece a experiência acumulada por Lula em seus mandatos e terá agora a oportunidade de comparar diretamente as propostas apresentadas pelos dois candidatos.

A orientação da campanha será, portanto, combinar a defesa das realizações do governo com uma discussão sobre os próximos anos. Depois de um primeiro turno concentrado na prestação de contas, Edinho afirma que a nova etapa será dedicada principalmente ao confronto entre projetos. “Já que nós prestamos contas, nós queremos fazer o confronto de projeto”, declarou.

•        Lula alerta para “tesouraço” em programas sociais em eventual governo Flávio Bolsonaro

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a adotar uma estratégia mais ofensiva contra Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, com o objetivo de elevar a rejeição ao adversário e associar uma eventual vitória do candidato a riscos para programas sociais e políticas públicas.

A nova linha começou a ser colocada em prática nesta terça-feira (6), com a divulgação de uma peça que relaciona o “tesouraço” defendido por Flávio a cortes e reduções de recursos registrados durante o governo de Jair Bolsonaro.

A iniciativa faz parte da mudança de postura planejada pela campanha petista para esta etapa da eleição. Depois de concentrar o primeiro turno principalmente na divulgação das realizações do atual governo, aliados de Lula passaram a defender um confronto mais direto com Flávio e a exploração das diferenças entre os dois projetos políticos.

No material divulgado, a campanha menciona áreas que teriam sofrido cortes ou diminuição de recursos durante a administração de Jair Bolsonaro, entre elas Farmácia Popular, Minha Casa, Minha Vida, Mais Médicos, combate ao câncer, construção de cisternas, merenda escolar e prevenção de desastres.

“Flávio Bolsonaro vive dizendo que vai fazer um tesouraço no Brasil. Mas, quando um dos Bolsonaros fala em corte, é preciso relembrar para não repetir”, afirma a peça.

A campanha também busca vincular diretamente Flávio ao governo do pai e sustenta que a eleição do candidato do PL poderia significar a reversão de políticas recuperadas ou ampliadas durante a atual gestão.

“Agora, Flávio Bolsonaro quer dar continuidade ao legado perverso do pai e cortar tudo aquilo que o povo reconquistou. Não deixe esse pesadelo voltar. Bolsonaros nunca mais”, diz outro trecho do vídeo.

A estratégia ganha peso diante dos índices de rejeição registrados às vésperas do primeiro turno. No último levantamento do Datafolha antes da votação, Lula e Flávio estavam empatados nesse indicador: 45% dos entrevistados afirmavam que não votariam de jeito nenhum em cada um dos dois candidatos.

Integrantes da campanha avaliam que ampliar a resistência do eleitorado a Flávio pode ser decisivo em uma disputa restrita a dois nomes. Por isso, além dos programas sociais, petistas pretendem recuperar episódios da gestão Bolsonaro e temas que possam reforçar as diferenças entre os candidatos.

A ofensiva também reflete uma avaliação interna de que a comunicação da campanha de Lula no primeiro turno poderia ter sido mais incisiva. Com apenas dois candidatos na disputa, o entorno do presidente passou a defender mensagens mais contundentes e comparações diretas com o período em que Jair Bolsonaro esteve no Palácio do Planalto.

Após a votação de domingo, Lula já havia sinalizado que o segundo turno teria dinâmica diferente e classificou a nova fase como uma “outra campanha”, marcada pelo confronto entre dois projetos.

A peça sobre o chamado “tesouraço” mostra como essa orientação deve aparecer na propaganda: em vez de apenas apresentar resultados do governo, a campanha pretende também associar Flávio Bolsonaro às decisões tomadas pela administração de seu pai e alertar o eleitorado para possíveis cortes em políticas sociais.

 

Fonte: BBC News Brasil/Brasil 247

 

Nenhum comentário: